Estranha Perfeição

40 Bônus - Capítulo XXXVIII


Notas iniciais
Oi amores, tudo bem com vocês?! ♥ Antes de tudo, quero me desculpar. A fic não é atualizada desde o ano passado e eu sinto muito. Como eu tinha falado, estou doente. E em Outubro passado eu fiquei MUITO doente. Me internei, passei por duas cirurgias e quase três meses no hospital. Desde então estou me cuidando, alternando entre consultas, exames e ainda estudando. Administrar meu tempo não tem sido fácil e espero que entendam isso. Não vou me prolongar, não quero deixar essa nota longa. Desculpa mais uma vez. Espero que gostem e tenho uma surpresinha para vocês haha Os vejo nas notas finais ♥

ANITA JHONSON

(não, você não leu errado)

Mimada. Egoísta. Fria. Insensível. Má. Vadia. Desprezível. Geralmente esses adjetivos eram usados sempre que alguém pronunciava meu nome. Tinha sido assim por tanto tempo que eu não me lembrava da última vez em que alguém tinha me elogiado. Exceto, claro, por meu amado irmão. Ele sempre estava lá por mim. Ao menos era assim antes que Beatrice Prior aparecesse em cena.

Minha infância não tinha sido fácil. Sempre odiei me fazer de vítima, mas nesse quesito não tinha como fugir. Meu pai tinha abandonado minha mãe quando ela ainda estava grávida. Eu nunca tinha conhecido meus tios ou primos, nossa família nunca foi unida. Talvez o abandono que minha mãe sofrera a tivesse transformado numa pessoa totalmente sem emoções. Ela me odiava. Eu podia sentir isso quando olhava para mim. Eu era um desgosto: o fruto de um casamento com o homem que ela não amava.

Evelyn amava Marcus, o pai do meu irmão Tobias. Ele tinha lhe dado seu primeiro filho, mas nunca chegaram a se casar. Marcus detestava Evelyn. Ela tinha transado com todos os membros da banda depois do fora que tinha levado. Acho que isso só aumentou a repulsa que ele tinha dela. Depois de Marcus, Evelyn se casou com outro e Will veio de bônus. Esse casamento não durou muito, mas lembro-me que isso nunca impediu que Will e Tobias criassem um laço. Em seguida, houve Andrew Prior e eu nasci.

Pelo que eu sabia, meus pais estavam de casamento marcado antes de Natalie aparecer e foder tudo. Só o nome dela me dava ânsia. Eu a odiava. Quando mamãe me disse que ela tinha morrido de câncer, eu agradeci. Finalmente seu castigo por destruir uma família havia chegado. Saber que ela tinha sofrido por meses em uma cama de hospital de certa forma me aliviava. É um pensamento horrível se você só observar de longe, mas depois do que essa mulher tinha feito com os meus pais, eu não conseguia pensar de outra forma. Eu estava feliz com a sua morte. Seria um Prior a menos no mundo e isso acalmava meu coração. O único Prior que não poderia deixar esse mundo era meu pai. Eu o amava e precisava dele. Odiava o fato de ser tão carente em relação a isso, mas era algo que eu não conseguia evitar.

— Shau, por favor, atende o celular. Preciso de você, amiga. – falei para a secretária telefônica.

Tinha se passado um mês desde que eu fui expulsa da casa do meu irmão e minha melhor amiga estava me ignorando por todo esse tempo. Eu estava sobrevivendo das minhas economias do tempo em que eu desfilava, mas esse dinheiro também estava acabando. Além dos meus gastos, eu ainda estava bancando meu pai e minha mãe. O dinheiro que eu tinha separado para um ano estava indo embora em apenas um mês e isso estava começando a me preocupar. Eu precisava de ajuda; de algum conselho.

Eu só precisava de alguém para me ouvir.

Eu não tinha voltado para a faculdade como pretendia. Também não estava mais no meu apartamento. Tobias tinha proibido minha entrada lá assim como tinha feito em sua casa. Eu tinha conseguido alugar uma casa em um condomínio mais afastado da orla, próximo ao centro de Miami, totalmente para o lado oposto a casa dos meus irmãos e amigos. Eu não tinha como pagar naquela área ainda e eles queriam uma garantia de pelo menos um ano adiantado. Eu não tinha esse dinheiro.

