Estranha Perfeição
25 Bônus - Capítulo XXIV
Notas iniciais
CHRISTINA COLLINS
Vadia, puta, fácil... Qual desses você prefere?
Não que eu nunca tivesse escutado isso antes. É claro que eu sabia como eu era vista diante de todo mundo que estava ao meu redor e ao redor do meu trabalho. Eu não me importava, na verdade. Nunca me interessou saber como as pessoas podiam me difamar, contanto que eu não me esquecesse de quem eu era, eu ficaria bem.
Entretanto, uma coisa era lidar com as pessoas falando e outra coisa era lidar com Will dizendo todas aquelas palavras nojentas sobre mim. Era como se meu peito estivesse aberto e enfiassem navalhas em meu coração. Era cortante e doloroso. O desprezo nos olhos dele só machucou ainda mais. Eu me odiava por ter me apaixonado por ele. Quanto ele precisava fazer para me provar de que ele não me merecia? Enfiar uma bala na minha cabeça?
Eu o odiava tanto. E o amava ainda mais por não conseguir fazer isso.
— Não chore, Chris. – Uriah abriu a porta do carro para mim, depois me ajudou a entrar e afivelou meu cinto. – Não até chegarmos em casa, tudo bem?
O simples gesto fez com que mais lágrimas caíssem. Ninguém jamais tinha cuidado de mim. Durante a maior parte da minha vida, eu só tive a minha tia ao meu lado. Ela se esforçou para cuidar de mim e eu sei que ela me amou e ainda me ama, só que eu não sou filha dela. Eu sou um fardo. Um fardo do irmão que ela precisa cuidar. Um fardo que o próprio pai se recusou a fazer qualquer coisa.
— Tudo bem, você pode chorar, então. – Uriah disse, dando a partida no carro e saindo do estacionamento e do clube. – Mas quando nós chegarmos em casa eu quero que você me conte tudo. Você precisa desabafar, Chris. Está sobrecarregada demais. Ninguém merece sofrer tanto e guardar para si mesma; não é saudável. Nós vamos conversar, ok?
Eu assenti, limpando uma lágrima que caía do canto do meu olho.
— Por que está fazendo isso? – perguntei, enquanto virava o rosto para olhar Uriah. – Por que você quer me ajudar? Eu acabei estragando nosso encontro por alguém que eu não consigo parar de amar, Uriah. Eu deveria ter estado com você hoje à noite, mas eu só conseguia pensar se Will achou que eu estava bonita. Eu passei horas me arrumando para que ele notasse e ele... – tomei uma respiração profunda, engolindo o nó que havia se formado na minha garganta e praticamente cuspindo as próximas palavras. – Ele me chamou de vadia.
— Ele estava bêbado. Will me viu com você. Eu falei para ele que a gente estava saindo. – Uriah suspirou, enquanto nós virávamos à direita e eu já conseguia ver meu trailer. – Ele não lida muito bem quando se trata de você, Christina. Ele não admite, mas... – Uriah pareceu pensar melhor sobre o que dizer, mas optou por não concluir o pensamento.
Quando ele insistiu em permanecer calado, eu insisti em ouvir dele.
Eu sabia.
Eu só precisava que alguém me dissesse.
— Mas o quê? – eu podia ouvir a necessidade na minha voz. Era ridículo.
— Você deve ouvir isso dele, Chris, não de mim. – Uriah suspirou e desligou o carro, estacionando-o em frente ao terreno do meu trailer. – Vem, vamos tirar essa roupa que nossa noite vai ser longa.
Eu desci do carro, conformada que era para isso que todos eles saíam comigo: era apenas sexo. Uriah podia ter sido legal comigo hoje à noite, mas ele tinha me chamado para sair. Era óbvio que ele queria transar e que estava aqui para isso. Eu não me importava. Estava acostumada a ser tratado como um objeto de prazer e não ligaria em fazer ele se sentir bem agora. Ele tinha me ajudado. Tinha me trazido para casa em segurança e tinha conversado comigo.
Eu poderia tirar a droga da minha roupa e ter uma noite longa se isso significasse que Uriah iria se sentir satisfeito. Eu precisava esquecer Will de alguma forma esta noite também. Nós dois estaríamos nos ajudando. Sempre tinha sido assim: eu transava com outros para apagar a memória que eu tinha dele. Eu não gostava de lembrar.
