Estranha Perfeição

39 Capítulo XXXVIII


Notas iniciais
Queridos e amados leitores: tudo bom com vocês? ♥ Em primeiro lugar quero agradecer à querida Cainne Pattison que fez uma linda recomendação à EP. Fazia um século que não tinha nenhuma dessa e ela me animou bastante depois que entrei e vi o que tinha acontecido. Não tenho palavras pra te agradecer, Cainne. Este capítulo é dedicado a você! Aos meus lindos leitores: muito obrigada pelos comentários. Estou respondendo todos que ainda estão em aberto. Até o próximo capítulo tudo estará normalizado. Vocês são incríveis. Os melhores que alguém poderia ter! Espero que gostem! Os vejo nas notas finais ♥

TOBIAS EATON

— Ela tem outro. – eu disse, sentindo o gosto amargo da bebida rasgar minha garganta.

— Ela te disse isso? – Cara perguntou, enquanto tirava a garrafa de uísque da minha mão. Olhei pra ela com descrença, enquanto cerrava meu punho sob a mesa do bar. Que porra era aquela? Eu precisava da minha bebida. Eu precisava de toda bebida da porra do mundo pra esquecer aquela merda. – Vamos dar uma pausa aqui. A última coisa que você precisa agora é de um coma alcoólico.

Esperei que ela cedesse, mas Cara parecia determinada a controlar minha bebida.

— Ela achou que estivesse falando com Christina, por isso eu sei sobre esse cara. De qualquer forma é uma merda. Eu achei que não teria como a situação ficar pior, mas estava errado. Eu não sei mais o que fazer sobre isso. Tentei de tudo. Abri meu coração, disse que a amava... Porra, eu fiz tudo e é como se tivesse sido em vão. Não tive nenhum progresso com ela. Eu só... – parei porque não sabia mais o que falar ou fazer. O desabafo para Cara era real. Eu estava perdido e cansado. Cansado de insistir em alguém que estava melhor sem mim.

— Dê mais tempo a ela. – ela passou a mão nas minhas costas em um gesto de conforto. – Eu não iria querer ver você se sua mãe tivesse matado meu irmão. Muita coisa aconteceu de uma vez, Tobias. Ela descobriu sobre isso, teve o fato de Nita e ela terem o mesmo pai... É muita coisa pra alguém aguentar.

— Então ela vai lá e fode com o primeiro que aparece? – porra, eu estava furioso. Odiava o fato dela ter seguido em frente. Queria ser forte o bastante para dizer que gostaria de vê-la feliz, mas eu não era assim. Eu era egoísta. Eu a queria feliz comigo. Porra, comigo.

— Pare um pouco e se escute falando. Em todo esse tempo, pelo modo como você disse que era ela, não parece algo que Beatrice faria. Talvez você tenha entendido errado. Talvez...

— Não tem talvez. – a interrompi. – Ela queria dizer exatamente aquilo que disse. Ela seguiu em frente. Porra, eu pensei que ela me amasse! – suspirei, me sentindo extremamente cansado. Estava cansado de sofrer. Estava cansado de todos os joguinhos. Estava cansado de amá-la. – Ela disse que me amava.

— Se é amor, então não acabou. – Cara sorriu e se levantou do banquinho em que estava ao meu lado. – Vem, vamos dançar. A distração que você precisa não está na bebida, confie em mim.

— Vou voltar pra casa. O dia hoje foi bem longo. – respondi, me levantando junto com ela. Vi a decepção surgir nos olhos de Cara, mas ela me forçou um sorriso e pegou sua bolsa em cima do balcão.

Caramba, eu queria não me sentir mal por isso, mas ela não merecia. Cara estava ao meu lado desde o início. Ela cuidou da minha bunda bêbada, aguentou minhas reclamações, vibrou com cada pequeno passo que eu dei e não desistiu de mim mesmo quando a mandei embora. Minha irmã tinha sumido, Will estava noivo, Zeke enlouquecendo e Uriah apaixonado. Todos eles tinham me deixado, mesmo que não quisessem. Tris havia me deixado. Todo esse tempo eu só tinha tido Cara.

E ela estava me pedindo tão pouco comparado ao que havia feito por mim.

— Pensando bem, uma dança parece ótima para mim. – falei, vendo um grande sorriso tomar os lábios de Cara.

— Obrigada. – ela agradeceu e eu a segui, caminhando para um pequeno espaço reservado para a dança na lateral do bar.