Bufei, frustrada. Nunca tinha me faltado nada. Meu irmão cuidava disso desde que eu me entendia por gente. Eu sabia que o dinheiro tinha sido dele desde o início. Marcus nos mandava milhares de dólares todo mês para que seu filho crescesse com o melhor. Era a sua pensão que pagava as nossas contas. O pai de Will tinha bastante grana, mas Evelyn não era a mãe do filho dele e quando se separaram, ela não ficou com nada. Tinha sido provada uma traição e ela perdera todos os direitos. Era Tobias quem nos mantinha no luxo e, mesmo depois de adulto, ele continuou fazendo isso.

Não gostava de admitir, mas minha carreira como modelo era um fracasso. No início achei que tivesse algum talento para isso, mas depois descobri a verdade: os donos da passarela só me convidavam para seus desfiles se pudessem ganhar algo com isso. A fama do meu irmão – e de certa forma a do seu pai – era a única coisa que fazia eles me contratarem. Tinha sido um baque porque era algo que eu pensava ser boa. Mas eu tinha superado. Eu era Nita Jhonson. Nada nunca me abalava.

Exceto, no entanto, a minha situação de agora: sem meu irmão, sem a faculdade, sem amigos... E o pior: quase sem dinheiro também. O universo estava de gozação com a minha cara!

— Desistiu da faculdade? – minha mãe perguntou com desdém, descendo as escadas do andar que levava aos quartos. Ela nunca fez questão de conversar comigo, mas agora ela tinha, já que sobrevivia do meu dinheiro.

— Acho que só volto no próximo semestre. Preciso resolver minha vida agora que Tobias bloqueou tudo. – respondi.

— Aquele moleque é um ingrato. Como ele pôde fazer isso com a própria família? – ela praticamente cuspiu todas as palavras. O ódio que ela sentia era mil vezes mais forte que o meu. – Ele não pode simplesmente nos abandonar! Nos deixar pobre, onde já se viu?!

— Ele pode tudo, mãe. O dinheiro sempre foi dele. – disse sem saber ao certo como me sentir sobre isso. Eu amava meu irmão. Nada mudaria o meu amor por ele. Eu nunca me senti inferior a ele; nunca. Tobias nunca permitiu que isso acontecesse.

— Aquela garota vai pagar. Eu vou tirar tudo que ela tiver, ah... Vou sim. Ela não perde por esperar. – mamãe destilou.

— Mãe, o que fizemos foi certo? – questionei. – De verdade?

A verdade era que eu não dormia bem há quase um mês. Quando descobri o que mamãe tinha feito contra Natalie Prior eu era só uma criança. Ela tinha confessado a uma amiga que Caleb tinha morrido no meio disso tudo, mas ela estava livre da culpa. Tinha pago uma quantia absurda para que o perita a inocentasse; para que ele jurasse que os freios do carro estavam sem manutenção. Eu não sabia como me sentir. Não fazia ideia do que falavam, mas tinha noção da gravidade do assunto. Ele era só um garoto e minha mãe havia feito algo que o matou.

(flashback)

Eu queria chorar. Meu irmão tinha ido passar o final de semana com o pai em sua mansão em Los Angeles e eu estava sozinha. Will não morava mais com a gente e seu pai só o trazia para nos visitar quando Tobias estava em casa. O pânico de não ter ninguém lá para me ouvir deixava minhas mãos tremendo. Eu sabia que não deveria escutar sua conversa, mas era incapaz de sair dali. O que mamãe dizia não fazia sentido. Ela não era capaz de matar alguém, era?

Evelyn não era uma boa mãe. Na verdade, ela não era nada como uma mãe. Eu via nos filmes que as mamães nos davam banho, nos abraçavam, brincavam conosco, preparavam nosso lanche e diziam “eu te amo”. Eu nunca tinha ouvido isso de Evelyn. Ela nunca me deixava ir ao quintal brincar com meu irmão. Eu nunca tomei banho de chuva, ou corri na lama, ou tive qualquer boneca que não fosse uma barbie; mamãe dizia que eu deveria ser perfeita como tal. Eu usava maquiagem no rosto desde os seis anos de idade para esconder minhas sardas. Meus cabelos estavam sempre escovados. Eu nunca estava descalça, nunca! As unhas estavam sempre feitas. Minhas roupas eram as mais caras que o dinheiro podia comprar. As bonecas que eu cresci amando não eram para brincar: eram um lembrete de como eu deveria ser. Elas eram perfeitas, assim como minha mãe era.

