Notas iniciais
Olá! Aqui está o capítulo da semana. Espero que goste! (Ah, e não se engane com o título. Ainda estamos bem longe do final...)

Das missões de Alatar pelas amorais terras sob o domínio espiritual Senhor do Escuro, as recentes pareciam ser as piores.

Recostado sobre o lombo de sua montaria, o Mago singrava pradarias defuntas, se aproximando de terrenos rochosos de pedra avermelhada. Os ventos poderosos do Leste atravessavam as montanhas que delimitam o horizonte, tornando sôfrega a marcha do cavalo. Estamos agora no extremo nordeste da Terra-Média, perto do lar ancestral onde os primeiros Anões despertaram ainda nos idos dos da Primeira Era — e onde os Pés-de-Pedra tomaram morada por muitos milênios. Era para lá que nosso velho herói seguia: a ideia de enfim se meter em uma aventura novamente o alegrou em dada medida, mas agora, tão perto de seu destino final, o tom carmesim dos montes já não parecia tão excitante quanto fora um dia.

Em seu âmago, Alatar se perguntava como seriam os dias de Ólorin, Curumo e Aiwendil no Oeste. Teriam em suas vidas mais alegria? Seriam os mortais de lá mais agradecidos que os de cá? O sonho de contemplar uma vez mais a bondade dos elfos de Valfenda ou receber a calidez da hospitalidade dos hobbits o enchia de um sentimento melancólico. Maldito fosse o dia em que aceitara a pior das missões dos Istari: ouvir às plantas e aos animais com o excêntrico Mago Marrom teria sido uma escolha mais feliz.

Nosso Mago já atravessou jornadas de impensável dificuldade (e que vos mostrarei mais adiante). Sua missão na Terra-Média se estende há incontáveis séculos, embora seu ânimo de permanecer como pregador no deserto mingue a cada estação. É uma luta ingrata, tão ingrata quanto estas malditas terras secas, que não respondem ao plantio, que não germinam nem recebem a chuva.

Ao contrário do que vimos antes, agora uma criatura inesperada acompanha os passos de sua montaria: um cão de pelos marrons e natureza um tanto questionável. A olhos incautos, poderia parecer apenas uma das muitas criaturas que encontramos neste mundo; sua relação com Alatar, entretanto, pode ser percebida pelo fraco brilho azulado de seus olhos.

Desmontando, o Mago se ajoelha diante de uma pequena falha no terreno. Sobre a pedra escura, repousa um rasgo de tecido. Ele o recolhe com seus dedos tortos pela idade e, após breve análise, o estende na direção do cão.

— Encontre-o — ordena.

O animal, após conferir a pista oferecida, dispara na frente de seu mestre, seu faro auxiliado pelo vento.

***

— Os ratos do Oeste não são bem-vindos aqui, sabe?

Estamos agora em uma depressão nas terras vermelhas antes citadas, muito próximos à parede do planalto que a limita.

O homem — alto, de pele amarela e cabelos pretos e longos presos atrás da cabeça — ostentava uma lâmina longa e curvada. Com seus olhos loucos, encarava uma figura corajosa: um guerreiro de traços ocidentais, claramente ferido e torturado até que chegasse a um estado lamentável, mas que ainda carregava em seu semblante o desafio inerente ao sangue de seus antepassados, estampado em seu sorriso provocativo. Seus pulsos estavam amarrados atrás do corpo; o peso de sua armadura o mantinha de joelhos.

— Alguém capaz de falar o idioma dos ocidentais? Pensei que se comunicassem aos grunhidos.

O torturador o lança ao chão com um chute no queixo.

— Arrancarei sua língua e vai ver quem grunhe, cão.

— Adoraria vê-lo tentar.

Caminhando em sua direção, o vilão se abaixa, pisando em sua mão.

— E vai, mas antes deve responder às minhas perguntas — afirma, seu sotaque parecendo se fortalecer conforme se irrita. — O que um guardião do norte faz no oriente?

— O que posso dizer? Estava caçando um coelho, ele fugiu e acabei vindo longe demais.

A lâmina da cimitarra se aproxima perigosamente de sua garganta.

— Mais um gracejo e o urso o fará de almoço.

O ocidental persiste, encarando-o calado. Antes de ser agredido novamente, porém, escuta o distante latido de um cão, que logo se aproxima e salta sobre seu torturador. Percebendo a oportunidade, se esforça para levantar e — após algumas tentativas — rasga as cordas com a lâmina que caiu ao seu lado. Agora a empunhando, se aproxima do homem, a mão esquerda afagando o animal que se afasta.

— Muito bem, garoto — diz, um sorriso intrigado no rosto. Logo retoma a seriedade, apontando a espada para o peito do oponente. — Agora me diga, seu tolo… onde posso encontrar o seu deus?

Talvez agora seja útil dizer mais a respeito dos intérpretes de nossa cena.

