Estrelas Do Sub-mundo
7 Amor de estudante
O frio da manhã ainda colava na pele, como se a noite tivesse deixado um aviso. Eu entrei no carro de Rômulo com a alma meio torta, o sono pendurado nas pálpebras e a cabeça cheia daquelas imagens: o painel explodindo, o bicho mecânico, o drone voando, a sensação de que alguém lá em cima — ou lá embaixo — tinha me marcado com um adesivo de “Observada”.
No banco do passageiro, a realidade parecia querer voltar ao normal, mas não conseguia. Talvez fosse o ar do carro. Talvez fosse Rômulo. Ou os olhos dele, que não conseguiam decidir uma cor.
Ele dirigia como se já tivesse feito isso por décadas. As mãos firmes no volante, os pés leves nos pedais, o corpo relaxado — o que me irritava um pouco. Como alguém pode parecer tão tranquilo depois de ser quase neutralizado por um glitch humanoide do governo?
A música no carro era baixa, um rock clássico que tocava num volume que parecia calculado para não chamar atenção nem parecer entediante. Eu não sabia se era a rádio, um pendrive, ou se o carro tinha inteligência musical própria. Com Rômulo, tudo era possível.
— Está preocupada com algo? — ele perguntou.
Seus olhos, que tinham começado dourados naquela manhã, oscilaram para um tom arroxeado, meio ametista ansiosa. Olharam o espelho retrovisor e, ao mesmo tempo, pareceram me encarar por dentro. Tive a sensação de que meus pensamentos estavam sendo escaneados.
— Não, eu acho — eu respondi — Por quê?
Ele hesitou.
— Só curiosidade.
Meus dedos tremiam no colo. Tentei disfarçar, mas era tarde demais. Ele tinha notado. E talvez sentisse.
Os olhos dele se tornaram castanhos, do tipo que você vê em filmes antigos, meio melancólicos, meio apaixonados, meio capazes de esconder uma guerra inteira. E eu me perdi nisso, como sempre.
— Você parece preocupada — repetiu, agora num tom menos robótico, mais... humano?
Assenti, devagar.
“Sim, estou. Porque ontem à noite vi um robô biológico desmaiar por sobrecarga, percebi que talvez tenha um chip espiritual instalado no cérebro e, pra completar, meu melhor amigo quer falar comigo sobre sentimentos enquanto você, que claramente não é humano puro, me leva para a escola como se isso fosse um episódio normal de terça-feira.”
Mas só disse:
— Um pouco. Dormi mal.
Silêncio. E depois, respirei fundo.
— Posso perguntar por que seus olhos mudam de cor?
Dessa vez, ele demorou a responder.
Os olhos escureceram. Ficaram tão pretos quanto os meus. Mas diferente. Mais profundos. Quase como se escondessem galáxias.
— Genéticas — disse ele. Simples. Reto. Como se fosse “tudo bem” ou “não quero falar sobre isso”.
Alguns segundos passaram. Eu quase podia ouvir meu cérebro girar em falso.
— Os olhos do seu pai também mudam — comentei, tentando parecer casual.
Ele assentiu. Quase imperceptível. Um músculo na bochecha moveu-se, talvez o mais próximo que ele chegava de uma emoção.
— Mas isso não é... biologicamente plausível — sussurrei. — As pessoas podem ter heterocromia, ou mudar levemente com a luz... mas vocês mudam para todas.
— Quase todas — disse ele. E sorriu. Pela primeira vez.
Foi um sorriso pequeno, mas real. O tipo de sorriso que deixa perguntas em vez de respostas.
Então o carro parou, não na escola ainda — mas num mirante improvisado, num trecho do morro de acesso, onde a cidade se via de cima e o céu ainda resistia à luz do dia.
— Ontem à noite — ele disse, desligando o carro — você viu as estrelas?
Eu o encarei, sem responder.
Ele apontou para o céu, ainda azul-escuro no topo, ainda salpicado de brilho tênue que resistia ao nascer do sol.
— Aquela estrela, a menor e mais brilhante... não era Vênus — disse. — Era um satélite natural artificial. Uma cápsula. Uma coisa antiga. Ela ativou... você.