Tínhamos saído da boate logo após eu desligar o telefone. A voz de Tris e sua declaração me deixaram transtornado e eu enlouqueceria se continuasse naquele lugar. Will e Christina já tinham ido. Os caras não tinham aparecido lá e restamos apenas eu, Cara e a siliconada. Quando sugeri ir embora, Cara prontamente aceitou. Só que eu não queria voltar logo pra casa. Aquele lugar me lembrava Tris e eu não queria pensar nela. Estava sofrendo e também não queria sofrer. Dirigi apenas alguns quilômetros adiante e encontrei o bar. O estilo era country, com música ao vivo e o local era mais simples dos quais eu costumava enfrentar.

— Você precisar relaxar. – Cara falou e eu sorri, lembrando-me de que Alicia tinha me dito a mesma coisa apenas algumas horas atrás. – Tenta se soltar um pouco, ok? Eu prometo que dirijo na volta se você prometer que não vai pisar no meu pé.

— Eu sou o Quatro, você esqueceu? – brinquei, apoiando minhas mãos na sua cintura, ficando de frente para ela. – Acho que sou eu quem deveria estar preocupado sobre pisões no pé.

Cara gargalhou antes de responder.

— Vai ser divertido, eu prometo. – sorriu e enlaçou suas duas mãos no meu pescoço.

A música começou e meus movimentos também. A batida era lenta, country, fazendo jus ao local. Cara era excelente. Começamos a conversar e o que era para ser uma dança acabou virando mais seis. O ambiente era aconchegante, o público era uns dez anos mais velho que a gente e ninguém aqui parecia me reconhecer, o que já era um grande ponto. Também havia o fato de nenhuma garçonete ter dado em cima de mim. Exceto por alguns olhares direcionados à Cara – de homens que tinham a idade do meu pai – ninguém parecia ter notado a gente.

Quando a música ao vivo parou para que a segunda banda da noite assumisse o lugar, Cara e eu voltamos ao balcão para pegarmos nossas coisas. Já era madrugada e amanhã eu tinha estúdio marcado com o pessoal da banda. Cara também tinha um almoço com os avós e nós queríamos uma noite tranquila.

— Você se divertiu? – perguntei, enquanto tomava o assento do carona. Eu não estava bêbado, mas não era irresponsável o suficiente para dirigir depois de um uísque.

— Tá brincando? Eu não tinha uma noite dessas há muito tempo! – ela riu, enquanto ligava o carro e saía do estacionamento. – E olhe que não bebi uma gota de álcool pra que hoje fosse divertido.

— Então quer dizer que você não é uma fã de bebida? – fingi surpresa. – Estou decepcionado, Baiocchi.

— Meu pai era um alcoólatra. Ele batia na minha mãe quando estava sob o efeito do álcool e quase quebrou meu braço quando tentei separar uma vez. Eu tinha sete anos. Não é como se eu odiasse a bebida. Eu odeio o que ela me lembra.

Ficamos em silêncio por alguns minutos porque eu não sabia o que falar. Tinha desabafado com Cara muitas vezes e ela também tinha me contado algumas coisas, mas nada tão pessoal quanto isso. Eu entendia o que era um pai violento e alcoólatra. Marcus era exatamente assim. A única diferença era que, além disso, meu pai também era usuário de cocaína.

— Desculpe, eu não quis estragar o clima. – Cara se pronunciou assim que estacionou o carro na garagem da minha casa. – Podemos fingir que eu nunca disse isso?

— Sinto muito pelo seu pai. – falei, ignorando o que ela tinha acabado de pedir. – Sei como é ter um pai violento. Se quiser conversar, eu entendo disso melhor do que ninguém.

Ela respirou fundo, parecendo pensar se falaria disso ou não.

— Mamãe sempre apanhava em meu lugar. Uma vez cometi o erro de acertá-lo com uma frigideira d nós duas fomos parar no hospital naquela noite. Minha mãe tinha o maxilar quebrado de duas formas diferentes, além de um olho roxo e hematomas por todo o corpo. Eu tive hemorragia interna e por um milagre não morri. Foi quando criamos coragem e contamos tudo à polícia. Ele ficou preso por cinco anos antes de morrer de cirrose. Parece horrível, mas foi quando eu finalmente pude me sentir segura pela primeira vez na minha vida.

— Uau. – passei a mão no rosto, sem saber mais uma vez o que dizer. Então me lembrei de que em quase todas as vezes que Cara e eu estivemos juntos, eu estava bêbado. Puta que pariu. – Desculpe por todas as vezes em que estive bêbado. Eu não sabia que isso era algo tão ruim pra você. Jamais beberia com você se soubesse. Ou deixaria você se aproximar de mim. Nunca quis lembrar o que seu pai era.

— Não se preocupe, eu nunca contei mesmo e eu estou bem. – ela sorriu e estendeu a mão para tocar meu rosto. – Todas as minhas amigas bebem. Eu mesma bebo algumas vezes. O problema não está na bebida, mas no caráter das pessoas. Você não é como ele. Você é um homem bom, Tobias. Você nunca me lembrou de meu pai. Você é um bêbado chorão e até um pouco dramático, mas nunca agressivo. Não precisa se desculpar por algo que não é culpa sua, ok? Estou bem. De verdade. – ela beijou minha bochecha e desceu do carro.

