Parte 9



O retorno para Hogwarts começou com uma situação que Hermione classificou, mentalmente, como absolutamente normal.

Draco Malfoy estava sentado duas fileiras à sua frente no trem. Não ao seu lado. Não perto o suficiente para uma conversa natural. Mas também não longe o bastante para que ela não pudesse vê-lo toda vez que levantava os olhos do caderno.

Isso não era um problema.

O problema era que ele também levantava os olhos do próprio caderno no mesmo instante.

Na primeira vez, Hermione desviou o olhar. Na segunda, Draco fingiu estar observando a paisagem. Na terceira, os dois se encararam por tempo demais. Draco tentou segurar o riso, mas falhou por pouco. Depois olhou novamente para o caderno. Na página aberta havia uma anotação que ele não tinha certeza se deveria manter ou rasgar antes que alguém a visse.

“Coisas trouxas que ainda merecem investigação:

Cartões que abrem portas.Catracas hostis.Refrigerante com bolhas.A capacidade irritante de Hermione Granger de ficar bonita quando está mandando alguém calar a boca.”

Ele ficou encarando a última frase por alguns segundos. Depois riscou a palavra bonita. Escreveu insuportável. Riscou também.

Por fim, fechou o caderno com força.

O trem seguiu em direção a Hogsmead enquanto os estudantes comentavam sobre a excursão. Alguns falavam dos ônibus vermelhos, outros das lojas, outros do hotel. Draco, para seu próprio desespero, conseguia ouvir a risada de Hermione mesmo com todo o barulho ao redor.

Quando chegaram à estação e depois às carruagens, a situação piorou. Por algum capricho do destino, Hermione acabou sentada ao lado dele. A conversa que antes estava relativamente fluída entre eles, pareceu sumir na carruagem.

Ficaram em silêncio por alguns segundos. Um silêncio estranho. Não exatamente desconfortável, mas carregado de tudo aquilo que os dois não haviam dito na noite anterior.

- Sua pesquisa rendeu bastante — Hermione disse, buscando um assunto seguro.

- Sim — Draco respondeu de forma monossilábica. Ela notou.

- Você fez boas anotações — a grifinória tentou mais uma vez.

- Obrigado — Hermione virou o rosto para ele, notou que a observava.

- Você está sendo educado?

- Sempre inteligente, Granger.

- Por quê?

- Reclama quando sou grosseiro e agora reclama quando sou educado. Decida-se, Granger — ela sorriu de lado, pensando sobre a resposta.

- Prefiro quando você é uma mistura tolerável dos dois, Malfoy.

- Tolerável? Que elogio generoso vindo de você.

- Não se acostume.

A carruagem balançou em uma curva e a mochila de Hermione escorregou. Os dois se abaixaram ao mesmo tempo para pegá-la. As mãos de ambos se tocaram. Foi rápido. Tão rápido que qualquer pessoa normal ignoraria. Infelizmente, ou felizmente, um toque entre ambos não era algo normal.

Hermione puxou a mão primeiro. Draco fez o mesmo logo depois, arrumando a postura como se alguém tivesse anunciado a presença da diretora.

- Seu caderno — ele disse, entregando a mochila.

Hermione sentiu o rosto esquentar. Draco olhou para a janela, como se a Floresta Proibida tivesse se tornado subitamente fascinante.

Na manhã seguinte, Hermione acordou decidida a agir normalmente. Essa decisão durou até o café da manhã.

Draco estava sentado à mesa da Sonserina, escrevendo com uma caneta. Uma caneta trouxa. Hermione tentou não sorrir, mas falhou miseravelmente em sua tentativa.

- O que foi? — Gina perguntou, seguindo seu olhar.

- Nada — Hermione respondeu despretensiosamente.

- Ah, sim. O famoso loiro, sonserino e nada bonito Draco Malfoy.

- Para com isso, Gina. — Hermione pediu, bagunçando a comida em seu prato.

- Só quando você admitir — o tom de Molly Weasley era perceptível em Gina ocasionalmente.

- Admitir o quê?

Gina pegou uma torrada, passou geleia e respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo:

- Que você gosta dele, querida amiga — Hermione quase engasgou com o chá.

- Eu não gosto dele — afirmou rapidamente, notando que sua voz saiu um tanto diferente do comum.

- Não mesmo?

