Estudo sobre os trouxas
7 Parte 7
Parte 7
Hermione demorou para dormir naquela noite.
Depois de subir para o quarto, tomou banho, vestiu o pijama e organizou o material que usaria no dia seguinte sobre a pequena escrivaninha do hotel. Separou o caderno, as canetas, o mapa e o relatório parcial que precisariam entregar ao professor Cross.
Fez tudo isso com a eficiência de sempre. Mesmo assim, quando se deitou, continuou acordada.
O quarto estava silencioso demais. Do lado de fora, Londres ainda fazia barulho. Carros passavam, pessoas conversavam em algum ponto distante, uma sirene soou por poucos segundos e desapareceu. Era estranho estar tão perto do mundo onde nascera e, ao mesmo tempo, sentir que agora o observava de outro lugar.
Havia passado tantos anos tentando provar que pertencia ao mundo bruxo que, às vezes, esquecia que o mundo trouxa também era seu.
E então havia Draco Malfoy.
Hermione fechou os olhos com força, como se isso fosse suficiente para afastar a lembrança dele sob a chuva, o casaco protegendo os dois, a expressão menos arrogante, a voz mais baixa.
Ele havia dito seu nome. Não “Granger”, com aquela provocação de sempre. Simplesmente Hermione.
Dito daquela forma, parecia quase uma confissão. Ou talvez ela estivesse imaginando demais, o que era muito irritante, pois Hermione Granger gostava de coisas comprováveis, organizadas, bem pesquisadas e, de preferência, com fontes confiáveis.
Draco Malfoy, infelizmente, não era nada disso: era imprevisível, contraditório, insuportável. Ou pelo menos deveria ser insuportável. Pior, começava a ser interessante de um jeito que ela não sabia muito bem compreender.
Virou-se de lado, encarando o caderno sobre a mesa. No dia seguinte, eles ainda teriam mais uma exploração por Londres. O professor Cross havia avisado que continuariam o estudo sobre transportes, aprofundando aqueles que não existiam no mundo bruxo ou que funcionavam de maneira muito diferente.
Hermione quase sorriu ao imaginar a cara de Draco diante de um skate. Quase.
Depois suspirou e puxou o cobertor até o ombro.
—
Em outro quarto do mesmo corredor, Draco Malfoy também não dormia.
Estava deitado de costas, uma das mãos sob a cabeça, encarando o teto do hotel trouxa como se pudesse encontrar ali alguma explicação para o que vinha acontecendo.
Não encontrou. O teto era apenas branco. Irritantemente comum.
Sobre a mesa, ao lado de sua cama, estavam o caderno comprado em Londres, canetas trouxas e o cartão retangular que abria a porta do quarto. Draco ainda achava um absurdo confiar a segurança de um aposento a um pedaço de plástico, mas precisava admitir que funcionava. E era prático.
O que era, de certa forma, o problema com o mundo trouxa.
Funcionava. Sem varinhas. Sem feitiços. Sem uma gota de magia aparente.
Eles tinham máquinas para subir andares, luzes que obedeciam a interruptores, veículos enormes que seguiam por ruas lotadas, bilhetes que liberavam passagens e placas que davam ordens a multidões inteiras.
Draco passou a mão pelo rosto.
Talvez fosse isso que o irritava tanto. Durante toda a vida, havia aprendido que o mundo bruxo era superior. Mais antigo. Mais nobre. Mais poderoso. O resto era uma versão menor, frágil, quase engraçada.
Só que o mundo que ele vira naquele dia não parecia frágil. Parecia vivo.
E Hermione pertencia àquele mundo também. Esse pensamento o fez virar a cabeça para o caderno. Havia escrito algumas observações antes de tentar dormir.
“Coisas trouxas que merecem investigação:
Máquinas de café fazem barulhos ameaçadores, mas entregam resultados aceitáveis.Aqui os elevadores apenas sobem e descem.O trânsito parece uma batalha sem feitiços.Hermione Granger sorri quando está prestes a vencer uma discussão.”Ele olhou a quarta frase por alguns segundos. Depois fechou o caderno. Merlin. Estava perdido.
—
Na manhã seguinte, o salão de refeições do hotel estava cheio de alunos com cara de sono, xícaras de café, pratos com torradas e o professor Cross, que parecia ter acordado com energia suficiente para incomodar toda Londres.
Draco já estava sentado quando Hermione chegou.
Ele usava uma camisa clara, o casaco apoiado no encosto da cadeira e uma expressão de quem desconfiava profundamente da geleia servida em pequenos potes individuais.
Hermione se aproximou com o próprio prato.
- Bom dia, Malfoy — ele ergueu os olhos. Por um instante muito breve, quase imperceptível, o rosto dele pareceu menos fechado.
- Bom dia, Granger.