Abri a porta do trailer e deixei Uriah entrar primeiro. Ele o fez, fechou a porta, pegou minha mão e me guiou gentilmente até o sofá. Ele só tinha estado aqui uma vez, quando nós dois ficamos muito bêbados e não nos lembrávamos de nada na manhã seguinte. Eu sabia que tinha brigado com Will na noite anterior, mas esqueci tudo o que tinha acontecido depois. É o que álcool faz com as pessoas. Eu não tinha bebido hoje e tinha sido uma péssima ideia. Eu sentia como se o que eu estivesse prestes a fazer fosse errado e eu já me sentia deprimida o suficiente. Eu devia ter bebido. Como eu sentia falta de umas doses de tequila agora.
Precisava tanto esquecer Will. Estava começando a chorar novamente e eu não entendia nada do que se passava na minha cabeça. Eu só queria conseguir parar de amá-lo. Eu só queria conseguir parar de pensar no quanto seus olhos eram bonitos ou no quanto seu sorriso iluminava meu dia. Eu só queria esquecer o garoto que tinha tirado minha virgindade no galpão do clube. Eu queria sumir para não lembrar de Will; para não lembrar da única pessoa que eu amava mais do que a minha própria vida.
Quando eu me dei conta, estava sentada no colo de Uriah, frente a frente com seu rosto, e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa ou que eu voltasse atrás, o beijei ferozmente. Eu podia sentir que Uriah estava no automático. Ele não estava correspondendo o beijo, mas não estava o impedindo. Eu sabia o que ele estava fazendo. Ele tentava me entender. Tolice. Nem eu entendia o que estava fazendo. Meus olhos estavam fechados e eu não podia abri-los agora e encarar a realidade. Eu queria continuar fingindo que transar com outros caras apagaria as lembranças que eu tinha com Will.
Quando Uriah continuou sem reação, eu peguei suas duas mãos e as coloquei em cada seio meu, apertando-os sob as grandes mãos. Isso deve ter sido a gota d’água para que ele tomasse a decisão e pisasse no freio. Quando sua mão fez contato com meu peito, era como se algo o tivesse queimado e ele se afastou bruscamente.
Eu iria chorar.
Tinha sido rejeitada.
— Não vai funcionar, Chris. – ele suspirou, colocando uma mecha do meu cabelo curto atrás da minha orelha. – Isso não vai fazer você esquecê-lo.
Eu pus meu rosto enterrado em minhas mãos e comecei a chorar, extremamente envergonhada por Uriah perceber o que eu tinha decido fazer. Eu era tão idiota.
— Eu pensei que fosse isso que você quisesse. – solucei. – Sinto muito, eu ainda não estou pronta. Se você ainda quiser, nós podemos transar mais tarde. Apenas me dê um minuto.
— Eu não quero transar com você, Chris. – ele disse suavemente, enquanto me puxava para um abraço, mesmo eu ainda estando sob seu colo. Enterrei meu rosto entre o ombro e o peito dele e permiti que mais lágrimas caíssem. Eu nem sabia mais o motivo pelo qual eu realmente chorava. – Não porque você não é atraente; você é para lá de linda. – ele soltou um suspiro e acariciou minhas costas, como se aquilo fosse o suficiente para me consolar. Não era, mas era bom tê-lo ali comigo. – Eu só não quero ser seu estepe, Christina. Não é justo nem comigo nem com você.
— Eu sinto muito. – minha voz saiu meio abafada contra sua camisa, mas ele podia me ouvir. – Eu não queria me sentir assim em relação a ele.
— Quando eu tinha dezesseis anos, eu me apaixonei por você. – ele declarou, agora passando a mão pelos meus cabelos. – Ou ao menos eu achava que estava apaixonado. Você era tão linda, inteligente e inocente que era impossível não ser fisgado por você. Você era uma versão mais nova de Tris. Todo mundo se encantou.
— Isso não é verdade. – eu balancei a cabeça interrompendo-o, ainda sem mudar minha posição. – Eu era apenas a sobrinha de Johanna. Nenhum de vocês olhou para mim.