Fui atrás dela e entramos na minha casa.

— Obrigado por hoje à noite. – falei, colocando as chaves e minha carteira em cima do balcão de vidro. – Na verdade eu acho que eu tenho bastante coisa pra te agradecer ainda.

— Relaxa, é pra isso que servem os amigos, não é? – ela se aproximou de mim e me abraçou. Curvei minha cabeça o suficiente para sentir seu perfume doce. –Sinto muito pelo seu pai. Você também nunca me disse nada, então... Enfim, acho que temos mais em comum do que imaginamos.

— Você aceita uma pizza? A noite não precisa acabar agora.

— Eu não acho que eles entregam a essa hora. – ela conferiu no celular. – Mas a gente pode deixar pra amanhã. Estou livre à noite, pode ser? – eu concordei. – Ótimo. Bem, você está entregue, então acho que eu já devo chamar o táxi.

— Espera – eu pedi, tomando o celular de sua mão e o colocando junto do meu. – Você não tem que ir. Como eu disse, a noite não precisa acabar agora.

— Por que, Tobias? – Cara perguntou me olhando confusa. – Por que você quer que eu fique?

— Porque tudo fica bom quando você está por perto. – respondi, segurando sua mão e encarando seus olhos escuros. – Eu teria me destruído se você não tivesse ficado ao meu lado. Pode parecer exagero quando eu disser isso, mas não é pra mim: você me salvou, Cara.

— Não é justo que você diga coisas tão bonitas. – ela sorriu. – Quer dizer, já basta ter que resistir a todo o pacote exterior, agora vou ter que lutar contra seu interior também?

Eu a observei com cuidado e pela primeira vez desde que nós dois viramos amigos, notei o quanto a mulher que estava à minha frente era linda. Cara era loira, seu cabelo batia pouco abaixo dos ombros. Ela tinha olhos escuros, determinados, e suas maçãs do rosto eram bem definidas. A maquiagem que usava era carregada e a roupa que vestia exalava sensualidade. Seu perfume era doce, mas longe de ser enjoativo. Ela era sexy, mas ao mesmo tempo elegante.

Fiquei fascinado.

— Não me olhe desse jeito. – disse Cara ao me encarar com aqueles olhos tão marcantes.

Ela parecia travada numa luta interna. Eu a entendia. Parte de mim queria pisar no freio, a deixar ir embora; parecia a coisa certa a se fazer. Já a outra parte estava atraída. Ela era uma mulher linda. Tinha qualidades incontáveis e também estava atraída por mim. Eu não era burro e nem estava morto para não notar.

— De que jeito? — devolvi seu olhar, me aproximando dela e diminuindo a distância entre nós.

— Como se já tivesse me visto nua. – ela respondeu, começando a respirar pesadamente, enquanto desviava o olhar do meu e encarava meu peito.

— Mas eu já vi você nua. – sorri pra ela, colocando uma mão na sua cintura e puxando seu corpo junto ao meu. – Se você não quiser precisa dizer agora. Se começarmos, não vou ser capaz de parar.

— Você tem certeza disso? – perguntou voltando seu olhar ao meu.

— Tenho. – respondi, tentando soar convincente. Eu não tinha certeza, mas queria ter. E queria Cara também. Naquele momento, ela era tudo que eu via.

— Eu vou me arrepender tanto amanhã de manhã. – Cara balançou a cabeça negativamente, mas suas mãos foram para meu pescoço, me enlaçando, e ela me deu um sorriso antes de descer seu olhar para minha boca.

— Eu vou cuidar para que isso não aconteça, querida. – devolvi, antes de tomar seus lábios num beijo.

Beijar Cara era diferente de qualquer coisa que eu já tinha sentido. Seu beijo era firme, decidido. Os lábios eram macios e ela tinha um sabor de menta, misturado com a cerveja e o uísque que eu havia bebido. Suas mãos tinham mudado e ido para meus cabelos, enquanto ela agarrava um punhado deles e os puxava. Eu apertava seu corpo contra o meu, querendo mais dela. O beijo era urgente. Eu estava carente. Ela também estava. Nós dois queríamos isso.

Eu queria isso, não queria?

Movi minhas mãos para a barra do vestido que ela usava e o tirei por cima de sua cabeça, a deixando somente de calcinha e sutiã. Não tive algum tempo para admirá-la, pois Cara começou a se livrar das minhas roupas também, restando apenas a cueca. Sentei no sofá e a puxei para meu colo, seu ponto indo direto ao encontro da minha ereção. Gememos juntos na boca um do outro quando sentimos a onda de prazer causada pela fricção de nossos corpos.