— Como sabe disso?
— Porque você não foi a única. E porque ela veio por você.
Um arrepio me percorreu inteiro.
Ele olhou de volta pra mim. Agora os olhos estavam âmbar, dourados e pulsantes. Mas não da cor do medo. Da cor da verdade.
— E porque eu sonhei com a mesma estrela.
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Quando o carro finalmente virou a última curva antes da escola, o sol já tinha vencido a batalha contra a noite, mas o céu ainda parecia cansado. As nuvens passavam como se soubessem demais. O prédio velho da escola surgiu à frente como uma testemunha silenciosa de tudo o que estava prestes a acontecer. E, de alguma forma, eu sabia: algo ia acontecer.
Brad estava no portão.
Parado, firme, como se fosse o segurança da entrada, o último obstáculo antes da rotina fingir que tudo estava normal. O cabelo dele estava bagunçado, como sempre, mas os olhos... os olhos estavam fixos em mim, mesmo antes de eu abrir a porta.
Rômulo estacionou lentamente, bem em frente ao portão, e desligou o motor com um suspiro suave do carro que parecia vivo demais. Ele olhou para Brad. Depois para mim. Depois para o horizonte.
— Ele quer falar com você — disse, sem emoção. Apenas certeza.
Assenti, sem saber o que dizer. Estava nervosa. E não só por Brad. Eu estava começando a me perguntar se tudo ao meu redor estava conectado de uma forma que meu cérebro ainda não tinha dado conta. Mas meu coração já sabia.
Abri a porta do carro. O ar frio me recebeu com um tapa carinhoso.
— Ei — disse Brad, antes mesmo de eu dar dois passos.
— Oi — respondi, tentando sorrir, mas provavelmente parecendo alguém que acabou de sair de uma seita alienígena.
— Precisamos conversar. Agora. — O tom dele era urgente, mas contido. Como alguém que segurou a explosão tempo demais.
Atrás de mim, Rômulo saiu do carro. Calmamente. Como quem sabe que o tempo está ao seu favor. Fechou a porta com um leve clique que soou como um desafio.
— Tudo bem — falei para Brad. — Podemos ir ali perto das árvores.
Antes que pudéssemos andar, Brad lançou um olhar direto para Rômulo. Um olhar que não pedia licença, só exigia presença. E Rômulo... sorriu. Ligeiramente. Aquela coisa sutil e irritante que ele fazia sempre que estava por cima.
Brad esperou até que estivéssemos longe o bastante, mas não fora do campo de visão. E então, sem rodeios:
— Você precisa se afastar dele.
O estômago caiu. O mundo pareceu tropeçar.
— Brad...
— Eu tô falando sério — ele disse, os olhos ardendo como se segurassem lágrimas ou fúria ou ambos. — Eu sei que você acha ele interessante. Diferente. Misterioso. Mas ele é perigo. Ele é caos. Igual a mim.
— Como assim “igual a você”? — perguntei, tentando entender o tom.
Ele respirou fundo. Olhou para o chão. Depois para mim.
— Eu não sou só o Brad bonzinho, o amigo divertido. Tem coisas... coisas que eu não consegui te contar antes. Porque achei que podia controlar. Achei que tava tudo enterrado.
Silêncio.
— Ontem, quando tudo aquilo aconteceu no mercado, eu senti algo... ativando em mim. Como se algo tivesse destravado. — Ele apontou para o próprio peito. — Como se o monstro tivesse acordado.
Arregalei os olhos.
— Você também...?
Ele assentiu, a mandíbula tensa.
— E ele? — sussurrei, olhando para trás, onde Rômulo nos observava de longe, braços cruzados, como uma estátua de marfim sarcástico.
— Ele sabia. Ele tava esperando. E pior — disse Brad, agora mais baixo — ele gostou.
Senti um arrepio que não era só frio.
— Você acha que ele é...
— Não acho. Eu sei. Ele é como eu. Mas sem freio. Ele é o que acontece quando o caos ganha elegância. E isso, pra mim, é o mais perigoso.
