Estranha Perfeição
24 Capítulo XXIV
Notas iniciais
TOBIAS EATON
Eu estava inquieto desde o momento em que Peter me disse que iria levar Tris ao evento de hoje. Enquanto ele se exibia como se Tris fosse um prêmio, eu só queria socar aquele rostinho imbecil dele. Ela não era assim. Ela não era esse tipo de garota e eu queria bater nela também por não enxergar o idiota que Peter era. Ele podia estar sendo gentil e cuidando da minha garota, mas eu sabia qual era seu jogo. Peter não prestava.
Eu tinha pensado e repensado sobre ir ou não hoje à noite. Eu teria que vê-la nos braços dele durante toda a programação e eu não estava pronto para isso; não estava preparado para vê-la com outra pessoa. Eu não era forte o suficiente. Provavelmente bateria a merda fora dele e acabaria sendo expulso do clube. Não que eu fizesse questão de ser sócio de lá, mas era o lugar onde Tris passava a maior parte do seu tempo e eu gostava de vê-la naquele uniforme. Além do mais, eu não queria que Tris visse meu lado violento. Era o lado que eu me envergonhava, pois me lembrava de exatamente como meu pai costuma agir.
Eu precisava esquecer isso. Eu não era como ele.
Tinha me encontrado hoje com o melhor arquiteto de Miami antes de ir ver Tris no clube. Eu esperava que ela ao menos me ouvisse antes de qualquer coisa, mas eu estava percebendo que Tris era muito mais teimosa do que aparentava ser. Eu também achava isso foda de atraente nela, por mais que me deixasse irritado, e então eu só conseguia pensar no quanto eu parecia estúpido.
Dirigi a lamborghini até a sede do clube. O palco e a festa em si aconteceriam no salão principal, mas todo o lugar estava impecavelmente decorado. Havia flores, tecidos e garçons por toda parte. Nita costumava amar a festa dos sócios. Ela dizia que a decoração nunca deixava a desejar e que a comida servida era a melhor de todas. Nós tínhamos uma tradição entre mim e ela que a primeira dança seria apenas nossa; somente depois disso, poderíamos arranjar nossos pares ou nossa transa da noite. Minha relação com Nita era maravilhosa. Não tínhamos segredos entre nós. Ela era franca comigo. Eu era honesto com ela. Como tudo tinha mudado tão rápido?
Afastei minha irmã do pensamento e me concentrei em pegar uma taça de água que passava por mim. Eu me recusaria a pensar e sentir falta de Nita até que ela mudasse para algo melhor. Eu a tinha criado e sabia que ela tinha um coração. Quando criança, Nita era a pessoa mais gentil e doce que eu poderia ter conhecido. Eu sabia que tinha algo bom nela; eu via isso. Ela só precisava encontrar o amor dentro de si mesma novamente, e isso eu não podia fazer por ela. Já tinha feito demais.
Pus os pés no salão e cumprimentei todos os meus colegas do clube. Parei para falar com cada um deles, mas meus olhos vagueavam pelo lugar à procura de Tris. Ela tinha que estar aqui e eu queria ser o primeiro a encontra-la. A saudade de conversar com ela estava me matando por dentro.
Fui andando até o balcão do bar e encontrei Uriah e Will tomando uma dose de uísque. Por algum mistério do além, eles ainda não estavam bêbados. Geralmente, nas festas dos sócios, antes mesmo de começarem a servir qualquer coisa, Will e Uriah já tinham bebido tanto que mal conseguiam se equilibrar nos próprios pés.
– Por quê vocês ainda não estão bêbados? – eu perguntei com diversão, me sentando ao lado de Will.
– Eu tenho uma acompanhante foda de quente e não quero estragar minha noite. – Uriah disse com um sorriso.
– E você? – perguntei ao meu irmão.
– Estou me esforçando para não beber. Quero estar sóbrio quando Christina chegar. Preciso falar com ela. – ele tomou mais uma dose de uísque e fez uma careta quando engoliu.
– Quer conversar sobre isso?
– É uma merda, mano. – Will praguejou. – Ela é complicada como o inferno. Num segundo estamos bem, transando e felizes, mas em outro ela se transforma em uma namorada possessiva e começa a dizer que me ama. Isso é foda. Eu sei que ela merece toda a coisa romântica e tal, mas porra, eu tenho medo de amá-la. O amor nos transforma e eu não estou pronto para isso.