E agora eu estava ouvindo que minha mãe perfeita havia matado alguém? Isso não podia ser verdade.

Ouvi os passos se aproximarem e antes que eu pudesse correr, a porta do quarto da mamãe se abriu e ela saiu de lá, junto com uma amiga que eu não lembrava o nome.

— É feio ouvir a conversa dos adultos, querida. – Evelyn forçou um sorriso e vi faíscas nos seus olhos. Ela estava usando aquele tom de voz doce que passava a imagem da boa mãe que ela não era. Soube nesse momento que estava encrencada.

Por favor, Deus, que ela não arranque meus cabelos outra vez.

— Eu não estava ouvindo. – disse rapidamente com a voz trêmula. – Pensei que estivesse sozinha e estava vindo lhe convidar para um chá. Se a senhora quiser, claro. – acrescentei depressa.

Eu sempre a convidava para um chá. Gostaria que pudéssemos só sentar em frente à TV e assistir algum filme enquanto nos enchíamos de pipoca ou hambúrguer, mas mamãe não era disso. Ela não comia frituras ou qualquer outra coisa que não fosse integral ou light. Como consequência, eu também nunca comia. Mamãe não permitia. Exceto quando Tobias estava com a gente e ele a mandava se foder.

“Sem palavrões, Nita. Você é recatada e fina. Não se rebaixe a este nível.” Meu subconsciente avisou.

— Não me chame de senhora, Anita, pelo amor de Deus. E eu não tenho tempo para suas bobagens. – minha mãe revirou os olhos. – Me espere no quarto. Iremos conversar sobre o que você ouviu, querida. – ela me deu um olhar e instintivamente me encolhi, assentindo logo em seguida.

Entrei em seu quarto e fechei a porta.

Estava tremendo novamente. Meu irmão tinha me dito para eu parar de temê-la; ele nunca a deixaria tocar num fio de cabelo meu. Eu estava com quinze anos, mas ainda me sentia com cinco quando se tratava de Evelyn, como na primeira vez em que ela me deu uma surra por eu derramar suco no meu vestido florido. Tobias não estava em casa e quando eu contei, ele apenas me abraçou e disse que sentia muito. Ele não podia enfrenta-la naquela época e eu continuei sofrendo nas mãos da nossa mãe desequilibrada, mas quando ficou mais velho e tinha idade o suficiente não só para enfrente-la, mas como entender bem das coisas, ele a ameaçou. Disse que iria embora e ela não teria do que viver. Evelyn recuou, pedindo perdão por tudo que já tinha me feito.

Eu acreditei nela. Queria que ela me quisesse. Queria uma mãe que me amasse e ela parecia arrependida. Dizia que estava sofrendo com os casamentos falidos e que iria mudar. E ela mudou. Mas somente quando meu irmão estava em casa. Quando ele ia passar os finais de semana com o pai, eu sofria novamente. Ela dizia que me corrigia para meu próprio bem. Eu ainda não conseguia ver dessa forma.

Fui tirada dos pensamentos quando a porta do quarto se fechou numa batida. Minha mãe estava parada perto da porta, olhando fixamente para mim. O fogo dos seus olhos estava lá novamente, mas desta vez ela sorriu.

E isso só fez com que ficasse ainda mais assustador.

— Quanto você ouviu, filha? – a última palavra foi dita como se tivesse um gosto ruim na boca de Evelyn, mesmo que ela tentasse disfarçar.

— Eu não ouvi nada, eu juro. – menti e senti minha voz tremer. Ela saberia que eu estava mentindo; ela sempre sabia. No entanto, eu temia que se eu dissesse verdade, seria ainda pior.

Mamãe deu três passos na minha direção e eu, por instinto, recuei, caindo sentada na cama. Foram apenas segundos antes que sua mão atingisse minha bochecha num forte tapa que me deu. O estalo foi alto.

— Você está mentindo! Não ouse mentir para mim, Anita, ou você vai se arrepender. Diga-me sua estúpida, quanto você ouviu?! – ela gritou.

Eu não podia mentir ou ela me bateria de novo.

— Ouvi sobre o filho de Natalie. Desculpe, mamãe. Eu sinto muito mesmo. Prometo que não vou contar a ninguém. Nunca, eu juro. – garanti. Estava tremendo de medo do que minha mãe minha mãe era capaz.

