Eternamente
1 01 - Novo Vizinho
Notas iniciais

Beep...beep...beep...beep
O som de um caminhão dando ré soou na rua, um som bem conhecido por mim porque o meu avô é um caminhoneiro aposentado e antes dele se aposentar, ele me levava para ver os caminhões na garagem em que ele trabalhava.
Sentei na cama e peguei o meu celular na mesa de cabeceira, mas assim que verifiquei o horário quase o joguei contra a parede. Eram oito e meia da manhã de um sábado!
— Você só pode estar de palhaçada comigo.
Lancei o meu cobertor felpudo lilás longe, saltei da cama e fui até a janela do meu quarto que dava para a solitária rua em que eu havia crescido.
Na rua, um gigantesco caminhão branco havia sido estacionado em frente ao antigo casarão escuro e apodrecido, no fim da rua. Ou pelo menos, eu pensava estar apodrecido.
De repente, o meu celular começou a tocar, despertando-me do meu rápido devaneio sobre a sinistra casa.
— Alô? — Eu disse, sem ao menos verificar o identificador de chamada.
— Nikki, você já viu? Tem alguém se mudando para a mansão assombrada! — a voz de Sofia entrou pelos os meus tímpanos, soando mais aguda do que o normal.
— Sim. Eu acordei com o barulho dele. Quem será o louco que vai se mudar para aquele lugar? — questionei, mas não para Sofia ou qualquer pessoa em particular, apenas retoricamente.
— Eu não sei. Um taxidermista bipolar? Ou quem sabe um maníaco que acabou de sair do hospício?
Uma risada escapou, mas ela soou baixa, mais como uma risadinha.
Enquanto eu conversava com Sofia sobre as diversas possibilidades do nosso novo vizinho, eu não tirava os olhos da casa esquisita e sinistra. Ela me dava arrepios e me lembrava as casas dos filmes de terror e horror que eu sempre assistia no AXN, nas sextas à noite, após as minhas séries policiais favoritas.
Assisti enquanto alguns caras levavam móveis grandes, chiques e caros para dentro da casa, fazendo um esforço mais do que visível. Os móveis eram de madeira maciça, provavelmente brasileira.
Só então, notei um homem, em seus vinte e tantos ou trinta e poucos, de olho na mudança, organizando tudo e zanzando de um lado para o outro.
Ele tinha os cabelos em um tom de castanho escuro, bem parecido com a cor dos chocolates amargos que a minha mãe sempre trazia para mim de uma lojinha localizada no centro de Windsfield. O rosto pálido e delicado era parte coberto por uma espessa e perfeita barba, de mesmo tom dos cabelos, obviamente. Seus olhos estavam coberto por um par de Ray-Ban's pretos, no mesmo modelo de um par que eu tinha, mas os meus eram em verde.
Ele trajava roupas simples e confortáveis, mas pela aparência bem caras. Calças jeans com uma camisa azul, nada muito extravagante ou chamativo. De qualquer forma, ele chamava bastante atenção sem ajuda das roupas, graças à sua beleza e corpo escultural, com braços fortes e um tanquinho evidente por baixo do tecido azul marinho.
— Annika? — a voz de Sofia chamou, do outro lado da linha, soando preocupada.
— Oi, hum, foi mal. Eu me distraí. — respondi, balançando a cabeça em uma estúpida tentativa de espantar os pensamentos sobre o homem da minha cabeça.
— Então você já viu o gato que vai morar na mansão assombrada, não é? Eu não ia comentar nada porque sabia que você ia ter um treco, mas você já viu.
— O homem com camisa azul marinho?
— Você está vendo outro gato? — Ela perguntou, ironicamente.
— Bem, a Chanel não está aqui agora, então não. — retruquei.
Chanel era a minha gata. Ela era uma ragdoll e eu era apaixonada por ela, mas eu estava tentando convencer a minha mãe a me dar outra gata, de preferência uma burmilla ou uma siberiana.
— Você é tão engraçada. Estou chorando de rir. — Sofia respondeu em uma voz monótona.
— Eu tenho que desligar. Eu ainda tenho que tomar o meu café da manhã. — informei.
— Okay. Eu passo aí mais tarde. — Sofia avisou, antes de desligar na minha cara.
Puxei o aparelho da Sony para longe do meu ouvido e o encarei por alguns instantes, incrédula. Joguei o celular na cama e marchei para fora do quarto, até a cozinha.
Eu entendia que ela havia ficado chateada comigo por ter meio que ignorado ela, mas não foi de propósito. E ela sabia. Mas como sempre, ela era uma drama queen.
Em vez de me levarem até a cozinha, como eu havia inicialmente planejado, minhas pernas me guiaram até a porta da frente.
Casualmente, me sentei no pequeno sofá de vime que ficava na varanda, fingindo interesse nas samambaias e flores que a enfeitavam. Mas com o rabo do olho na antiga casa.
Uma brisa fria e revigorante soprou, bagunçando os meus cabelos escuros e fazendo o meu robe de seda cor de rosa descer pelos meus braços, junto com um arrepio. Fechei os olhos e aproveitei aquele ventinho frio delicioso.
— Não é perigoso dormir na varanda? Especialmente sozinha? — uma voz masculina desconhecida perguntou, fazendo com que eu instantaneamente abrisse os olhos.
E assim que eu os abri, senti algo dentro de mim se remexendo, como se uma parte dormente de mim acordasse com a visão perfeita do homem à minha frente.
Era o meu novo vizinho.
— Eu não estou dormindo. Estava apenas...tomando um ar. — respondi, sendo cuidadosa na escolha de palavras.
— Ainda sim, é perigoso. Existem muitos loucos por aí. — Ele continuou, subindo os poucos degraus que separavam nossa varanda do jardim.
Ele se encostou em uma das colunas de madeira, com uma expressão de divertimento no rosto.
— Em Windsfield? Acho bem difícil. — informei, abrindo um sorriso.
— Se você está dizendo...
— De onde você é? Quero dizer, para ser tão paranoico. — questionei, sem me preocupar em esconder o toque de curiosidade que se fez presente na minha voz.
— Boston. Massachusetts. — Ele respondeu, tirando os óculos escuros e colocando-os na gola da camisa.
Ele retornou seus olhos para mim e eu tenho quase certeza de que eu quase desmaiei. Seus olhos eram azuis. Mas não simplesmente azuis. Eram de um azul intenso, brilhante e hipnotizante.
— Enfim, eu tenho que voltar para a minha casa porque sou eu quem está coordenando a mudança, mas foi um prazer te conhecer... — Ele disse, dando espaço para que eu me apresentasse.
— Annika Grimmie. Mas todo mundo me chama de Nikki. E você?
— Jonas Stoll.
— Bom, foi um prazer te conhecer também Jonas.
Ele acenou com a cabeça e sorriu, antes de voltar até sua sinistra residência. E foi só então que eu reparei que a casa, estranhamente, combinava com ele.
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