Ela parecia querer falar algo, mas eu tapei sua boca com um beijo. Não queria ouvi-la agora. Estava com medo do que podia sentir. Estava com medo do que podia sair de lá e estragar esse momento. Eu não queria pensar agora. Queria deixar as coisas indo do jeito que estavam. Se eu pensasse, iria me arrepender. Sabia disso. Por mais que meu cérebro dissesse que eu não estava fazendo nada de errado. Eu estava solteiro. Cara estava solteira. Estávamos atraídos um pelo outro. Não tinha nenhum mal nisso, tinha?

Exceto o fato de eu estar completamente apaixonado por Beatrice Prior.

Porra, não. Eu não pensaria nela agora. Não era justo com Cara nem comigo. Ela tinha seguido em frente. Outra pessoa já tinha tomado meu lugar em sua vida. Ela estava feliz. Sua voz era animada quando ela falou ao telefone pensando que estivesse com Christina. Ela estava bem. Tinha me expulsado quando tentei me desculpar. Ela não me amava. Pelo menos não mais. Todas as suas ações me provaram isso. Eu não podia pensar nela.

Essa era Cara.

Eu estava com Cara.

Nos livramos das únicas peças de roupas que ainda restavam e eu vesti a camisinha que estava no bolso da minha carteira, antes de me afundar completamente em Cara ali no sofá. Ela estava de quatro para mim e aquela posição me permitia ir mais fundo. Eu comecei a bombear dentro dela e minhas mãos foram para seus seios. Ela tinha grandes peitos. Eu era fã disso.

— Porra, isso, mais forte, Tobias! – Cara gritava e eu fiz como ela tinha pedido. Comecei mais forte e gemi quando seu calor me apertou. Caralho. – Tão gostoso...

— É tão gostoso. – a voz de Beatrice surgiu na minha cabeça e a memória da nossa primeira vez juntos voltou com todo impacto.

Apertei meus olhos e meti com mais força em Cara. Esta era Cara, não Tris, caralho. Eu precisava me concentrar. Cara tinha tudo que um homem poderia querer e eu não estava dando valor a isso. Ela era bonita, inteligente, educada... Caramba, ela era boa! Ela não merecia que eu a estivesse fodendo pensando em Beatrice. Por mais que Tris fosse maravilhosa e tivesse aqueles peitos que eu amava; ou aquela pinta na nádega esquerda que eu era apaixonado; ou então aqueles lindos olhos que me perseguiam...

— Porra, porra, porra – Cara gemia enquanto apertava a barra do sofá. – Foda, isso é tão bom.

Não estava funcionado. Eu estava imaginando Tris. Eu tinha que mudar a posição para me lembrar da pessoa que estava comigo ou ia acabar fazendo alguma besteira. Tinha sido uma péssima ideia transar com Cara. Principalmente porque era ela. Se fosse outra garota, eu não me importaria em cair fora. Só que Cara era importante para mim e eu não queria magoá-la. Tinha de ir até o fim agora.

Virei-a para mim e foquei em seus olhos. Minhas mãos passeavam por todo seu corpo enquanto eu entrava e saía dela. Seus peitos balançavam no mesmo ritmo em que eu a fodia. Minha vista embaçou por um momento e de repente não era mais Cara quem estava comigo, e sim minha doce e linda Tris.

— Não sinto mais dor. Faça isso mais uma vez. – Beatrice implorou.

Fodi duro. Caralho. Isso era bom demais.

— Isso. Desse jeito é muito melhor.

— Não, não. – eu balancei a cabeça, sabendo que era apenas a minha imaginação trabalhando. Eram memórias da minha noite com Tris. Ela não estava aqui comigo. Eu podia sentir a ausência do seu cheiro, dos seus gemidos...

Mas parecia tão real. Eu tremia de prazer sentindo-a comigo. Sabia que estava sendo um cretino com Cara, mas não podia evitar. Fazer amor com Tris tinha sido uma experiência única e agora tudo estava voltando. Eu não tinha mais como fugir. Eu lutava, mas era inútil. Ela sempre acabava voltando para minha mente. E o que ela fazia comigo...

— Goze para mim, Tobias. – Tris pediu. O som da sua voz era o suficiente para me mandar para qualquer orgasmo que eu quisesse. — Goza junto comigo, baby.

Eu arremeti mais duas vezes antes de me entregar completamente a Beatrice. Fechei os olhos e me deixei levar pelo prazer. Tris estava comigo e nós dois estávamos felizes. No mundo paralelo eu não precisava me encher de bebida; eu também não tinha uma irmã louca ou o sangue de uma assassina correndo nas minhas veias. A vida não era tão fodida e nós dois estávamos felizes.

