Os próximos dias que se passaram. Charlie quase não me ligou, quase não falou comigo. Eu fui a aula apenas os dias que acordei me sentindo bem, o que era raro porque quase toda a manhã vomitava. Charlie respondia apenas minhas mensagens de "bom dia" e "boa noite", até que chegou o dia da minha consulta. Charlie buzinou cedo na porta de casa e eu desci. Era a primeira vez que o veria desde a morte da Melissa.

— Bom dia. _ Fechei a porta do carro e me arrumei no banco.

— Bom dia. _ Ele estava me olhando com um sorriso branco e verdadeiro.

— Está melhor? _ O sorriso dele me fez sorrir instantaneamente.

— Estou. _ Ele acelerou o carro e deu partida.

Alguns minutos depois chegamos no consultório.

— Bom dia. _ O médico logo nos cumprimentou quando chegamos.

Me sentei na maca dele para fazermos um outro ultrassom.

O médico deu um sorriso enorme quando colocou o aparelho de ultrassom na minha barriga.

— Já escolheram os nomes? _ O médico me encarou e depois olhou para o Charlie.

— Não. _ Eu disse rápido.

Charlie se aproximou da tela do ultrassom.

— Você está de cinco meses querida e seu bebê é um homenzinho.

Arregalei os olhos olhando pro Charlie que sorriu igual um bobo.

— Podem escolher o nome agora. E ele está perfeitamente saudável.

Ele me limpou, foi até a mesa dele e se sentou.

— Seus exames estão ótimos, exceto por uma anemia. Mas isso as vitaminas que te passei vão melhorar, já podemos pensar na possibilidade de um parto normal.

— Que ótimas notícias. _ O Charlie disse.

— Só boas notícias.

Logo saímos do consultório.

Charlie dirigia pensativo.

— Antes de sairmos de volta pra nossa pacata vida no interior quero comprar um presente pro nosso bebê. _ Encarei ele. Ele dirigia com um sorriso no rosto. Me olhou por alguns segundos e logo voltou a encarar a estrada.

Ele parou no estacionamento de uma loja enorme. Descemos, eu encarava a loja e ele ao mesmo tempo.

— Charlie não precisa comprar nada.

— Quieta Maria, presente não se recusa. Você diz muito obrigada e sorri. _ Ele passou o braço por cima do meu ombro e me abraçou de lado. Entramos na loja. Ela era enorme e era chique. Uma loja de crianças e bebês.

Eu o encarei e ele sorriu. Um mulher bem vestida veio nos atender.

— Bom dia, como posso ajuda-los?

— Precisamos de algumas coisas pro nosso bebê. _ Ele disse pra moça, virei o rosto encarando.

— Me acompanhe.

— É um menino _ Ele desviou o olhar de mim olhando pra moça.

— Parabéns. _ Subimos a escada rolante. O segundo andar tinha só coisas de meninos. Muitas coisas de meninos.

Ela entregou uma arminha de marcar produto para o Charlie. Fique a vontade para comprar o que quiserem. É só passarem na identificação do produto que no final pegamos tudo e embrulhamos. Ela saiu.

— Essa arminha faz a gente querer comprar mais. _ Ele riu baixo e se afastou de mim indo até um lugar onde ficavam várias roupinhas de bebê.

— Por favor, não sai comprando a loja toda. _ Falei alto e fui atrás dele.

Charlie ficou no mínimo umas duas horas dentro daquela loja, meus pés já estavam doendo de tentar acompanha-lo e discutir com ele sobre o que ele não podia comprar. Estava sentada em uma poltrona confortável esperando os produtos serem embrulhados para irmos embora. Senti um desconforto na barriga e coloquei a mão sobre ela. Ele estava se mexendo dentro de mim. Arregalei os olhos e encarei Charlie que estava me olhando de longe e me encarou.

— O que? Tá doendo? _ Ele se aproximou de mim sério.

— Me dá sua mão. _ Ele estendeu a mão, peguei a mão dele e a coloquei em cima da minha barriga. Então ele sorriu e entendeu o que estava acontecendo.

Ele se ajoelhou na minha frente, olhando minha barriga enquanto o bebê se mexia la dentro.

— Ele está se mexendo. _ balancei a cabeça positivamente.

— Está tudo pronto. Que ajuda pra levar até o carro? _ a moça se aproximou. Charlie se levantou e encarando com o mesmo sorriso de segundos atrás.

— Sim. Por favor. _ Então ela saiu e ele estendeu a mão para me ajudar a levantar. Levantei e fui para o carro com ele.

O homem estava colocando as coisas dentro do carro. Era muita coisa. Tanta que ocupou o porta malas, o banco de trás e um berço no teto do carro.

Voltamos para casa. Charlie desceu do carro, meu pai estava no jardim e veio até nos assim que Charlie parou o carro.

— Quanta coisa. _ Meu pai colocou a mão no bolso do seu moletom.

— Nosso menino precisa ter o melhor. _ Charlie desceu do carro e fechou a porta, desci do carro também olhando meu pai.

— Menino? _ Ele tentou segurar um sorriso mas não conseguiu. Meu pai estava sorrindo com a notícia.

— Lindo e saudável pai.

Meu pai e o Charlie desceram todas as coisas que estavam no carro, e colocaram no meu quarto. Ursinhos, roupinhas, banheira, carrinho, meu quarto ficou entupido de coisas de bebês naquele dia. Eu e Charlie ficamos até tarde da noite tentando organizar as coisas no meu quarto.

— Precisamos de uma casa. _ Levantei o olhar encarando ele.

Ele estava sentado no chão do meu quarto com uns carrinhos de pelúcia na mão.

— O que está querendo dizer?

— Que precisamos de uma casa para criamos nosso filho.

— Charlie, você quer fazer isso mesmo?

— Sim, ele vai saber que tem um pai. Que o ama. A não ser que não queira isso.

— Eu não sei o que dizer nem o que pensar. _ Ele sorriu.

— Então não diga e nem pense.

Jantamos ali em casa e voltamos para arrumar a bagunça de plasticos e papeis que tinha ficado. Quando dei por mim, Charlie estava dormindo no canto da minha cama. Ele assim como eu deveria estar cansado. O tampei, depois me deite ao lado dele também. Não consegui dormir de imediato. A presença dele ali do meu lado estava me tirando o sono. Como que alguém tão bonito, rico e inteligente assumiria um bebê que não é dele. Eu nem o conheço direito e nem ele a mim.

Isso era loucura, mas não sabia o que fazer.