Notas iniciais
Quem não queria que esse remédio existe, não?

Quando cheguei em casa, minha mãe estava no sofá com a Prim dormindo no colo, os cabelos dela caindo como uma cortina sobre o rosto do bebê. Parecia exausta — ela sempre parecia exausta desde que a Prim chegou.

Ninguém nunca falou muito sobre de onde ela veio. Nem eu, pra ser sincera. Fui chegando e ficando. Um dia estava na escola com meu nome no sistema e outro na mesa com uma marmita etiquetada "pra Jô". Só depois percebi que era oficial. A adoção, digo. Ou talvez não fosse? Eu nunca perguntei.

Ela me viu na porta e sorriu, aquele sorriso de quem quer dizer "oi, filha", mas tem cem tarefas abertas no cérebro.

— A janta tá no forno. Lasanha — disse, baixo, pra não acordar Prim.

— Tá tudo bem — respondi, e quase completei: só tô indo espionar um garoto que pode ser um vampiro espacial do século XIX. Mas achei melhor guardar isso pra mim.


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O campo poliesportivo da minha escola era aberto ao público durante a noite. A iluminação exagerada prevenia a maioria dos crimes. Os outros eram impossibilitados pelos seguranças Tyler e Scott — dois ex-alunos voluntários que tinham uma queda por Darwin (o que ela usava, claro, com a leveza de quem sabe exatamente onde pisar).

Donna tinha três anos e um pequeno dom. Podia sentir as emoções mais fortes de uma pessoa apenas olhando nos seus olhos. E com um simples toque, enxergava tudo de mais intenso — triste ou feliz — que a pessoa tinha vivido na vida. Tipo um scanner emocional de pelúcia.

Brad, meu melhor amigo, que cursava pós-graduação em Misticismo, também tinha um dom especial. Escolhera a faculdade de Ciência Quântica porque tinha tudo a ver com seu dom: ele podia sentir o equilíbrio — ou o caos — em qualquer lugar. Um tipo de bússola humana para o improvável.

— Não sei por que trouxe a gente pra cá — resmungou Brad, cruzando os braços. — O que vamos fazer? Jogar futebol?

— E se eu quisesse, teria problema pra você? — provoquei, fazendo careta.

Brad riu, ignorando a pergunta. Darwin deu de ombros, segurando firme a mão da irmã que olhava pra ele como se ele fosse o bicho-papão do parquinho.

Chegamos ao campo zoando uns com os outros, como sempre. Me distraí empurrando Brad, e só então vi sua expressão horrorizada. Meu queixo caiu, assustada, quando nos deparamos com a quadra arrasada.

O incêndio provocara uma destruição inacreditável. Um buraco enorme se abrira no meio da quadra, como se um cometa tivesse feito check-in. As telas em volta estavam carbonizadas, havia manchas pretas no chão e um dos postes de iluminação irradiava uma luz roxa, transbordando telúrio dos seus depósitos — um detalhe que, até onde sabíamos, só acontecia em experimentos de alta energia. Ou no laboratório do professor Klaus quando ele esquecia o micro-ondas ligado.

— Eu não disse? — afirmou Brad, com aquele sorrisinho irritante de quem sabe que está certo.

É difícil explicar o dom de Brad. Seus sentidos o guiavam onde havia a mais completa paz ou a mais completa bagunça. Tudo dependia de seu desejo. Ele sempre dizia que, se um dia sumisse no meio da cidade, era só procurar no epicentro do caos.

Esses dons eram conhecidos publicamente desde 2032. Mas começaram a surgir em 2025. Na época, religiões explicavam tudo como sobrenatural, espiritual ou divino. Alguns achavam que era doença mental ou boato de internet. Só quando um grupo de pesquisadores, liderado por uma ex-militar chamada Vivian Souza, apresentou evidências científicas dos efeitos colaterais da pedronilina, tudo mudou.

A pedronilina era um remédio abortivo de uso clandestino, criado para interromper gestações ainda no primeiro mês. Em muitos casos, funcionava. Em outros... deixava consequências. Algumas dessas crianças nasciam aparentemente saudáveis, mas com o tempo, desenvolviam habilidades paranormais.

Brad Towson foi uma dessas crianças. Criado pela avó, nunca conheceu a mãe biológica. Sabia apenas que ela tinha nove anos quando engravidou. Ninguém falava disso abertamente, mas era fácil entender o que havia acontecido. A menina, assustada e sozinha, tentou interromper a gravidez com a substância que ouviu falar na escola. Quando não funcionou, deixou o bebê com a mãe e desapareceu.

Brad era um sobrevivente. E não apenas por causa do dom.