— Tobias? – a voz de Cara, não de Tris, me tirou do devaneio. – Está tudo bem? – eu ainda estava em cima dela, a típica posição mamãe e papai.

— Hum, sim. Estou machucando você? – perguntei, começando a me levantar e sair de dentro dela sem ao menos esperar uma resposta sua. – Vou tomar uma ducha. Volto já.

Cara assentiu e eu andei apressadamente até a suíte mais próxima, trancando-me no banheiro. Tirei o preservativo e o joguei no lixo, em seguida fui até o chuveiro e permiti que a água me lavasse. Me sentia sujo, além de péssimo também. Sabia que não tinha feito nada de errado. Minha relação com Tris tinha terminado e eu estava livre para transar com quem eu quisesse. Porra, eu fazia isso antes. Eu não me importava. Mas após transar com Cara agora uma sensação ruim insistia em me perseguir. Odiava pensar no quanto tinha sido injusto com ela. Eu gostava dela. Admirava sua inteligência, sua educação e na sua capacidade de ser tão prestativa e disposta a me ajudar a sair do fundo do poço. E agora eu tinha fodido tudo. Mais uma vez. Literalmente.

Eu era um bosta.

Não sei quanto tempo se passou enquanto eu estava no chuveiro, só sei que quando saí, Cara estava sentada na cama, com as mãos no colo torcendo-as nervosamente, olhando para mim apreensiva, como se temesse qualquer reação minha. Eu deveria falar algo. Pedir desculpas, talvez? Ignorar o fato de que eu só conseguia enxergar Tris enquanto transava com ela? Ou então fingir que minha cabeça não estava uma bagunça e agir como se tudo estivesse bem?

Porra, eu não sabia mais o que fazer.

— A gente pode fingir que nunca aconteceu se isso ameaçar destruir o laço que nós já temos – ela começou ao ver que eu não conseguia emitir qualquer som. – Ou se você quiser e estiver pronto, podemos dar mais um passo e... Bem, você sabe. – ela respirou fundo, passou ambas as mãos no próprio colo e levantou seus olhos para mim. – Gosto de você, Tobias; e eu acho que você gosta de mim também. Não estou errada, estou?

— Não. – fui até ela e me sentei ao seu lado; segurei suas duas mãos e encarei seus olhos escuros. – Eu gosto de você, Cara. Você é uma mulher linda, forte, independente, madura... Qualquer homem no mundo gostaria de conhecer alguém como você, baby. Eu só... – parei de falar pensando no que diria. Não queria magoá-la, mas não podia simplesmente começar algo agora com ela. Eu não estava pronto. Eu estava pensando em Beatrice Prior enquanto gozava nela, pelo amor de Deus. Era covarde. Estava fodidamente envergonhado. – Não estou pronto. Queria estar, mas ainda amo Beatrice e... Sinto muito.

Vi a dor atravessar Cara e conseguir senti-la também. Seus olhos lacrimejaram e o sorriso triste que ela me deu foi uma surpresa.

— Desculpe insistir nisso, achei que a essa altura eu teria alguma chance. – ela tirou as mãos das minhas para enxugar os olhos. – Podemos esquecer a noite de hoje então?

— Foi tão ruim assim? – lhe dei um sorriso brincalhão na expectativa de aliviar o clima tenso que estava entre nós.

Ela riu antes de responder.

— Gostaria que tivesse sido. Acho que seria mais fácil lidar com a rejeição se o sexo não tivesse sido tão bom.

— Não é rejeição, Cara. Eu só não quero magoar você. Você merece muito mais do que eu posso oferecer agora. Meu coração não está aqui e eu não quero ficar com você enquanto penso em outra pessoa. É injusto, querida. Você sabe.

— Eu sei. – ela repetiu mais para si mesma. – Desculpe por hoje. Pelo beijo e por... Você sabe.

— Eu que tenho que pedir desculpas. Não devia ter investido em você.

— Foi tão ruim assim? – Cara me devolveu a pergunta com divertimento.

— Quem me dera se tivesse sido. – eu ri e pus uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. – Eu só estou confuso. Gosto de você mais do que eu devia e hoje à noite você estava deslumbrante. Tentei resistir, sabia que ainda não era hora, mas... – parei de novo, ponderando as coisas que eu iria falar. Não queria lhe dar falsas esperanças, mas iria ser sincero; gostaria que ela pudesse me entender. Não era como se eu nunca tivesse cogitado a ideia de Cara e eu ficarmos juntos. Eu só não estava pronto ainda. Queria estar, mas não estava. Era uma merda. – Não sei o que fazer quanto a nós dois. Gostaria que as coisas fossem mais simples. Me sinto perdido, Cara. Não sabia como era o amor até Tris entrar na minha vida. E eu gostei dele. Gostei da sensação que era quando estava ao seu lado. Gostei de amar e eu quero isso de novo. Não é como se eu fosse me fechar agora. Achei que estava pronto, ela seguiu em frente, eu também devia fazer isso, por isso beijei você. Mas então, enquanto estava com você...