– E você acha que é certo brincar com ela? – Uriah perguntou franzindo a testa. Ele parecia nervoso e ao mesmo tempo bravo com Will.
– Porra, não! – ele suspirou. – É que eu não consigo ficar sem ela. Não somos nenhum casal, mas quando ela não está comigo me rasga por dentro. Ela é tão divertida. Eu não sei se a amo como ela me ama; eu tenho um foda de um medo de amá-la. Mas caralho, eu gosto muito dela. De verdade.
– Porra. – Uriah falou como se sentisse culpado. – Eu sinto muito.
– Pelo o que? – Will perguntou confuso.
Uriah me deu um olhar antes de responder. Eu tinha entendido. Porra.
– Eu não sabia que você gostava dela. Bem, eu sabia que vocês tinham saído algumas vezes, mas quando eu a chamei para sair, ela tinha me dito que estava livre; que vocês não tinham mais nada. Sinto muito, cara.
– Você está me dizendo que ela é a sua “acompanhante foda de quente”? – Will falou por entre os dentes.
Ele cerrou os punhos em cima do balcão e tomou uma longa respiração, antes de gritar um palavrão e sair pisando duro em direção até a saída. Uriah se levantou para ir atrás dele, mas eu pus a mão em seu ombro para que ele parasse.
– Dê um tempo a ele. – eu disse. – Will não está acostumado a ser rejeitado por Christina. Ele vai ficar bem.
– Eu não tinha ideia, eu juro. – Uriah soou derrotado, sentando-se novamente no banquinho do bar.
– Onde está Zeke? – desconversei, enquanto pedia ao barmen uma água com gás. Eu não beberia uma gota de álcool até que pudesse ver Tris.
– Resolvendo alguma merda. – Uriah me respondeu dando de ombros, enquanto tirava o celular do bolso e checava alguma coisa. – Qual o seu alvo esta noite?
– Não tenho alvo nenhum. – respondi, tomando um gole da minha água.
Uriah sorriu.
– Tris pegou mesmo você. – ele tomou mais um gole da sua bebida. – Não posso culpa-lo. A menina é quente demais, porra.
– Olhe como fala dela. – eu o adverti.
– Relaxa, cara, não estou mais interessado. Ela já deixou claro para todo mundo que só quer você. – ele riu. – O que é engraçado, porque você é uma bosta de opção. Eu com certeza cuidaria melhor dela.
– Eu não teria tanta certeza se fosse você. – eu ri.
– Aliás, você já viu a nova garçonete daqui? Eu acho que estou apaixonado. – ele soltou um suspiro. – Ela é tão engraçada e atrapalhada. Acho que vou chama-la para sair.
– Pensei que estivesse saindo com Christina.
– Depois do que eu disse a Will hoje, aposto que ele vai acordar e implorar para ela o aceitar de volta. E aqui para nós, nós sabemos o quanto a menina é louca por ele.
– Tem razão. – eu concordei.
Ele balançou a cabeça e virou-se para o olhar para o salão, ficando completamente imóvel.
– E aposto que depois de vê-la vestida assim, ele nunca mais vai ser estúpido com ela. – ele piscou. – Meu Deus, ela parece um sonho.
Eu virei minha cabeça para olhar na mesma direção que ele olhava e pareceu que todo o maldito oxigênio do salão tinha sumido. Eu não sabia se ia até ela ou se ficava parado aqui, apenas a admirando e torcendo para que tudo não passasse de um sonho. De qualquer forma, meus pés pareciam cimentados no chão, porque eu simplesmente não conseguia me mover. Também abri minha boca para dizer alguma coisa, mas nada de dentro dela saiu. Eu estava sem palavras.
Tris estava fantástica. O seu longo cabelo loiro agora estava enrolado e preso quase no topo da sua cabeça e os fios soltos deixados pelo seu rosto era a combinação perfeita. Ela estava tão linda. Tinha passado maquiagem e usava um batom escuro, fazendo com que seu rosto angelical agora fosse uma versão mais sexy e velha de Tris. O vestido que ela usava era deslumbrante e abraçava suas curvas de modo que deveria ser pecado. Ele não tinha nenhum decote, mas ela não precisava disso para chamar atenção. Ela já fazia isso apenas sendo ela mesma.