— Eu sei que você não vai contar, meu amor. – Evelyn se abaixou e segurou minhas duas mãos. Estranhamente, ela tinha uma calma inabalável. – Você não quer que a mamãe vá para a cadeia, quer?

— A senhora matou mesmo Caleb? – perguntei sentindo o horror me denominar à medida que eu pronunciava as palavras

— Fiz isso para que seu pai voltasse para nós, querida. Eu sinto tanto a falta dele. – seus olhos se encheram de lágrimas. – Aposto que sente também. Isso tem que ficar entre nós, viu querida? Ninguém nunca pode saber o que a mamãe fez ou o papai nunca irá voltar. E eu serei presa. Você entendeu bem?

Minha mãe nunca tinha falado de forma doce comigo, era a primeira vez. Ela acariciou minhas mãos e as beijou em seguida. As lágrimas brotaram nos meus olhos. Eu me sentia amada pela minha mãe pela primeira vez na minha vida.

— Você ouviu bem, Nit? – ela me chamou pelo apelido. Apenas meu irmão me chamava assim.

Assenti, engolindo o bolo na garganta.

— Ótimo. A mamãe fez isso porque eu te amo, ok? Eu amo nossa família. Nós três estaremos juntos novamente. Seremos uma família feliz. Esse será nosso segredo. – assenti mais uma vez e ela me abraçou.

O carinho da minha mãe e a forma como ela falou naquele dia comigo me fez guardar esse segredo por muito tempo. Ela também não tinha feito por mal. Mais tarde, havia me explicado tudo e dito que acontecera um acidente, mas que eu não deveria me preocupar. Preocupações eram para adultos e eu era só uma criança. Ela também tomou o chá da tarde comigo naquele dia e em seguida passamos a noite juntas assistindo netflix. Ela me prometeu que isso aconteceria mais vezes e que logo logo, o papai estaria junto conosco também.

Ao acabar o dia, eu já não me sentia mal pela morte de Caleb. Eu tinha sido ensinada a minha vida toda a odiá-los. Nunca, nunca, nunca sinta compaixão por um Prior. Eles destruíram sua família, repetia minha mãe. Logo logo o papai estaria conosco. Era o que me confortava a guardar esse segredo até mesmo do meu irmão. Nossa família estaria junta e feliz em breve, prometia minha mãe.

Ela não estava errada: alguns meses depois, Andrew finalmente voltou para casa.

(flashback of)

— Claro que o que fizemos foi certo. Você vai me encher com essa porra de novo? Você não é mais uma criança, Anita. Cresça. – Evelyn bufou.

— É só que... Tobias não achou certo. E pela forma como todos reagiram, eu me pergunto às vezes se não passamos dos limites. De qualquer forma, era uma vida, mãe.

— Pelo amor de Deus, Anita, chega com esse assunto! – ela gritou e eu dei um pulo. – Era a vida de Caleb Prior, CA-LE-B PRI-OR – rebateu. – Eu te criei para ser mais que isso. Nunca abaixe essa cabeça, Anita. Nunca! Aonde foi que eu errei? Você está tão... Comum. Você esqueceu do que essa família fez pra você?

— Ele era só uma criança. Eu até entenderia se fosse contra Natalie, mas com o filho dela...

— Basta! – gritou. – Chega desse assunto, Anita, que coisa! – mamãe massageou as têmporas e respirou fundo. – Tive tanto estresse esses dias que vou acabar criando rugas.

Ok. Era hora de mudar o assunto.

— Onde está o papai? – perguntei, vendo sua face ficar vermelha.

— Eu não sei onde o crápula do meu marido está! – bufou. Eu tinha certeza de que a mulher na minha frente não era normal. Ela tinha deixado de ser Evelyn Jhonson há muito tempo. – Quer saber, eu preciso fazer compras e encontrar minhas amigas. Não espere por mim. Eu tenho a chave dessa droga de casa. – bradou e em seguida voltou ao seu quarto.

Não sabíamos onde Andrew estava desde o dia em que deixamos a casa do meu irmão. Papai arrumou suas coisas, pegou um dinheiro e simplesmente foi embora. Mamãe tinha dito que ele havia feito a mesma coisa quando conheceu Natalie: partiu sem mais nem menos. Eu me arrependia tanto do dia em que decidi contar a verdade. Meu objetivo era ferir Beatrice, fazer com que ela deixasse Miami para sempre, mas as coisas não tinham saído como planejado.

