Estranha Perfeição
4 Capítulo IV
Notas iniciais
TOBIAS EATON
– É mais fácil odiá-la de longe, não é? – Will diz atrás de mim, enquanto estou na sacada do quarto e observo Tris sair para o trabalho.
– Cale a boca, seu idiota.
– Nem mesmo você, Tobias, pode negar o quanto ela é atraente. Eu não falo nem da sua beleza. É essa inocência que ela tem nos olhos. Estou ficando louco. – ele suspira.
Fico em silêncio, porque tenho que concordar com ele. Tenho observado Tris desde que ela chegou, sem me aproximar muito dela. Está na forma como ela anda. Na forma como ela sorri. Na forma como ela tenta ajudar. Ela é altruísta, porra. Nunca conheci ninguém com tanta pureza no coração. Ela não é o que eu achei que fosse. Seria bem mais fácil lidar com isso.
– Estou falando com você, cara. – Will reclama, trazendo-me de volta dos pensamentos sobre a loira.
– Foi mal. Está tudo uma bagunça. A imprensa tá colada em mim outra vez. Eu não aguento essa vida, porra. Parece que cair fora de toda aquela merda não adiantou. – solto um longo suspiro.
Will concorda com um aceno de cabeça e põe a mão no meu ombro.
– Você estava no auge, Tobias. É claro que a imprensa ainda vai grudar em você. Sorte a sua que eles não ficam mais na praia como antes. Aí sim você estaria ferrado.
– Estou perdendo a cabeça. Tenho que lidar com matérias mentirosas sobre mim em todos os jornais e depois arranjar um programa de televisão para desmentir tudo. Tenho que lidar com Nita e suas vontades absurdas para vê-la feliz. E como se não bastasse, ainda tenho que lidar com ela. – eu suspiro mais uma vez. Não percebi que agarrava a barra de metal da sacada com tanta força.
– Ela está mexendo com você, irmão. Por que não me deixa leva-la para morar comigo antes que as coisas fiquem mais... Complicadas? – Will diz e seus olhos aguardam por uma resposta, mas eu desvio do seu olhar e encaro a areia branca.
Sei que Will tem um bom coração. Nós crescemos juntos e temos a mesma mãe. Os casamentos fodidos de Evelyn nunca atrapalharam nossa relação. Will é o único que consegue me enxergar além de um cantor famoso filho de um baterista famoso. Mas não posso o deixar leva-la. Eu causei tudo isso e Tris não é problema dele. Preciso consertar a bagunça que eu fiz. E além do mais... Eu gosto de tê-la por perto. Ela consegue transpirar paz para todos à sua volta, mesmo sem saber.
– Sabe que não posso fazer isso. – deixo que meus ombros caiam.
– Eu conversei com ela. Porra, ela é tão sexy. Acho que tô apaixonado. – ele suspira, como se tivesse imaginando um futuro com ela.
Sei que ele não está falando sério. Depois de fazer uma cara de paisagem, ele olha para mim e sorri.
– Seu puto. – eu dou um soco em seu braço bem mais forte que o comum.
– Caia fora antes que seja tarde, mano. Ela conquista todo mundo.
Eu sabia disso. Ela estava mexendo com a minha cabeça também. Sabia disso melhor do que ninguém.
– Às vezes acho que você esquece de quem eu sou. – eu forço um sorriso e levanto uma sobrancelha. Isso teria convencido qualquer pessoa, exceto Will. Ele consegue ver através de mim.
– Por isso mesmo eu te aconselho, Tobias. Eu sei bem quem você é. – ele sorri sugestivamente.
Eu odeio esse cara.
– Como está no trabalho? – pergunto, tentando fazer com que ele não insista no assunto.
– Tudo em ordem. Estou conseguindo fazer tudo certo e meu pai está orgulhoso. Tenho que me encontrar com um cliente em alguns minutos. Só passei aqui para saber se a garota ainda estava viva.
– Não é como se eu fosse mata-la, Will. – eu bufo e reviro os olhos.
– Eu confio em você. Eu não confio na sua irmã. – ele respira profundamente, fechando os olhos. – Nita a odeia, Tobias. Não sei como você pretende deixar Tris morar aqui fazendo mal a sua irmã. Pode parecer que não me importo com ela, mas eu me importo. – ele abre os olhos e olha para mim, esperando que eu lhe dê a certeza de que isso vai funcionar.