Foi ele quem me explicou tudo, desde o início. Ele apareceu na minha vida dizendo que "sentiu" uma bagunça na minha casa. Tinha razão. Um vizinho de dezessete anos havia pulado meu portão com intenções péssimas, e eu tentava fugir dele até Brad chegar. Desde então, ele virou meu herói, meu amigo e, tecnicamente, meu cão de guarda quântico.

Já Donna foi fruto de um erro médico: a mãe de Darwin estava doente, o médico receitou o remédio errado. O resto é história... e dom.

Paramos em frente à quadra, boquiabertos. A tensão era tão densa que até o ar parecia tilintar.

— Ei, crianças — a voz veio de trás, fazendo a gente virar ao mesmo tempo.

Um homem alto e forte, de pele escura, cabelos dourados encaracolados e olhos de um tom estranho de roxo nos encarava sem sorrir.

— Lindas lentes, senhor — comentou Darwin, cheia de covinhas. — Quem é você?

— Obrigado — disse ele, com um aceno. — Meu nome é Logan. Sou repórter pesquisador de Uberlândia. Estou atrás de informações sobre dons paranormais por aqui.

Silêncio. Eu o olhava fixamente, tentando entender por que ele me lembrava alguém.

— Também sou bombeiro voluntário — completou ele, com naturalidade. — Por isso estou aqui. Acho que já conheceram meu filho, Rômulo. Ele estuda aqui desde hoje.

Eu sorri, sem hesitar. Claro que conhecíamos.

— Seu filho é ótimo — disse Darwin, saltitante. — Mas creio que ele não gosta muito de luta, sabe?

Metida, como sempre.

— Sim, ele comentou algo do tipo — respondeu Logan. Seus olhos, agora, brilhavam num laranja quase flamejante. Senti um arrepio subindo pela espinha.

— Creio que não podem usar a quadra, crianças — ele disse. — Tivemos... problemas hoje.

Ah, é sério?

— Ok — falei, meio contrariada. — Mas, antes, o senhor pode explicar o que aconteceu?

Donna, que até então estava em silêncio, tocou minha mão e olhou pra cima. Abaixei o rosto.

— Fique calma — disse ela, sussurrando. — Tá tudo bem.

Os olhos de Logan ficaram vermelhos. Vermelho vivo. Do tipo que faz você repensar todas as decisões que te trouxeram até ali.

— Não se preocupem, crianças — disse ele, voz vazia. — Foi só um carro que voltava de Berlim e sofreu um acidente por aqui. Graças a Deus, dona Ellen passa bem.

Dona Ellen, a prefeita do Rio, famosa pelas viagens para tomar café da manhã em outros continentes. Justo ela? Aqui? De carro?

Desistimos das perguntas quando um carro amarelo canário — impossível de ignorar — estacionou ao nosso lado. Rômulo, com a cara serena de quem não sente o peso do mundo, abriu a porta com calma.

— Carona, meninas?

Eu teria recusado. Se meu cérebro estivesse funcionando.

Mas não estava.


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Darwin arregalou os olhos e soltou um assobio impressionado. Donna se escondeu atrás da perna dela como se o carro fosse algum tipo de animal exótico e perigoso — o que, considerando o brilho metálico que dançava sobre a lataria, não era exatamente mentira.

— Que carro é esse? — perguntou Brad, franzindo o nariz. — Parece um Transformer ansioso pra se exibir.

— Modelo novo da Tessa Motors — respondeu Rômulo, com um sorrisinho torto. — Ainda não saiu pro público. Mas meu pai tem uns contatos.

— Claro que tem — murmurou Darwin. — Aposto que também conhece o Elon Musk.

— Ele tá congelado na Islândia desde 2029, não é? — retrucou Rômulo, ainda sorrindo. — Infelizmente, não.

Eu o encarei, tentando entender se ele estava brincando ou sendo literal. Com os filhos dos repórteres pesquisadores-bombeiros-ex-militares de olhos coloridos, era difícil dizer.

— Vocês querem ou não querem uma carona? — insistiu ele, olhando agora para mim.

— Vai levar a gente até a escola ou pro buraco roxo no meio da quadra? — perguntei, apontando com o queixo para o campo atrás de nós.

Rômulo sorriu, mas dessa vez não respondeu. Apenas piscou para mim e ergueu a porta com um gesto automático da mão. O carro reconheceu o movimento e se abriu por completo, como se estivesse esperando só por isso.

— Ok, isso foi maneiro — admitiu Brad, já entrando no banco de trás.

Darwin foi a primeira a entrar, empurrando a irmã para dentro com delicadeza. Brad hesitou, mas acabou cedendo ao meu olhar insistente. Eu entrei por último, sentindo o couro frio do banco encontrar minhas pernas expostas pela saia do uniforme.

Donna parecia curiosa e encantada com os bancos que mudavam de cor com o toque.

— É tipo um camaleão de couro — disse ela, fascinada.