— Deixe-me terminar, Chris. – eu podia sentir o seu sorriso suave. – Talvez nem todos, porque Quatro ainda vivia o sonho de ser uma estrela e Will sempre foi um cara estranho. Mas todo o resto, até mesmo Peter, queria você. Você sempre foi muito bonita. – ele soltou um suspiro, como se as lembranças estivessem passando como um filme em sua mente. – Só que você só tinha olhos para Will. Você só o queria e não percebia quantas opções tinha à sua volta. Por que ele, Chris? Por que ele?
Eu me afastei, mas apenas o suficiente para encarar os olhos castanhos escuros de Uriah. Eu não saí do seu colo. Eu não queria. Me sentia tão segura ali. Ele era uma ótima pessoa e um ótimo amigo. Nós nunca tínhamos estado tão próximos quanto agora e eu adora essa proximidade. Eu nunca tinha tido algum amigo que estivesse disposto a me ajudar e a me ouvir além de Tris, mas eu não podia conversar com ela hoje. Eu não podia tirar ela da sua noite perfeita. Ela merecia aquilo. Ela merecia ser feliz ao menos esta noite.
— Eu não sei o porquê de ter me apaixonado por ele, mas quando eu fiz dezesseis, Will e eu conversamos. – eu desviei o olhar, tendo um vislumbre de uma das minhas melhores lembranças. – Eu estava no começo do meu trabalho, dirigindo o carrinho de bebidas, quando me distraí e ele surgiu na minha frente. Eu pisei no freio, mas não a tempo o suficiente para não bater nele. Eu o atingi e ele caiu. Eu me lembro disso como se fosse ontem. Eu estava desesperada temendo que o tivesse machucado ou que perdesse meu emprego, enquanto Will estava no chão e me olhou apenas por um segundo, antes de despencar em uma gargalhada.
Eu não contive o sorriso em meus lábios. Era bom lembrar daquele dia. O primeiro dia que eu e Will tivemos uma conversa e uma tarde decente. Eu nunca tinha falado com ele antes disso. Eu só o observava de longe, enquanto servia suas bebidas quando ele aparecia para jogar com os meninos. Ele era tão bonito. Meu coração de adolescente tinha pulado por ele.
— Nós almoçamos juntos naquele dia. – eu suspirei. – Eu já prestava atenção nele antes disso. Ele sempre tinha despertado um interesse diferente em mim, só que eu nunca tinha tido a chance de conversar com ele. Will me convidou para almoçar no outro dia também e nós começamos a passar mais tempo juntos, sendo que apenas em lugares onde não nos podiam nos ver. Ele estava sofrendo naquela época. Dizia estar se apaixonando por uma pessoa que não podia e aquilo o estava matando. Enquanto ele amava outra pessoa, eu estava começando a amá-lo. Ele era tão fácil de se apaixonar.
Eu respirei fundo, antes de contar uma das partes mais difíceis de nós.
— Minha tia Johanna descobriu que nós estávamos nos encontrando. Ela me aconselhou e me implorou para parar, porque aquilo poderia fazê-la perder o emprego. O Sr. Teller nunca foi amigável e segundo minha tia, eu não podia namorar ninguém da elite, porque se algo desse errado entre nós, aquilo acabaria afetando ela no emprego e poderia virar uma enorme bagunça. – eu suspirei. – Eu entendi e tentei me afastar de Will, só que eu já estava apaixonada. Nós brigamos naquele dia. Ele disse que não tínhamos nada e que não fazia nenhum sentido nos afastarmos. Ele disse que nunca poderia namorar alguém como eu. Eu não tinha nada para oferecê-lo. Eu fiquei com raiva dele, mas hoje entendo que Will era apenas um garoto que estava sofrendo. – eu olhei novamente para Uriah, que me encarava com certa curiosidade. – Nós nos afastamos, mas eu não conseguia parar de pensar nele. Depois da briga que tivemos, Will passou a me evitar e ignorar. Isso doía tanto que eu estava disposta a passar por cima da minha tia e do Sr. Teller para tê-lo. Agora não, porque Peter assume quase tudo e ele não liga, mas antes nós não podíamos nos relacionar com os sócios. Era contra o sistema e nós até assinávamos contrato por isso. Eu não me importava. Eu era uma adolescente apaixonada que só queria viver um amor com Will. Eu não ligava se eu perderia meu emprego ou se minha tia iria ser prejudicada. Se eu estivesse com Will, ficaria tudo bem.
