Notas iniciais
Oi meus amores, tudo bom com vocês?! ♥ Antes de tudo peço imensas desculpas pelo atraso. Estou passando por um problema grave de saúde e desde já peço oração e torcida aos meus queridos leitores. Enfim, nada justifica tanto tempo, mas realmente está sendo complicado. Espero que entendam. No mais, aqui está o capítulo. Ficou enorme, mas como me pediram para não cortar nada, aqui está. Haha o próximo sairá rapidinho! Espero que gostem! Mamãe ama todos vocês ♥ Leiam as notas finais!

BEATRICE PRIOR

— Vamos lá, Tris. – Al bateu na porta pela terceira vez. – Depois de ontem, pedi folga do escritório hoje. Não me faça ter implorado à toa.

Quando voltamos do aeroporto ontem, minha crise de choro rendeu até a noite. Al esteve comigo durante todo tempo e me segurou até que eu dormisse. Eu não tinha conseguido falar sobre o que tinha acontecido em Miami. Aliás, eu nem sabia se queria conversar a respeito disso. Era muito mais fácil fugir e começar do zero esquecendo tudo. Era assim que eu agia. Sendo que eu sabia que não seria justo com Al. Ele me acolheu. Me abraçou, me deu comida e um ombro para chorar. Ele merecia saber alguma coisa.

— Eu fiz panqueca em forma de Mickey, você tem certeza que vai recusar? – Al insistiu e eu ri. Comíamos várias dessas quando éramos menores. Sua mãe estava sempre fazendo e eu amava. Era meu prato favorito na infância.

Tudo parecia seguro aqui. Talvez eu nunca devesse ter saído desse lugar. Tinha sido um erro terrível.

— Saio em dois minutos. – respondi e ouvi sua risada, pouco antes de seus passos se afastarem.

Eu estava deitada na cama do quarto de hóspedes do apartamento de Al. Era pequeno, nada exagerado, com móveis de madeira desgastados pelo tempo. Al me disse que tinha comprado três dias depois que eu fui embora. Tinha conseguido um estágio em um bom escritório de advocacia aqui e aparentemente eles pagavam muito bem. Ele disse já ser hora de sair da casa da mãe e ter seu próprio lugar. Eu estava tão orgulhosa dele. A vida aqui não era fácil como em Miami. Não tínhamos pais ricos ou qualquer conta poupança no nosso nome.

Muito menos éramos estrelas de rock.

Apertei os olhos e tentei me livrar da sensação que viria a seguir. A saudade de Tobias apertava meu peito de forma que era difícil respirar. Era como se ele estivesse em mim. E, por mais que eu tentasse bloquear meus pensamentos dele, ele estava sempre lá. Os acontecimentos da nossa noite juntos batiam com força na minha mente. Sua promessa de que me amava. Sua maneira de cuidar de mim. Seus olhos suplicando para que eu não fosse embora... Tudo me fazia repensar se não tinha agido no impulso. Me fazia questionar sobre ter tomado a decisão certa. Eu devia ter dado mais uma chance? Tinha de confiar nele mais uma vez? Ele parecia tão sincero... Então as memórias com o meu irmão apareciam. As memórias com a minha mãe apareciam. Tudo voltava e só me dava mais certeza: eu tinha feito a coisa certa.

Me levantei da cama e fui até o banheiro. Escovei os dentes e lavei o rosto. Estava com a cara péssima. Parecia que todo meu sofrimento estava exposto ali. Me afastei um pouco e me olhei de baixo a cima no espelho horizontal. Eu me via diferente. Será que Al podia notar isso também? Sentia que meu corpo inteiro havia mudado depois da noite com Tobias. Tinha me tornado mulher naquele momento. Embora me sentisse dilacerada, não me arrependia daquela noite. Tinha dado meu corpo e meu coração. Não podia me arrepender disso. Jamais. Tinha sido perfeito e por um único momento, me senti amada também. Não duvidava naquela hora. Tínhamos sido apenas eu e Tobias, sem nenhuma mágoa ou passado para nos destruir. Sem mentiras ou segredos. Apenas nós.

Mais uma vez, afastei meus pensamentos dele. Tinha que superar. O que tínhamos havia morrido no segundo em que a verdade saiu dos lábios de Evelyn, e não dos de Tobias. Queria que ele tivesse me contado tudo. Talvez eu pudesse perdoá-lo. Se ele tivesse sido sincero, poderia digerir e tentar seguir de alguma forma. Mas ele não tinha apenas escondido meu passado de mim. Ele também sabia da morte do meu irmão. E isso eu não podia perdoar.