Eu tinha perdido meu irmão e agora ele não suportava sequer olhar para mim. Tinha perdido meu pai também, já que ele não fazia ideia da merda que sua mulher tinha feito. Tinha até perdido a mim mesma no meio do caminho. Me questionava sobre os motivos que me levaram a fazer isso; não sabia mais quem eu era. Estava confusa, sozinha e amargamente arrependida. Queria ao menos o meu irmão de volta. Andrew nunca tinha sido um pai de verdade para mim, Tobias estava certo. Eu não reconhecia mais a minha mãe também. Antes ela ao menos demonstrava se preocupar comigo, agora ela não estava nem aí. Seus insultos tinham ficado piores e ela não passava um dia sem me lembrar do quanto eu era indesejada e um desgosto para ela.

Eu queria chorar, mas me recusava. Eu não precisava dos meus pais. Tudo o que eu queria e realmente importava para mim era meu irmão de volta. E se eu precisasse passar pro cima do meu orgulho e dos meus ideais, eu faria isso. Estava decidida. Faria qualquer coisa para ter Tobias comigo novamente.

Subi para meu quarto e troquei de roupa. Peguei as minhas chaves, minha bolsa e desci, indo até a garagem e dando partida no carro. Precisava passar no banco antes de qualquer coisa. Estava sem nenhum dinheiro e as contas precisavam ser pagas. Depois de lá, iria até a casa do meu irmão. O que eu estava prestes a fazer mudaria tudo. Mudaria minha relação com minha mãe; mudaria minha relação com meu pai; eu poderia até ir para a cadeia, mas nesse momento tentava não pensar sobre isso. Algo dentro de mim dizia que era a coisa certa a fazer, por mais que as consequências me assustassem. Era o que Tobias faria e eu só precisava dele. Queria deixá-lo orgulhoso ao menos uma vez na vida e fazer a coisa certa; fazer o que ele faria. Chorava todos os dias de tanta saudade que sentia do meu irmão.

A verdade é que não existia Nita sem Tobias.

Demorei cerca de vinte minutos até o banco mais próximo, no entanto tive que dar duas voltas no quarteirão antes de encontrar uma vaga num estacionamento meio longe dali. Meus saltos não tinham sido uma boa ideia. Teria que caminhar até lá e os buracos nas ruas não facilitavam nada. Bufei, frustrada. Isso era mesmo Miami? Deus, eu precisava me mudar dessa área urgente. Até mesmo o cheiro desse lugar me dava náuseas.

Comecei a andar em direção ao banco o mais rápido que eu conseguia. Aqui era um bairro de classe media baixa de Miami e não me passava a sensação de segurança a qual estava acostumada. A que ponto eu tinha chegado? Isso aqui era com certeza o fundo do poço. Eu era da elite, oras! Precisava urgentemente voltar para meu antigo apartamento. As pessoas deste lado eram inferiores e eu não merecia isso.

Tive a sensação de estar sendo seguida, mas olhei para trás e não vi ninguém suspeito, exceto pessoas circulando normalmente.

Estranho.

Eu estava surtando, só podia ser.

Respire e conte até cinco, Nita.

Cheguei ao banco, fui até o caixa eletrônico e paguei todas as contas que estavam em aberto. Saquei dois mil dólares e restaram apenas setenta e quatro mil na poupança. Eu precisava resolver isso. Estava usando o dinheiro que seria para a faculdade com meus gastos pessoais, sem contar os da mamãe também. Tobias me mataria se descobrisse.

Saí de lá e comecei a andar até o carro, pensando em alguma alternativa que pudesse me ajudar a consertar meus problemas, quando senti algo pontudo e gelado pressionar minha lombar e uma voz grave soou atrás de mim:

— Continue andando, bonequinha. – o homem falou e eu congelei.

Senti minhas mãos suarem e meu peito acelerou rapidamente.

Eu nunca tinha sido assaltada na minha vida.

— Eu mandei continuar andando. Você quer fazer as coisas do jeito difícil, lindinha? – ameaçou. Seu hálito quente próximo ao meu ouvido fez arrepiar todos os pêlos do meu corpo, mas não de um jeito bom. Pelo contrário, eu estava tremendo de medo.

Neguei com um balanço de cabeça, sentindo o choro entalar minha garganta e a vista ser embaçada pelas lágrimas. Eu não podia chorar agora. Precisava manter a calma e fazer o que ele mandava. Quem sabe depois que pegasse meu dinheiro ele me deixasse. Eu me agarrava isto, mas algo me dizia que isso não seria um assalto qualquer.