Hermione sentou-se à frente dele. A formalidade dos sobrenomes voltou a ocupar o espaço entre os dois, mas havia algo diferente ali. Como se ambos soubessem que não era mais uma distância tão segura quanto antes.
Comeram em silêncio, o professor Cross bateu palmas e chamou todos para uma sala lateral, mais privada. Todos sentaram em cadeiras que já estavam organizadas em um círculo. Trazia nas mãos uma pilha de envelopes, alguns mapas dobrados e a mesma animação excessiva da véspera.
- Bom dia, estudiosos do mundo sem magia! — Alguns alunos responderam. Outros apenas olharam entre si. — Hoje teremos uma nova etapa da nossa exploração. Hoje vocês irão aprofundar o estudo sobre meios de transporte que não pertencem ao cotidiano bruxo ou que funcionam de maneira muito diferente no mundo mágico.
Draco inclinou-se um pouco na direção de Hermione, mantendo a voz baixa.
- Se ele disser que precisaremos voar dentro de uma caixa metálica, eu abandono a disciplina. — Hermione segurou o riso perante o comentário e disse:
- Aviões não são caixas metálicas.
- São pássaros sem penas construídos por pessoas confiantes demais — falou, o tom levemente arrogante.
- Essa descrição não vai para o relatório, Malfoy.
- Deveria. É a mais honesta — ele respondeu, dando de ombros.
O professor Cross continuou, sem notar a conversa paralela.
- Aviões, navios, bicicletas, skates, patins, metrô, bondes, barcos no Tâmisa, táxis, escadas rolantes e o que mais conseguirem observar. Cada dupla receberá um roteiro-base, mas poderá escolher quais pontos visitar. Quero registros escritos, desenhos, entrevistas simples se possível e uma reflexão comparando com os meios bruxos.
Alguns estudantes ficaram animados com a palavra “escolher”. Outros pareceram apavorados com “entrevistas”.
- Vocês retornarão ao hotel até às vinte horas, sem atrasos. Às vinte e quinze, cada dupla entregará um relatório do que fez, com observações sobre pelo menos quatro meios de transporte. Nada de magia fora de necessidade extrema. Nada de aparatação. Nada de transformar ônibus em carruagens. Nada de testar feitiços em bicicletas.
Draco ergueu a sobrancelha e novamente puxou conversa com Hermione:
- Agora fiquei curioso sobre quem tentou enfeitiçar uma bicicleta.
- Não dê ideias para ninguém! — Hermione disse, de forma autoritária.
- O professor Cross quem fez isso... Bicicletas já parecem instáveis o suficiente sem interferência mágica. E só vi por fotos.
Hermione anotou alguma coisa no canto do caderno. Draco inclinou-se para tentar ler, mas ela foi mais rápida novamente e escondeu seus registros.
- O que escreveu? — perguntou, curioso.
- Nada de importante.
- Você escreveu algo sobre mim. De novo. — afirmou, sem tirar os olhos do professor.
- Talvez — Hermione disse, olhando de Draco para Cross, preocupada que chamasse sua atenção pela conversa — Agora, fique quieto, Malfoy.
- Granger, isso é abuso de autoridade acadêmica. Só porque entende mais desse mundo.
- Você ainda nem sabe o que escrevi. Quero ouvir as orientações! Fique em silêncio.
- Conheço essa sua cara. — Hermione olhou para Draco, curiosa.
- Que cara?
- A cara de quem vai usar uma frase minha contra mim depois.
- Isso é apenas consequência natural das suas frases, Malfoy.
Draco abriu a boca para responder, mas o professor Cross começou a organizar as duplas e eles não precisaram esperar muito.
- Senhorita Granger e senhor Malfoy — Draco apoiou as costas na cadeira e recebeu o envelope. Dentro havia um mapa de Londres, uma lista de sugestões e alguns bilhetes trouxas. O roteiro indicava quatro possibilidades principais: um passeio de barco pelo Tâmisa, visita ao Museu dos Transportes, observação de bicicletas e skates em uma área próxima ao parque e um trajeto de metrô até uma estação maior, onde poderiam observar informações sobre viagens de trem e avião.
Draco olhou o mapa, franzindo a testa. Hermione percebeu imediatamente o problema: ele estava segurando o mapa de ponta-cabeça.
- Malfoy.
- O quê? — ele perguntou, encarando o mapa com um olhar interrogativo.
- O mapa — Hermione disse apontando, segurando a risada.
- Estou analisando, Granger. Já te empresto — então ele a encarou — O que foi?
- Está de cabeça para baixo.
Ele olhou novamente para o papel. Depois virou o mapa devagar, tentando preservar o máximo possível da dignidade.
- Era um teste.
- Um teste? Para quem?
- Para você, Granger. Nota máxima, como era de se esperar.