Saí do quarto e fui em direção à cozinha, onde Al estava de costas para mim e cantarolava uma de suas canções favoritas de rock. Ele amava rock. Era seu marco principal. Não consegui conter uma risada ao ouvir seu canto desafinado e a maneira como rebolava seus quadris. De longe ele era o pior dançarino que eu conhecia.

Al se virou e sorriu para mim. Ele não escondia o entusiasmo e a alegria que sentia por eu ter voltado. Queria poder me sentir feliz tanto quanto ele, mas sequer sabia se me sentiria feliz novamente algum dia.

— Senti falta da sua risada. – ele falou e estendeu um prato com duas panquecas em forma das orelhas do Mickey e uma xícara com café. Eu não era muito fã de café, mas sabia que precisava beber algo forte para aguentar o dia. – Venha, vamos comer na sala. Ainda não tive tempo de comprar uma mesa. – ele riu.

Ele seguiu e eu fui atrás dele. Sentei-me ao seu lado e pus o prato no meu colo, enquanto segurava a xícara com uma das mãos. Al se virou para mim com olhos alegres e notei o quanto ele não mudou desde que éramos crianças. O cabelo liso, caindo sobre sua testa, perfeitamente alinhado, era uma das várias coisas que ele ainda tinha de garoto. O rosto que nunca passou pela fase das espinhas ainda era o mesmo pelo o qual eu tinha me apaixonado. A diferença agora é que ele é um monte de músculos. Não de forma exagerada, mas daquele jeito que arranca olhar e suspiros das garotas.

Ele tinha se tornado um cara bem bonito.

— Terra para Tris. – Al me chamou, trazendo-me de volta para realidade.

— Desculpe, não ouvi o que você disse. – forcei um sorriso e levei uma panqueca até minha boca e mordi. Conti um gemido que saiu assim que senti o gosto. Tinha sentido falta. Estava deliciosa.

— Eu estava dizendo que, como hoje tenho o dia livre, pensei em dar uma volta nos lugares que você gostava de ir. Podemos ir naquele boliche perto da Sra. Lance, ou então na floricultura do Sr. Parker. De qualquer forma, só quero passar um tempo com você e fazê-la rir. Você não parece feliz.

E eu não estava. Al podia ver isso e eu nem me esforçava para enganá-lo. A dor no meu coração estava anestesiada, mas ainda estava lá. Eu estava dividida entre amar e odiar Tobias. Ele representava dor para mim. Ele havia destruído minha infância. Ele fez da minha vida um inferno quando cheguei em Miami. Ele chamou minha mãe de prostituta. Ele sabia sobre a morte de Caleb. Eu tinha todos os motivos para odiá-lo. Entretanto, quanto mais me forçava a isso, mais absurda parecia a ideia. Não combinava com o homem que eu tinha conhecido. Muita coisa não fazia sentido. Eu queria acreditar que tudo era mentira.

Mas para meu pesadelo, não era.

Olhei para Al e me odiei por desapontá-lo. Eu não estava no clima para sair. Eu só queria voltar para o quarto e chorar. A tristeza estava voltando. A falta que eu sentia do que havia perdido em Miami me cortava o coração. Senti algo pingar em eu braço e vi que estava chorando. Meu amigo olhava para mim como se também sentisse dor. Sequei meus olhos e coloquei meu prato e xícara em cima da mesa de centro. Não sentia mais fome.

— Quero ver minha mãe e Caleb. – revelei e ele assentiu.

— Tudo bem. Mas preciso que me conte o que houve lá, Tris. Não vou conseguir ajudar você se eu não souber o que está te deixando triste. Acho que nunca vi você tão mal desde que... – Al não completou. Eu podia notar a tristeza na sua voz. Não tínhamos falado muito sobre a morte da mamãe. Ele não se sentia confortável o bastante. Al e minha mãe tinham sido muito próximos antes de Caleb morrer. Talvez ele tivesse sofrido a perda tanto quanto eu.

Levantei meus olhos para Al mais uma vez e o encarei. Ele estava sofrendo por mim e mais ainda por não saber nada do que tinha acontecido. Não sabia se conseguiria contar toda verdade, mas me esforçaria. Ele era minha única pessoa; merecia saber. E eu também precisava desabafar.

— Vou contar tudo que eu conseguir, mas podemos ir ao cemitério antes? Preciso conversar com eles também. – pedi e mais uma vez, Al concordou. Me puxou para um abraço e depositou um beijo na minha cabeça.