— Você era tão boba. Deveria ter me escolhido. Eu sou o melhor de todos eles. – Uriah brincou, enquanto piscava um olho para mim e abria um largo sorriso. Era exatamente por isso que eu gostava de tê-lo por perto: ele era o mais divertido de todos. Ele não permitia que a gente ficasse triste por muito tempo. Ele estava sempre pronto para te arrancar um sorriso com suas piadinhas.
Eu sorri, mas a pior parte viria agora.
— Foi naquele mesmo ano que eu perdi minha virgindade com ele. – eu suspirei e depois soltei uma risada seca. Um nó se formou em minha garganta mais uma vez. – Eu nem sei se ele se lembra. Eu praticamente o ataquei no armário de bebidas quando ele me chamou para conversar. Ele estava muito bêbado e nós tínhamos passado muito tempo longes um do outro. Eu estava com meus hormônios borbulhando e queria que minha primeira vez fosse com ele. – eu sorri com a lembrança. – Não foi a experiência que toda garota sonha, mas foi com ele. Eu nunca parei de amá-lo depois disso.
— Eu não sabia que ele tinha sido seu primeiro. – Uriah me deu um olhar triste.
— Nem mesmo ele sabe. – dei de ombros.
— Ele não merece você. – Uriah pegou meu queixo e beijou castamente minha boca. – Você sabe disso.
— Eu sei. – concordei com a cabeça. – Mas quem merece, então? Se ele é a pessoa que me faz feliz, porque eu devo insistir em outra?
— Tem certeza que ele te faz feliz, Chris?
— Eu não tive uma vida fácil, você sabe disso. – eu me afastei um pouco de Uriah e encarei seus olhos. – Will foi a melhor coisa que já me aconteceu. Eu não posso abrir mão dele. Ele é a única pessoa que me faz feliz e que dá sentido para a minha vida. Eu sonho com ele mesmo quando eu estou acordada. Por mais que ele diga ou faça algo que me destrói, eu não posso abrir mão dele. Eu não consigo não amá-lo.
Uriah suspirou, beijou minha testa e me tirou do seu colo, se levantando do sofá e passando a mão pelo seu cabelo e por sua barba rala, enquanto parecia pensar em algo distante. Eu apenas o esperei com um conselho. Ele era o melhor com isso.
— Se dê um tempo, Chris. – ele começou enquanto olhava para mim. – Eu não estou dizendo para você parar de amá-lo. Depois de tudo que você me disse hoje, eu nem sei se isso é possível. – ele sorriu. – Apenas se dê um tempo, ok? Se ame primeiro. Se ame mais. Pare de pensar no que Will deve gostar em você e tentar mudar o que ele não gosta. Goste de tudo em você, porque você é foda de incrível.
— Obrigada. – eu me levantei e envolvi meus braços ao redor da sua cintura, o abraçando. – Mesmo eu tendo fodido nossa noite, obrigada por ter ficado comigo.
— Fodido nossa noite?! – ele soltou uma risada. – Eu acho que vou ficar milionário depois do que eu ouvi hoje. Isso daria um baita livro de romance. – ele piscou.
— Você tem todos os direitos autorais se depender de mim. – eu sorri.
— Bom, já que nós já cuidamos do seu caso, que tal a gente tomar um pouco de vinho enquanto você me fala mais sobre a nova garçonete? Eu já te ajudei; tá na hora de você me retribuir, não acha?
Eu não contive o sorriso em meus lábios.
— Eu acho uma boa ideia. – pisquei para ele e nós dois rimos juntos.
O resto da minha noite tinha sido leve e passado num piscar de olhos. Uriah e eu rimos enquanto eu falava tudo o que eu sabia sobre Marlene. Não tinha ajudado muito, já que ela ainda era nova no nosso meio e eu não sabia quase nada, mas Uriah tinha dito que qualquer coisa sobre ela já estava valendo. Eu podia ver o quanto ele estava interessado nela e estava começando a acreditar que estava presenciando o nascimento de algo novo entre eles.