Eu podia notar os olhares do pessoal para ela e meu instinto era ir até lá e pôr a mão nas suas costas possessivamente. Eu queria gritar para todo mundo que ela era a minha. Eu queria ouvi-la rir e tomar um drinque com ela. Queria levar ela para o meio do salão e ter sua primeira dança. Queria saber qual era o seu perfume e sentir a sensação de tê-la em meus braços.
Caralho, ela estava tão magnífica.
Eu, por instinto próprio, forcei meus pés a se moverem na direção dela. Ela ainda não tinha me visto e conversava com o Sr. Bonnet educadamente e com o brilho doce nos seus olhos. Embora ela parecesse sexy como o inferno naquela roupa, ela ainda era a menina doce que eu conhecia. Isso ninguém podia mudar nela.
Quando eu estava na metade do caminho, parei ao ver Peter chegando por trás dela e a abraçando. Ele sussurrou algo em seu ouvido que a fez rir e eu só queria ir lá e arrebentar sua maldita cara. Era a minha garota, porra. Ele estava se aproveitando da sua inocência. Tris não via maldade em ninguém e por mais que isso fosse algo louvável, eu estava puto por ela ser tão bondosa com todo mundo. Eu precisava ensiná-la a não confiar em qualquer um.
Dei meia volta e me sentei novamente ao bar. Desta vez eu queria ficar bêbado. Pedi ao barman a primeira dose de uísque da noite. Quando ele me serviu, peguei o copo e deslizei o líquido inteiro em apenas um gole, sentindo-o queimar à medida que descia pela a minha garganta. Era foda o que eu estava sentindo. Estava vendo a garota que eu amava sorrir nos braços de outro cara e isso estava me rasgando.
– Eu não vi você chegar. – Cara, uma das melhores amigas de Nita, sentou-se ao meu lado.
Eu não virei meu rosto para olhá-la. Eu me lembrava de ter transado com Cara logo no início quando Tris chegou. Eu não sabia quanto tempo tinha se passado, mas sabia que a experiência com ela tinha sido uma merda. Tris tinha nos visto e eu a odiava Cara por isso. Eu sabia que a culpa era a minha, afinal, eu a tinha chamado para a minha casa, mas culpa-la por causar dor a Tris era muito mais fácil do que acreditar que eu tinha sido o responsável.
– Vai continuar me ignorando? – ela perguntou ofendida.
– Sinto muito. – eu tomei mais um gole de uísque. – Não estou de bom humor hoje.
– Isso eu percebi. – ela riu. – Está com saudades da sua irmã?
– Não é isso. – eu a cortei. – E eu não quero falar sobre Nita.
– Tudo bem. – ela levantou as mãos como se tivesse se rendendo. – Eu vim em paz.
– O que você quer, Cara? – eu fui direto.
– Vi o quanto você estava com uma cara de quem tinha acabado de ser chutado e pensei que talvez eu pudesse te animar. – ela sorriu para mim e pôs a sua mão sob a minha. – Sei que da última vez que nos vimos, eu te disse que seria sua última chance. Sendo que eu estou disposta a voltar atrás, se você quiser.
– Não estou interessado.
– Isso é porque eu não sou atraente o bastante ou por causa daquela garota?
– Como você sabe? – eu franzi a testa.
– Você me contou, lembra? Você parecia desesperado que ela nos visse. Disse que ela era especial e blá blá blá. Ainda não conseguiu transar com ela?
– É mais que isso. – eu respondi sincero. Cara, apesar de ser uma das amigas de Nita, era doce e gentil, mesmo que às vezes se mostrasse um pouco superior. Era a única amiga da minha irmã que eu confiava. – Não quero apenas transar com ela. Claro que isso também, porque porra, a garota é quente como o inferno. Mas ela também é doce e gentil. Ela não é apenas um rostinho bonito.
– Sei bem como é. – ela sorriu mais uma vez. – Ela está aqui?
– Pensei que Nita tivesse te contado quem estava morando comigo.
– Não. Na verdade, quando elas começavam a falar sobre você, eu desviava o assunto. Não me interessa com quem você trepa ou quem você ama. Eu gosto de fazer compras com ela e sair para cinema uma vez ou outras com elas, mas esse lado das meninas eu não curto.
– Você é bem diferente de Shau.
Ela riu mais uma vez e concordou com a cabeça.
– Com certeza. – ela virou a cabeça para olhar para o salão. – Onde está sua garota?