— Saiba que estou aqui. Sempre estive. Nunca me perdoei por ter sido um babaca e aberto mão de você, mas não vou cometer esse erro novamente. E passarei o resto da minha vida tentando compensar você de alguma forma. – ele soltou e eu não tive tempo de respondê-lo, pois ele voltou a falar. – Vou tomar um banho e em seguida nós podemos ir. Se isso vai fazer você se sentir melhor, estaremos lá em poucos minutos.

— Obrigada. – foi tudo que eu consegui dizer.

— Tudo por você, menina bonita. – ele piscou e seguiu em direção ao seu quarto.

Recolhi nossos pratos, coloquei-os na lava-louças e fui tomar um banho. A realidade de uma vida sem meu coração ameaçava bater, mas eu expulsava todos os pensamentos. Preferia me sentir vazia à que me sentir triste. Não queria mais chorar. Estava cansada. Me perguntava se algum dia iria superar isso. Nada se comparava a dor que eu sentia agora. Não tinha perdido apenas Tobias. Tinha perdido a imagem da minha família. O mundo que eu acreditava que era verdade. Tudo isso tinha ido embora.

Saí do banho e abri minha mala para pegar a roupa. Notei um papel dobrado no bolso das peças íntimas e o peguei para ler. Me arrependi no exato segundo em que meus olhos encontraram a caligrafia perfeita de Tobias. Eu me lembrava desse bilhete.

“Eu não quis acordá-la. Terei café da manhã preparado quando você se levantar. Me encontre no jardim, porque tenho uma surpresa para você.

A propósito: você é linda quando dorme.

— Tobias.”

Fechei o papel. Ele me entregara no dia em que as crianças foram para sua casa tomar banho de piscina. Eu ainda estava de repouso pela minha barriga queimada, então ele levou todo mundo para lá. Tinha sido um dia maravilhoso e as crianças amaram. Lembro-me da expressão de gratidão nos olhos de Hector. Seria um dia inesquecível. Para todos nós.

Coloquei de volta no bolso e respirei fundo, afastando as lágrimas que se acumularam. Eu queria ter forças para ignorar minhas emoções e rasgar o bilhete, mas ainda não estava pronta. Por mais contraditório que pudesse ser, ainda não estava pronta para apagar Tobias da minha vida completamente. Não sabia se algum dia estaria. Até lá, eu ainda estava mantendo tudo. Os presentes, o telefone, os bilhetes... Tudo. Até estar em paz e poder me livrar deles sem que meu coração fosse destruído.

Optei por calça, uma blusa de manga e bota. Diferente de Miami, aqui ventava e fazia muito frio. O cemitério ficava um pouco alto e lá a frieza era um pouco maior. Prendi meu cabelo num rabo de cavalo e passei corretivo debaixo dos meus olhos para esconder as olheiras. Quando terminei e fui à porta, Al já me esperava lá.

— Tinha esquecido do quanto você é linda. – ele me deu um sorriso e se aproximou me dando um abraço. O calor dele me envolveu e a sensação de segurança pairou no ar. Al seria sempre meu porto seguro. – Isso vai passar. Seja o que quer que tenha acontecido lá, vai passar. E você é a pessoa mais forte que eu conheço. Vai ficar bem.

Eu apenas concordei com um aceno de cabeça. Não sabia mais de nada, mas queria acreditar nele. Fiz uma oração silenciosa para que Al estivesse certo e torci por isso. No caminho até o cemitério, nós dois seguimos num silêncio confortável. Ele não arriscou ligar o rádio e eu mentalmente agradeci. Tinha caído no choro graças a uma maldita música. Não tinha mais o controle das minhas emoções.

Paramos o carro e Al estacionou na entrada do cemitério.

— Você quer que eu vá ou prefere que eu te espere aqui? – ele perguntou, mas podia ver que já sabia qual seria minha resposta. Essa era a minha relação com ele. Nos conhecíamos como ninguém.

— Acho que quero fazer isso sozinha. – eu respondi e ele concordou.

— Tudo bem. Vou te dar quinze minutos. Se você não voltar, eu entro.

Eu concordei. Geralmente, quando eu visitava os túmulos, caía numa crise de choro incontrolável e Al sempre aparecia para me levar para casa. Era nosso acordo. Eu deixava ele me pegar se em troca não falássemos sobre isso. Ele me entendia. Fizemos isso desde que Caleb morreu e em seguida mamãe também.

Entrei no cemitério e a grama verde alegre contrastava com toda aquela tristeza que havia naquele lugar. Parei em frente a duas lápides que exibiam meu sobrenome. À minha esquerda estava a da mamãe com a seguinte frase:

Natalie Prior.

A abnegação e o amor de uma mãe para com seus filhos não têm limites.

Exemplo de fé, simplicidade e doação.

Saudades eternas, mãe.

