Estranha Perfeição
5 Capítulo V
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
Eu já tinha visto Nita no primeiro dia em que cheguei. Ela não tinha sido nada simpática e fez de tudo para que eu não ficasse. Eu sabia que ela não gostava de mim desde aquele dia. Porém, ao entrar no meu quarto e me deparar com tudo revirado, eu tenho certeza de que ela me odeia. Eu poderia lidar com alguém que não gosta de mim. Entretanto, lidar com alguém que me odeia e é irmã do dono da casa onde eu durmo é muito mais difícil.
Entro no meu quarto e fecho a porta. Está tudo bagunçado. Minhas roupas que antes estavam na mala, agora estão todas no chão. Meus olhos se enchem de lágrimas ao ver que muitas delas estão rasgadas. Olho uma das caixas de papelão que eu trouxe de Chicago. Tudo que estava dentro dela está jogado pelo chão do quartinho.
Oh meu Deus, por favor, que ela não tenha causado nenhum dano à...
Meu coração dói e se aperta ao ver minha foto com a minha mãe rasgada ao meio, separando nós duas. Um soluço escapa de mim e eu tento ser forte, mas não consigo. Não depois disso. Eu caio de joelhos no chão e começo a chorar, com as duas partes da foto apertadas contra meu peito. Permito que as lágrimas caiam até que a dor do meu coração possa cair com elas também, mas não funciona. Tudo em mim dói. Era uma das poucas lembranças que eu ainda tinha da minha mãe.
– Tris?
A voz familiar faz com que eu me vire para a porta e enxergue Will lá, paralisado, analisando todo o quarto e, por fim, parando seus olhos em mim. A compaixão e a pena estão lá. Eu olho para ele, com os olhos embargados, e basta apenas que um soluço me escape para ele estar ao meu lado, me envolvendo em um abraço e permitindo que eu chore em seu ombro.
– Tobias fez isso? – eu nego. – Diabos, Nita fez isso? – ele bufa. Eu balanço a cabeça lentamente. – Eu sinto muito, querida. – ele acaricia meu cabelo, enquanto meu corpo se agita em meio a soluços.
Depois disso, Will não fala mais nada. Eu gosto dele. Ele não mente para mim, dizendo que tudo vai ficar bem sem antes ter a certeza disso. Ele fica ali, me deixando chorar, molhar sua camisa e permanece em silêncio, sem me fazer perguntas das quais eu não quero responder.
Quando meu corpo vai se acalmando e eu finalmente consigo controlar meus soluços e choro, me levanto e me sento na cama. Will se levanta também e se senta ao meu lado. Nenhum de nós fala nada, até que ele vê a foto rasgada em minhas mãos.
– É a sua mãe? – ele aponta para uma das minhas mãos. Eu assinto. – Você se parece muito com ela.
Minha mãe era linda.
– Você não precisa mentir para me agradar. – eu dou um sorriso fraco. – Eu espero que eu consiga ser metade do que ela foi. Não apenas na aparência, mas em tudo. Ela era incrível.
– Era? – Will junta as sobrancelhas, numa expressão confusa. – Então ela...
– Morreu. – eu solto um suspiro cansado. – Há um mês. Câncer não é algo que se possa curar.
Ele pisca, como se precisasse ter certeza de que ouviu certo. Eu apenas abaixo a cabeça, olhando para a foto, porque não sei se quero continuar falando disso.
– Eu sinto muito. – Will suspira e segura minha mão.
– Você costuma sentir por muitas coisas, Will. É sempre assim? – eu olho para ele e lhe dou um sorriso amigável.
– Só quando envolvem garotas como você. – ele pisca e consegue me arrancar uma risada fraca. – Eu gosto de vê-la sorrindo. É bonito.
Ops.
– Hm... Obrigada. – eu encolho os ombros.
– Desculpe, eu não queria te deixar sem graça. – ele sorri. – Mas você deveria estar acostumada a elogios. Digo, por causa do seu rosto, do seu corpo... Essas paradas, sabe?
Eu sorrio para ele.
– Não, eu não estou acostumada.