Depois de termos tomado uma garrafa inteira de vinho, Uriah e eu fomos dormir. Eu estava eternamente grata por ter sido ele o meu acompanhante desta noite. Eu não sei se teria conseguido suportar toda essa barra se ele não tivesse estado comigo. Ele e eu sempre tínhamos sido próximos, mas nunca tínhamos nos conectado tanto quanto hoje. Ninguém também nunca tinha ouvido tanto sobre mim ou Will. Todas as pessoas só conheciam a metade ou quase nada da nossa história. Uriah era o primeiro a saber de tudo que já tinha acontecido desde o início até hoje e eu estava feliz que fosse ele. Não teria pessoa melhor para me aconselhar sobre Will do que alguém que tinha crescido com ele.
Eu deitei tranquila aconchegada ao peito de Uriah, enquanto ele roncava baixinho e assim peguei no sono.
Quando eu acordei, Uriah já não estava mais na cama comigo. Eu nem me lembrava da última vez em que eu tinha dormido com um cara que não rolou sexo. Mais um ponto em que eu tinha que dar a ele. Se eu não amasse tanto Will, com certeza investiria em Uriah.
— Bom dia, Bela Adormecida. – ele me saudou quando cheguei à cozinha, tirando uma garrafa de suco de uva e pondo em cima do velho balcão.
— Que horas são? – perguntei, lançando um sorriso gentil, enquanto esfregava meus olhos com as mãos.
— Sete e vinte e dois, para ser exato. – ele sorriu para mim, enquanto ia até a sanduicheira e tirava um par de pães.
— O quê?! – arregalei meus olhos e despertei imediatamente. – Preciso estar no trabalho às oito!
— Relaxa, dá tempo. – ele riu. – Você pode ir tomar um banho enquanto eu termino o café.
— Você fez café para mim? – eu não consegui esconder a surpresa e o sorriso em minha voz. Ninguém nunca tinha sido tão atencioso.
— Eu fiz. E não me olhe como se fosse grande coisa. Você merece ser tratada da melhor maneira possível. Devia se ver melhor no espelho, se amar pelo que você é e não aceitar nada menos que respeito, admiração e devoção de um cara. Você é puta de incrível e merece isso.
Eu fiquei de boca aberta, mas em seguida sorri gentilmente para Uriah. O que esse cara podia fazer com essas palavras, hein? Eu com toda certeza falaria dele para Marlene. No fundo eu sempre soube que ele era diferente dos outros do grupo. Tendo crescido no clube, vi que mesmo sendo muito travesso, Uriah era o mais cavalheiro de todos. Tobias, Will, Zeke e Peter não repetiam as garotas. Uriah sempre as levava para jantar antes de uma transa, retornava as ligações e sempre dava uma chance para elas provarem que seriam mais. Ele só não tinha encontrado a garota certa.
Ainda.
— O que foi? – ele perguntou com um meio sorriso.
— Eu gostaria que fosse você. – eu sorri também.
— O quê?
— O garoto que eu amo. Eu gostaria que fosse você.
— Você me ama também. – ele riu e piscou. – Eu sei disso.
— Você é sempre convencido pela manhã? – eu brinquei, enquanto andava até o banheiro.
— Eu sou convencido o tempo inteiro. – ele gritou para que eu pudesse ouvir através da porta do banheiro e em seguida soltou uma gargalhada. Eu ri junto com ele.
Entrei no chuveiro, lavei meu corpo e meu cabelo. Ontem à noite, não tive muito tempo para pensar em como as coisas com Will iriam ficar a partir de hoje, mas agora, enquanto eu estava perdida nos próprios pensamentos, era difícil não pensar no quanto seria duro viver com a decepção de não tê-lo. Antes eu tinha alguma esperança de que ele fosse acordar e perceber que eu o amava e estava bem ali. Agora eu teria que passar o resto da minha vida ouvindo as palavras que ele me dissera. Palavras humilhantes e repletas de desprezo.
Eu me recusei a chorar e o afastei do pensamento. Eu merecia mais. Mesmo que a ideia de ficar sem ele rasgasse meu coração.
Saí do banho e fui direto para meu quarto, pondo meu uniforme e ajeitando o cabelo, em seguida passando uma maquiagem básica para disfarçar o cansaço e o estresse da noite anterior. Arrumei os travesseiros e dobrei os lençóis da noite anterior. Dei uma última conferida em mim no espelho e saí para a cozinha.
Uriah me esperava sentado ao balcão quando cheguei. Ao seu lado, havia um prato com um misto quente e uma xícara de café. Ele tinha um mesmo sanduíche em seu prato, mas bebia um suco de uva.