– Você vai descobrir apenas com essa dica: é a mais bonita da festa. – eu sorri.
– A loira que está com Peter? – ela perguntou confusa. – Se ela é sua garota, por que ela está com Peter?
– É uma longa história. – eu dei de ombros. – Eu pisei na bola com ela e ela seguiu em frente.
– Você já falou com ela hoje? – ela perguntou mais uma vez.
– Não. – balancei a cabeça.
– Bem, você deveria, já que ela não para de olhar para cá. – Cara sorriu para mim e me mandou um ir embora com um aceno de mão. – Vá buscar sua garota. Aproveite que Peter acabou de sair e chame-a para tomar um drinque. Elogie sua roupa e diga como se sente em relação a ela. Você não precisa de muita coisa para conquistar alguém. O nome “Quatro” já é o suficiente.
– Ela não liga para isso. – eu respondi me levantando do banquinho.
– Então ela vale à pena. – Cara se levantou e me abraçou. – Boa sorte com sua garota.
– Obrigado. Eu pretendia beber até vomitar antes de você chegar. – eu beijei sua bochecha e sua testa. – A proposito, você está linda também.
– Vá busca-la. – ela me empurrou do abraço e riu, enquanto caminhava para longe de mim.
Eu me virei na direção de Tris e ela não estava mais lá. Procurei ao redor, mas também não a vi em canto nenhum do salão. Avistei Christina conversando com uma garçonete loira e Will a observando de longe. Ela ria de algo que a loira tentava explicar com as mãos até ela e eu apressei meus passos em direção às duas. Christina saberia onde Tris estava.
Chris estava com um longo vestido vermelho liso com alças finas, de costas nuas e decote nos peitos que ia até sua cintura. Pela primeira vez, ela estava sexy sem ser vulgar. O cabelo curto estava solto e ela usava um batom vermelho que contrastava com sua pele escura. Ela estava linda também.
– Christina, você viu Tris? – perguntei, quando a garçonete loira arregalou os olhos para mim.
– Ai meu Deus, você é o Quatro! Quero dizer, você é o Tobias Eaton, mas todo mundo te chama de Quatro, ou ao menos chamava quando você fazia parte daquela banda. Eu fui para um show que vocês fizeram em Manhattan e eu só podia pensar no quanto você era lindo. Ai meu Deus, você é muito mais lindo de perto. Quero dizer, você é lindo de todas as formas. Eu comprei um monte de revistas só porque tem você na capa e você é tão sexy. E lindo. E está bem aqui na minha frente. – ela suspirou e enterrou o rosto nas próprias mãos. – E eu vou parar de falar.
Christina estava rindo quando nos apresentou.
– Tobias, está é Marlene. Marlene, este é o Tobias.
Apesar de ser atrapalhada e claramente uma fã, eu não via nela a maldade que costumava ver na maioria das garotas que me admiravam por ser um cantor famoso. Elas sempre queriam ou uma transa para ganhar a fama em cima de mim ou qualquer outro objeto valioso que eu tivesse para poder vender no e-bay. Marlene não parecia querer rasgar minha camisa ou beijar minha bunda. Eu imediatamente gostei dela. Ela me lembrava Tris. Era doce e bonita como minha garota.
– É um prazer conhece-la. – eu peguei sua mão e a beijei num gesto cavalheiro.
– Eu nunca mais vou lavar a minha mão. – ela riu. – É sério. E me desculpe por essa embaraçosa apresentação. Eu costumo falar muito quando estou nervosa e eu estou porque você está aqui falando comigo como se eu fosse alguém, o que raramente acontece, porque ninguém me nota. Eu sou do Alabama, aliás. Não que isso seja grande coisa. – ela respirou fundo. – Vou parar de falar desta vez. Não sei porque insisto na coisa do Alabama. É ridículo.
– Você é bonita, Marlene. – eu sorri. – E eu adoraria conversar com vocês, mas eu preciso encontrar uma pessoa. Vocês por acaso viram Tris sair do salão?
– Sim. – Chris respondeu. – Ela saiu pelos fundos. Provavelmente para tomar um ar. Ela parecia nervosa com alguma coisa.
– Será que Peter tentou...
– Não. – Chris respondeu antes que eu pudesse completar a frase. – Ele precisou resolver uns problemas e a deixou sozinha, mas não tentou fazer nada que ela não quisesse.
– Certo. Eu vou ver como ela está.
