Estrela da minha noite
24 Capítulo 24 - Ed
Uma semana havia se passado desde a morte das irmãs do Charlie.
Eles ainda estavam morando em minha casa, eu ainda tomava café da manhã ao lado do pai dele na mesa e Charlie ainda dormia na minha cama ao lado de Ethan. Na verdade Charlie mal dormia, e mal se alimentava. Ele saia algumas noites e dizia que era pra correr, algumas noites ele chegava suado, outras noites ele chegava bêbado. Eu sentia que o corpo dele estava ali, mas a cabeça não. Entramos de férias do colégio e sinceramente, eu odiei porque daria a ele mais tempo para sofrer pela perca das irmãs.
Charlie era carinhoso comigo o tempo todo, sempre atencioso e cuidadoso em relação ao Ethan, ele tinha um amor por ele que poucos pais tem pelos seus filhos e sempre estava disponível para cuidar dele.
Acordei na manhã de sábado primeiro que o Charlie, pela primeira vez em todos os dias que ele esteve aqui. Ethan estava dormindo no berço perto da cama, como um anjinho. Desci devagar da cama para não acordar nenhum dos dois. Entrei no banheiro, escovei os dentes e lavei o rosto. Amarrei meu cabelo em um rabo de galo e sai devagar. Ambos ainda dormiam. Peguei uma calça e uma blusa de frio e sai do quarto, fechando a porta lentamente para evitar qualquer tipo de barulho. Me troquei no corredor da minha casa, eu sabia que estava muito cedo para qualquer pessoa ali estar acordada. Desci as escadas devagar e sai para fora de casa. Estava frio, mas não tão frio para eu não fazer uma caminhada, aproveitar e passar na loja de rosquinhas na volta.
Então encarei o vento gelado e comecei a caminhar. A vizinhança era quieta, só os poucos cachorros que adoravam fazer escândalo toda vez que alguém passava na porta da sua casa.
— Bom dia Maria. _ Olhei para o lado, era o Senhor Gilbert lendo um jornal na cadeira de balanço de sua varanda. Sorri e balancei a mão o cumprimentando. Eu morava aqui fazia um certo tempo e saia para passear quase sempre, antes de tudo acontecer.
Um vento frio soprou forte fazendo meu corpo inteiro se arrepiar, então eu decidi correr para aquecer meu corpo. Corri uns dez minutos, passei por muitas casas conhecidas e muitas casas novas que eu nem sabia que estava ali. Parei na lojinha de rosquinhas. Ela era toda rosa, por dentro e por fora, sempre foi minha loja preferida de todas. Ela era pequena e tinha uma decoração fofa e acolhedora. Havia poucas pessoas na loja.
— Bom dia Maria. _ Ed gritou assim que me viu entrar pela porta. E as poucas pessoas que estavam ali me encaram.
Ed era meu amigo de infância. Os avós dele eram donos da loja e ela sempre esteve ali. Mas Ed morava no Canadá e visitava os avós apenas nas férias e foi em uma dessas férias que conheci ele. Eramos pequenos quando nos vimos pela primeira vez. Meu pai me levou para comprar uma rosquinha e ele estava no balcão na ponta do pé tentando ter altura suficiente para nos atender. E agora, ele estava enorme. Com o cabelo preto ondulado todo bagunçado de baixo de um boné rosa. Dá última vez que tinha o visto ele usava uma fantasia do Batman. E agora ele tinha dois percingis no nariz e alargadores na orelha e várias tatuagens espalhadas pelos braços que a camiseta preta insistia em esconder, e estava mais malhado, com certeza, ele era tão magro que podia ser carregado pelo vento.
— Oi Ed. _ Caminhei até a bancada e me sentei. Ele se encostou no outro lado do balcão e me encarou alguns segundos com os olhos semicerrados e um sorriso idiota no rosto. Como ele sempre fazia quando eramos mais jovens.
— Eu nem acredito que estou te vendo de novo, é você mesmo? _ Eu sorri.
— Sim. Sou eu. _ Levantei uma sobrancelha
— Continua linda como sempre foi. _ Ele tirou o sorriso do rosto sem tirar os olhos de mim.
— E você... _ O olhei de cima a baixo. _ O que houve com você? _ Eu ri baixo.
— Estou tão feio assim? _ Ele fez careta e depois sorriu.
— Não está feio, apenas diferente. Não lembro das tatuagens e de tudo isso. _ Apontei discretamente para ele o que fez ele se olhar do pé até onde conseguisse ver.