— Obrigada pelo café da manhã. – eu me sentei junto a ele. – Eu não imaginava que você sabia cozinhar.
— Sou um cara cheio de segredos. – ele piscou e sorriu, em seguida mordeu seu pão. – E isso realmente não foi grande coisa. Todo mundo sabe fazer um misto e um café.
— Menos Tris. O café dela é péssimo. – eu ri, enquanto levava a xícara à minha boca. Estava terrivelmente delicioso. – Eu não sei como ela consegue, já que a cafeteira faz quase todo trabalho. Nós tomamos apenas uma vez antes dela aceitar que realmente não sabia. Foi tão horrível que nem mesmo ela conseguiu beber ele todo.
— A propósito, ela não voltou para casa ontem à noite, não é? – Uriah comentou, me lançando um olhar sugestivo, enquanto meu sorriso abria ainda mais.
— Garota esperta. – eu respondi, mordendo meu pão ainda sorrindo. – Estou tão contente por ela. Tris merece ser feliz e todo mundo já percebeu que o único capaz de realiza-la é Tobias. O que é bem irônico, já que ela é a única garota que ele não poderia ter. Nita nunca irá aceitar. Por mais que ele tente, ela sempre será um impasse na relação.
— Você acha que ele vai contar a verdade para Tris? – Uriah perguntou com curiosidade.
— Eu espero que sim. – respondi bebendo meu café. – Ela merece. É uma parte da vida dela que ele está mantendo em segredo. Eu espero que ele diga logo, antes que Nita o faça. Eu não sei se Tris será capaz de perdoá-lo pelo que ele fez.
— Ele está protegendo-a. – Uriah rebateu.
— Nós dois sabemos que isso não vai acabar bem.
Nós terminamos de comer em silêncio e Uriah recolheu nossos pratos, colocando-os na pia. Eu me levantei para pegar minha bolsa no exato momento em que bateram na porta do meu trailer. Eu franzi a testa e olhei para Uriah. Quem estaria aqui tão cedo?
Caminhei até a porta, mas parei perto da janela para espiar quem estava lá fora.
Meu coração gelou.
O que diabos ele estava fazendo aqui?
— Will. – eu disse seu nome quando abri a porta e o encarei, agradecendo a Deus por minha voz ter saído tão natural. Ao menos eu estava me esforçando para não deixar transparecer que ele me afetava. Mas era tão difícil fazer isso agora.
Ele estava parado bem na minha frente, repleto de tristeza, arrependimento e dor. Eu podia ver em seus olhos a batalha interna que ele estava enfrentando. Will também tinha uma das mãos atrás das costas, parecendo esconder alguma coisa, e a outra mão estava enfiada no bolso do seu jeans. Seu cabelo estava todo bagunçado, seus olhos repletos de olheiras e ele tinha uma expressão cansada estampada no rosto. Entretanto, nem mesmo tudo isso conseguia deixá-lo feio. Por que porra ele não era feio? Seria tão mais fácil.
— Vá embora. – eu fui dura, depois de alguns segundos sem ele dizer nada, apenas me encarar.
Ao som da minha voz, Will pareceu sair de um transe e imediatamente se ajoelhou na minha frente. Eu cobri minha boca. Que porra era essa? Eu senti Uriah se aproximar por trás de mim e ele parou, provavelmente encarando a figura ajoelhada de Will. Will olhou por trás do meu ombro e eu vi um rastro de decepção passar por ele, mas não foi o suficiente para ele se mover. Ele voltou a me olhar.
— Eu estou implorando, Chris. – ele começou. – Eu imploro para que você me perdoe. Eu não ligo que você tenha passado a noite com ele. Dói pra caralho, mas eu mereço isso. Na verdade, eu nem mereço o seu perdão, mas eu imploro. Eu faço o que for preciso para que você me dê só mais uma chance. Eu não consegui dormir. Eu fui um idiota e pisei na bola feio com você. Eu não consegui parar de pensar no quão ruim você se sentia e eu me odiei por isso. – ele pausou e seus olhos começaram a marejar. – Eu sinto muito pelo que eu disse. Eu estava bêbado e queria te afastar de mim. Você não merecia. Você nunca mereceu não ser prioridade na minha vida. Eu deveria ter tratado como uma princesa e ter demonstrado que você era mais que uma foda para mim. Eu deveria ter dito como me sinto em relação a você, mas só percebi na merda que tinha feito quando o fato de ter perdido você me rasgou inteiro. – ele fungou.