– Nita vai aparender lidar com isso. Eu posso cuidar dela por enquanto. Tris só ficará aqui por um mês e depois vai embora. Terei pago minha dívida com Andrew, Nita ficará feliz e eu conseguirei viver em paz.
– Não sei como pretende fazer para que as coisas deem certo, mas se precisar de alguma ajuda, você pode ligar para mim. Qualquer coisa, cara.
– Eu sei. Obrigado.
– Preciso ir. Me encontrarei com o cliente lá no clube. Você pode aparecer lá depois. Zeke marcou jogo de golfe. Eu, você, ele e Uriah. Peter viria, mas está ocupado demais com o trabalho.
– Nita me pediu para leva-la a um spa hoje a tarde. – digo, e me sinto frustrado em ter aceitado.
– Ela tem seu próprio carro, caralho. Venha fazer coisas de homens.
– Verei o que posso fazer.
– Te espero lá. – ele sorri, porque sabe que eu vou, e logo em seguida vai embora.
Quando estou só, desço e vou até a cozinha. É impressionante a forma como tudo permanece limpo. Mesmo que eu não tenha admitido, Tris fez um ótimo trabalho aqui. E ela o mantém desse jeito, mesmo que o use para comer. Ela é tão diferente... Aqueles olhos. Aqueles grandes e lindos olhos verdes-acastanhado. Os cílios...
Que porra?!
Afasto o pensamento da loira, dirijo até o fogão e preparo um pouco de bacon com ovos. Vou até a geladeira e pego uma lata de cerveja. Não é a melhor escolha para se começar o dia, mas foda-se. Me sento diante o balcão da cozinha e tomo o café da manhã, desfrutando o silêncio que está em casa.
Logo mais ouço clicks de saltos e olho para frente, vendo Nita entrar na cozinha com uma carranca no rosto e de braços cruzados na altura dos seios. Ela segura um jornal em sua mão.
– Eu já te falei para bater antes de entrar. – digo, não querendo soar tão duro quanto soei. Entretanto, detesto o fato de entrarem em minha casa sem avisar. Will é o único que pode fazer isso. Nem mesmo Nita.
– Dane-se! Você já leu a matéria de hoje? Eu estou na capa! – sua voz sai estridente e ela grita furiosamente.
– Não entendo como isso pode ser uma coisa ruim, Nit. Você sempre gostou de ser o centro das atenções. – junto as sobrancelhas, tentando entender minha irmã. Ela sempre fez de tudo para estar em todos os jornais e capas de revistas. Sendo minha irmã, ela não precisou de muito esforço.
– Não dessa forma. – ela diz com uma voz um pouco mais baixa. – Leia você mesmo. – ela joga o jornal em cima da bancada e eu o pego para ler.
“– Ela já transou com toda a minha roda de amigos. Age como uma prostituta. Não é uma pessoa pela qual eu devesse me orgulhar em estar junto. Nosso fim foi mútuo. Já estava mais do que na hora de colocar um ponto final.” – diz Robert Newark, atual vocalista da banda The Lost e ex-namorado da modelo Nita Johnson.
A declaração do cantor nos deixou...”
Paro de ler. Não suporto que falem da minha irmã de uma forma tão nojenta quanto essa. Os jornalistas estão sempre inventando coisas sobre nós.
– Eu sinto muito, querida. – eu abro os meus braços e ela corre para mim, como sempre fez. Eu a aperto contra meu peito e acaricio seu cabelo suavemente. Sei que minha irmã não é uma das melhores pessoas, mas ela não é completamente má. E vê-la machucada parte meu coração. – Eu vou tentar reverter isso. Prometo que não vou deixar que sujem sua imagem desse jeito.
– Eu não sou desse jeito. Eu não sou uma vadia. – ela soluça, enquanto suas lágrimas molham meu peito. Elas teriam encharcado minha camisa, se eu tivesse posto alguma.
– Eu sei que não é. Eu não vou deixar que machuquem você, princesa. Prometo que vou resolver isso. Nem que eu tenha que pagar por todos esses jornais. – sinto sua risada fraca contra meu peito e isso faz com que a tensão diminua.
– Ela está aqui? – Nita afasta seu rosto para que possa me olhar e quando vejo seus olhos vermelhos, sinto vontade de mentir. Queria mentir, mas não consigo. – Por que está fazendo isso comigo, Tobias? Sabe o que ela representa para mim. Ela foi fonte de toda minha dor.
