Estudo sobre os trouxas
8 Parte 8
Parte 8
Em seguida, dirigiram a atenção para os skates. Draco parecia ainda mais desconfiado.
- Isso é apenas uma tábua com rodas, Granger.
- Basicamente isso. Mas muitas pessoas gostam. É só olhar ao seu redor — ele observou uma grande quantidade de jovens e crianças andando de skate.
- E chamam isso de diversão? — indagou, incrédulo.
- Sim, e também é um esporte — Nesse instante, um garoto tentou uma manobra, perdeu o equilíbrio e quase caiu, mas conseguiu se recuperar no último segundo. Draco apontou.
- Aquilo foi uma quase-morte com aplausos — Hermione riu de verdade. O som saiu antes que pudesse controlar, e Draco virou o rosto para ela, satisfeito — Quadribol faz mais sentido como esporte.
- Quadribol tem balaços tentando quebrar ossos. Também não é uma quase-morte com aplausos?
- Sem dúvida, porém pelo menos é honesto sobre o perigo — ela concordou silenciosamente.
Hermione tentou explicar impulso, equilíbrio e atrito. Draco ouviu com atenção real, ainda que fingisse desinteresse. Quando ela falava de física, usava as mãos, franzia a testa e se empolgava em detalhes. Ele notou isso. Notou o brilho nos olhos dela ao explicar algo que conhecia bem. Notou também que, antes, teria usado aquela empolgação para debochar. Aquilo era novo. E profundamente inconveniente.
—
A segunda parada foi o passeio de barco pelo Tâmisa.
Draco subiu na embarcação com uma expressão menos desconfiada do que Hermione esperava. Talvez porque barcos existissem no mundo bruxo. Talvez porque, depois de bicicletas e skates, uma grande estrutura flutuando sobre a água parecesse quase razoável.
O barco se afastou devagar, cortando a água escura do rio. O vento frio bagunçou os cabelos de Hermione e fez Draco atentar-se novamente para os cachos dela.
- Isso é mais aceitável — ele comentou, tentando afastar seus pensamentos.
- Porque parece mais próximo do mundo bruxo?
- Talvez. Navios existem entre bruxos, embora eu prefira me locomover de outras formas.
Hermione encostou-se na grade, olhando a cidade passar.
- Navios mudaram a história trouxa. Transporte de pessoas, mercadorias, migrações, guerras, descobertas, comércio... Também causaram muitos problemas, claro. Mas conectaram continentes antes dos aviões — Draco ficou em silêncio, alternando sua atenção entre a água, o horizonte e o perfil de Hermione.
- No mundo bruxo, a distância parece menor — ele constatou.
- Porque podemos aparatar, usar chave de portal, pó de Flu. São alternativas praticamente imediatas de locomoção.
- Sem dúvida.
- Mas isso também faz com que esqueçam o tamanho do mundo — Hermione parou de olhar para o horizonte e o encarou. Ele olhou para ela.
- Você fala como se o mundo trouxa tivesse te ensinado a olhar mais devagar — Draco falou, depois de um tempo. Hermione pensou por um instante.
- Talvez tenha ensinado. Quando você não pode aparecer em outro lugar em segundos, aprende a perceber o caminho.
Draco ficou em silêncio, aquela frase martelando dentro de si.
Perceber o caminho.
Talvez fosse exatamente isso que estava fazendo desde que fora obrigado a sentar ao lado dela naquela sala. Não chegara a lugar nenhum de repente. Estava indo aos poucos. Um caderno, uma caneta, uma dança, uma bebida trouxa, um mapa virado, uma chuva, uma bicicleta.
O silêncio entre eles foi confortável de um jeito estranho. Ficaram lado a lado, vendo Londres passar pela água. Carros atravessavam pontes. Pessoas caminhavam apressadas. O mundo trouxa seguia, sem esperar que dois bruxos decidissem entendê-lo.
—
Depois do barco, almoçaram em uma cafeteria pequena, escolhida por Hermione por ter “opções simples e mesas boas para escrever”.
Draco discordou de que as mesas fossem um critério gastronômico aceitável, mas acabou comendo um sanduíche e tomando algo que Hermione chamou de limonada. Ele comentou que aquilo era apenas água ácida com pretensão.
Depois pediu outro copo e logo disse:
- Nem comece — ele avisou.