— Você estava pensando nela. – ela completou antes que eu terminasse de falar.

— Era tão óbvio assim? – suspirei, sentindo a vergonha me consumir.

— Você gemeu o nome dela. – ela respirou fundo. – Estava delirando. Eu não leio mentes ou algo assim, Tobias, mas você deixou tudo claro. Você só... Não era eu.

— Sinto muito, Cara. Você não imagina o quanto estou envergonhado e decepcionado comigo mesmo.

— Eu sei que está. – ela sorriu, colocando sua mão por cima da minha e acariciando-a. – Eu conheço seu coração, Tobias, e não estou magoada. Talvez um pouco triste, porque é meio decepcionante ouvir isso, mas... Eu entendo você.

— Como você consegue? – perguntei fascinado com sua maturidade.

— Consigo o quê?

— Isso. – fiz um gesto com as mãos indicando nós dois. – Essa bondade... Essa maturidade em lidar com a bagunça que eu sou; a bagunça que está na minha vida. Cada dia que passo com você penso que te conheço um pouco mais, mas você continua me surpreendendo. Isso é fascinante, Cara.

— Digamos que eu sou fã de um grande desafio. – ela riu e piscou pra mim, mas o ar brincalhão diminuiu quando voltou a falar mais séria. – A gente só precisa continuar sendo sincero um com o outro e tudo vai continuar dando certo, ok?

— Sim senhora. Você quem manda aqui, gata. – desconversei num tom mais leve, puxando Cara para um abraço e depositando um beijo no topo da sua testa. – Eu sou sortudo pra porra de ter você.

— Eu sei. – murmurou convencida, soltando uma risada e deitando a cabeça no meu ombro.

Ficamos assim por um tempo, em silencio, ambos perdidos em pensamentos. Cara e eu combinávamos juntos. Se eu tivesse dado uma chance naquele dia em que transei com ela nós poderíamos ter dado certo. Tínhamos muita coisa em comum e ela era uma mulher maravilhosa. Não sabia o que tinha feito para conquista-la. Eu só divagava sobre Tris, bebia até que meu fígado pedisse socorro e depois – para variar – falava ainda mais sobre a minha loira. Não me lembrava de uma vez sequer em que Cara e eu ficamos juntos sem conversar sobre Beatrice. Eu nunca escondi o quanto ainda era completamente apaixonado por essa garota e Cara não parecia se incomodar. Ela me ouvia, me aconselhava e algumas vezes até tirava sarro disso.

Era bom tê-la comigo. Era como se ela suprisse a falta que minha irmã fazia. Nita e eu sempre fomos muito próximos; éramos melhores amigos. Sentia saudades dela. Metade de mim se martirizava por não ter noticias suas, mas a outra parte sabia que eu tinha feito a coisa certa. Se eu continuasse passando a mão na sua cabeça e ignorando todos os seus erros e maldades ela nunca amadureceria.

E já tinha passado da hora de Nita amadurecer.

Cara e eu acabamos dormindo juntos naquele quarto. Não rolou absolutamente mais nada. Nós dois sabíamos que ainda não era a hora, por mais que tivéssemos gostado do sexo. Eu também não a abracei enquanto dormíamos: esse ainda era um gesto que pertencia somente a Tris. Não estava pronto para isso também e sequer sabia se voltaria a estar algum dia.

Duas batidas na porta do quarto fez com que meus olhos se abrissem. Não sabia que horas eram nem quem diabos tinha entrado na minha casa, mas sabia que ainda era muito cedo. Forcei a vista e tentei focar na figura à minha frente.

— Bom dia, Bela Adormecida. – Will tentou reprimir um sorriso enquanto alternava seu olhar entre Cara e eu. Ela ainda dormia. – Pelo visto a noite foi boa.

— Não enche. – resmunguei e cocei meus olhos. – O que diabos você faz aqui tão cedo?

— Christina veio buscar o celular dela. Te liguei cinco vezes antes de subir, mano, mas você não atendeu.

Meu celular tinha ficado lá em baixo. Lembrei que não subi com nada. Nem mesmo com roupa.

— Se veste e desce. Minha noiva está lá em baixo e você sabe que ela não é uma pessoa muito paciente.

— Já desço. – respondi e meu irmão deixou o quarto.

Olhei para Cara ao meu lado e ela ainda dormia. Parecia tão relaxada que sorri. Beijei o topo da sua cabeça e me levantei, indo até o chuveiro e tomando uma ducha rápida. Vesti uma cueca e uma bermuda que estavam no closet daquele quarto e desci para encontrar Will e Christina sentados no sofá da sala de estar.