Permiti que uma lágrima caísse enquanto pensava no que dizer a ela. Sabia que de alguma forma, minha mãe sempre me escutava. A saudade que eu sentia dela era imensa. Sua morte ainda era recente. Ela tinha sido minha melhor amiga durante toda minha vida.

— Oi, mãe. A vida sem você é muito mais difícil do que a nós duas imaginávamos. Lembro-me de você sempre me aconselhando sobre como eu deveria seguir quando chegasse sua hora. Eu sei que para você foi um descanso e quanto a isso, meu coração está em paz; só que isso não diminui a saudade que sinto de você. Tenho sido honesta e gentil tanto quanto pude. Me esforço todos os dias para ser como você; para que você tenha orgulho de mim. Eu... Eu acho que odeio o papai. Odeio a esposa dele também. Sei que a senhora não gostaria que eu odiasse alguém, mas eles dois eu odeio. Ela matou o Caleb, mãe. – respirei fundo e fiz uma pausa. O nó em minha garganta queimava e estava difícil respirar. – Eu não sei como alguém consegue ser tão mal. Seu filho é totalmente diferente dela. Passei os últimos meses com ele desde que a senhora partiu. Me apaixonei. Você tinha razão quando dizia que Al não era o cara certo para mim. Eu encontrei o amor. E se eu dissesse o perfil físico dele, acho que a senhora reprovaria. Ele é coberto de tatuagens. – eu ri. – Mas seu coração é tão bom. Você iria gostar de conhecê-lo. Tive que deixá-lo. – suspirei. – Mentiras e segredos podem destruir até mesmo a mais bela relação. Acho que nunca mais terei meu coração inteiro novamente. Quando Caleb morreu, levou um pedaço de mim com ele. Então a senhora se foi também. E agora Tobias. Todos que eu amo de alguma forma acabam me deixando. Eu vou ficar bem, de qualquer forma. Estou me virando. Sinto sua falta, mãe. Sempre irei sentir. Eu amo você.

Respirei fundo e voltei para minha direita, onde gravado no túmulo de Caleb dizia:

Caleb Prior.

Uma chama que brilhava tão forte certamente não fora feita para durar.

Honesto, justo e bondoso.

Saudades da família e amigos.

— Ei, maninho, como estão as coisas aí em cima? Desde que você se foi, eu nunca mais fui a mesma. Você levou uma parte da minha alma que eu nunca mais terei de volta. Infelizmente, eu tive que parar de estudar. Como eu disse da última vez que vim, a mamãe ficou doente e eu tive que parar e me dedicar a ela. Sinto falta de vocês dois, mas me conforta saber que agora vocês tem um ao outro. – Respirei fundo e me ajoelhei, passando a ponta dos dedos no mármore da sua lápide. – Eu sinto muito pelo que fizeram com você. De alguma forma, tentarei fazer justiça. Sua morte não será em vão, Caleb, eu prometo. Farei tudo que estiver ao meu alcance para que os culpados paguem. – engoli o nó em minha garganta e me levantei. Abracei meu próprio corpo quando um vento frio soprou em mim. – Você sempre será minha âncora. Estou sendo forte, assim como você me ensinou. Vou voltar a estudar também. Me esforçarei para ser tão brilhante quanto você. Você vai se orgulhar, maninho. Eu te amo. Para sempre, eu te amo. Fica bem.

Me afastei um pouco e olhei para os dois túmulos diante de mim. Uma paz tomou conta do meu coração. Eu sempre me sentia melhor quando conversava com eles. Mamãe e Caleb sempre seriam minha família. Dividir com eles minha vida tornava mais fácil lidar com a perda e a saudade. O vazio que eu sentia era preenchido sempre que eu vinha aqui. Notei que desta vez, não tinha chorado tanto quanto eu costumava. De alguma forma, eu estava me adaptando às suas ausências. Era reconfortante saber que eles estavam juntos. E eu tinha certeza de que estavam num lugar melhor que aqui.

Voltei até o carro e vi Al encostado nele, mexendo no celular. Eu tinha tanta sorte de tê-lo comigo. Tudo seria mil vezes pior se eu não tivesse seu apoio e sua compreensão.

— Obrigada por estar sempre comigo. – eu disse quando cheguei mais perto e o abracei. Rapidamente seus braços me envolveram e ele depositou um beijo na minha cabeça.

— Tudo por você, gata. – ele soltou e eu ri. Al não me chamava assim há tempos. – Aí está. Esse sorriso faz meu dia, sério.

— Me sinto melhor. Obrigada por me trazer aqui. – ele me soltou e segurou meu rosto com as duas mãos, prendendo meu olhar no dele. Seus olhos castanhos brilhavam com amor e admiração. Al sempre foi fácil de ler.