— Estou bonito assim. _ Ele riu. _ O que a senhorita deseja?
— Rosquinhas, aquelas que eu costumava comprar.
— De chocolate, com recheio de chocolate e com pedaços de chocolates por cima? _ Ele se virou andando atrás do balcão e logo sumiu da minha vista.
— Sim. _ Eu gritei e ele logo apareceu com duas caixas de rosquinha na mão.
— Soube que teve um bebê. Foi a primeira coisa que meus avós me contaram quando cheguei aqui. _ Balancei a cabeça positivamente.
— Ele se chama Ethan.
— Espero que não seja do babaca do Brian, sempre odiei aquele idiota. _ Ele pigarreou. _ Desculpe.
— Não, Brian me traiu. _ Ele franziu a sobrancelha e colocou a caixinha de roscas em cima do balcão. _ Eu sempre soube que ele era um imbecil, mesmo quando eramos crianças. _ Eu ri baixo e ele riu fraco.
— Quem é o pai?
— Charlie, ele se mudou pra cá a pouco tempo. E o bebê foi um acidente, um belo acidente. _ Completei.
— Ele deve ter puxado a mãe.
— Com certeza _ Disse rápido.
— Vocês estão juntos? _ Respirei fundo e o olhei nos olhos.
— Eu acho que sim.
_ Acha? Então ainda tenho chance. _ Eu ri sem jeito e balancei a cabeça negativamente. Peguei as rosquinhas em cima do balcão.
— Quanto te devo?
— Nada, é cortesia da casa por uma cliente tão bonita ter retornado.
— Obrigada então. _ Sorri agradecida, me levantei do banco e ia saindo quando ele chamou
— Maria? Quando posso visitar Ethan? _ Me virei para trás o olhando e sorri.
— Você é bem vindo na minha casa quando quiser. Sabe disso. _ Ele abriu um sorriso ainda maior. Me virei e sai andando devagar de volta para casa.
Cheguei em casa, minha mãe estava sentada na mesa com meu pai, o pai do Charlie e o Charlie. Ethan estava no carrinho ao lado de Charlie.
— Onde esteve Maria? Estávamos todos preocupados. _ Charlie disse assim que me viu entrar pela porta.
Levantei a caixa de rosquinhas, deixando visível aos olhos do Charlie.
— A, foi na loja de rosquinhas? _ Minha mãe se levantou da mesa e pegou as caixas na minha mão e colocou-as sobre a mesa abrindo-as. Respirou fundo, nem era preciso o cheiro das rosquinhas quentinhas deveriam invadir até as casas vizinhas. _ A quanto tempo não vamos a essa loja.
Me sentei na mesa ao lado de Charlie. Ethan estava adormecido no carrinho.
— Já dei mamadeira a ele. _ Levantei o olhar, Charlie estava me encarando.
— Obrigada. _ Sorri.
— Ed ainda vai visitar os avós? _ Meu pai disse e eu virei o rosto o olhando.
— Sim. _ Peguei uma rosquinha e enfiei na boca.
— Ele estava lá? _ Balancei a cabeça positivamente.
— Quanto tempo não o vejo. Deve estar um homem já. _ Disse minha mãe toda feliz e sorridente degustando uma rosquinha.
— Quem é Ed? _ Charlie encarou a rosquinha e depois a pegou.
— Um amigo de infância. Ele disse que virá visitar Ethan _ Charlie me olhou de repente e levantou uma sobrancelha.
— Deveria ter ciúmes dele? _ Ele disse em alto e bom tom para que todos na mesa ouvisse e meu pai soltou uma risadinha.
— Com certeza. _ Pisquei para ele e sorri, ele sorriu de volta e balançou a cabeça negativamente.
Subimos para o quarto após o café. Subi com Ethan nos braços que estava acordado mas todo sonolento. Charlie fechou a porta atrás de mim e pegou Ethan dos meus braços e o colocou no berço. Fiquei encarando sem entender o motivo. Fiquei em é parada perto da porta. Então Charlie se virou e se aproximou de mim, cada vez mais. Até eu sentir seu halito de rosquinha e café, seu calor, seu perfume caro e suave. Charlie colocou a mão por trás do meu pescoço e puxou meu corpo contra o dele e me beijou intensamente. E meu corpo todo se arrepiou entrando em alerta. Até eu sentir que estava ficando sem ar. Até sentir minha língua dormente. Então ele parou e me encarou.
— O que foi isso? _ Falei devagar tentando respirar.
— Pra lembrar você quem te ama e te deseja de verdade.
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