O pensamento só me deixava ainda mais amedrontada.

O homem começou a me guiar ainda com a faca apontada para minha coluna. Qualquer parada que eu fizesse ela cravaria no meu corpo. Eu não tinha como correr. Olhei para os lados pensando em qualquer um que pudesse me ajudar, mas as poucas pessoas que circulavam por ali pareciam alheias a tudo. Ninguém me ajudaria. Eles sequer estavam notando o que estava acontecendo.

A vontade de chorar só aumentou.

— Eu não vou demorar, querida, eu prometo. Você vai até gostar. – ele riu. Parecia como um daqueles psicopatas de filmes.

Meu corpo inteiro tremeu mais uma vez.

Ficou claro que ele não ia me assaltar.

Caminhamos até uma espécie de beco entre dois prédios abandonados ali. Havia latas de lixo, sacolas espalhadas pelo chão e um cheiro horrível de algo podre. Eu enruguei o nariz e prendi a respiração, sentindo o coração bater forte no peito e tentando segurar o choro. Se ele me visse como alguém frágil as coisas ficariam piores, eu sentia isso. Não poderia gritar também, ninguém me ouviria daqui.

Não consegui controlar meu choro e um soluço saiu da minha boca assim que lágrimas começaram a cair.

E-eu posso pa—pagar quanto vo—você quiser. Só me—me deixe ir. – solucei, implorando. Era a única coisa que eu poderia fazer agora. Qualquer ato que eu tentasse acabaria me machucando ou pior: me matando.

— Eu não quero seu dinheiro, docinho. – o homem riu mais uma vez e um calafrio percorreu minha espinha. – Seu corpo é uma oferta muito melhor. Agora fique quietinha, eu não quero machucar esse seu lindo rosto. – falou e começou a passar a ponta da faca na minha bochecha enquanto me empurrava contra o muro que havia ali.

— Por favor, —não faça isso. – chorei mais uma vez. – Por favor.

— Isso, implore. Eu gosto quando você implora, baby. – sorriu e pressionou seu corpo contra o meu. Senti algo duro na minha pélvis e chorei ainda mais. A mão que estava livre da faca apalpou um dos meus seios. Eu estava estática. Isso não podia estar acontecendo. – Você é muito gostosa, menina. Seu corpo foi feito exatamente para satisfazer os homens. – ele suspirou e gemeu.

Senti a ânsia na garganta e tentei controlar meu choro. Precisava agir. Qualquer coisa seria melhor que isto, até mesmo a morte. E se eu iria morrer que ao menos fosse lutando.

Senti sua língua deslizar pelo meu pescoço enquanto ele usava a faca para rasgar minha blusa com brutalidade. Esperei o segundo em que ele afastou a lâmina do meu corpo e usei toda minha força para chutar sua virilha. Ele levou as mãos até o meio de suas pernas e deixou que a faca caísse, uivando de dor. Tentei correr, mas logo senti um puxão nos meus cabelos.

— Vadia estúpida! – ele berrou e me puxou o tornozelo em direção ao chão. Minhas costas sentiram o impacto e eu gritei. – Depois de foder você eu vou cortar cada pedaço do seu corpo, você tá me ouvindo? Você não vai escapar, sua vadiazinha. Eu vou foder você e quero vê-la implorando por mais. Vai ser gostoso. Você é gostosinha. – rosnou e moveu-se rápido o suficiente para ficar por cima de mim.

Me imobilizou, prendendo minhas duas mãos acima da minha cabeça, e o peso do seu corpo tornava difícil qualquer movimento que eu tentasse fazer. Estava tendo dificuldades até para respirar, mas não ia desistir. Eu era forte. Precisava ser forte agora; queria sobreviver. Ainda tinha tanto para consertar... Eu não estava pronta!

Minha vida começou a passar como um filme na minha cabeça. Senti as lágrimas nos olhos mais uma vez e meu lábio tremia, enquanto um soluço escapava. Eu precisava me redimir com as pessoas. A armadura de vadia que eu usava só tinha me trazido intrigas, ódio, rancor... Eu não queria mais ser assim. Estava exausta de todo mundo me odiar. Eu machucava as pessoas e de certa forma isso me machucava também. Tinha que mudar. Tinha muito com o que me desculpar.