Aparentemente, seus sentimentos por mim nunca mudaram.

— Sempre que você precisar, eu estarei aqui. Não vou a lugar nenhum, Tris. Sempre fui seu e sempre vou ser. Basta curvar o dedo, gata. – ele piscou e sorriu. Sempre amei seu sorriso. Era meio torto, um pouco desajeitado, mas muito sincero.

— O convite pro boliche ainda está de pé? – eu sorri. Não adiantava ficar trancada no quarto me lamentando pela perda de algo que nunca tive realmente. Eu não superava as coisas assim. Me distrair era sempre a melhor forma de lidar com tudo.

— Graças a Deus! – Al exclamou e eu gargalhei. Não imaginava que ele estivesse tão empolgado. – Eu tinha marcado com a galera hoje depois do trabalho. Estamos tentando jogar junto há três semanas. Eles cortariam minhas bolas se eu furasse. Tudo bem por você? É só uma gente do escritório. Eu posso cancelar se você não se sentir à vontade, claro. Primeiro você.

— Não, por mim tudo bem. Acho que vai ser até bom conhecer novas pessoas.

— Você é a melhor amiga do mundo! – Al soltou e me pegou nos braços, girando-me no ar. Eu gargalhei. – Eles vão adorar você.

Eu apenas dei de ombros e nós entramos rindo dentro do carro. Seguimos para um restaurante italiano que ficava no centro de Chicago. Al me contou mais sobre seu trabalho, sua vida pessoal e sobre sua mãe também. Disse que iríamos visita-la assim que eu quisesse. Ela e minha mãe eram melhores amigas. Eu sentia saudade dela também. Anne tinha sido como uma segunda mãe para mim. Acho que ela sofreu com o término do meu namoro com Al mais do que ele mesmo.

A tarde passou rápida. Al não parou de falar por um segundo. Não tocou no assunto de Miami em nenhuma vez e eu mentalmente agradeci. Eu sabia o quanto ele estava curioso à respeito, mas sua forma me dar o tempo que eu precisasse só me fez amá-lo ainda mais. Eu esperava que algum dia nós pudéssemos tentar de novo. Quando tudo dentro de mim se acalmasse, talvez pudesse amá-lo novamente da mesma forma que ele ainda me amava. Entretanto, agora eu só o via como um irmão.

Voltamos para seu apartamento para tomarmos banho e nos arrumarmos. Eu já tinha ido ao boliche algumas vezes quando mais nova, mas Al tinha me dito que o lugar havia mudado e que agora era muito maior. Optei por calça branca e uma blusa de gola e manga longa preta. Ambas as peças ficaram mais justas do que eu me lembrava, mas ainda serviam. Coloquei uma sapatilha preta simples e peguei minha bolsa. Pus máscara de cílios e um brilho labial para me deixar mais com cara da minha idade. Coloquei perfume e me olhei no espelho. Estava bonita, mas o rabo de cavalo me deixava séria demais. Soltei e baguncei um pouco o cabelo, formando pequenas ondas.

Bem melhor.

Saí e dei de cara com o Al na porta. Seu olhar correu todo meu corpo e um sorriso satisfeito tomou sua boca.

— Você está... Minha nossa, eu não tenho nem palavras. – ele riu e pegou minha mão, fazendo com que eu desse uma voltinha. Soltei uma risada alta. Aqui eu me encaixava. – Maravilhosa. Fui atingido. – ele levou a mão ao peito e fez um gesto dramático.

Eu ri.

— Você não está nada mal também. Alguém em especial?

— Você. Sempre você. – ele riu e seu telefone tocou. Ele atendeu. – Oi... Sim, cara. Nós já estamos indo. Sim, eu disse “nós”. Estou levando uma pessoa. Não seja babaca. A gente se vê, mano. Valeu. – ele desligou e colocou o aparelho de volta no bolso da calça. – Eles estão esperando. Estamos dez minutos atrasados.

Al me levou até o carro e deu partida. Demoramos mais quinze minutos para que chegássemos até o prédio do boliche. Al estacionou ao lado de um carro com um grupo de cinco pessoas, quatro homens e uma mulher. Quando ele desceu, rapidamente foi cumprimentado pelo grupo.

— Você nunca se atrasa, cara. O que deu em você? Estamos aqui há meia hora. – o loiro disparou, cruzando os braços. Ele estava claramente chateado.

— Apostei minha bola esquerda que seria por causa de alguma garota. – o de cabelo mais escuro riu e moveu seus olhos para mim. – Eu nunca erro. Quem é essa beldade?

