Dois meses depois...

Eu estava me sentindo sozinha, depois que terminei com Brian e a Daniela havia começado a namorar com o nerd da turma. Ela não saia mais comigo e minhas semanas foram, casa, colégio, colégio e casa. Não havia ninguém para falar comigo sobre qualquer coisa já que Daniela se dedicava a maior parte do seu tempo ao seu namorado Carlos.

Estava no refeitório do colégio almoçando em uma mesa sozinha. Brian e Kimberly sempre sentavam uma mesa ao lado da minha. Mas eu já nem ligava mais para eles.

— Maria. _ Charlie sentava alguns dias comigo no refeitório. Mas isso era difícil acontecer. Já que quase todos os dias alguém o convidava para se sentar em outra mesa. Ele passou de esquisitão pra popular do colégio e eu de popular passei a ser a traída.

_ Oi Charlie. _ Ele se aproximou do meu lado e se sentou. Ele não estava com nenhuma bandeja ou mochila nas costas. O sinal já estava quase tocando para voltarmos a aula, dava para entender.

— Maria, quero te convidar para sair comigo hoje. _ Ele virou seu corpo de frente pro meu, colocando uma das pernas dobradas em cima do único pedaço de banco que estava entre nós.

— Sair? Tipo um...

— Não. Sua pai estava falando com o meu ontem no hospital. Eu acabei escutando a conversa. Desculpe. _ Franzi a testa e o encarei, virei meu corpo de frente pro dele da mesma maneira que ele estava, mas deixei minhas pernas no lugar.

— O que exatamente meu pai estava falando? E o que estava fazendo no hospital? _ Queria entender exatamente o que ele estava fazendo ali já que meu pai detesta que eu vou lá ou passe lá.

— Que andava muito sozinha, e eu não tive tempo de conhecer a cidade. Nem as pessoas daqui. Podemos ser úteis um para o outro.

Balancei a cabeça negativamente e sorri.

— Eu não estou me sentindo bem hoje. _ Lembrei que o meu estômago estava se revirando a manhã toda. Devia ter sido o bolo que comi ontem a noite escondido, e a vontade de vômitar não passava, não podia sair com ele pra vomitar em cima dele.

— Ótimo, podemos sair amanhã. Já que é sábado. É perfeito. _ Ele parecia animado, de um jeito que eu não tinha o visto antes.

— Tá bom, saímos amanhã. _ Ele deu um sorrisinho de lado.

— O que você tem?

— Roubei um bolo ontem a noite da geladeira. _ Disse rápido.

— Isso que dá roubar. _ Ele riu baixo e eu ri também.

O sinal tocou e ele se levantou.

— Te pego na sua casa amanhã cedo.

— Cedo? Quanto cedo?

— Cedo. _ Ele se virou de costas e saiu andando.

— Cedo... _ Murmurei pensativa, eu não gostava de acordar "cedo".

Peguei minha mochila e voltei para a aula de anatomia. Que era particularmente interessante e eu gostava.

— Queridos, boa tarde. _ Senhora Amélia entrou sala a dentro com três mochilas penduradas nos dois braços e na mão um notebook.

— Boa tarde. _ Parte da sala respondeu em coro.

—Vamos fazer duplas, trabalho. _ Todos da sala se levantaram e começou o maior barulho, cadeiras se arrastando, gente falando.

E em dois minutos todos já tinham a sua dupla, menos eu.

— Maria, vamos. Rápido. _ Olhei para trás e não tinha ninguém sem par. Carlos e Daniela. Ana e Carolina.

— Eu. _ Charlie entrou afobado dentro da sala.

— Está atrasado Charlie.

Charlie parou bruscamente, e tentou achar o ar. Ele estava realmente cansado. Tentou falar mas nada saiu.

— Sente-se logo Charlie. _ A professora gritou e ele atravessou a sala.

— Oi de novo._ Ele abaixou o rosto até próximo o meu e colocou a mochila no chão, sem tirar os olhos dos meus por nenhum segundo. Então ele levantou e puxou uma cadeira até ao lado da minha, e então uma mesa, e se sentou.

— O trabalho é sobre o funcionamento do sistema digestório... _ Virei o rosto para encarar a professora.

— Quero ir ao lago amanhã... _ Desviei o olhar para ele e levantei a sobrancelha e ele sorria.

— Ainda não me contou o que fazia no hospital ouvindo conversas dos outros. _ Ele ainda sorrindo se ajeitou na cadeira, ele olhava para o professora, mas a atenção dele não estava nela.

— Estava visitando um amigo.

— Achei que era médico nas horas vagas.

— As vezes eles me chamam, quando não conseguem fazer alguma coisa.

— Para você matar o paciente? _ Ele me olhou por dois segundos e ainda com o sorriso no rosto voltou a olhar para frente.

A professora começou a passar fotos de bolhas no sistema digestório, e aquilo fez meu estômago embrulhar e o vomito subir até a minha garganta. Tentei respirar mais ele estava saindo. Então eu me levantei da cadeira, e sai correndo da sala. Corri pelo corredor, abri a porta do banheiro, fui até um deles, me sentei no chão e deixei tudo que estava lá dentro sair para fora. Então eu consegui respirar fundo e vomitei de novo.

Peguei o papel higiênico que estava do meu lado e limpei minha boca, me sentei no chão, para recuperar minhas forças, encostei minhas costas na porta.

— Maria? _ Era a voz do Charlie. _ O que houve?

— Na porta está escrito banheiro feminino. _ Disse baixinho, ainda estava sem ar. Abri a porta e ele estava graciosamente encostado na pia com as duas mãos no bolso me olhando.

— Eu até vi. _ Ele tirou as mãos do bolso, se desencostou e veio até mim, entrou no banheiro e se sentou do meu lado. _ Posso ligar pro seu pai.

— É. Eu preciso que alguém me leve pra casa.

— Não quer ir pro hospital?

— Não, só quero descansar.

— Eu te levo pra sua casa. _ Respirei fundo e encarei ele.

— Obrigada.

Charlie se levantou do chão, estendeu a mão para me ajudar. Peguei a mão quente dele e me levantei desajeitada. Respirei fundo e percebi que já estava melhor.

Saímos juntos do banheiro, não tinha ninguém no corredor, então não teríamos problemas. Saímos juntos do Colégio, descemos as escadas e fomos até o estacionamento.

— Quantos anos você tem?

— 17

— Não deveria dirigir.

Caminhamos até o Jeep preto, ele desligou o alarme e abriu a porta para mim, me sentei no banco do carona. Ele atravessou o Jeep e entrou. Deu partida e acelerou.