Ele sorri, mas não dá continuidade ao assunto.
– Eu estava vindo te chamar para comer alguma coisa. O que você me diz?
– Tenho que limpar essa bagunça. – eu olho para o quarto. – Vou ver o que ainda está inteiro e serve e vou juntar tudo. Vou pedir a Tobias para entrar em contato com meu pai. Não posso ficar aqui.
Sei que minha voz vacilou enquanto eu dizia isso, mas não há nada que se possa fazer. Revelar para Will em voz alta é revelar a mim mesma também. Não posso permanecer em lugar onde não sou bem-vinda. Tentarei falar com meu pai. Pedirei uma última ajuda. E então eu vou embora.
– Para onde você vai? – Will me pergunta, seus olhos brilhando em preocupação.
– Eu não sei. Talvez eu volte para Chicago. Tenho dinheiro para gasolina. Lá eu vou conseguir me virar. Eu nunca deveria ter vindo para cá.
– Você pode ficar comigo, se quiser.
Não. Definitivamente não. Will é gentil demais e não trarei problemas para ele.
– Obrigada, Will, mas não. Meu lugar não é aqui.
– Eu gostaria que você ficasse. – Will segura minha mão e olha bem nos meus olhos. – Vou sentir sua falta.
Eu sinto um aperto no coração.
– Eu também vou sentir sua falta. Mas assim que as coisas se organizarem, eu darei um jeito de me comunicar com você. Tenho seu número, esqueceu? – eu brinco.
Ele sorri.
– Se pretende ir embora, posso ao menos leva-la para jantar?
Não é uma boa ideia.
– Preciso arrumar isso aqui antes.
– Sem problemas. Eu ajudo você. – Will sorri, se levanta e começa a apanhar as roupas do chão.
– Ok. – eu cedo, vendo que Will não irá ceder.
Eu abro minha mala e nós colocamos as roupas que Nita não conseguiu destruir. Ela não destruiu bastante coisa, mas com toda certeza isso me trouxe prejuízo financeiro. Todo o meu dinheiro estava sendo poupado para me mudar para algum lugar. Terei que dar um jeito agora.
Will e eu passamos a tarde inteira juntos, arrumando o quartinho. Ele trouxe cola e fita adesiva para consertar as coisas. Ele me fez rir durante todo o tempo e pela primeira vez na minha vida, eu não me senti tão só. Will estava preenchendo um espaço vazio deixado por Caleb em meu coração. Eu gostava dele. De todos, ele seria o único do qual eu iria sentir falta.
– Você não tem outra desculpa para me dar agora, Tris. Já tá tudo organizado. – ele sorri.
Eu encolho os ombros e dou um sorriso envergonhado.
– Tem razão. Eu vou tomar banho e me trocar. Não vou demorar muito.
– Tudo bem. Eu vou te esperar lá na sala. Preciso conversar com Tobias sobre Nita.
– Will... – eu começo.
– Não, Tris. Ela passou dos limites.
– Tudo bem. – eu respondo, pego um par de roupas e saio do quarto.
– Para onde você tá indo? O banheiro fica lá em cima. – Will me diz.
– O banheiro de hóspedes fica lá em cima. Já deu para perceber que eu não sou uma hóspede, Will. – eu sorrio levemente e saio, o deixando lá.
Saio pela cozinha e uso o banheiro dos fundos. Minha toalha ainda está lá, o que significa que aqui é um lugar onde quase ninguém vem. Tranco a porta e entro debaixo do chuveiro. Permito que a água lave todo o meu corpo e aproveito o momento para refletir. Estou sem lugar para morar novamente. Com as gorjetas que consegui no clube posso colocar gasolina e voltar para Chicago, mas iria sair muito caro e quase não restaria dinheiro para eu ter onde dormir ou o que comer. Talvez eu possa morar em algum lugar onde o custo de vida seja mais barato e eu não tenha que passar fome. Pedirei para falar com meu pai. Talvez ele possa ser útil e me ajudar ao menos uma vez.