Fiquei em silêncio, digerindo cada palavra como um veneno de efeito lento.
— Então você quer que eu...
— Quero que você fique viva. Quero que você fique você. Não tô tentando competir — disse, olhando pra mim com sinceridade crua. — Tô tentando proteger.
Eu respirei fundo, sentindo o mundo desmoronar e reconstruir numa velocidade absurda.
Quando voltei a olhar pra Rômulo, ele estava mais perto. Mas ainda em silêncio. Esperando. Observando. Como quem sabia que aquela conversa ia acontecer desde o início.
— Me promete uma coisa — disse Brad, de repente.
— O quê?
— Não escolha ele até saber quem ele realmente é. Porque se você escolher errado... não vai ter volta.
Ele saiu antes que eu pudesse responder.
Deixou o aviso no ar, como uma estrela cadente que queima rápido demais para ignorar, mas tarde demais pra entender.
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Todos no Bruna Fells se movimentavam para fora das salas, como um cardume de sardinhas digitais liberadas do aquário. Caminhei apressada até minha árvore — meu refúgio preferido — onde Rômulo já me esperava, sentado de pernas cruzadas, a tela do skyped aberta diante dele.
— O que tá fazendo? — perguntei, roubando uma de suas batatinhas fritas sem cerimônia. Foi então que vi o título da pesquisa — “Olhos de todas as cores”. — Oi?
Ele apenas assentiu, delicado, e colocou a bandeja no meu colo.
— Peguei o almoço pra você — explicou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Estou tentando provar que é possível os olhos mudarem pra qualquer cor.
Abri a boca pra rir dele, mas fechei rápido quando vi os resultados. Centenas de notícias apareciam na tela. O que mais me chamou atenção, porém, foi um link em letras garrafais: “Extraterrestres entre nós?”.
Não contei nada, mas uma faísca acendeu dentro de mim. Aquilo não era só curiosidade boba de adolescente. Era… algo.
— Viu? — disse ele, como quem apresenta uma tese. — Não é tão inédito assim.
Assenti, mudando de assunto. Mas por dentro eu já sabia: aquilo ainda ia voltar pra me assombrar.
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Uma pulga atrás da orelha me acompanhou o caminho inteiro de volta pra casa. Rômulo dirigia calado, mas de vez em quando me olhava de canto, como se quisesse pescar alguma reação.
E eu pensava: e se os olhos dele não fossem só uma questão de genética? E se fosse algo maior? Científico, como os dons que surgiram em 2025? Ou mágico, como nos livros da minha mãe?
Antes que eu pirasse de vez, deixei a música tomar conta. Quando o carro parou em frente à minha casa, eu já estava quase convencida de que estava viajando demais. Mas então Rômulo tocou meu ombro.
— Espere.
Virei o rosto. Os olhos dele estavam claros, límpidos, me fitando sem expressão.
— Estou apaixonado por você — disse, firme, sem sorrir. — Pelo seu jeito doce, sua voz quente, seu ar de menina.
Um arrepio me atravessou. Seus olhos ficaram cor-de-rosa, tão transparentes que me deram medo.
— Eu… — gaguejei, abrindo a porta às pressas. — Não posso. Desculpa.
E corri.
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A noite foi um festival de tormentos. Me remexia sem parar, presa em pesadelos bizarros: zumbis, super-heróis, criaturas brancas sem rosto.
— Joana? — minha mãe apareceu na porta, rindo baixinho. — Você tá gritando tanto que parece filme de terror.
Expliquei que não sabia o que estava acontecendo. Que talvez eu só estivesse… louca.
Ela riu mais ainda e voltou a dormir. E eu fiquei ali, encarando o teto, me sentindo paranoica.
Sério.
Quem em sã consciência conclui que o garoto misterioso da escola só pode ser… não humano?
Pois é. Eu.
Mas, quando amanheceu, decidi uma coisa: não vou sofrer mais por isso. Se Rômulo é um enigma, problema dele. Eu não vou adaptar ele à minha vida. Vou atrás da minha felicidade.
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No dia seguinte, ele não estava lá no horário de sempre. Minha mãe fingiu que não notou; eu também.