– Não posso deixar ela sozinha, Nit. Preciso que ela esteja segura o suficiente para que eu possa manda-la embora. – eu suspiro, sabendo que iremos discutir sobre isso.
Nita me empurra e se afasta de mim. Ela não está mais triste. Está furiosa novamente.
– Por que você se importa com ela?! Esqueceu do que ela é pra mim?! Eu a odeio, Tobias! Não posso viver em paz sabendo que ela está aqui!
– É apenas por um mês, Nit. Por favor, não fique brava. – tento me aproximar dela novamente, mas ela se afasta.
– Um inferno! Essa vadia mal chegou e já faz da minha vida um inferno! – ela grita e seus olhos brilham com ódio. – Espero que saiba na merda que está se metendo, Tobias.
Ela se vira e vai embora, batendo a porta com mais força do que eu imaginava que ela tivesse. Massageio minhas têmporas. Lido com Nita mais tarde. Preciso relaxar. Ir ao clube não me parece uma ideia tão ruim, então subo as escadas e me troco, colocando o traje que usamos para jogar golfe.
Quando estou pronto, vou até a garagem e ligo meu Gallardo preto. Dirijo até o clube pensando numa maneira de fazer as pazes com Nita. Mandarei flores e um novo cartão de crédito. Isso sempre a anima.
Estaciono na minha vaga do Teller Clube e caminho em direção ao restaurante. Lá dentro está mais fresco. O sol hoje faz com que minha cabeça doa ainda mais. Quando entro, respiro aliviado por terem topado o ar-condicionado. Vejo Will sentado com Zeke e Uriah em uma mesa. Ele acena para mim e caminho em direção a eles.
– Não imaginei que fosse vir tão cedo. – Will diz.
– Tive problemas com Nita. – solto um suspiro e cumprimento Uriah e Zeke com um aceno de cabeça.
– Todo mundo tem. – Will sorri.
– Lá vem ela. – Uriah suspira. – Ela consegue fazer até esse uniforme de garçonete ficar bonito.
– Calma aí, garotão. Ela precisa de um homem, não um moleque. – Zeke sorri para o irmão.
– Tirem o olho, cuzões. Eu pretendo chama-la para jantar ainda essa noite. – Will anuncia.
Me viro para ver de quem eles estão falando e a vejo. Tento desviar o olhar, mas não consigo. Ela caminha suavemente com uma bandeja até a nossa mesa. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo e ela realmente faz o uniforme ficar bonito. Seu olhar cruza com o meu e ela sorri gentilmente. Percebo que estou olhando por muito tempo.
– Aqui está o pedido de vocês. Desejam mais alguma coisa? – a voz doce faz com que todos os caras babem.
– Só você, querida. – Uriah diz e faz com que Tris encolha um pouco os ombros, enquanto suas bochechas ganham um tom avermelhado.
Porra, isso foi adorável.
– Não dê ouvidos a esse puto que acaba de sair da puberdade. Não queremos atrapalhar você. Imagino que tenha muito trabalho ainda. – Will diz e ela assente, voltando-se para mim.
– Você quer pedir alguma coisa? – ela me olha com aqueles incríveis olhos verdes.
– Um café preto, por favor. – ela assente e vai embora. Não sinto fome alguma, apenas quero fazê-la voltar aqui.
– Ela é tão quente. – Uriah solta outro suspiro.
– Fique longe dela, seu idiota. – Will solta uma risada, enquanto Zeke o acompanha e Uriah revira os olhos. – Todos vocês. – ele aponta para Zeke e eu. – Ela não merece nenhum de nós. Só pensamos com o pau. Ela merece alguém melhor.
– Como sabe tanto sobre ela? – levanto minhas sobrancelhas para ele.
– Ela não é o que você pensa. Eu converso com ela desde que ela chegou aqui. Ela precisava de alguém. Ela já passou por muita merda e sua recepção não foi lá a melhor. Estou sendo seu amigo.
– Você está louco para leva-la para sua cama. – reviro os olhos.
– Isso também, meu caro. – Will ri e suspira. – Mas acho que posso ser outra pessoa por ela. Ela é incrível. Posso me prender a alguém, se esse alguém for ela.
– Estamos ouvindo Will falar em relacionamento? É isso mesmo? – Zeke zomba, enquanto bebe um gole de sua cerveja.