Diante de mim, ajoelhado e chorando, ele estava tão frágil e vulnerável. Eu estava chorando também. À medida que ele ia falando, os acontecimentos da noite anterior voltaram poderosos junto com todas as situações em que Will não tinha sido nada cavalheiro comigo. Eu me surpreendi por serem tantas. Eu estava tão apaixonada e cega por ele que não percebia o quanto ele estava pouco se fodendo para mim.
Mais lágrimas e mais dor vieram do meu coração. Como a manhã tinha mudado tão depressa?
— Acontece que eu estava com medo. Eu já tive meu coração partido por Nita uma vez e me curar daquilo foi foda pra caralho. Eu tinha medo de que você pudesse me machucar, Chris. Eu sou um marica quando se trata do coração. Eu fui cegado pelo medo que não percebi que você é a minha garota. – mais lágrimas desceram dos seus olhos, enquanto Will derramava seu coração para mim. Eu estava sem palavras. – Você é o sonho quando estou acordado. Você é a luz quando estou no escuro. Seu sorriso sempre alegra meu dia e eu amo fodidamente sua risada. Ela é tão linda quanto você. – ele tirou a mão direita das suas costas, revelando um lindo buquê de rosas vermelhas. – Eu sei que você pode não acreditar em mim. Eu sei que não mereço que você me dê mais uma chance. Eu só... Eu queria saber... É tarde demais para dizer que eu te amo? Que eu não consigo imaginar minha vida sem você?
Eu cobri minha boca mais uma vez, as lágrimas caindo pelos meus olhos. Will nunca tinha sido tão sincero comigo. Ele nunca tinha aberto seu coração para mim. Tudo entre nós se resumia a sexo. Vê-lo tão vulnerável assim fez com que meu coração se enchesse de amor por ele. Os conselhos da noite anterior não faziam sentido agora. Este era Will. O meu Will. E ele estava completamente nu dos sentimentos por mim. Eu podia confiar nele.
Talvez eu fosse me arrepender desta decisão um dia e talvez nunca pudesse me recuperar se chegássemos a ter um fim, mas como eu disse, este era o meu Will. Eu estava sempre arriscando por ele. Agora, ele estava disposto a se arriscar não apenas por mim, mas por nós. Ele me amava também.
Era a minha felicidade em jogo. Eu não podia me negar a ser feliz com o homem que eu amava.
— Eu perdoo você. – ele se levantou a tempo o suficiente para que eu me jogasse em seus braços. O abracei com tanta força que senti meu peito faltar o ar.
— Eu amo você pra caralho, Christina. – ele murmurou, me apertando contra si. – Eu prometo. Eu juro. Eu faço o que você quiser para te garantir que você não vai se arrepender. Eu vou fazer valer à pena. Eu vou fazer cada maldito dia valer à pena. Eu amo você. Eu amo tanto você. – ele riu. – Nunca pensei que dizer isso em voz alta me faria sentir o que estou sentindo agora.
— O que você está sentindo? – eu me afastei sorrindo, pegando o buquê de flores da mão dele.
— Me sinto tão leve que é assustador. – ele riu e passou a mão no cabelo.
— Eu amo você, Will. – eu confessei. Já tinha dito algumas vezes quando nós transamos juntos e quando eu estava bêbada, mas nunca com tanta certeza como eu tinha agora.
— Eu amo você também. – ele riu e me beijou com adoração. Eu ainda precisava me acostumar com essa nova versão de Will, mas não podia negar que eu estava adorando isso. Estava com medo de que a qualquer momento eu iria acordar e isso não teria passado de um sonho.
— Acho que não adiantou nada do que eu falei ontem para você, mas foda-se. É de Will e Christina que estamos falando, não é? – ele falou para si mesmo e soltou uma gargalhada. – Eu com certeza vou ficar milionário. Esse vai ser um final foda para o livro que eu vou publicar.
— Do que ele está falando? – Will perguntou confuso e eu fiquei na ponta dos pés para beijar sua bochecha, sorrindo feliz pelo que tinha acontecido e pelo o que ainda iria acontecer.
— É uma longa história.
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