Al pôs uma mão nas minhas costas e me guiou um pouco mais para perto de seus amigos. Todos eles tinham os olhos em mim.

— Pessoal, esta é a Tris. Tris, estes são Matt, Edward, Alex, Drew e Tori.

— Ótimo, apresentação feita. A gente já pode começar a jogar? – Tori revirou os olhos e cruzou os braços. Ops, ela não estava nada animada com a minha presença.

— Não ligue para ela – o loirinho, que agora eu sabia que se chamava Edward, disse quando se aproximou de mim enquanto seguíamos para a pista. – Tori está acostumada a ser o centro das atenções no grupo.

— Parece que você tem concorrência, Tori. E uma baita de uma adversária. – Drew disparou enquanto a abraçava. Ela o empurrou e o fuzilou com o olhar.

— Cuidado onde pisa, Drew – Matt aconselhou o amigo. – Tori não lida bem quando o assunto envolve dividir o Al.

— Calem a boca todos vocês. – Tori rebateu e seguiu para pegar os sapatos. Os meninos caíram na risada quando ela se afastou.

— Tem certeza que tá tudo bem se eu ficar? – me aproximei de Al e falei mais baixo para que os outros não escutassem. – Acho que nem todo mundo está o.k. comigo aqui.

— Relaxa, ela já se acostuma. – meu amigo riu, beijou minha bochecha e seguiu para perto de Tori, dando-lhe um abraço por trás. Entendi sua antipatia no exato momento em que ela olhou para ele.

Tori amava Al.

E Al amava a mim.

— Há quanto tempo vocês estão juntos? – Edward se aproximou novamente enquanto eu calçava meus sapatos.

— Eu e o Al? – ri. – Não estamos juntos. Somos só amigos. Grandes amigos. Tentamos uma vez, mas não deu certo.

— Então você está livre. – ele levantou uma das sobrancelhas.

— Não exatamente. – respondi com um sorriso. Sua jogada era inocente. Rapidamente gostei dele.

— Qual é, nenhuma de vocês consegue resistir por muito tempo. – ele sorriu e me ajudou a descer do balcão. – E se eu facilitar as coisas para você?

— De que jeito?

— Podemos pular toda parte que você faz o famoso “cu doce” e finalmente aceita jantar comigo.

Soltei uma gargalhada alta fazendo com que todos olhassem para mim. Me encolhi de vergonha. Edward pareceu não se abalar. Al agora mantinha a atenção na gente com um olhar curioso enquanto íamos em direção a nossa pista. Estava um pouco sério.

— Eu conheço você há – olhei para o relógio. – exatamente dez minutos. O que faz você pensar que eu aceitaria?

— Você tem um ponto. – ele deu de ombros. – Mas gata, como eu falei, ninguém consegue resistir. É só uma questão de tempo.

— Ed, cara, você está perto demais. – Al disse enquanto se aproximava e se colocava atrás de mim, repousando ambas as mãos na minha cintura. O olhar de Tori me fulminou e ela arremessou a bola com toda força em direção aos pinos. Apenas um ficou de pé.

— Wow, gata, isso que eu chamo de jogar. – Edward falou, enquanto os garotos aplaudiam e assobiavam. – Sua vez, Tris.

— Acho que ela precisa de uma bola mais leve. Quer que a gente acione as barras também? – Tori debochou, enquanto passava por mim e sentava perto dos meninos.

— Mostra pra ela como faz. – Al sussurrou ao meu ouvido e piscou.

Me posicionei diante a pista e respirei fundo. Arremessei a bola bem no centro, usando toda técnica que tinha aprendido há algum tempo. Fiz um strike quando a bola derrubou todos os pinos. Eu amava boliche. Era algo em que eu era excelente.

— Caralho – Drew assobiou.

— Você está fodida, Tori. – Matt disse, arrancando risos de Edward e Alex.

— Vá pro inferno. – ela rebateu e virou-se para mim. – Você deu sorte.

— É. – dei de ombros e voltei para sentar com os meninos.

Al seguiu para sua vez. Depois Drew, Edward, Alex e Tori novamente. Jogamos por duas horas e o placar final seguiu comigo em primeiro lugar. Tori ocupou a segunda posição, seguida por Ed em terceiro. Al ficou em último. O tempo não tinha sido generoso com ele nesse quesito. Ele continuava horrível, por mais que jogássemos isso desde os sete anos.

— Tris, você ficou em primeiro então escolhe o que a gente vai comer. – Alex falou enquanto seguíamos para o estacionamento.

— Acho que pizza é universal. – eu sugeri e Edward reprimiu os lábios.