– Você não a conhece, Will. Não deixe que ela engane você. – eu o advirto. Will costuma se decepcionar com todo mundo por se entregar fácil demais. Mesmo com todo esse jeito angelical que tem, Tris pode muito bem estar fingindo. Ela é filha de Andrew. Não dá para confiar.
– Nada nela é falso, cara. Você devia conhecê-la. Tenho certeza de que mudaria de ideia. – Zeke responde.
Quando vou abrir a boca, Tris retorna com o meu café. Ela continua sorrindo gentilmente para mim.
– Aqui está. – ela coloca-o na minha frente. – Mais alguma coisa?
– Não, obrigado. – respondo sem olhar para ela.
– E vocês? – sua voz vacila um pouco, mas vejo que nenhum deles percebeu.
– Não, baby. Não vamos mais atrapalhar você. – Uriah segura sua mão e a beija.
– Tudo bem. Se precisarem, basta chamar. – ela sorri e caminha até outra mesa com sua bandeja.
– Estou sendo fisgado. – Uriah suspira, fazendo com que Zeke e Will soltem uma risada. Eu permaneço calado.
– Você está estranho demais. Vamos jogar golfe pra aliviar esse mal humor. – Zeke dá uns tapinhas no meu ombro e nos levantamos, nos dirigindo até os buracos do campo.
Passamos a tarde jogando golfe, bebendo e conversando sobre mulher. Mesmo com todas as discussões, vejo que senti falta deles. Depois que entrei para a The Lost, me afastei de todos, porque a fama sugava tudo de mim. Mas agora não. Agora estamos em paz, conversando como velhos amigos fazem.
Bem, eu achava que estávamos em paz.
– Com licença, você poderia autografar para mim? – uma loira acompanhada por uma amiga se aproxima de mim.
Forço um sorriso. Eu detesto isso.
– Onde devo? – pergunto, estendendo a mão e pegando a caneta.
– Bem aqui. – ela abaixa seu top e deixa seus seios à mostra.
Caralho.
– Uau. – Uriah solta atrás de mim.
Me viro para eles e os vejo de olhos arregalados, tão surpresos quanto eu. Os peitos dela são bem grandes. Grandes e redondos. Porra, peitos são meu ponto fraco.
– Qual seu nome? – pergunto, engolindo em seco.
A garota apenas sorri, como se tivesse atingido seu alvo. É, ela conseguiu.
– Susan. – responde e arqueia seus seios para mim. Eu os assino com o maior prazer. – Meu carro está com um problema, você poderia me dar uma mãozinha?
Entendi seu recado. Eu dou duas se ela quiser.
– Estou jogando golfe com meus amigos. – respondo, olhando de relance para os caras. Will reprime os lábios, tentando não rir. Zeke faz um sinal positivo com os dedos. Uriah tem um sorriso travesso nos lábios.
– Se você não for, eu vou. – ele diz.
Susan puxa seu top e põe as mãos nos quadris.
– Você vem? – ela levanta as sobrancelhas com um sorriso sedutor nos lábios.
– Estou logo atrás de você.
Eu a sigo do campo até o estacionamento. Ela me aponta o Charger 2014 branco estacionado nas vagas para sócios. Eu olho ao redor. Não há ninguém nos olhando. Ótimo. Ela é a distração que eu preciso.
– Há tempos que quero provar você. – Susan sussurra, me puxando ao seu encontro. Ela tenta me beijar, mas eu desvio da sua boca.
– Sem beijo, gata. Eu não beijo. Só trepo. – digo, enquanto ela desliza a língua pelo meu pescoço.
– Uma pena, mas não me importo. – ela diz e se esfrega no meu short.
Fecho os olhos quando ela enfia a mão nele. E então eu escuto cliques e flashs. Droga, eles estão aqui.
– Puta que pariu. – rujo, quando os paparazzi avançam em nossa direção. – Venha, tenho que tirar você daqui.
– Eu não me importo. Quero ser vista com você. – ela segura a minha mão e sorri para as câmeras.
É claro que não se importa. Toda fã quer seu momento. E então as perguntas começam.
– Essa é sua nova namorada, Quatro?
– Ouvimos boatos de que você estava em uma clínica de reabilitação por causa de drogas. O que você tem a dizer?
– Quatro, você pretende voltar para The Lost?
– Sentimos sua falta. Por onde você anda?
