Estrelas Do Sub-mundo
2 Prazeres
Notas iniciais
Espero isso há anos.
Vivo no prédio flutuante — em pleno oceano — mais conhecido do Rio de Janeiro: o Bruna Fells.
Meu nome é Joana, tenho catorze anos e vivo no ano de 2052.
— Jô, pode colocar o Prim para dormir, por favor? — pediu a voz rouca da minha mãe.
Minha mãe é professora de literatura juvenil no ensino médio da minha escola, o Colégio Professora Eliane Camara. Só que a tecnologia e a informação correm tão rápido que, às vezes, é difícil até para uma mulher moderna como ela acompanhar.
— Claro, mãe — gemi, deslizando dois dedos no ar para que a imagem do skyped sumisse com um plim discreto. Caminhei preguiçosamente até o quarto do Prim — meu irmão recém-adotado, de seis meses.
Bianca Mey tinha só vinte e cinco anos e uma carreira incrível para a idade dela. Seu currículo incluía, além da profissão desafiadora de professora em plena era dos skypeds, cinco livros de romance e ficção — cheios de seres sobrenaturais.
Eu a adorava.
Quando Bianca tinha oito anos, seus pais sumiram misteriosamente e ela foi criada na mansão Corror, um orfanato antiquado e irritante. O uso de computadores — ou qualquer tipo de tecnologia — era proibido, então ela aprendeu a escrever usando lápis e papel (meleca!). E, com a ajuda das outras crianças e muita imaginação, publicou seu primeiro livro aos quinze anos.
Com a maioridade aos dezesseis, saiu do orfanato e alugou um apartamento com o dinheiro dos livros. Fez faculdade, virou professora e me adotou — eu tinha cinco anos na época — porque não queria que eu tivesse uma vida como a dela.
Meus pais morreram quando o carro deles caiu de um prédio, voltando de uma visita aos avós, em Osasco.
— Ei, Prim, não quer dormir, não? — perguntei, pegando ele no colo. Apesar de ter presenciado o assassinato dos pais e sido deixado na sacada como um enfeite (sim, sério), pra mim ele era só um bebê cor-de-rosa e dorminhoco, que mudara um pouco minha rotina.
Desde que o Prim chegou, meus livros, músicas e baladas virtuais deram lugar aos cuidados com ele, enquanto minha mãe tentava se atualizar para dar aula na era dos hologramas.
— Entre cinco paixões! — gritou minha mãe da cozinha, meio falando comigo, meio com ela mesma. — Conhece, Jô?
Revirei os olhos. Aquele livro já estava na lista dos mais vendidos há dois dias!
— Sim, mãe — respondi, enquanto o pequeno Prim deitava a cabeça no meu ombro, se aninhando como uma bolinha rosa. — É um romance entre um garoto de quinze anos e cinco seres.
— E o que são esses seres? Vampiros? Lobisomens?
Revirei os olhos de novo. Seres da época da minha mãe — biológica.
— Sereia, centauro, anjo, fada e pockersy — expliquei, como se fosse óbvio. — Esse último é uma mulher que, de dia, é um cavalo branco lindíssimo e, à noite, se transforma numa mulher de asas que seduz os homens em troca de vingança.
Minha mãe gruniu lá da cozinha.
— Já leu? — perguntou, já sabendo a resposta.
— Claro — respondi. — Ontem.
— Ah, entendi.
Eu sabia o que ela queria dizer. Os livros mais populares hoje em dia costumam ser os dela — com cerca de cem páginas, ou talvez um pouco mais. Os outros eram bem menores. E ela definitivamente não gostava disso.
— Trinta — disse, antecipando a pergunta sobre o número de páginas.
— Hunf — resmungou.
Olhei para o Prim, que dormia com o dedo pálido na boca. Sorri. Garoto esperto. Espero que, quando crescer, ele não se lembre de nada daquilo. Espero que ele só lembre da gente.
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