Notas iniciais
Num mundo em que papel não é mais usado, surge um aluno cheio de livros que só são encontrados em papéis... E no mais comum lugar para se acontecer histórias - a sala de aula - começa uma amizade...

A sala de redação ficava no terceiro andar, no bloco C. Andamos em silêncio quase o caminho inteiro. Um silêncio confortável, o que era estranho, porque eu geralmente só me calo quando durmo — e mesmo assim nem sempre.

— Você é nova? — ele perguntou, quando já estávamos subindo a segunda escada.

Eu ri.

— Eu? Não. Sou mais velha que o elevador de carga. E você que apareceu do nada, caindo do céu com fumaça e tudo.

Ele sorriu, tímido. Era meio impossível saber se ele estava rindo de verdade ou só se defendendo da minha ironia.

Foi aí que eu percebi o que ele carregava: um livro. Em papel. E não qualquer livro — era um clássico russo, daqueles que só aparecem em exposições escolares sobre o século XIX.

— Posso ver? — estiquei a mão, curiosa. — Só vi um desses em museus...

Ele assentiu, me entregando. “Crime e Castigo”, capa dura gasta, cheiro de biblioteca antiga. Eu fiquei olhando como se tivesse acabado de descobrir fogo.

— Quem, em plena década de trinta, lê em papel? — comentei, meio fascinada. — Eu não consigo nem ler nos computadores antigos...

Mas ele parecia alheio ao meu espanto. Carregava também um caderno — sim, um caderno de papel, com espiral e tudo. Abriu na mesa com cuidado, como se aquilo fosse uma relíquia. E ficou olhando pra página em branco, como se ela fosse se escrever sozinha.

Uau. Um caderno.

— Quer ajuda? — perguntei, tentando ser gentil, mas sem esconder o estranhamento. Quem não sabe usar um skyped em 2035?

Talvez ele fosse órfão. Muitos deles só tinham contato com tecnologias analógicas em abrigos ou regiões sem acesso pleno. Ainda existiam. Infelizmente.

Chegamos na sala e nos sentamos juntos — óbvio. Darwin apareceu dois minutos depois, olhando entre mim e ele com uma expressão que misturava choque, ciúme e julgamento ético. Eu a ignorei.

A professora entrou. Roberta. Do tipo que dava aula com os pés na mesa e sempre tinha um copo de chá de gengibre na mão — “pra manter a criatividade”, ela dizia, mas a gente tinha certeza de que era energético líquido.

— Bom, criaturas — ela começou, já conectando a tela ao quadro digital — hoje vamos fazer um exercício de escrita criativa. Nada de cópia, nada de dissertação. Quero emoção, coração, suor e talvez um pouco de lágrimas.

Eu revirei os olhos. Ela adorava esses desafios dramáticos.

— Tema livre. O único requisito: não pode ser sobre você. Escrevam sobre alguém que vocês não entendem. Que vocês acham estranho. Que vocês gostariam de compreender.

Levantei a cabeça e, sem querer, encarei o novo garoto. Ele também me olhava.

Automaticamente, baixei os olhos pro teclado da mesa. Mas o pensamento já tinha sido plantado: quem era ele? Por que aquele olhar parecia velho e novo ao mesmo tempo? E por que eu me sentia como se estivesse sendo lida como um livro aberto?

Ele parecia estranho. Pouco sabia usar o skyped e abrira um caderno em cima da mesa, olhando para o papel branco como se esperasse que uma imagem saísse dali. Uau, um caderno!

— Quer ajuda? — perguntei, estranhando o fato de um garoto não saber usar uma tecnologia tão conhecida... Talvez fosse órfão, muitos deles só tinham contato com computadores antigos.

Ele agradeceu, educado demais pra idade.

Respirei fundo e comecei a digitar.

"Ele chegou como se já soubesse de tudo.

Ficou em silêncio como quem tem medo de falar demais.

Os olhos eram verdes como uma mentira bem contada.

E talvez ele fosse exatamente isso:

Uma mentira boa demais pra ser ignorada."

Quando terminei, não olhei pra ele. Só fechei o texto e enviei pra professora.

Na tela ao lado, vi que ele também havia terminado. Com o caderno. E, com calma irritante, começou a digitar o texto manualmente no skyped.

E então, por alguma razão inexplicável, o sistema travou.

As telas de todos os alunos congelaram por cinco segundos. As luzes piscaram. E a voz do assistente virtual da escola disse:

— Falha na transmissão de dados. Reinicializando acesso biométrico.

Todos se entreolharam, murmurando. Mas eu senti um arrepio.

Porque na hora do travamento, a única tela que ainda se mexia era a dele.

E ele não parecia nem um pouco surpreso.

Quando se levantou para sair, deixou o livro ao lado por descuido, e eu quase devolvi... quase.


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A aula de redação passou voando — o que não era exatamente normal. Roberta, nossa professora meio gótica, meio artista plástica aposentada, estava inspirada, e nos deu um tema amplo: "Identidade e máscara". Talvez fosse só coincidência, mas era como se o universo conspirasse pra me fazer pensar naquele garoto.

Quando saímos da sala, o sol já não estava tão forte e o pátio estava mais vazio do que o normal — provavelmente por causa do susto do incêndio. Mesmo assim, a movimentação voltava ao ritmo de sempre. Darwin me esperava perto das escadas externas, mexendo os ombros como quem ensaia passos de dança no meio do pátio.