O guardião do norte, tão milagrosamente salvo pelo cão de Alatar, é um guerreiro do Ocidente de nome Hador. Batizado em homenagem a um dos grandes lordes dos Dias Antigos, era mais que apenas um homem, mas um dúnedain, remanescente de um povo extinto cujo destino seria o de servir ao Herdeiro de Isildur quando a hora derradeira chegasse — algo que, a bem da verdade, Hador já fazia naquele exato momento. Mas a isso chegaremos em breve.

Seu torturador, por outro lado, era um desses selvagens do extremo oriente, que — como já vos disse — haviam tido a inteligência eivada pela perfídia de seus corações. Esse, porém, era um tanto mais esperto, o que entretanto não se traduz em bondade. Suas vestes eram adornadas, e ele usava anéis e um colar com uma estranha espécie de amuleto — se o analisasse de perto, você perceberia que era um talismã de barro, esculpido de modo a emular caricaturalmente a aparência de um mago, com seu chapéu pontudo e a barba longa chegando aos pés. Apesar de sua fé, os adornos esotéricos não o protegeram da investida do cão, cujas presas arrancaram três dedos de sua mão direita.

— Isso não te diz respeito — protesta o selvagem, rangendo os dentes enquanto tenta suportar a dor.

— Diz — rebate Hador. — E se tentar me enganar, eu saberei.

Com raiva, o outro expele ar dentre os dentes. A contragosto, mas incapaz de raciocinar melhor diante dos ferimentos, decide falar a verdade:

— O Ancião nos diz que ele partiu para além das Montanhas Vermelhas — revela. — Que agora cavalga pelos céus na direção do sol nascente, e que retornará com glórias e fartura infindáveis quando vier o dia de conquistarmos os reinos d’Oeste.

— São mais loucos do que pensei. — O guardião solta um riso curto, e então acerta seu prisioneiro com um chute no rosto que o nocauteia. Um suspiro escapa entre seus lábios quando se ajoelha e o revista. Em seguida, se aproxima do cão, finalmente percebendo o brilho azul em seus olhos. Franzindo o cenho, pergunta: — Você está com o Mago, não está?

— Está.

A voz vem do alto, de cima do paredão rochoso que limita a depressão em que nos encontramos. É Alatar, que desce de forma veloz e quase incompreensível até a altura de seu interlocutor.
— Qual dos dois é você? — pergunta Hador, segurando o cabo da espada com mais força.

— O que resta — responde o Mago. — Venha comigo, conversemos em um lugar mais adequado.

***

— Me diga, como vão as coisas nas suas terras?

Agora a dupla estava a alguma distância do palco de nossa cena anterior. A luz vermelha do poente atravessa as nuvens e torna indiscerníveis céu e terra. Alatar se sentou sobre uma rocha, acendendo o cachimbo e lançando sua fumaça nos ares. Hador observa com curiosidade, mas parece hesitante. Seus olhos analisam a figura do velho, mas encontram poucas respostas: ele parecia mais interessado nas estrelas do que em seu interlocutor.

— Mal. As forças do Senhor do Escuro se erguem e enfrentamos mais ataques a cada dia. Os orientais e sulistas parecem se unir a eles em suas empreitadas e…

O Mago pigarreia.

— Não — interrompe. — Não essas coisas. Quero que diga como vão os teus homens, se tua comida permanece farta, se as portas de Valfenda permanecem abertas aos necessitados, se os hobbits ainda sorriem sob suas camadas de gordura e conforto.

O guardião o encara, confuso. Aos poucos, seu semblante se altera, parecendo compreender.

— Os elfos estão começando a se dirigir aos portos, mas as portas de Valfenda permanecem abertas àqueles que precisam de sua ajuda. Os hobbits ainda são alegres e festejam, alheios às dificuldades do mundo, embora elas agora se aproximem de suas terras com mais velocidade do que podem imaginar. E a bravura dos homens do ocidente permanece. Estaremos sempre dispostos a atender aos chamados e enfrentar as forças do escuro.

O Mago sorri com melancolia. Era reconfortante receber aquelas informações, mas também doía reconfirmar o contraste entre as terras que o haviam recebido e as que receberam os outros três.

— As forças do maligno não se afastam sequer dos hobbits? Parece que o inimigo não descansará até fazer de todas as terras a imagem de Mordor.

— Nós temos protegido suas fronteiras sob o comando de nosso senhor, a pedido de Gandalf. Nada de ruim acontecerá a eles.

— Gandalf?

— Mithrandir. O Mago Cinzento.

“Olórin”, pensa Alatar. Os outros nomes assumidos por seus velhos amigos, se um dia conhecidos, já haviam sido há muito esquecidos. A confusão, entretanto, aumenta a desconfiança de Hador.

— Perdoe-me, mas minha memória já não é a mesma dos dias de outrora — afirma. — E o que traz um dúnedain a terras tão distantes, nobre Hador?

O sujeito suspira.

