Notas iniciais
Demorei mas to aqui, vamos ao capítulo

Fui de fininho até o ginásio. Não queria especulações.


— Desculpa se te assustei ontem — a voz de Rômulo ecoou lá de dentro. Entrei. Ele me encostou contra a parede e tocou seus lábios nos meus. — E se assustei agora.


— Uau... — exclamei, surpresa. — O que queria afinal?


— Uuh, eu gostaria de participar também.


A voz veio de trás. Olhei junto com Rômulo. John estava saindo do banheiro.


— O que você quer aqui? — Rômulo perguntou, sem me soltar.


— Ela — John piscou para mim.


Franzi a testa. Esse mala não estava com a minha melhor amiga?


— Tá maluco, cara? — Rômulo soava quase antiquado, como eu. — Ela tá comigo.


John deu de ombros, com aquele sorriso cínico.


— Não me importo, cara. E eu também tô comendo uma aí, então estamos quites.


— Você o quê?! — gritei. Droga, Darwin, por que você tinha que ser sempre tão... moderna?


Ele só riu.


— Sai daqui — Rômulo disse, a voz baixa, mas carregada de ameaça.


John não se moveu.


— Tô avisando.


Era a hora em que ele devia correr numa velocidade impossível e arrancar a cabeça do outro com os dentes.

Tá. Eu sei. Eu leio demais.


John riu de novo, aproximou-se como um cavaleiro medieval e enfiou a mão no meu peito.


— Ei! — gritei.


Rômulo avançou, derrubando-o contra a parede e segurando-lhe o pescoço. Seus olhos ardiam em chamas laranjas.


John reagiu com um soco. Gritei. Os dois se engalfinharam, incontroláveis.


Corri desesperada pelos corredores até topar com a diretora. Ela me encarou com uma mistura de reprovação e sorriso.


— John e Rômulo... — falei ofegante — no ginásio.


A testa dela se franziu.


E então tudo escureceu. Eu caí.


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A briga foi contida por Genon e Kibe, os dois humanóides da diretora. As engrenagens tilintavam, e faíscas saltavam quando John, num surto de força, conseguiu quebrar os dois braços metálicos dos robôs. Eles caíram pesados no chão, em modo de emergência. Ao menos, nenhum humano se feriu.


Rômulo largou eu e Darwin em casa, o silêncio só quebrado pelos soluços dela. Chorava e se desculpava o caminho inteiro.


– Devia parar de dormir com o garoto que diz que te ama, Darwin — falei, tentando soar maternal — Você tem que se valorizar.


Ela enxugou os olhos com a manga da blusa, irritada.

– Tenho tanta liberdade quanto eles — resmungou, a voz embargada.


– Eu sei — respondi suavemente — É o seu corpo, sua vida... mas também suas consequências. Só quero que tome cuidado. Olha o estado que você está!


As lágrimas voltaram a rolar, e ela balançou a cabeça em negação, como se quisesse fugir das próprias escolhas.


Na entrada de casa, Rômulo parecia inquieto. Suas mãos tremiam no volante, e os olhos… âmbar, quase faiscando. Ele não disse nada, e eu também não perguntei. Havia algo ali que não era só humano, mas não era a hora de descobrir.


Dei um beijo em Plin e Bianca e me atirei na cama, exausta. Bianca nunca ficou sabendo que eu tinha desmaiado.


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Tive um sono profundo, como se alguém tivesse recarregado minha bateria durante a noite. Acordei animada, leve, quase elétrica.


Era dia do aniversário da escola — trinta e dois anos de história — e a programação seria especial. Sabíamos que metade da escola faltaria, e a outra metade só iria porque precisava se apresentar. Eu, claro, iria de qualquer jeito. Pode me chamar de antiquada, mas eu amo esse ambiente: olho no olho, mãos frias ou quentes, o carinho de um abraço verdadeiro. As telas não me dão isso.


Todos os grupos artísticos estavam escalados: coral, teatro, balé, hip-hop, dança moderna, líderes de torcida, atletas. Eu entraria no teatro e na dança moderna — paixões recentes, mesmo que o teatro fosse pressão da Darwin. O amor tem dessas coisas, muda gostos sem pedir licença.


Pouco antes do café, minha carona chegou. Rômulo me esperava no portão.


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No carro, ele falava empolgado: ia cantar, sozinho. Disse que nunca tinha feito isso “de onde vinha”. Essa frase, como tantas outras dele, me deixou desconfiada, mas não insisti.


Na escola, andamos de mãos dadas. A fofoca se espalhou como pólvora. Quando dei por mim, já éramos oficialmente “namorados” para todo mundo.


