Notas iniciais
Aqui são mencionados alguns dos personagens da história, então acompanhem bem, e bem, acho que vocês vão gostar do joguinho de Darwin e Joana, é bem divertido ;)

O ônibus do meu bairro até o centro — onde ficava minha escola — vivia praticamente vazio. Desde a era dos skypeds e dos carros voadores, a maioria preferia estudar em casa ou tinha seu próprio carro. Mas ainda existiam pais à moda antiga. E nerds como eu.

— O que você tá lendo? — perguntou minha melhor amiga, Darwin Tawson, jogando-se na poltrona ao meu lado e ligando o ar-condicionado individual, bem acima da cabeça. — Entre cinco paixões?

Balancei a cabeça e toquei a imagem gráfica da capa do e-book. A capa de Três vidas em uma só — o novo livro da minha mãe — apareceu no ar.

— Bianca Mey — disse Darwin, reconhecendo o nome. — Nem sabia que ela tinha lançado outro! É sobre o quê?

— Um homem possuído por dois espíritos sugadores de vida, lutando pra manter o controle da própria mente.

Meleca! — exclamou Darwin, soltando a nova gíria da galera da semana. — Me passa?

Confirmei com um gesto, clicando no ícone de envio e conectando ao skyped dela.

— Valeu — disse ela, animada.

Voltei ao livro, embora sem muita concentração. Darwin desenhou um quadrado no ar e sua tela gráfica se materializou diante dela. Seus dedos voavam pelos comandos tão rápido que mal dava pra acompanhar.

Entre cinco paixões abriu com aquela música tema da sereia — irritante como sempre.

Alguns dos outros passageiros resmungaram. Ela logo clicou no ícone do ouvido e transferiu o som pros ímãs auditivos quase invisíveis.

Esse era o skyped: minúsculos ímãs nos ouvidos, sensores nos dedos, e uma interface gráfica invisível que aparecia quando você desenhava uma tela no ar. “Seu computador na ponta dos dedos. Seu fone de ouvido tão pequeno que nem o professor mais atento vê!” — dizia a propaganda. Claro que gerou protestos de professores (inclusive da minha mãe), mas até eles acabaram se rendendo à febre.

— E aí, quais as novidades? — perguntou Darwin, sem desviar os olhos da tela. — Além do novo livro da sua mãe, claro.

— Cindy Leitte entrou pro time de basquete — respondi, ainda olhando meu e-book.

— A cadeirante? — perguntou ela.

Não era preconceito. Era só a Darwin sendo… Darwin.

— É — confirmei. — E o Billy Dowly vai ser o novo Edward na peça do teatro.

- Como se você se importasse — ela riu.

- Aparentemente vampiros purpurinas nunca saem de moda — ironizei.

Darwin adorava clássicos juvenis. Eu já lera alguns, mas admito que os lançamentos me chamam mais atenção.

— E eu sou a nova líder de torcida! — comemorou.

Grande surpresa. Loira, magra, linda. Uma Barbie de carne e osso. Típico.

Eu, bem… não sou das mais feias. Pele escura, cabelo cacheado em cascata pelo rosto, olhos pretos. Corpo entre a magreza e o sobrepeso. E uma autoestima que flutuava conforme a lua.

O ônibus parou.

— Quem a gente vai paquerar hoje? — perguntou Darwin, se levantando. Usava uma saia minúscula e uma blusa curta — a moda daquele ano — revelando partes estratégicas da barriga perfeitamente lisa. — Jayme Cabim?

Ri. Nosso joguinho de paquerar garotos feios não era maldade. A gente dizia que era caridade. Aumentava a autoestima deles. Uma boa ação do dia.

— Pink Dorley — sugeri. — A lésbica de treze anos. Ela anda tristinha ultimamente.

Ambas rimos.

Desde 2035, a educação brasileira tinha virado do avesso. O modelo de High School americano foi adotado como se fosse a solução de todos os nossos problemas — como se bastasse jogar uns nomes em inglês e pronto: sistema perfeito. Além das matérias tradicionais, surgiram clubes escolares obrigatórios, tipo teatro, esportes, programação emocional e até culinária vegana avançada (sim, é real).

Eu, contra a minha vontade, estava fazendo Angela no clube de teatro. Sim, Angela, aquela humana insossa e coadjuvante da peça que por algum motivo nunca morria, só ressurgia versão teatro holográfico a cada cinco anos.