Eu ponho a mão diante dos olhos, enquanto os flashs me cegam. Péssima ideia não ter trazido óculos escuros. Estou prestes a sair correndo, quando escuto Will e Zeke abrirem caminho e me ajudarem atravessar até o restaurante do clube. Seguimos até a recepção e encontro Peter lá.
– O lugar está uma bagunça, a segurança não está conseguindo dar conta. Espalharam algum boato sobre você e eles não vão sair daqui até que você se pronuncie. – Peter fala para mim. – Sinto muito, cara. Eles estão por toda parte.
– Ótimo. – sorrio em descrença. – Como consigo sair daqui? – eu bufo. – Há alguma outra saída que me leve até o estacionamento?
– Sem chance, cara. Eles cercaram seu carro. Poderiam te seguir e descobrir seu endereço.
– Porra. – eu afundo no sofá.
– Pensando bem... Há uma saída. – ele reprime os lábios. Will levanta as sobrancelhas. Entendeu o recado. – Chamarei alguém para lhe ajudar. Volto em um segundo.
Peter abre as portas do restaurante e entra, nos deixando na recepção.
– Imagino que não tenha tido tempo para se distrair. – Zeke começa e solta uma risada. – Ela tinha belos peitos, cara. Lamento por você.
– Cale sua boca. – eu digo, soltando uma risada também.
– Não sei porquê abriu mão disso. Você consegue quem você quiser, porra. – Will diz.
– Não posso comer ninguém sem plateia. Eles estão por todo lugar. Acredite, depois de um tempo, fica chato pra caralho.
Peter retorna com Tris ao seu lado. Ela está com uma mão entrelaçada na outra e tenta disfarçar a tensão. Por que ele a trouxe?
– Você pode usar a saída dos funcionários e ela pode te deixar em casa. Eu a liberei das tarefas e ninguém notará se vocês forem no carro dela. É a única que está de carro e ela já conhece o caminho.
Eu olho para Tris. Ela fica ainda mais nervosa à medida que Peter fala. Droga. Eu também não sei se é uma boa ideia.
– Você acha que é seguro para ela? – Will se pronuncia. Posso sentir a preocupação em sua voz.
– Tenho certeza que é. – Peter sorri. – E então, você concorda?
Ouço o som de vidro sendo quebrado e escuto os gritos das fãs histéricas. O lugar tá ficando uma loucura.
– Se você não for, terei que expulsá-lo. Você tá deixando isso aqui o maior caos.
Eu suspiro.
– Vamos, antes que isso fique pior.
– Eu acompanharia vocês dois, mas tenho que lidar com esse pessoal lá fora. Will e Zeke, ajudem a distraí-los. – Peter diz.
Olho para Will e vejo o rastro de decepção em seus olhos. Ele gostaria de acompanha-la.
– Cuide dela, cara. Não foda com a vida dela. – ele diz. Sei o que significa.
Assinto e sigo para o restaurante, junto de Tris. Ela abre as portas da cozinha e nós entramos. Eu nunca tinha estado aqui dentro. O lugar é quente, barulhento e cheira a comida. Tem pessoas circulando por toda parte. É estressante.
– Ei, Gabe. Desculpe, mas não poderei almoçar hoje com você. Aconteceu um imprevisto e... Bem, preciso ir para casa. – Tris se dirige à um loiro, que me lembro de tê-lo visto por aqui.
– Você vai me abandonar no meio de toda essa bagunça? – ele tenta ficar bravo com ela, mas não consegue. – Não me olhe com essa carinha. Eu não resisto. Tudo bem. Tenho Christina e Marlene. Elas irão me ajudar. Fique tranquila.
– Eu sinto muito. – Tris o abraça. – Prometo que o próximo almoço será por minha conta.
– Nada disso, mocinha. Poupe seu dinheiro. Nós daremos um jeito.
– Até logo, Gabe.
Tris se despede dele com um abraço e nós seguimos em direção à saída.
– Não é nada do que você tá acostumado, mas funciona. – ela sorri em constrangimento, enquanto caminha em direção à velha picape branca.
Eu olho para o veículo. Eu duvido muito que consiga andar um quilômetro.
– Acho que não consigo ficar confortável com você dirigindo. – eu digo. Ela arregala os olhos. Droga. – Não quis ofender você. É que me sinto melhor se eu dirigir.