– Ok. E a propósito, o batom que eu usei nela é a prova de beijo. – Chris me deu uma piscadela.
Eu apenas acenei em resposta e saí na direção do campo do clube. Tris tinha saído pela ala dos funcionários porque ela trabalhava aqui, mas eu não tinha acesso a área, então tive que dar a volta pela sede do clube e ir para a parte de Tris. À medida que eu ia me aproximando, podia ouvir a voz de Tris.
– Fique calma. É apenas o Tobias. – ela dizia a si mesma. – Você precisa se concentrar. Respire fundo.
– Está tudo bem? – perguntei, me aproximando dela. Ela gritou e deu um pulo, antes de reconhecer minha voz. – Desculpe, eu não quis assustá-la.
– Eu estou bem. Preciso voltar. – ela começou a se afastar, mas eu segurei seu braço.
– Espere. – eu pedi olhando em seus lindos olhos e me perdi na imensidão deles. – Fique comigo.
– Por quê? – ela franziu a testa. Merda, até assim ela era adorável. – Você fez um belo trabalho em me ignorar o dia inteiro.
– Sinto muito por isso. – eu soltei seu braço e pus minhas mãos nos bolsos da calça. – Mas eu posso explicar. Primeiro, você me chutou. – eu arqueei as sobrancelhas para ela como se fosse óbvio. – Não tinha porquê eu insistir em falar com você se você não me queria por perto.
– Eu não achei que você fosse desistir tão rápido. – ela disse cabisbaixa.
Meu Deus, ela estava a porra de linda.
– Eu não desisti de você. – eu esclareci. – Eu só estava chateado. E segundo, fiquei puto quando Peter disse que te traria hoje como acompanhante. Eu sei que foi estúpido da minha parte ignorar você, mas eu estava tão irritado por você cair na dele que mal conseguia te encarar sem querer te bater.
Ela riu. Eu amava sua risada.
– Peter e eu somos apenas amigos. – ela disse como se não fosse grande coisa.
Mas era.
– Então é bom você falar isso para ele, porque acho que ele ainda não sabe.
Eu não seria capaz de dizer exatamente toda a verdade para ela e estragar sua inocência. Eu estava escondendo a parte de que Peter tinha me dito exatamente o que ele iria fazer com Tris esta noite. Depois que ela bebesse, ele diria coisas bonitas para ela e a levaria para um passeio. Ele a beijaria e em seguida tiraria cada pedaço da sua roupa para que ele pudesse fodê-la duro. Peter foi bem detalhista nesta parte: ele iria fodê-la. Eu estava apenas esperando uma oportunidade para que eu pudesse arrebentá-lo todo.
– Você está maravilhosa. – eu me encostei na parede e fiquei relaxado. Tris não estava indo embora também e ficou ao meu lado. – Não acho que pode existir alguém mais bonito que você.
– Eu não acho que isso seja verdade. – ela fez uma carranca. – Você parecia interessado demais na loira do bar.
Eu reprimi um sorriso quando entendi o que ela estava querendo dizer.
– Você está com ciúme? – perguntei, torcendo os lábios com força para não rir.
Ela me olhou com diversão nos olhos, mas se negou a rir também.
– É claro que não. – ela semicerrou os olhos para mim. – Só não acho justo você mentir na cara dura para mim.
– Acredite em mim quando digo que você está maravilhosa. – eu sorri. – Ninguém ganha para você lá dentro, gata. – eu soltei uma piscadela, fazendo com que ela gargalhasse.
Ela enxugou uma lágrima que caiu do seu olho direito e eu pude reparar no quanto o cílio dela estava maior. Desde o primeiro dia em que ela tinha estado na minha casa, eu reparei no seu par de cílios. Meu Deus, eles eram fantásticos. Eram longos e reais. Ela tinha passado rímel hoje e caralho, eles tinham ficado ainda maiores e mais bonitos. Como era possível?
– Eu não gosto quando você se afasta de mim. – Tris disse, desta vez mais séria e me olhando com cuidado.
– Eu não gosto de me afastar. – eu falei, desta vez mudando de posição e ficando de frente para ela, talvez perto demais. – Gosto de estar assim com você.
– É perto demais, Tobias. – ela ofegou. – Estou me sentindo tão culpada por vir acompanhar Peter e estar aqui com você. – ela fechou os olhos quando eu abaixei minha cabeça e beijei seu pescoço. Ela cheirava tão bem. – Eu preciso voltar.