Darwin, minha melhor amiga e animada por natureza (ou talvez por excesso de cafeína nos sucos energéticos de manhã), conseguiu o papel de Rosalie. Disputadíssimo, porque aparentemente ser uma vampira linda, sarcástica e com zero paciência com humanos ainda era o ápice da representação feminina em 2050.

O engraçado é que a peça já foi adaptada tantas vezes que nem sabíamos mais se estávamos encenando a versão original, a versão steampunk ou a versão brasileira de 2037, onde os vampiros são influenciadores digitais e brilham com glitter biodegradável.


___________________


O horário do almoço era o mais movimentado do dia. Pessoas animadas se agrupavam como se fosse recreio da quinta série, e eu e Darwin fazíamos o de sempre: nos esparramávamos no gramado verde, longe da muvuca e perto da sombra.

— Pink — anunciou Darwin, com o olhar brilhando como se tivesse visto um unicórnio.

Pink Dorley, a garota de olhos claros, cabelos lisos até a cintura e cara de anjo em ressaca emocional, virou-se lentamente. Darwin piscou para ela com um sorrisinho de quem já tinha planos para depois da sobremesa.

— Tá linda hoje.

Eu ri e fiz a análise visual de praxe. Pink vestia o que só podia ser descrito como uniforme de Pink: saia colegial rodada, sapatinhos pretos com meias três quartos e uma camiseta branca de renda transparente o suficiente pra ser escandalosa e delicada ao mesmo tempo.

— Podia me casar com você hoje, Pink — falei, meio séria, meio atriz dramática de novela antiga.

Ela sorriu, talvez pensando em aceitar. Mas antes que pudesse abrir a boca, o céu respondeu com um zumbido ensurdecedor.

Foi tipo um trovão sci-fi.

Do nada, uma coluna de fumaça começou a sair do campo de esportes. Gritos, correria, pânico básico. Um "incêndio de pequeno porte", segundo a diretora Glayde, que falou diretamente do alto do terceiro andar graças aos mini-ímãs de som espalhados pela escola.

— Voltem para dentro imediatamente — disse, com a calma de quem treinou isso no simulador de desastres.

Como boas nerds obedientes (e um pouco fofoqueiras), eu e Darwin deixamos as bandejas no refeitório e fomos ativar a secretária digital da escola, que parecia estar em negação. Nenhum aviso de mudança de horário. Nada sobre evacuação. Nada sobre incêndio. Só um “bom almoço” atrasado piscando na tela.

— Que aula você tem agora? — perguntou Darwin, tentando parecer tranquila. Falhou.

— Redação. E você?

— Educação sexual e hábitos seguros — respondeu, mas os olhos dela estavam fixos em outra coisa.

Ou melhor, em alguém.

Virei o rosto e entendi tudo.

Um garoto novo, provavelmente com quinze anos, estava tentando ativar a secretária da escola como quem tentava desmontar uma bomba alienígena. Bonito era pouco. Pele escura, olhos verdes, porte de atleta e um rosto que faria qualquer garoto popular sair do aplicativo de paquera pra repensar a autoestima.

— Quer ajuda? — perguntei, antes que Darwin oferecesse a alma.

Ele olhou pra mim. Naquele momento, esqueci meu nome. Minha senha do skyped. Meu CPF.

— Obrigado — disse ele, e o universo ficou em câmera lenta por três segundos.

Peguei o número que ele recebeu no skyped, digitei na tela e expliquei o básico: olhar fixo para o visor, mapeamento de íris, acesso pessoal. Escola do futuro, né?

— Obrigado — repetiu. E cada vez que ele dizia isso, parecia que estava me agradecendo por salvar a galáxia.

— Você pode mandar seu horário pro skyped, assim não precisa vir aqui toda hora — falei, já me ouvindo soar super útil e meio idiota.

Ele desenhou um quadrado com o dedo. Clicou em "horário". E ali estava: Redação.

Meus olhos brilharam.

— Eu também tô indo pra lá — sorri — Vem comigo.

Enquanto caminhávamos lado a lado, pude sentir as antenas do colégio inteiro se virando em minha direção.

Garanto que já estavam trocando skys a meu respeito.

Notas finais
E então, não dá uma certa vontade de ter nascido em 2052?