— Cavalguei com meu senhor em uma pequena guarnição atrás de uma criatura desprezível chamada Gollum. O interceptamos em Mordor, onde minhas ordens foram de me separar dos demais e vir ao Oriente encontrá-lo.

— Mais um dos pedidos de Gandalf ao teu senhor, suponho.

— Sim. Ele nos contou sobre a existência dos Magos Azuis e pediu que um de nós viesse ao Leste para investigar os resultados da missão. Mais do que nunca, é necessário ter ciência da abrangência das forças do Senhor do Escuro, pois a guerra se aproxima e subestimar o inimigo nos levará à bancarrota.

Alatar lança a fumaça pelos ares mais uma vez. Seu olhar parece reflexivo.

— E o que descobriu?

Hador se cala por um momento. Sua mão pressiona o cabo da espada com força, a mente tomada por hesitação. Seu interlocutor não parece ameaçá-lo, e seu porte vetusto seria razão para que um homem incauto julgasse possível vencê-lo em combate sem grandes dificuldades. O guardião, entretanto, não era um incauto: conhecia o respeito de seu líder por Gandalf, bem como as lendas e dizeres sobre os feitos dos magos — seja o cinzento, seja o branco, seja o misterioso mago marrom. Suas descobertas nestas terras estranhas criaram motivo para que desconfiasse das intenções e do caráter de seu interlocutor: o próprio Gandalf havia alertado para que se atentasse, pois mesmo ele não ouvia notícias a respeito da dupla há incontáveis anos. Parecia prudente imaginar que Alatar poderia ter se corrompido, e que, ao perceber a impossibilidade de enganá-lo e mandá-lo de volta ao Oeste com mentiras, o arrebataria com um raio.

— Que vocês parecem realmente ter diminuído as forças do Senhor do Escuro. Que alguns poucos povos parecem tê-los ouvido, uma vez que encontrei relatos de conflitos internos entre os Haradrim e entre os homens do Leste. A maioria desses homens, entretanto, caiu em desgraça. Mortos pelas forças do Senhor do Escuro ou por seus próprios irmãos há muito tempo.

Alatar continua fumando, sem confirmar ou negar as afirmações.

— Apenas isso?

Hador estremeceu. Sua cautela chegava ao fim. Juntando coragem, meneou a cabeça: um dúnedain não deveria recuar ou mentir por temor. A lealdade a seu senhor exigia toda sua coragem, embora fosse apenas um cavaleiro solitário.

— Não. Quanto mais ao Leste cheguei, mais confusas as terras pareciam. Aqui, próximo ao berço dos Anões, quase nos limites do mundo… me parece que as tribos de homens estão submissas a um culto. Um culto de magia, cujos seguidores carregam totens em homenagem a seus deuses, e que parecem praticar artes antigas e malditas, manipulando as forças da natureza e se afastando da verdade. Seu líder é um homem conhecido como “Ancião”, e seus conflitos com os Anões têm se intensificado com o passar dos anos.

— E o que pensa a esse respeito?

— Que um amigo de Gandalf merece o benefício da dúvida. Que talvez o inimigo tenha sabotado seus esforços — diz, suspirando. As falanges de seus dedos embranquecem conforme segura a espada. — Mas que talvez o tempo tenha corrompido os Ithryn Luin. Que talvez a soberba ou outro vício tenha maculado vossos espíritos. Ou que talvez um de vós tenha se dobrado à iniquidade, mas o outro se mantenha fiel a seus propósitos originais, e que eu esteja no meio de uma guerra entre irmãos. — Olhando para o Mago, pergunta: — Estou certo em alguma de minhas hipóteses?

Tragando uma última vez seu cachimbo, Alatar demora a responder. O coração do guardião acelera.

— Não — responde o Mago. — Os Ithryn Luin permaneceram fiéis até o fim. O que foi e o que resta. Se é esta a sua preocupação, retorne e diga a Gandalf que permaneço lutando o bom combate. Que parte de meus esforços frutificou, mas que os homens do Leste dificilmente tornarão a ouvir meus apelos. E quanto ao restante… estou quase no fim.

— Quase no fim?

Alatar observa as Montanhas Vermelhas ao longe, suas silhuetas em contraste com o céu estrelado. Quase no fim. Era pouco mais que um eufemismo. Uma enganação. O estado de seu corpo denunciava que suas forças estavam se exaurindo, enquanto seus afazeres permaneciam numerosos: ainda devia destruir um Anel do Poder, se livrar de um de seus semelhantes e purgar um malfeito de outrora. Tarefas demais para um velho que, em seu âmago, já não encontrava forças para desejar sequer os prazeres da vida. O que estava quase no fim não era a missão que lhe fora legada pelos Valar, mas sim suas forças: em breve, se tornaria não mais que um espírito fugaz — como aquele que um dia o acompanhou.

— Quase.

Notas finais
Por hoje é só, pessoal!