– Fique só mais um pouco. – eu beijei mais acima, próximo ao lóbulo da sua orelha esquerda. – Apenas um beijo, Tris. – eu sussurrei. – Só mais um.
– Eu sinto tanto sua falta. Não quero mais fugir de você. Não posso. – ela sussurrou de volta e enlaçou as mãos em volta do meu pescoço. – Me beije, por favor.
Foda-se, essa era a coisa mais doce que ela já tinha dito.
Quando eu inalei o cheiro do seu rosto e minha boca estava a centímetros da dela, um limpar de garganta nos assustou e Tris me empurrou para longe assim que ouvimos a voz de Christina falar:
– Desculpe, eu não sabia que vocês dois estavam... Ocupados. – ela levantou uma sobrancelha e alternou em olhar para mim e Tris com diversão nos olhos e um meio sorriso na boca. – Peter está te procurando. Ele está prestes a começar o discurso e não consegue se concentrar porque você não está com ele.
– Sim, claro. – Tris passou a mão no vestido e virou-se para a amiga, evitando me olhar. – Eu estou indo.
– Tris. – eu a chamei, forçando-a se virar para mim.
Ela olhou e a culpa que eu esperava ter visto em seus olhos não estava lá. Ela sorriu para mim e tinha algo diferente em seu olhar, como uma mistura de paixão e diversão. Ela claramente não estava arrependida com o que tínhamos acabado de fazer.
Isso tinha feito valer meu dia.
– Eu vejo você lá dentro. – ela sorriu e caminhou de volta para o salão.
Christina esperou até que ela não estivesse mais no nosso campo de vista para soltar uma grande e alta gargalhada.
– Caralho, eu odeio você. – eu ri, enquanto caminhávamos de volta para o salão.
– Você nunca vai me perdoar, não é? – ela riu mais uma vez.
– Não. Não é a primeira vez que você faz isso.
– Você vai superar. – ela deu um tapinha no meu ombro e sorriu.
Quando estávamos chegando perto do portão principal do salão do clube, avistamos Will agachado, vomitando próximo a um canteiro de flores. Se a mãe de Peter estivesse aqui, ela simplesmente surtaria para caralho.
– Will? – Christina perguntou com cautela, enquanto se aproximava do meu irmão devagar. – Você está bem?
– Tire ela daqui. – ele levantou a cabeça para me olhar. – Não quero que me veja assim. Estou um caco.
– Não é como se eu nunca tivesse visto você bêbado. – Chris foi irônica. – Você consegue se levantar?
– Se eu me levantar, vou vomitar nos seus sapatos e eu não quero fazer isso. Você está linda neles e eu sou apenas um idiota coberto de vômito. Apenas vá embora, Chris. – ele praticamente a implorou, sentindo vergonha.
– Eu cuido dele. – eu disse a Chris. – Faça o que ele pede.
– Eu vou ajudar. – ela cruzou os braços teimosamente. – Não vou abandoná-lo.
– Não. – Will foi duro. – Apenas volte para Uriah e transe com ele. Não é isso que você sempre faz? Sair transando com todo mundo como se a sua buceta não tivesse a porra de um limite? – Will cuspiu as palavras na direção de Christina, enquanto fazia uma careta e vomitava mais uma vez. – Jesus, você está sem calcinha?! Como posso respeitar alguém como você se você sequer faz isso? Você deveria ter vergonha da merda que é, Christina.
Eu olhei para Christina e vi seus olhos se encherem de lágrimas, mas ela endireitou sua postura e não permitiu que nenhuma caísse.
– Está tentando me machucar? – sua voz falhou.
– Não, estou apenas sendo sincero quanto ao que dizem sobre você. Vadia, puta, fácil... Qual desses você prefere?
– Porra, Will. – eu o repreendi, enquanto Christina soluçou.
– Você é a pior pessoa que eu já conheci. – ela disse entre os soluços, enxugando as próprias palavras. – Filho da puta.
Ela se virou para entrar, mas parou e se aproximou de Will. Ele estava agachado e olhava para ela em confusão, quando ela ergueu o pé o chutou bem no meio das pernas. Meu irmão caiu por cima do próprio vômito e agarrou as bolas, enquanto uivava de dor. Chris passou por ele com o rosto molhado pelas lágrimas e não parou para olhar para nenhum de nós quando entrou no salão.