Minhas roupas e as de Cara ainda estavam espalhadas pelo chão e o casal à minha frente não deixou que isso passasse despercebido.

— Parece que você se divertiu ontem à noite. – declarou Christina com uma careta.

— Eu merecia depois que vocês me deixaram plantado lá na boate. – resmunguei e caminhei até a cozinha para preparar meu café. O dia não começava antes disso. – Odeio os dois.

— Você nos ama. – ela rebateu atrás de mim sendo seguida por seu noivo. – E por isso vai liberar o jatinho para que eu possa visitar minha querida e amada melhor amiga.

— Não é natal, Christina; e eu também não sou a porra do papai noel.

— Por favor. – ela pediu, juntando as mãos e fazendo um bico. Olhei para Will em busca de algum socorro, mas ele apenas balançou a cabeça negativamente com um sorriso no rosto.

Merda. Eu nunca conseguiria negar o jatinho a Christina se ela estava indo visitar Beatrice, mesmo que isso significasse ela indo quase todos os dias para lá. Era um gasto da porra, mas eu não conseguia dizer “não” a ela. Ela estava cuidando de Tris e era minha única fonte de noticias sobre a loira. Ela me certificaria de que Beatrice não estava precisando de nada. Estava bem. Segura. Christina ia para confirmar isso ou eu enlouqueceria.

— Vou ligar para Eric. Esteja pronta até as nove, sem atraso.

— Você é o melhor cunhado do mundo! – ela pulou para me dar um abraço. – Onde está meu celular? – perguntou, enquanto Will abria o armário e retirava três xícaras.

— Lá na sala, junto do meu e da minha carteira. – respondi, pensando na ligação de ontem à noite. Não sabia se dizia ou não a eles. Decidi que não havia porquê esconder. – A proposito, Beatrice ligou.

— Você atendeu? – minha cunhada perguntou com cautela.

— Sim. – falei, sentindo o olhar do casal em cima de mim o tempo todo. – Nós conversamos.

— E como foi? – quem falou desta vez fora Will.

— Ela me falou sobre como as coisas esquentaram com um tal de Ed. – cerrei o punho, tentando controlar o ciúme que me corroía por dentro.

— Que merda. – meu irmão resmungou, parecendo entender totalmente como eu me sentia.

— Por isso você transou com Cara? – Christina agora me olhava com certa repulsa.

— Não. – neguei, pegando minha xícara e despejando café nela.

Não tinha transado com Cara por estava puto com o que Tris havia disso. Ou será que tinha? Porra, eu não sabia o que teria movido minha ação de ontem. Eu estava atraído por ela, caramba. Sabia disso. Nós estávamos sempre juntos, uma hora ia acontecer. O que me deixava encucado era o fato de termos tido várias oportunidades, mas só ontem eu tinha investido.

E isso tinha sido logo após Tris me contar sobre seu maldito encontro.

— Que merda. – murmurei baixo, mas Christina e Will me ouviram.

— Isso é deprimente. – praguejou a morena.

— Estamos precisando sair; só nós dois, coisa de homem. Tá a fim de ir à academia hoje? – meu irmão perguntou, enquanto ia até a cafeteira e servia-se. Ele moveu os olhos para a noiva e o olhar apaixonado estava lá. – Café?

— Não, obrigada. – respondeu.

— Você nunca recusa café pela manhã, Chris. Vai me contar o que está acontecendo? Você tá tão estranha ultimamente.

Olhei para Christina e soube: ela ainda não tinha contado a ele sobre a gravidez.

— Eu só estou ansiosa. O café pioraria tudo, você sabe. – ela tentou convencê-lo. Will ainda não tinha acredito e estava pronto para rebater quando eu decidi intervir.

— Topo uma academia, mas não tenho muito tempo. Vou finalizar o álbum hoje no estúdio e queria passar no orfanato antes de ir pra lá.

— Ótimo. Deixamos Chris no hangar e de lá seguimos. – meu irmão respondeu animado. – A cara vem conosco?

— Você acabou de dizer que era uma coisa de homens. – Christina ressaltou enciumada.

Reprimi os lábios para não rir. Will fez a mesma coisa.

— Mas se ela e Tobias tinham planos não sou eu quem vai atrapalhar. – ele se defendeu.

— Ela vai passar o dia com os avós. Só temos planos para a noite; combinamos uma pizza. Vocês podem vir se quiserem.

— Então vocês são um casal agora? – minha cunhada levantou as sobrancelhas, cruzando os braços na altura do peito.