Distribuíam pipoca, refri, cachorro-quente, sorvete. Peguei a pipoca e um copo gelado de refrigerante, enquanto Rômulo desaparecia para os bastidores.


Carl cantou primeiro, depois Pink. Então, chegou a vez dele.


Vestia um terno branco de lado avesso — moda estranha, mas que nele parecia natural. Encostou o violão na perna, ajeitou o microfone e me procurou com os olhos.


Sorriu.

– Vou oferecer essa pra Joana, a garota que me fez sonhar.


Vieram gritos, assovios, provocações. Senti meu rosto esquentar.


Ele dedilhou três notas, e então começou:


– Mesmo que você não caia na minha cantada, mesmo que você conheça outro cara... 10, 20, 30 anos, até se assustar com os seus cabelos brancos.


A melodia era antiga, mas parecia escrita para nós. Fiquei imóvel, o coração martelando.


Quando a última nota morreu no ar, houve um silêncio breve. Então, a plateia explodiu em aplausos e gritos. Alguns batiam os pés no chão, outros imitavam corações com as mãos.


Ele desceu correndo, ainda com o violão na mão. Trocaram-lhe o traje rapidamente, mas antes mesmo de chegar ao meu lado já havia quem cochichasse, risse, apontasse.


Quando finalmente me abraçou, segurei sua nuca e sussurrei:

– Você é um fofo.


Ele riu, acariciou meu rosto e segurou meu queixo. O mundo inteiro ficou quieto no instante em que nossos olhos se prenderam.


Então ele me beijou com ardência e verdade. Beijei-o de volta, esquecendo da plateia.


O aplauso veio como um trovão.


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O aplauso ecoava pelo ginásio, ainda que eu tentasse me convencer de que era pela apresentação — não pelo beijo. Mas era impossível: a plateia gritava o meu nome junto com o dele.


De repente, senti alguém me puxar pelo braço. Era Darwin, com os olhos arregalados e um sorriso largo que não cabia no rosto.


– Minha melhor amiga beijando o astro do dia! – ela gritou, sem nenhum filtro, levantando meu braço como se eu fosse uma atleta campeã. – Palmas redobradas, senhoras e senhores!


O público riu e, obediente, bateu palmas mais forte ainda.


– Darwin! – protestei, o rosto queimando.


– Ah, qual é, Joana! – ela piscou para mim – Você está vivendo o sonho de metade da escola. Não me venha com vergonha agora.


Ela me abraçou com força, rodopiando comigo como se fosse uma cena de musical.


Rômulo, ao lado, observava a cena com aquele ar enigmático, mas um meio-sorriso escapava dos lábios. Eu tinha certeza: ele também gostava de Darwin, não no mesmo sentido que eu, mas da energia dela. Era impossível não gostar.


– Tá vendo? – ela cochichou, enquanto me largava – Eu disse que teatro te mudaria. Mas olha só, foi a vida real que te deu o papel principal.


Balancei a cabeça, rindo.

– Você é impossível.


– Não, sou incrível – corrigiu ela, fazendo reverência para a plateia, que aplaudiu de novo, sem nem saber por quê.


E assim, em meio ao caos, à fofoca e ao espetáculo, percebi que estar perto dela tornava tudo mais leve.


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As horas correram como se tivessem pressa de me empurrar para o palco. Quando anunciaram a dança moderna, senti o estômago revirar.


Darwin apertou minha mão, confiante como sempre.

– Relaxe, Jo. A gente vai arrasar.


O grupo entrou em fila. A música começou com batidas fortes, vibrando pelo chão e atravessando meu corpo como um raio. Esqueci a vergonha, esqueci a plateia. Só existia o ritmo.


Nossos corpos se moveram em sincronia, rápidos e precisos, com giros, saltos e quedas no chão. Darwin era um furacão no palco: cabelos coloridos balançando, sorriso estampado, transmitindo pura alegria. Ela parecia nascer para aquilo.


De repente, percebi que estava sorrindo também. Pela primeira vez em dias, não havia medo, nem dúvidas, nem a sombra do que eu sonhara. Só a música, o suor, a energia que parecia incendiar meus músculos.


Na plateia, vi Rômulo me observar. Seus olhos não eram de uma cor comum — não consegui distinguir, mas pareciam brilhar na mesma cadência da música.


O público vibrou quando terminamos com a pose final, todos caídos no chão, braços abertos. Gritos, aplausos, assovios. Eu respirava ofegante, mas não queria que acabasse.