- Eu não falei nada — Hermione disse, levantando as mãos em um gesto de rendição.
- Contudo, sua expressão está fazendo um discurso — ela deu um mordida em seu lanche para não sorrir novamente.
Hermione organizava a estrutura do relatório: transporte observado, funcionamento, finalidade, comparação com mundo bruxo, comentários pessoais. Draco escrevia devagar, usando a caneta trouxa com menos constrangimento do que antes. Ela inclinou-se para ler o que ele escrevia:
“Bicicleta: objeto de duas rodas movido por insistência humana.”
Hermione soltou uma risada.
- Isso não é uma definição científica.
- Mas é uma definição precisa — Draco entendeu a não insistência dela como concordância e continuou a escrever, enquanto ela lia:
“Skate: pequena tábua com rodas usada por jovens trouxas para testar a resistência dos ossos.”
- Malfoy — aqui ele reconheceu o tom de bronca e demorou alguns segundos antes de olhá-la. De uma forma inesperada, tinha gostado daquela entonação. Quando recuperou-se, falou:
- O que foi? Estou fazendo observações assertivas.
- Observe com menos preconceito — Hermione pediu.
- Estou tentando. Mas eles realmente quase caem o tempo todo. O que posso fazer?
Hermione pegou a caneta dele e acrescentou abaixo:
“Também envolve equilíbrio, coordenação e domínio do corpo.”
Draco olhou para a frase, depois para ela sem disfarçar sua indignação e forma natural como Hermione agiu.
- Você corrigiu meu relatório? — ela notou que aquilo o surpreendeu.
- Sim. Não, na verdade complementei seus registros.
- Isso é invasão das minhas anotações.
- É parceria — ela corou imediatamente, mas sem deixar de olhá-lo. Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos.
- Parceria, então.
A palavra pareceu diferente. Hermione baixou os olhos primeiro.
—
A parte da tarde foi dedicada ao Museu dos Transportes. Hermione parecia em seu ambiente natural: lia placas, fazia anotações, observava maquetes, comparava datas. Draco, embora tentasse manter a pose de tédio, parava diante de tudo por tempo demais para convencer alguém.
Viu modelos antigos de carruagens, bondes, trens, ônibus e aviões. Algumas similares aos transportes bruxos, outras completamente diferentes. Observou engrenagens, motores, rodas, mapas de linhas e anúncios antigos.
- Eles realmente planejaram tudo isso sem magia — disse, diante de uma maquete de estação.
- É tão inacreditável assim?
- Deve ter dado um trabalho absurdo — Draco constatou depois de um tempo observando.
- Deu. Ainda dá, na realidade. Os trouxas estão sempre criando e aperfeiçoando novas tecnologias.
Draco ficou olhando para os pequenos aviões da maquete.
- Bruxos teriam resolvido isso com um feitiço em um tempo bem menor — o loiro afirmou.
- Sem dúvida, Malfoy.
- E, por isso, perderam a chance de construir algo assim.
Hermione parou de escrever e olhou para ele. Draco percebeu o olhar e ficou imediatamente desconfortável.
- O que foi? — perguntou, trocando pé de apoio.
- Nada — Hermione emendou rapidamente.
- Você está me olhando com uma expressão estranha — Draco disse, sem desviar o olhar.
- Você acabou de valorizar o esforço trouxa.
- Não use essa voz — ele pediu, dando um pequeno passo na direção dela.
- Q-que voz? — Hermione sabia que deveria recuar, mas seu corpo congelou no lugar.
- A voz de quem vai registrar isso para me humilhar depois — Draco declarou. Hermione sorriu.
- Tarde demais — ele tentou pegar o caderno dela, porém Hermione escondeu atrás de si. O loiro avançou um pouco mais. Hermione virou de lado, rindo, e os dois quase esbarraram em uma família trouxa observando uma vitrine. — Desculpe — Hermione disse rapidamente.
Draco ajeitou o casaco, tentando recuperar a dignidade. Voltaram a andar, para disfarçar a breve proximidade entre ambos.
- Então, — ele começou — explica novamente sobre o funcionamento dos aviões.
- O ar passa pelas asas e cria uma diferença de pressão — ela disse, apontando para os desenhos expostos. Draco olhou para onde ela apontava.
- E isso levanta toneladas de metal? — ainda havia o tom de incredulidade.