— Não, Chris. – respondi calmamente. – Mas do jeito que as coisas estão caminhando isso vai acabar acontecendo, então eu sugiro que você deixe de lado esse ódio mortal que sente dela.

Will pediu licença para atender seu telefone e deixou a cozinha. Olhei para Christina esperando que ela respondesse.

— Eu não a odeio. Eu só estou torcendo pela minha melhor amiga. Ela ainda ama você, você ainda a ama também, por que precisamos complicar tanto?

— Beatrice me chutou, Chris. – suspirei. – Ela é a mulher da minha vida, mas estou cansado de correr atrás e só receber seu desprezo. Você não sabe o quanto doeu ouvir tudo que ela me disse da ultima vez em que nos vimos. Eu nunca me senti tão quebrado em toda minha vida e, levando em conta a família que eu tenho, já fui um bocado de fodido.

— E agora você está investindo em Cara? Pelo amor de Deus, Tobias! Não achei que você fosse do tipo que desistia tão rápido.

— Cara gosta de mim. Ela está sempre lá quando eu preciso. Não tô investindo nela, Chris. Ainda. E quanto à Beatrice... Eu não desisti. Porra, eu jamais desistiria dela. Eu só... – respirei fundo, engolindo o bolo na minha garganta. – Não sei mais como me redimir.

— Vou conversar com ela hoje. Sinceramente, eu também acho que ela passou dos limites. Sério, esse drama todo dela já cansou até para o meu bebê e olhe que ele ainda nem nasceu. – revirou os olhos.

— Falando em bebê... Por que ainda não contou pra ele? – apontei na direção que meu irmão havia saído. A propósito, ele estava demorando. Muito, aliás.

— Eu ia contar ontem, mas... Não sei, não consegui. Estou com muito medo que ele desista do casamento ou que ele ache que estou com tanta pressa só para prendê-lo a mim. Nós nunca falamos sobre filhos, Tobias. Eu não sei como ele irá reagir.

— Ele vai ficar feliz, confie em mim. Conheço Will e você também. Não caga as coisas, Christina. Você nunca foi insegura. Ele te ama. – ela assentiu. – E você tem que fazer isso antes que ele descubra sozinho, porque aí sim ele vai ficar puto.

Como se soubéssemos que estávamos falando dele, Will voltou para a cozinha. Estava pálido, um semblante preocupado e em sua testa havia gotas de suor. Quem quer que fosse ao telefone havia dito algo que preocupou a porra no meu irmão.

— Você está bem? – Christina praticamente correu em direção ao noivo.

— Hum, sim. – ele coçou a cabeça. Estava claramente nervoso. – Era meu pai me dando uma bronca a respeito do escritório. Vou precisar vê-lo o mais rápido possível, sem contar que tenho uma reunião sobre o aluguel da ilha. Você está pronta para ir até Tris?

— Estou sempre pronta para ir até Tris. – ela riu. – E tente relaxar um pouco. Aposto que o assunto não é tão sério quanto você pensa.

Will forçou um sorriso e olhou para mim. Mais uma vez soube o sinal que ele estava dando. Alguma coisa muito séria tinha acontecido e seu não tinha nada a ver com isso. Muito menos o aluguel da ilha.

— Pegue seu celular e nos encontre no carro, tá bem? – ele pediu à sua noiva, tentando ocultar a tensão na voz. Mais um sinal de que algo estava errado.

Ela assentiu e saiu da cozinha.

— O seu pai não tem nada a ver com isso, não é? – adiantei.

— Não. – respondeu, passando a mão na testa e limpando o suor. – Não posso contar a Christina a verdade ou ela iria surtar e estou fazendo de tudo para que nada prejudique o bebê.

Ele sabia.

— Ela é péssima quando mente ou tenta esconder algo. – ele riu um pouco. – Mas ainda assim quero que ela me conte; enfim, falamos sobre esse papo de paternidade numa outra hora. Preciso que fique calmo e não deixe que Chris desconfie quem estamos indo encontrar. Pelo bem do bebê, Tobias; e pelo dela também. Promete pra mim.

— Você tá me assustando. – respondi sentindo meus batimentos acelerarem. O que caralho tinha acontecido? – Aconteceu algo com Tris?

— Não com Tris. – respondeu e automaticamente senti um alivio na alma, mas essa sensação passou assim que ele terminou de completar sua frase. – É Nita.

Meu coração simplesmente parou.

Notas finais
Então amados... O que vocês acharam? ♥ Falei nas notas anteriores que teríamos uma visita ao orfanato e detalhes do casamento, mas se eu abordasse isso ultrapassaria as 6.000 palavras, então deixaremos para o próximo. Aliás, no próximo teremos uma surpresa! Gostei bastante desse capítulo e espero que vocês também o tenham feito! Os vejo agora nos comentários, ok? Já comecei a responder todo mundo ♥