Darwin me puxou para frente, e dessa vez fomos nós que recebemos a onda de aplausos.

– Viu só? – ela cochichou, rindo – Quem precisa de príncipe quando se tem palco?


Eu ri junto, mesmo sabendo que meus olhos ainda procuravam por Rômulo, imóvel na plateia, como se quisesse me decifrar.


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Mal tivemos tempo de agradecer os aplausos. Darwin agarrou minha mão e me puxou do palco com força.


– Vem, Joana! – ela gritava, rindo – A gente ainda tem que virar atriz em menos de cinco minutos!


Corremos pelos corredores apertados dos bastidores, desviando de bailarinas de tutu, meninos de uniforme de banda e até de um malabarista perdido que quase deixou as bolinhas caírem na nossa cabeça.


– Você enlouqueceu! – reclamei, tentando acompanhar o ritmo dela – Ainda tô sem fôlego da dança!


– Então respira correndo, porque se atrasar é pior! – ela respondeu, puxando meu braço como se eu fosse uma boneca de pano.


Entramos na pequena sala de camarim. Figurinos coloridos estavam espalhados pelas cadeiras e cabides. Darwin já arrancava a blusa e vestia o figurino do teatro como se tivesse treinado para uma prova de velocidade.


Eu, ainda arfando, olhei para a confusão de roupas.

– Qual é mesmo a minha?


Ela apontou, rindo da minha cara desesperada.

– Aquela ali, a de cor esquisita. Anda logo, antes que o professor venha arrancar a gente pelos cabelos!


Enquanto trocávamos às pressas, ouvimos o microfone do auditório anunciar a próxima atração.


– É agora – Darwin disse, já maquiada com dois rabiscos de batom que fez em tempo recorde – Preparada, estrela?


Engoli seco, segurando o figurino contra o corpo.

– Nem um pouco.


– Ótimo – ela piscou – Quer dizer que vai ser incrível.


E sem me dar tempo de respirar, me puxou de novo para o palco.


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As cortinas se abriram e a plateia pareceu se multiplicar diante dos meus olhos. Luzes fortes me cegaram por um instante, e meu estômago se contraiu como se eu tivesse engolido um milhão de borboletas.


Darwin, ao meu lado, parecia estar em casa. Ela sorria, acenava discretamente para alguém na plateia e segurava minha mão por trás do cenário de papelão.


– Relaxa, Joana – sussurrou, ainda sorrindo – O público só percebe que você errou se você deixar escapar no rosto.


– Fácil falar – resmunguei, com a boca seca.


A primeira fala era minha. Respirei fundo e, de alguma forma, as palavras saíram:


– “Oh, quão ingrata é a noite que nos afasta do amanhecer.”


Não lembrava se era exatamente isso, mas a entonação deu certo. O público manteve silêncio, esperando.


Darwin entrou logo depois, com sua voz firme e divertida, que sempre arrancava risadinhas mesmo em falas sérias:


– “E ingrato é aquele que não vê que a noite também é um abrigo.”


Alguns alunos no fundo riram da ênfase exagerada, e ela piscou para eles.


A peça seguiu, mas a cada fala eu me confundia mais. Em um momento, deveria dizer “meu coração é uma fortaleza”, mas saiu:


– “Meu coração é… um armário trancado.”


Um silêncio mortal caiu sobre o palco. Meu rosto queimava.


Darwin, sem perder o ritmo, virou-se dramaticamente para mim:


– “Um armário? Que bela metáfora! Pois há corações que escondem segredos como roupas velhas.”


A plateia caiu na gargalhada e começou a aplaudir.


Meu pânico virou alívio. Segui em frente, e, estranhamente, o improviso continuou a fluir. Darwin conduzia com leveza, como se fosse parte do roteiro desde o início.


No fim, fomos aplaudidas de pé. Eu mal sabia se ria ou chorava, mas Darwin me puxou pela mão e fez uma reverência exagerada, como se estivéssemos em Broadway.


– Viu? – ela cochichou, ainda sorrindo – Ninguém nunca vai lembrar da sua fala errada. Só da risada que demos juntos.


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O auditório estava virado de ponta-cabeça. Copos descartáveis espalhados, pipoca pisoteada no chão, cadeiras tortas em fileiras que não faziam o menor sentido. O cheiro de cachorro-quente ainda impregnava o ar.


– Isso aqui parece cenário pós-apocalipse – resmunguei, arrastando duas cadeiras para o canto. – Se aparecer um zumbi agora, eu juro que não vou notar a diferença.


Darwin gargalhou enquanto tentava equilibrar três sacos de lixo ao mesmo tempo.