- Com velocidade, motores e engenharia, sim.
- Engenharia é uma palavra trouxa para teimosia organizada? — Draco perguntou, alternando a atenção entre a exposição, suas anotações e a expressão professoral da grifinória. Hermione pensou um pouco.
- Em parte, talvez. É, nunca pensei dessa forma, mas é uma boa forma de explicar.
Hermione sorriu, mas não provocou. Havia algo bonito em vê-lo tentando entender sem usar o deboche como primeira resposta. Ele ainda reclamava, claro. Ainda fazia comentários dramáticos. Ainda era Draco Malfoy. Mas havia menos desprezo. Mais curiosidade.
E ela gostava disso mais do que deveria.
—
Quando saíram do museu, já era fim de tarde. O céu tinha aquele tom cinzento e dourado de Londres, como se o sol estivesse tentando atravessar as nuvens sem muita convicção.
Hermione conferiu o relógio:
- Ainda temos tempo para ver a estação indicada pelo professor Cross e voltar ao hotel antes das oito.
- Você fala como se atrasar fosse uma possibilidade criminosa, Granger.
- Está perto de ser, Malfoy. Temos um compromisso como alunos.
- Claro, Granger. Já entendi.
Foram de metrô. Draco passou pela entrada sem reclamar. Hermione notou, mas escolheu não comentar. Havia avanços que talvez merecessem silêncio para não se assustarem e fugirem.
No metrô, ficaram em pé, segurando a mesma barra metálica. A proximidade era inevitável. O vagão balançava, pessoas entravam e saíam, uma criança reclamava com a mãe, dois homens discutiam sobre futebol, uma senhora lia jornal. Draco observava tudo. Deixou o tom de voz baixo, para que apenas ela o ouvisse:
- Ninguém se olha muito aqui.
- Em transporte público, as pessoas geralmente fingem privacidade. Na viagem para Hogwarts, você olha para todos ou apenas conhecidos? — ele assentiu, concordando sem palavras. Depois, falou — É curioso.
- O quê?
- Alguns bruxos se sentem superiores, mas não sei se sobreviveriam dez minutos aqui sem causar um incidente diplomático entre os ministérios — Hermione riu perante esse comentário.
- Você está incluindo a si mesmo?
- Eu sobrevivi, Granger — ele respondeu, dando de ombros.
- Sobreviveu com supervisão — Hermione continuou.
- Uma supervisão um pouco arrogante, não acha, Granger?
- Eu diria: competente. — ela argumentou.
- Sugiro outro adjetivo: insuportável.
- Mas competente — ele olhou para ela, e Hermione teve certeza de que o vagão ficou menor. O olhar dele era intenso. Penetrante.
- Sim — Draco disse, mais baixo. — Competente.
Hermione desviou o olhar para o mapa de linhas acima da porta.
Era apenas uma palavra. Não havia motivo para seu coração acelerar daquela forma. Mas seu coração acelerou.
—
A estação seguinte era grande, cheia de placas indicando trens para outras cidades, conexões e informações sobre os aeroportos. Hermione explicou que muitas pessoas pegavam trem até terminais maiores ou até aeroportos, de onde seguiam para outros países.
Draco ficou diante de um painel com horários e constatou:
- Trouxas passam boa parte da vida tentando chegar a algum lugar.
- Acho que não é uma exclusividade dos trouxas, Malfoy. — ele tinha que concordar com isso, mesmo sem expressar nada. Ele mesmo não estava ali, cercado de trouxas para chegar em algum lugar? Para ter a oportunidade de seguir um caminho diferente daquele que foi traçado pelo seu pai?
Fizeram as últimas anotações sentados em um banco da estação. Hermione escreveu a conclusão preliminar. Draco ficou encarregado dos comentários pessoais, o que ela considerou uma decisão arriscada, mas necessária.
- Não escreva que aviões são insultos à lógica, Malfoy — ela orientou. O loiro soltou o ar com força, riscou suas palavras iniciais.
- Posso escrever que são desafios à lógica, então?
- Sim, ficou melhor dessa forma.
- E que bicicletas são uma forma estranhamente elegante de deslocamento? — Hermione tirou os olhos do caderno e o encarou.
- Você achou bicicletas elegantes?
- Em comparação com skate, sim — ele fez mais alguns registros.