Eu não podia morrer hoje.

Comecei a me debater debaixo dele e quando ele aproximou sua boca da minha, cuspi em seu rosto. Parte da minha saliva o acertou em cheio; a outra parte caiu bem em cima de mim.

Maldita gravidade!

— Você vai se arrepender disso, garota. – ele gritou e apertou meu peito. Gritei também, sentindo mais dor, enquanto ele tateava a mão pelo chão à procura da sua faca.

— Socorro! Por favor! – berrei desesperada. Minha garganta já doía de tanto que eu clamava por alguém. – Socorro! Socorro!

— Cale a boca, porra! – o homem passou a faca na minha bochecha e eu chorei, ainda me debatendo. Não sabia fazer outra coisa. Sentia o ardor no meu rosto enquanto o sangue escorria. – Eu vou retalhar você todinha, vadia escrota.

Ele usou a faca desta vez para rasgar minha saia. Eu só chorava, mas tentava – sem sucesso – sair daquela posição. Comecei a clamar por misericórdia, por Deus, por qualquer um que pudesse me ajudar naquele momento. Usando toda a força que ainda restava em mim, forcei um impulso que fez minha cabeça levantar, mas o homem pressionou meu pescoço para trás com tanta força que meu crânio atingiu o chão. Minha vista escureceu imediatamente e me senti mole. Tentei focar, mas nada adiantava. Meu corpo não obedecia mais meus comandos. Eu estava dormente, cansada, tudo tinha parado ao meu redor. Eu não enxergava, eu não ouvia...

De repente, senti o peso em cima de mim aliviar. Tentei forçar meus olhos e vi que não estava mais apenas o homem e eu. Respirei aliviada, mas ainda sentindo meu corpo inteiro doer. Principalmente minha cabeça.

— Merda, ela está sangrando. – soou uma voz distante conhecida. Era masculina. – Nit, fica com a gente, ok? Marlene, chame uma ambulância agora!

Suas mãos apoiaram minha cabeça. Consegui enxergar Uriah e uma loira ao seu lado, ambos me olhando numa mistura de compaixão com desespero.

— Você consegue falar? – ele perguntou e eu abri a boca para responder, mas nada saía. Tentei mais uma vez. Nada. Isso não podia estar acontecendo! – Calma, isso deve ser o choque. Estamos com você, ok? Tenta ficar acordada. A ambulância já está chegando.

— Zeke, chega! – a loira gritou. – Assim você vai matá-lo!

Maneei a cabeça à procura do amigo do meu irmão, mas senti dor ao mexer e parei. Ele devia estar cuidando do psicopata.

— Isso é o que ele merece, porra! – Zeke gritou ao fundo. Podia ouvir o som de osso quebrando e socos diferidos. No entanto, exceto pela respiração pesada de Zeke e os seus resmungos sem nexo, eu não conseguia ouvir o outro cara.

Era um alívio.

— Sim, mas isso é trabalho da polícia. Chega, cara. – Uriah rebateu o irmão e olhou para a garota. – Segure a cabeça dela desse jeito com cuidado. Eu me viro com ele. – ele apontou em direção ao irmão e mãos delicadas apoiaram minha cabeça. Olhei para a garota à minha frente, sabendo que ela me parecia familiar, mas eu não conseguia me lembrar de onde a conhecia. Talvez do clube, mas eu não tinha certeza.

Os paramédicos chegaram em poucos minutos. Já dentro da ambulância, Zeke parecia atordoado. Ele passava a mão no rosto, um tique que eu sabia que era de nervosismo. Uriah e Marlene estavam nos seguindo no carro de trás. Eu estava tão grata por eles terem aparecido que não conseguia sequer expressar o sentimento.

— O-obrigada. – sussurrei, minha cabeça pesando ainda mais e minha visão escurecendo novamente.

— Vai ficar tudo bem agora, Nit.

Foi a última coisa que o ouvi dizer antes de apagar completamente.

Notas finais
E aí??!! O que acharam?! Comentem, comentem, comentem ♥ Bom, esse capítulo foi bem complicadinho de escrever, porque entrar na mente de Nita e escrever tudo que ela pensa do jeitinho dela não é fácil. No entanto, espero que tenham curtido e entendido um pouco o lado dela da história! No mais, pode passar para o próximo que já está postado! Ah, mas não esquece de comentar, viu?! Amo vocês ♥