– Relaxa, Jô. Festa boa é assim mesmo. Se tivesse tudo limpo, eu ia desconfiar que ninguém se divertiu.


Revirei os olhos, mas não consegui deixar de rir. Ela tinha razão.


Um grupo de meninos da oitava série passava carregando a caixa de som, ainda ligada, e a música escapava em estalos. De repente, a voz de um deles ecoou:


– Ei, Joana! Improvisadora do ano!


Mais gargalhadas. Eu só cobri o rosto com as mãos.


Darwin, claro, não perdeu a chance:


– Improvisadora e dançarina, não esqueçam! – gritou, como se eu fosse algum tipo de estrela.


– Darwin! – protestei, mas ela já estava jogando uma das sacolas de pipoca vazias em cima da minha cabeça.


A diretora apareceu na porta, segurando uma prancheta e com expressão cansada.


– Vocês duas… – apontou para nós. – Obrigada pela ajuda. Se não fosse por alunas como vocês, eu já teria fechado esse colégio há uns dez anos.


Darwin fez uma reverência exagerada.


– Sempre à disposição, madame.


Eu só sorri, tímida, enquanto pensava no quão estranho era me sentir parte de tudo aquilo.


Pouco depois, Rômulo apareceu encostado na porta, as mãos nos bolsos, observando. Seu olhar se prendeu em mim, e, por um instante, o barulho do ginásio sumiu.


Darwin me cutucou de leve.


– Vai lá, namoradinha da estrela do palco. Eu seguro o forte aqui.


Revirei os olhos, mas senti o rosto arder.


Enquanto ela voltava a arrastar sacos de lixo como se fosse a rainha da bagunça, eu me aproximei devagar de Rômulo, ainda com o coração acelerado por tudo que tinha acontecido.


Era o fim da festa, mas parecia também o início de algo que eu ainda não sabia nomear.


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O salão já estava quase vazio, só restavam vozes distantes e o barulho dos últimos papéis sendo varridos. Eu e Darwin éramos praticamente as últimas de pé.


– Pronto, agora sim – ela disse, batendo as mãos cheias de poeira, depois de alinhar a última cadeira. – Se a diretora entrar agora, vai pensar que contratou empresa de limpeza.


Olhei em volta: tudo em ordem, tirando um restinho de confete brilhando no chão. Suspirei, aliviada.


– A gente arruma mais do que bagunça – comentei, meio rindo.


Darwin ergueu a sobrancelha.


– E arruma confusão também, não esquece. Mas ó… – ela se aproximou, apoiando o braço no meu ombro – você foi incrível hoje. No palco, dançando, improvisando. Eu sempre soube que você tinha isso em você.


Meu rosto esquentou de novo.


– Você só fala isso porque gosta de me ver passando vergonha.


– Talvez – ela piscou. – Mas também porque é verdade.


Nos olhamos cúmplices por alguns segundos, até que a diretora anunciou o fim oficial do evento. Darwin deu um grito de alívio, jogou o pano de limpeza para o alto e saiu correndo para o corredor.


– Vamos, Jô! – ela gritou. – Senão vou embora sem você!


Eu ri, pegando minha mochila. A sensação era de que, apesar do cansaço, tinha valido a pena cada segundo daquela noite.


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Do lado de fora, a noite estava fresca, iluminada pelos postes da rua. O colégio ia ficando para trás, aos poucos mais silencioso. Darwin já tinha se enfiado no carro da família dela, gritando “até amanhã, losers!”, e eu fiquei rindo sozinha no portão.


Foi quando percebi Rômulo no carro dele, me esperando.


– Quer carona? – ele perguntou, simples, como se fosse a coisa mais natural do mundo.


Meu coração deu um pulo.


– Eu moro perto… – comecei a dizer, brincando, fingindo que não conhecia ele.


– Melhor ainda — ele respondeu, levando a sério, como sempre — Assim a gente vai conversando.


Ficamos lado a lado, as luzes laranjas dos postes se alternando na calçada. Eu segurava a alça da mochila com força, tentando não parecer nervosa.


– Você foi… muito bem hoje – ele disse, olhando para frente. – De verdade. Eu nunca teria coragem de improvisar daquele jeito.


Sorri, meio sem graça.


– Foi só sorte.


– Não. – Ele balançou a cabeça. – Foi você.


As palavras ficaram suspensas no ar, deixando meu rosto ainda mais quente. O silêncio que veio depois não foi desconfortável, mas cheio de possibilidades.


Enquanto o carro andava, percebi que a noite não parecia ter pressa de acabar.