Fechei os olhos no banco da condução e deixei a música dos Gigantes me distrair, até que Darwin entrou no veículo. Ela tentou ser discreta, mas eu percebi na hora.
— Noite ruim? — perguntou, mexendo nos cabelos agora tingidos de laranja com as pontas brancas.
— Pesadelos demais — respondi, sem pensar. Depois franzi o cenho. — O que você fez com o cabelo?
Ela me olhou, magoada.
— Não gostou?
Arrependimento instantâneo.
— Gostei, sim! — corrigi rápido. — É… diferente. Legal mesmo.
Ela sorriu, animada de novo. Nos últimos tempos, pintar o cabelo em cores berrantes tinha virado moda. Eu nunca liguei muito pra isso, mas Darwin adorava.
— Então… que tipo de pesadelos? — insistiu, curiosa.
— Zumbis, super-heróis, essas coisas.
Ela revirou os olhos.
— Você é tão antiga, Joana. Até nos sonhos.
Assenti, meio rindo. Talvez fosse mesmo culpa da Bianca e sua mania de clássicos.
— Ah, e adivinha? — disse Darwin, os olhos brilhando. — Estou saindo com John Misters.
— Mentira! — minha empolgação foi genuína. — O americano que é sonho de consumo da escola toda? Como você conseguiu isso?
Ela apontou pro próprio corpo com um gesto dramático e sorriu.
— Isso aqui, né, colega?
Caímos na risada juntas.
O ônibus parou. Mais um dia de escola nos esperava.
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Falávamos animados sobre o escolhido do jogo de hoje — Rafa Will — quando uma algazarra desviou nossa atenção. Um grupo se aglomerava adiante, tentando enxergar o que acontecia fora do meu campo de visão.
Demi e Silver, um casal recém-formado da sexta série, discutiam em voz alta, sem o menor pudor de se expor diante de todos.
Revirei os olhos quando Darwin correu para se juntar ao burburinho. São só crianças, pensei, tentando ignorar.
Foi então que senti o peso de um olhar. Virei o rosto e o encontrei: Rômulo me observava de longe, sério demais para o caos ao redor.
O toque do meu skyped me fez estremecer. Desenhei o quadrado no ar quase no automático. Do outro lado, Rômulo balbuciava algo, como se fosse apenas uma gravação.
Aguardei alguns segundos até que a imagem se estabilizasse — e eu estava certa. A voz dele invadiu meus ouvidos:
— Se não quiser saber de mim, ignore a mensagem. — Sua fala era dura, quase áspera. — Mas se ainda houver alguma esperança pra gente, esteja no ginásio depois da aula.
Respondi apenas com um “ok”, preguiçosa demais para gravar um vídeo. Quando conferi, ele já havia saído.
No outro canto, percebi Darwin e John aos amassos. A briga tinha terminado tão rápido quanto começara.
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A aula de história me roubava o sono. O professor Marcel falava sobre a ditadura militar do século XX, e eu tentava prestar atenção, ainda meio sonolenta. Nunca gostei muito de história. Gosto da época em que vivo; por que preciso saber tanto do passado?
– Quem foi Jango? — perguntou ele, a bola de tênis na mão, quicando de um lado para o outro.
De repente, lançou a bola em mim. Eu, distraída, só consegui pegar por puro reflexo.
– É, é... — gaguejei — um presidente, certo?
Ele sorriu e fez sinal para que eu continuasse.
– Eu não sei — admiti, sincera.
Darwin levantou a mão.
– Vai, fala você — pedi, passando a bola.
Ela sorriu. Darwin sempre mandava bem em história.
– Foi um presidente deposto pelos generais, que assumiram o poder. Acabou exilado na Argentina, onde morreu. Só foi reconhecido oficialmente como presidente em 2013.
O professor assentiu satisfeito.
– Obrigado, senhorita Darwin.
Depois disso, ele me fez mais quatro perguntas. Acertei nenhuma.
– Detesto história — resmunguei para Darwin na saída — Nem sei por que me inscrevi nessa aula.
– Por minha causa — ela lembrou.
– Ah, é... — revirei os olhos.
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