Eu virei meu rosto para a figura dolorosa de Will.
– Eu não sei por que me apaixonei por ela. – ele gemeu.
– Você mereceu. – eu atirei. – O que diabos passou pela sua cabeça para dizer essas merdas? Você ficou doido, porra?!
– Ela precisa parar de me amar. – ele disse, ainda gemendo pela dor na sua virilha. – Eu não a mereço. Ela precisa se afastar.
– E isso é o melhor que consegue? Porra, Will, você é um monte de merda quando bebe.
– E não foi isso que você fez com Tris? Maltratá-la para que ela mantivesse distância?
– Sim, e é por experiência própria que eu falo o quanto é estúpido. Você acaba de perder a mulher da tua vida, mano.
Eu vi as lágrimas escorrerem dos olhos de Will.
– Ela merece alguém que possa amá-la incondicionalmente.
– E esse alguém era para ser você. Não acho que Christina queira alguém além de você, seu porra inútil.
– Vai se foder. – ele resmungou. – Eu já me sinto péssimo o suficiente. Pode me dar uma carona? Eu vejo dois de você, então é óbvio que não posso dirigir.
– Nem fodendo. – eu ri. – Pretendo ter a primeira dança com Tris e eu não estou abrindo mão disso, mesmo que fosse você a me pedir.
– Merda. – ele xingou novamente. – Ok, você acha que consegue uma carona com uma foda de brinde?
– Você sabe que sim. – eu levantei as sobrancelhas em desafio. – Mas do jeito como você parece atraente, eu duvido que alguma delas aceite. Eu vou te chamar um táxi.
– Obrigado. – ele agradeceu, puxou os joelhos na altura do peito e os abraçou, enquanto olhava para frente e parecia refletir. – Eu vou me arrepender tanto amanhã de manhã.
– Eu tenho certeza que vai. – concordei, enquanto ia até o segurança do clube e usava o serviço de táxi que nós tínhamos de graça durante essas festas.
Depois de despachar Will no táxi e dar as instruções da casa dele, voltei para o salão do restaurante e meus olhos procuraram por Tris. Encontrei-a sentada ao bar, ao lado de Christina, passando os braços ao redor da amiga e a consolando. Eu caminhei até as duas e me sentei do outro lado de Chris.
– Ele já foi embora? – ela soluçou.
– Sim, eu o coloquei dentro de um táxi. – eu respondi, passando a mão nas costas dela.
– Eu o odeio tanto por não conseguir odiá-lo. – ela suspirou. – Me sinto uma idiota.
– Ele foi um idiota, não você. – Tris a consolou.
Quando ela ia dizer mais uma coisa, Peter soou no alto falante do palco, anunciando a banda que estava tocando naquela noite. Esse era o momento da primeira dança. Quando Peter terminou de falar e desceu do palco para atender ao telefone, Uriah se juntou a nós.
– Chris, você está bem? – ele a levantou do banco e a abraçou. – Vem, vamos sair dessa bagunça.
– Divirtam-se vocês dois. – mesmo em meio as lágrimas, ela sorriu para nós.
– Você vai ficar bem? – Tris perguntou apreensiva.
– Sim. Aproveite sua noite com o bonitão aqui. Eu te vejo amanhã. – ela beijou Tris na bochecha e saiu abraçada a Uriah.
Eu olhei para Tris e ela ainda parecia preocupada com a amiga.
– Será que ela vai ficar bem? – ela me perguntou.
– Claro que vai. – eu a puxei para mim e beijei seu cabelo. – Uriah cuidará dela. Ele é bom garoto.
– Tudo bem. – ela concordou.
– Dança comigo.
– Isso não é um pedido, é? – ela semicerrou os olhos.
– Eu não vou forçá-la. – dei de ombros.
Tris mordeu o lábio inferior, como se pensasse sobre aceitar ou não meu convite. Esse pequeno gesto fez com que fosse preciso juntar todas as minhas malditas forças para não ceder ao impulso de beijá-la. Eu amava a boca dela. Eu amava cada pedacinho que compunhia Tris.
– Eu não sei se devo. Peter pode precisar de mim. – ela disse para convencer a si mesma. Eu podia vê-la lutando contra a própria batalha.
– É apenas uma dança, Tris. – eu a convidei com meu braço estendido.
Ela se encaixou e sorriu.
– Apenas uma dança.
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