— Conta tudo! — gritou Darwin de dois metros de distância, dançando com pernas e braços.

Dei de ombros e sorri, zombando.

— Ele é todo fofo e inocente, Darwin — meu sorriso bobo me denunciava — Tava meio perdido aqui, coitado. Parece que veio do passado... — E ri.

— Mais longe — o garoto surgiu atrás de Darwin, de repente, como se tivesse aparecido por mágica — Vim de Mi... — pausou, como se pensasse, eu enruguei a testa, e ele enfim falou — Minas Gerais.

Os olhares de Darwin e o meu se encontraram. Ela ergueu a sobrancelha. Eu arfei.

— Você precisa me explicar mais tarde essa história de ler como os homens das cavernas — pisquei um só olho, mostrando que brincava. Ele riu — Ou me dar um livro de presente, se você tiver mais desses. Sabe, só se você quiser.

Olhei o relógio.

— São catorze horas, ainda tem uma aula — cliquei o link do horário na tela virtual do skyped e a palavra “dança” piscou na tela.

A de Darwin repetiu e Rômulo tinha luta greco-romana.

— Não sabia que gostava de luta — comentei.

— Nem eu — ele olhou pasmo a tela — Coisa do meu pai, só pode — e revirou os olhos, de um jeito impossível.

Darwin pulou de frente do garoto com seus cabelos claros pousando no ombro.

— Você é... diferente — ela hesitou, e olhou fundo nos olhos de Rômulo.

Eu percebi o que ela quis dizer quando vi seus olhos passarem de um tom forte de laranja para um claro tom de cinza.

— O que... — a confusão transpareceu nos meus olhos — O que está acontecendo com seus olhos?

Ele abriu os lábios. Vi os olhos dele ficarem de um preto muito escuro. Ele virou as costas.

Eu e Darwin nos olhamos, paralisadas.

— Jô — a voz da minha melhor amiga era baixa, e seus olhos focavam o vazio — Acredita em vampiros como o do teatro? Ou as séries clássicas? Ou acha que seres como os “Entre cinco paixões” existem realmente?

Suspirei, rendendo-me.

— Talvez um pouco de tudo isso, Darwin — e pausei, antes de terminar — Ou talvez não seja nada disso.

Eu sonho com um namorado de outra espécie — seja os vampiros da época dos meus pais biológicos, ou sereias e pockersys da década de cinquenta. Mas, confesso, que sonhos são lindos e esse tipo de romance dá supercerto nos livros, mas me deu medo de pensar o que ele era e o que podia fazer comigo.

— Talvez seja um sonho — murmurei finalmente — Longo e maluco.

Pensei por um minuto, e uma lanterna acendeu no fundo da minha mente.

— Darwin — minha voz era tremida e leve — Você tem permissão para pegar sua irmã emprestada hoje à noite?


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Perfeito! Vamos continuar a cena logo após o pedido da protagonista para Darwin, com a atmosfera de mistério ainda pairando no ar e a tensão entre o cotidiano escolar e o inexplicável crescendo. Aqui está a continuação:



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Darwin piscou, confusa, e ajeitou a alça da mochila no ombro.

— Minha irmã? A Luli?

Assenti com a cabeça, tentando parecer mais confiante do que estava.

— Ela ainda tem aquela lanterninha azul que brilha no escuro, né? — tentei soar casual, como se estivesse falando de uma brincadeira comum. — A gente podia... sei lá, explorar um pouco à noite. Só uma hipótese. Preciso de companhia confiável.

Darwin me olhou de lado, como se avaliasse se eu estava falando sério ou só entrando em modo Jô imaginativa outra vez. Mas então ela franziu a testa, e percebi que ela também sentira algo estranho. Algo além dos olhos de Rômulo. Talvez o jeito que ele observava o espaço. Ou como ele se movia, como se cada passo estivesse medido demais.

— Você tá pensando em... seguir ele? — ela perguntou num sussurro.

— Não exatamente — murmurei. — Mas talvez... observar. Com uma criança por perto, tudo parece brincadeira. E ele provavelmente não vai achar que a gente está... desconfiando de alguma coisa.

Ela ficou em silêncio por uns segundos e depois assentiu, devagar.

— Vou ver com minha mãe. Mas Jô... e se for mesmo perigoso?

— Então é melhor a gente saber antes que seja tarde.


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A tarde passou arrastada depois disso. A aula de dança parecia um videoclipe em câmera lenta. Eu conseguia ver o reflexo de Rômulo nos espelhos da sala, tentando acompanhar a coreografia da turma da luta greco-romana que, por algum motivo, dividia espaço com a nossa sala de práticas físicas.

Ele era... desengonçado. O tipo de desengonçado que a gente não espera de alguém alto e esguio. Parecia alguém que só fingia ter um corpo humano. Mas o olhar... aquele olhar carregava um mundo dentro. Tinha uma tristeza que não combinava com a idade dele. Nem com ninguém que eu conhecesse.

E foi aí que vi.

Por um segundo — apenas um — ele se virou para pegar a garrafinha d'água. O reflexo no espelho... não acompanhou.

Meus pés congelaram no passo da música. Darwin colidiu comigo, tropeçou e caiu com estrondo. Todos olharam, e eu ri nervosa, ajudando-a a levantar.

— Tá tudo bem — murmurei. — Só fui olhar pro lado errado.

Mas meu coração batia mais rápido. E eu sabia que tinha visto direito.