Às dezenove e quinze, começaram o caminho de volta. Londres estava mais iluminada. As lojas iluminavam suas vitrines, os ônibus passavam cheios, bicicletas cortavam as ruas, pessoas atravessavam faixas, táxis paravam e saíam. O mundo trouxa continuava em movimento, como se nada pudesse pará-lo por muito tempo.
Chegaram ao hotel às dezenove e cinquenta e três e entregaram o relatório ao professor Cross às vinte e quinze. O professor leu rapidamente algumas linhas, sorrindo cada vez mais.
“Bicicleta: transporte movido por força humana, equilíbrio e insistência.” Interessante.”
Hermione olhou para Draco.
- Eu revisei.
- Imaginei, senhorita Granger. Também vejo aqui uma observação sobre o mundo trouxa exigir mais atenção aos caminhos. Excelente reflexão. — Draco tossiu, desconfortável.
- Foi uma anotação provisória, professor.
- As melhores costumam ser.
O professor recolheu o relatório e os dispensou. A maioria dos alunos subiu para os quartos ou se espalhou pelo salão do hotel, comentando o dia. Hermione caminhou até a área externa, precisando de alguns minutos de ar fresco.
Draco a seguiu.
Dessa vez, nem tentou fingir o contrário.
- Está me seguindo de novo, Malfoy?
- Sim, Granger — ela olhou para ele, surpresa.
- Pelo menos foi honesto.
- Estou tentando uma abordagem nova — afirmou, dando um pequeno sorriso que fez Hermione corar.
A noite estava fria, mas sem chuva. A cidade continuava acesa ao redor deles. De onde estavam, era possível ouvir carros passando, vozes distantes, uma buzina impaciente, o som de alguma música vindo de uma janela aberta.
Draco apoiou as mãos na mureta e ficou observando a rua.
- O mundo aqui fora não para, não é? É barulhento. Mas... bonito — ele confessou, olhando para ela. — Obrigado por hoje, Hermione. Eu achei que odiaria cada segundo.
O uso do primeiro nome dela novamente, dito de forma tão suave, fez o ambiente parecer sumir. Hermione deu um passo à frente, o coração acelerado.
— O mundo trouxa tem suas mágicas, Draco. Só precisa saber olhar.
Ele olhou para ela como se aquela frase tivesse feito mais sentido do que todas as explicações sobre asas, motores, bicicletas e navios.
- Acho que estou aprendendo, afinal de contas — Hermione sorriu ao ouvi-lo.
- Sim, você está.
Draco pareceu satisfeito com isso. Não de um jeito arrogante. De um jeito quase simples. O que, vindo dele, era raro o bastante para ser registrado em um relatório.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
O barulho da cidade continuou ao redor. Carros. Passos. Risadas. Motores. Um mundo inteiro sem varinhas, sem feitiços, sem aparatação. Um mundo que seguia encontrando suas próprias maneiras de existir.
Draco olhou para Hermione de novo.
- Você vai escrever no relatório que eu achei bonito?
- Talvez.
- Granger.
- Hermione — ela corrigiu, com um sorriso pequeno.
Ele ficou em silêncio. Depois repetiu, como se testasse o som.
- Hermione.
Ela sentiu o rosto aquecer, mas não desviou.
- Sim?
Draco abriu a boca. Parecia prestes a dizer algo importante. Talvez algo que não coubesse em relatórios, nem em mapas, nem em qualquer caderno trouxa.
A porta do hotel se abriu atrás deles.
- Senhor Malfoy! Senhorita Granger! — chamou o professor Cross, animado demais. — Excelente trabalho hoje! Amanhã conversaremos sobre as reflexões finais.
Hermione afastou-se um passo, tentando parecer natural. Draco fechou os olhos por um breve instante, como se pedisse aos céus uma quantidade mínima de paciência.
- Esse homem tem um talento admirável para surgir em momentos inoportunos — ele murmurou. Hermione riu baixo.
E, enquanto voltavam para dentro do hotel, Hermione teve certeza de que a excursão já tinha deixado de ser apenas sobre transportes.
Aviões, navios, bicicletas e skates levavam pessoas de um lugar a outro. Mas havia outros deslocamentos, mais silenciosos e muito mais perigosos.
E, ao que tudo indicava, ela e Draco Malfoy já estavam em movimento fazia algum tempo.
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