— Tori odeia pizza. – ele respondeu e eu arregalei os olhos.

— Ele está zoando. – ela riu. Foi a primeira vez que ela riu para mim durante a noite toda. – Ninguém em sã consciência odeia pizza. Mas você precisava ter visto sua cara.

Todos riram e eu segui junto. Os amigos de Al me lembraram do que eu tinha deixado em Miami. Christina, Will, Uriah... Sentia falta de todos eles. Esperava que algum dia eu conseguisse voltar.

Entrei no carro de Al e seguimos para seu apartamento. Os outros vieram logo atrás. A proposta era de jogaríamos algum jogo de tabuleiro e assistiríamos Netflix até que um de nós pegasse no sono. Amanhã era sábado. Nenhum deles tinha que ir ao escritório na manhã seguinte, então todo mundo ia dormir no Al. Sentia como se estivesse no ensino médio novamente. Tudo que eu tinha perdido naquela época de certa forma estava voltando. Eu estava grata. Com tanta coisa ocupando meu dia, não havia espaço para lembrar da tristeza que sentia em meu coração.

Quando Al encostou o carro em frente ao seu prédio, congelei. Um luxuoso SUV preto parado ali parecia totalmente fora do padrão de classe média daquele bairro. Uma figura alta e musculosa de cabeça baixa com um boné cobrindo o rosto encostada ao carro só fez meu coração bater mais forte. Eu o reconheceria em qualquer lugar.

Tobias estava aqui.

— Você conhece esse cara? – Al me perguntou, quando viu que eu não conseguia tirar os olhos de Tobias.

— Sim. Ele é filho de Evelyn, a mulher do meu pai. – toquei a maçaneta, mas antes me virei para Al. – Pode pedir para seus amigos subirem? Preciso ter uma conversa em particular.

— Certo, mas eu vou ficar com você e isso não está em discussão. – ele rebateu e eu concordei. Queria Al comigo.

Desci do carro e caminhei até Tobias. Os amigos de Al passaram por nós tão empolgados numa conversa que sequer notaram a presença de uma estrela do rock ali. Eu respirei de alívio. Não precisava de mais um drama na minha vida. Mantive uma distancia de alguns metros de Tobias. Vê-lo ali, tão perto, sem poder tocá-lo massacrava minha alma. A dor estava de volta. Era inútil pensar que eu conseguiria ficar bem.

— O que você tá fazendo aqui? – perguntei, minha voz saindo quase um sussurro.

— Eu vim porque é aqui que você está. – Tobias levantou o rosto e seu olhar encontrou ao meu. Já era noite, mas mesmo com a escuridão eu podia vê-lo com clareza. A tristeza em seus olhos foi como cravar uma faca em meu peito. Deus, eu sentia tanta falta dele.

— Como me achou? – eu não tinha dado o endereço pra ninguém. Nem mesmo para Chris. Na verdade eu sequer tinha voltado a ligar para ela desde que deixei Miami.

— Seu celular tem rastreador. Desculpe por isso, mas você não me deixou escolha. Eu estava enlouquecendo. – ele se explicou. Senti a tristeza ser substituída pela raiva. Quem diabos ele pensava que era?

— Então agora você vai ficar perseguindo minha bunda como a porra de um psicopata?

— Tris, eu não... – ele se aproximou e eu me afastei, trombando minhas costas com o peito de Al. Ele pôs a mão na minha cintura. Tobias desceu os olhos para o local onde suas mãos estavam e sua expressão passou de desolado para furioso. Mantive minha postura ereta. Não precisava me explicar para ele, por mais que entre eu e Al não rolasse nada. – Inacreditável. – ele soltou uma risada seca e retirou o boné, passando os dedos pelos seus cabelos. – Porra, você só está aqui há um dia...

— Você cheira a mulher e a cerveja – eu o cortei logo. – Nem por isso eu pedi satisfação. O que nós tínhamos acabou, Tobias. Vai embora.

— Eu estive com Cara ontem à noite. – ele começou e foi como se tivessem me dado um soco no estômago. Senti o enjoo subir e minhas pernas fraquejaram. Como ele conseguia dizer isso pra mim? Era golpe baixo. – Não do jeito que você tá pensando. Porra, Tris, você me deixou. Nem sequer me ouviu explicar. Eu não sabia da merda que minha mãe tinha feito, eu juro. Eu não teria escondido isso de você. Caralho, Tris, como pode pensar algo de mim assim?

— Elas são sua família.

— Não, você é. – ele suspirou e seu lábio inferior tremeu. Tobias deu mais um passo. – Você é tudo, Tris.