– Tudo bem. – ela assente, de forma doce e se esquiva para o meu banco, enquanto eu saio e dou a volta na picape, abrindo a porta do motorista e entrando.
Eu giro as chaves e o carro demora um pouco para conseguir força, mas logo em seguida ele ganha vida. Dou à volta e dirijo até o portão de saída dos funcionários, seguindo a instrução de Tris. Eu nunca tinha estado desse lado do clube. Sequer sabia que isso existia.
Ligo o rádio da picape, mas tudo que escuto é apenas um chiado.
– Não funciona. – sua voz vacila quando ela fala, mas ela tenta disfarçar. – É velho demais.
– Isso eu percebi. – eu desligo o rádio.
Fazemos silêncio no carro. A picape não corre muito, então levaremos mais de meia hora para chegarmos em casa. Tris tenta olhar para todas as direções, exceto para mim. Vejo que ela enxuga suas mãos no seu uniforme várias vezes. Eu estou deixando-a desconfortável.
– Vi a maneira como você falou do seu pai. Se não gosta dele, por que pediu a sua ajuda? – perguntei, não contendo minha curiosidade. Eu queria saber porquê ela estava aqui.
Tris piscou e olhou para mim. Pude o quanto ela estava confusa sobre confiar ou não em mim. Ela solta um longo suspiro.
– Ele é a única família que me restou. Meus pais eram filhos únicos. Eu não tenho tios, padrinhos ou qualquer outra pessoa. Não tenho ninguém além dele.
Abro minha boca para falar, mas quando olho para ela, vejo o quanto ela está distante. Creio que seja um assunto pessoal demais. Não posso insistir, mesmo que eu queira muito saber. Pelo que eu me lembre, ela tinha uma mãe e um irmão. Onde eles estão?
Quero odiá-la, mas não consigo.
Nós seguimos o restante do caminho em silêncio. Quanto mais eu quero que chegue, mais distante parece ficar. Depois de longos quarenta minutos eu finalmente estaciono a picape em frente da casa. Olho ao redor, mas nenhum indicio de fomos seguidos. Eles realmente não nos notaram.
– Bem, chegamos. – eu digo, rompendo o silêncio entre nós. Ela ainda está parada, com as mãos entrelaçadas sob seu colo, olhando fixamente para frente.
Eu abro a porta do carro e desço. Tris faz o mesmo. Nós não nos falamos e isso me incomoda. Por algum motivo, sinto a necessidade de conversar com ela. Gosto de ouvir sua voz. É doce e há pureza nela.
Quando subimos as escadas da entrada, eu noto o carro de Nita estacionado. Merda. Abro a porta devagar, receoso de que ela possa ter um ataque se ver Tris aqui. Ela irá querer criar uma cena. Conheço minha irmã.
– Pensei que estivesse ido ao clube, e não dado um passeio com essa aí. – Nita aparece de braços cruzados, à nossa frente. Tris para ao meu lado, de cabeça baixa. – Ela está trabalhando no clube? Vejo que o nível tem descido bastante para Peter contratá-la.
– Não comece. – eu aviso. Tris ainda está de cabeça baixa.
– Ela ao menos tem dinheiro para colocar a gasolina e ir até lá? Porque pelo que eu sei, Will teve que fazer isso. – ela se aproxima de Tris e se coloca bem na frente dela. – Por que você ainda está aqui, querida? Não viu que ninguém aqui gosta de você?
– Basta, Nit. Chega de falar besteiras. – eu me coloco diante delas e afasto minha irmã. – O que você quer aqui?
– Pensei que fossemos ao spa. – ela faz bico. – Mas você está ocupado demais comendo uma vagabunda qualquer. Está transando com ela, Tobias? – ela aponta para Tris. – Você jura? Está transando com isso? Olhe os trapos que ela veste. Olhe o que ela dirige. Ela não é ninguém. – ela bufa e revira os olhos – Cansei de te dar conselhos.
– Cale a boca, Nita, antes que eu perca minha paciência com você. Suba, nós conversaremos lá em cima. – eu olho para ela, que levanta o queixo e permanece imóvel. – Agora. – eu digo duro. Ela precisa saber que eu ainda mando aqui.
Nita sai pisando forte e sobe as escadas com uma carranca no rosto. Me viro para me desculpar com Tris, mas ela já saiu correndo para cozinha. Ok. Eu falo com ela depois.
Subo para lidar com a minha irmã. Essa é a parte mais difícil.
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