Antes que Hermione pudesse responder, um pequeno papel dobrou-se no ar e pousou ao lado do seu prato. Ela olhou ao redor. Draco continuava escrevendo, sem olhar para ela.

Abriu discretamente.

“Granger,

A catraca não era uma inimiga natural. Era apenas mal posicionada.

D.M.”

Hermione mordeu o lábio para não rir. Pegou a própria caneta e respondeu no verso.

“Malfoy,

A catraca estava perfeitamente posicionada. O problema foi o usuário.

H.G.”

O papel voou de volta.

Draco leu, levantou uma sobrancelha e escreveu de novo.

“Usuário em processo de adaptação. Exijo uma avaliação mais justa.”

Ela respondeu:

“Nota parcial: aceitável. Precisa melhorar a humildade.”

Quando o bilhete voltou para a mesa da Sonserina, Blaise tentou pegá-lo. Draco foi mais rápido e o guardou dentro do caderno.

- Isso é acadêmico, Draco? — Blaise perguntou.

- Totalmente, Blaise. Afinal, preciso de uma boa nota nessa disciplina.

- Está falando de nota? Afinal, você ficou levemente vermelho e não de forma muito acadêmica.

Draco jogou um pedaço de pão nele, que Blaise pegou no ar e comeu.

À noite, os dois se encontraram na sala de monitoria de Hermione para preparar a primeira parte da apresentação. Tudo deveria ser simples: organizar as anotações da excursão, dividir os tópicos e preparar um registro sobre transportes.

Claro que nada era simples quando Draco Malfoy resolvia ter opinião sobre cartazes.

- Essa letra está torta — ele avaliou, olhando de forma concentrada.

- Malfoy, não tem nada torto!

- Está levemente inclinada. Olhe com atenção, Granger. Olhe! — ela fez o que era pedido e revirou os olhos.

- É apenas um rascunho.

- Rascunhos revelam caráter — Draco disse, cruzando os braços.

- Que frase insuportável! — Hermione exclamou — Rascunho é rascunho. Simples assim.

- A frase pode parecer insuportável, mas é verdadeira, Granger, Apenas admita.

Hermione puxou o pergaminho para si.

- Então faça você!

Draco pegou a caneta com ares de desafio. Escreveu “transportes trouxas” com uma letra tão elegante que Hermione ficou irritada antes mesmo de elogiar.

- Está aceitável — ela disse, contrariada.

- Aceitável? — ele repetiu a palavra escolhida — Aceite você, Granger, que ficou melhor que sua caligrafia. Hermione apenas bufou.

Ele sorriu de lado. Continuaram trabalhando por quase uma hora. Havia livros abertos, cadernos espalhados, canetas coloridas e algumas fotografias trouxas que Hermione havia comprado em Londres para complementar o trabalho.

Em determinado momento, os dois pegaram o mesmo bloco ao mesmo tempo. De novo. Hermione olhou para as mãos sobrepostas. Draco também. Nenhum retirou a mão imediatamente.

- Você vai precisar soltar — ela disse, embora sua voz não tivesse muita convicção, levemente trêmula.

- Você pegou depois — Draco argumentou sem mover um músculo.

- Mentira, Malfoy. Fui mais rápida.

- Então estamos diante de um impasse.

Ela riu baixo. Draco aproximou-se um pouco e Hermione sentiu novamente que tudo reduzia ao seu redor, inclusive o ar que respirava.

- Granger...

Duas batidas fortes na porta fizeram Hermione dar um pulo.

- Mione? — a voz de Rony veio do outro lado. — Gina disse que você estava aqui.

Draco soltou o bloco. Hermione afastou-se da mesa, ajeitando uma mecha de cabelo sem necessidade.

- Ron? — ela perguntou, abrindo a porta.

Rony estava parado no corredor, com uma expressão que Hermione conhecia bem: preocupação disfarçada de irritação. Os olhos dele passaram de Hermione para Draco, depois para os cadernos espalhados.

- Estou interrompendo alguma coisa?

- Estudos — Draco respondeu antes que Hermione pudesse falar — Não sei se está familiarizado com essa palavra, Weasley.

Rony apertou a mandíbula. Hermione sentiu o ar da sala mudar.

E, pela primeira vez desde a chuva em Londres, não soube se estavam indo para algum lugar bom.