— Não dá. – disse simplesmente. – Quando eu olho pra você eu lembro de Caleb. Eu lembro da minha mãe e de todas as coisas horríveis que vocês disseram sobre ela. Aquele lugar me destruiu. – minha voz falhou e uma lágrima caiu do meu olho. – Não posso perdoar o que fizeram com Caleb. Nem perdoar pela difamação sobre minha mãe. Não é verdade. Vocês são todos mentirosos.

— Eu entendo que esteja chateada, mas...

— Não tem “mas”, Tobias. – interrompi e sequei mais uma lágrima que caiu. – Acabou.

— Porra, Tris, me desculpe. – a voz dele quebrou e seu rosto foi molhado pelo choro. Tobias parecia não se importar. Eu queria tanto estender minha mão e secá-lo; em seguida consolá-lo. Mas como poderia cuidar de alguém se tudo dentro de mim parecia quebrado? – Eu não quero perder você. Estou completamente apaixonado por você, Beatrice. Eu te amo.

— Eu não quero ser a mulher que você ama. – funguei e senti um leve aperto na minha cintura. A essa altura já havia esquecido que Al também estava ali. Aquela era sua forma de me consolar e de dizer que ele estava ao meu lado. – Eu não posso voltar lá e encarar todos eles. Você não percebe que isso nunca dará certo? Você mentiu, Tobias. Você escondeu meu passado de mim. Segredos que eu merecia saber. Mas você protegeu Nita. A mesma Nita que desejou minha morte. A mesma Nita que queimou minha barriga. A mesma Nita que armou para que Shauna me desse uma surra. Eu tenho marcas no meu corpo que vou levar pro resto da vida, graças a sua irmã. Sua mãe, Tobias, matou meu irmão. Meu único irmão. E você sabia. Disso tudo, você sempre soube e nunca me contou. Você tirou meu pai de mim! – rosnei e engoli o bolo que se formou na minha garganta. Eu estava despejando tudo. Deus, eu não tinha mais nenhum controle. – Você encheu a cara e passou a noite com outra. Não conseguiu ficar longe de uma calcinha nem por um mísero dia. Você chama isso de amor? Como pode amar alguém desse jeito?

— Eu sei que minhas ações agora provam o contrário. Eu me sinto péssimo, Tris. Por tudo que fiz e por tudo que fizeram contra você. Eu prometo que vou passar o resto da minha vida tentando consertar isso, mas se você me deixa explicar...

— Eu não quero ouvir você. Eu não vou acreditar em nada do que você me disser agora. – solucei e sequei meu nariz. Precisava pôr um fim nisso. – Adeus, Tobias. Por favor, não me procure mais. Respeite isso. Se você realmente me ama, faça o que eu peço. Por favor. – a dor que enevoava dos olhos dele era insuportável, então cravei meu olhar no chão. Sentia que se o encarasse poderia desmoronar a qualquer momento.

— Não posso mudar o passado. Eu o mudaria se pudesse, acredite – falou ele. – Tudo o que posso fazer agora é o que você quer. Mas você precisa olhar para mim, Tris. Por favor, olha pra mim. – levantei minha cabeça e o encarei. Usei toda minha força para me manter de pé ao invés de correr para seus braços e ser acolhida lá. Sentia falta, mas nada mais seria o mesmo. Tudo havia sido destruído.

— Adeus, Tobias. – falei uma última vez encarando aquele par de olhos azuis que eu tanto aprendi a amar.

Ele não discutiu. Deu uma olhada em mim, nas mãos de Al em minha cintura e em seguida seus olhos voltaram aos meus. Houve silêncio total. Eu esperava que ele não dissesse mais nada; isso só tornava tudo ainda mais difícil. Para meu alívio – ou não, Tobias pôs o boné novamente e virou-se de costas para mim, entrando no carro com uma expressão derrotada. Eu fiquei observando o SUV preto se afastar enquanto abraçava meu próprio corpo quando a voz de Al me tirou do transe:

— Caralho, aquele era o Quatro?

Notas finais
O que acharam?! Comentem, comentem, comentem ♥ Bom, uma leitura muito querida me abriu os olhos num comentário do último capítulo e acredito que isso será muito positivo para a história. Aliás, estarei respondendo a todos até o próximo capítulo, prometo! Estou corrida agora, mas amanhã já começo. O próximo já começou a ser escrito e vou abordar mais a questão da fama, da família do Tobias, da Nita, Will e Chris. Ansiosos? Comentem o que acharam e o que esperam da fic! Haha eu amo ler os comentários de vocês! Sério! Enfim, os vejo agora nos comentários, tá? ♥ Amo todos vocês!