— Tudo é tipo alguma coisa pra você, né? — comentei, entrando por último. — Obrigada pela carona, Rom...

— Rômulo — ele completou, dando a partida. — Mas pode me chamar de Rom, se quiser.

O carro deslizou suavemente pela rua, quase sem emitir som. Nenhum motor, nenhum solavanco. Era como flutuar. Durante um tempo, ninguém falou nada.

— Então... Rômulo. Você estuda aqui desde hoje, né?

— É. Meu pai me transferiu de última hora. Disse que essa escola era mais segura. — Ele deu uma risadinha. — O que é irônico, considerando a cratera roxa e a prefeita explodida.

— A prefeita não explodiu — corrigi.

— Ainda não — murmurou Brad.

— Gostaram do Logan? — perguntou Rômulo, girando o corpo para nos encarar por cima do banco. O sorriso dele era enigmático demais pro meu gosto.

— Ele parece... intenso — murmurei, olhando pela janela enquanto o carro começava a deslizar silenciosamente pela rua vazia. O motor nem fazia barulho. O tipo de carro que você não ouve chegando.

— Os olhos dele mudam de cor mesmo? — perguntou Brad, num tom entre cético e curioso.

— Mudam — respondeu Rômulo, como quem fala sobre o tempo — Depende da emoção. Uma herança genética rara. Meio rara demais, se você perguntar pra ciência.

Donna soltou um suspiro no banco do meio. Ela ficava quieta quando estava absorvendo coisas.

— Ele não mentiu — sussurrou Donna, e Darwin olhou pra trás imediatamente.

— Como assim?

— Ele não mentiu. Mas escondeu — Donna balançava os pés como se estivesse ouvindo música — Aquela coisa de acidente de carro... tem mais. Eu senti um pânico antigo nele, tipo um eco. Como se fosse coisa que ele já tinha sentido antes.

— Você acha que a quadra não pegou fogo por causa de um acidente? — perguntei, tentando juntar as peças. Brad bufou.

— Aquilo ali era energia pura, não gasolina. Aquele telúrio saindo do poste... Aquilo é instável. Só vaza assim quando é provocado. Ou quando tem algo que atrai.

Rômulo não disse nada. Continuou dirigindo como se não ouvisse, mas seu maxilar estava tenso demais para passar despercebido.

— Você sabe o que foi, não sabe? — perguntei, firme.

Ele respirou fundo. Muito fundo. O tipo de suspiro que vem quando a gente decide contar uma verdade inconveniente.

— Não sei tudo. Mas... — ele freou suavemente num semáforo, os olhos brilhando brevemente no espelho retrovisor — A quadra foi o segundo lugar afetado. O primeiro foi no centro, perto da linha do metrô abandonada. Mas lá ninguém fala. Sumiram três meninos, e o governo abafou.

Brad arregalou os olhos. Eu engoli em seco.

— Esse carro tem cheiro de medo.

Todos nós nos viramos lentamente para Donna.

— Como assim, cheiro de medo? — perguntou Brad.

Ela deu de ombros, encostando o rostinho na janela.

— Só sei.

Eu engoli em seco, sentindo uma pontada de arrepio subir pela espinha. O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Até Darwin pigarrear.

Rômulo olhou pelo retrovisor, os olhos agora de um âmbar dourado estranho, como se o pôr do sol tivesse se alojado neles.

— Eu sei que parece esquisito, mas... tem uma razão pra eu estar aqui. E não é só por causa da escola. — Ele olhou diretamente pra mim. — Meu pai tá investigando algo grande. E vocês, de algum jeito, estão no meio disso.

O silêncio voltou, mas dessa vez era pesado, cheio de perguntas não feitas.

— Tá. Isso foi dramático demais até pro nosso padrão — resmungou Brad. — Você vai contar o resto ou prefere continuar bancando o Batman?

Rômulo sorriu. Mas não respondeu.

— Isso tem a ver com os dons? — perguntou Darwin, baixinho.

— Tem a ver com o lado de onde eles vêm — respondeu Rômulo, quase num sussurro — A parte que ninguém quer estudar. A parte que nem a ciência quântica explica. A parte que nasceu quando a pedronilina... tocou algo que não devia.

— Algo como... magia? — arrisquei.

O carro virou à esquerda, saindo da rua principal, e entrou por um caminho de terra entre árvores altas. O tipo de atalho que, em filmes ruins, sempre levava para o matadouro.

— Ei, onde a gente tá indo? — perguntei, tensa.

— Mostrar uma coisa pra vocês — respondeu ele, sem tirar os olhos da estrada. — Algo que ninguém deveria ver. Mas vocês já estão dentro demais.

A floresta parecia fechar em torno do carro.

E, mesmo sem querer, eu sabia que nada mais seria como antes.

Notas finais
Quem amou o Brad levanta a mão o