Hermione soltou uma risada baixa. Draco a observou por um segundo a mais do que deveria. Havia algo muito irritante no modo como ela sorria quando tentava não sorrir. Era um sorriso pequeno, quase guardado, mas que mudava todo o rosto.
- Por onde começamos? — ele perguntou, obrigando-se a olhar novamente para o papel. Hermione aproximou a cadeira e apontou para uma região do mapa. Draco tentou não reparar na proximidade, nem no perfume floral, nem no breve calor que sentiu emanando dela.
- Podemos começar pelas bicicletas e skates. Depois seguimos para o barco no Tâmisa, almoçamos, visitamos o Museu dos Transportes e terminamos observando as conexões com trens e aeroportos.
- Você organizou o dia inteiro em menos de trinta segundos?
- Na verdade fiz isso ontem. E já estava pensando no roteiro quando Cross falou sobre essa excursão.
- Assustadoramente bem planejado, Granger.
- Portanto, eficiente.
- As duas coisas costumam andar juntas quando se trata de você — Draco falou, encarando-a. Hermione levantou os olhos. Ele não estava debochando. Pelo menos não totalmente. Isso a desarmou por um instante.
- Obrigada — respondeu em voz baixa. Draco pareceu surpreso por ela agradecer. Hermione também ficou surpresa por ter dito.
—
A primeira parada foi perto de uma área ampla onde algumas crianças andavam de bicicleta, dois adolescentes tentavam manobras com skate e um homem mais velho empurrava uma bicicleta com uma cesta cheia de compras. Draco parou na calçada, encarando tudo com atenção.
Não havia desprezo em sua expressão. Havia desconfiança, claro, porque ele ainda era Draco Malfoy. Mas havia também curiosidade. Hermione percebeu isso e, por algum motivo, sentiu uma pequena satisfação.
- Eles sobem nisso por escolha própria? — ele perguntou.
- Sim, Malfoy. Observe: estão se divertindo — Hermione apontou para as pessoas que circulavam pelo local. O olhar dele era atento, investigativo.
- Sem feitiço de equilíbrio, nem proteção mágica — eram constatações, não perguntas.
- Capacete conta? — Hermione indagou.
- Capacete é uma tigela na cabeça, Granger.
Hermione anotou alguma coisa no caderno. Draco rolou os olhos.
- Sério, Granger? Está registrando minha observação?
- Estou registrando que você reconheceu a existência de equipamentos de segurança.
- Eu chamei de tigela, Granger.
- Ainda assim, reconheceu. — ela deu de ombros, sublinhando a palavra reconhecimento.
Draco olhou para ela, fingindo irritação, mas o canto de sua boca se moveu quase nada, em um pequeno sorriso.
- Eu sou o sonserino, mas você que manipula minhas falas, Granger.
- Eu organizo suas falas, Malfoy, — ela o corrigiu.
- Isso parece ainda mais perigoso — Draco constatou. Hermione sorriu, voltando a olhar para as bicicletas. Uma menina pequena pedalava em círculos. O pai corria ao lado dela, com as mãos prontas para segurá-la caso caísse. A criança ria alto, os cabelos presos em duas pequenas tranças saltando a cada volta. Draco acompanhou a cena em silêncio.
- Como ela não cai?
- Porque aprendeu a se equilibrar ao pedalar.
- Em duas rodas finas?
- Sim — Hermione respondeu e notou que ele registrava algo em seu caderno. Draco murmurou para si mesmo, mas ela o ouviu:
- Trouxas são mais corajosos do que parecem — Hermione ergueu as sobrancelhas, surpresa:
- Isso foi um elogio?
Draco desviou os olhos para a menina que continuava pedalando.
- Foi uma constatação técnica — Hermione olhava ele, que emendou — Não se empolgue, Granger.
Mas Hermione já estava sorrindo. E Draco, embora tentasse parecer indiferente, notou, e sorriu brevemente e emendou:
- Então é transporte, exercício físico e economia ao mesmo tempo? — Hermione assentiu, em silêncio. Draco olhou para Hermione — Isso é irritantemente eficiente.
- Você está valorizando um transporte trouxa, Malfoy?
- Estou reconhecendo que não é totalmente inútil.
Hermione inclinou a cabeça, observando-o. Havia algo quase cuidadoso no modo como ele escolhia as palavras. Como se ainda não soubesse elogiar diretamente aquele mundo, mas já não quisesse diminuí-lo.
- Vou considerar um avanço — ela disse.
- Um avanço pequeno.
- Ainda é um avanço.
Draco balançou negativamente a cabeça, imaginando o que seu pai diria ao vê-lo ali, parado diante de vários trouxas, conversando de forma respeitosa com aquela que considerava a mais irritante de todas as bruxas nascidas trouxas. E, pior, elogiando aquele mundo. Não… Ainda pior: gostando daquela companhia.
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