Saio do banho e ponho a roupa. O short branco e o cropped verde realçam a cor dos meus olhos. Era uma peça de roupa que minha mãe adorava. Ela sempre me dizia que eu tinha olhos e cabelos de um anjo. Eu queria acreditar nela. Eu queria que ela estivesse aqui.
Calço minhas sapatilhas brancas e saio, voltando para cozinha e indo para meu quarto. Will não está lá. Saio do quarto e escuto as vozes vindo da sala. Paro na cozinha e sei que deveria voltar para não ouvir sobre o que estão conversando, mas quando ouço meu nome saindo da boca de Tobias, meu corpo congela e eu não consigo me mover sem saber o que ele está falando sobre mim.
– A vadia louca da sua irmã destruiu todas as coisas dela, porra! Você não vai fazer nada? – Will grita e eu me encolho, como se o grito fosse comigo. É estranho ouvir uma voz tão mansa como a de Will repleta de raiva.
– Eu já conversei com ela, caralho! Acabei de ter uma discussão com Nita e ela saiu daqui chorando. Você não está satisfeito?! Isso não significa nada para você?! – Tobias grita como se estivesse a ponto de explodir de tanta fúria. Eu me encolho mais ainda.
– Estou pouco fodendo se ela chora ou não. Você sabe que as lágrimas não são reais. Ela sempre faz isso, porra! Por que você não quer enxergar o monstro que sua irmã se tornou?
– Eu te considero como irmão, Will, mas eu não vou pensar duas vezes se você falar mal de Nita na minha frente. Tente entender meu lado, cara.
– Você ao menos viu o estado que ficou o quarto? Ela está louca de ciúmes, Tobias. Nita está louca de ciúmes porque sabe que você sente atração por Tris. – meu coração para. É como se todo o ar fosse tirado de mim. Não faz sentido o que estou ouvindo. Will está enxergando coisas. – Diabos, eu sei o que Tris representa para sua irmã e eu entendo que ela esteja furiosa, mas Tris não tem culpa disso. Ela não é como o pai dela. Eu a conheço. Ela não é má. Nada nela é mau.
– Você está enganado, Will. Você não a conhece. Você apenas está cego porque quer levar Tris para sua cama. Carne fresca, não é? Algo novo para você e você será o primeiro do grupo a trepar com ela.
Sinto como se tivesse levado um soco no estômago. Will não é meu amigo somente por isso. Ele não me trata bem só porquê quer transar comigo. Isso não é verdade. Pensar nele dessa forma comigo me magoa.
Os dois ficam em silêncio. Me aproximo mais da sala e me encosto no batente da parede. Inclino um pouco meu rosto, para que eu possa vê-los. Tobias está de braços cruzados, mas de costas para mim e Will está virado em minha direção, mas ele não me vê. Vejo-o passar a mão no cabelo e soltar um longo suspiro.
– Minha irmã destruiu suas malditas coisas?! – Tobias explode e joga as mãos para o alto. – Estou cagando e andando para isso! Posso pagar por tudo que ela tem e ainda triplicar seu guarda-roupa que não irá fazer diferença para mim. Analise a situação: ela precisa de dinheiro. Eu posso pagar por tudo que ela quiser e ainda lhe dou uma quantia por ter destruído suas coisas “sentimentais”. – a forma como ele falou a palavra fez meu coração doer. As fotos. Ele nunca poderá reparar isso. Sinto meus olhos marejarem e eu solto um soluço baixinho. Não vou chorar novamente. Não posso chorar novamente. – Porra, eu pago o que ela quiser que eu pague! Você não queria que eu consertasse as coisas?! Eu farei isso! – ele grita para Will.
Will se aproxima e fica bem próximo do rosto de Tobias. Seu rosto está em um tom avermelhado. Acho que nunca ouvi lutar tanto para manter a calma.
– Não consigo ouvi-lo falar dela dessa forma. Se fizer isso de novo, eu juro que soco seu maldito rosto. Você está disposto a me machucar por Nita, Tobias, mas eu também estou disposto a machucar se você magoar Tris. – ele balança a cabeça e solta uma risada seca. — Posso até estar sendo enganado por estar encantado pela doçura dela, mas eu não sou o único cego aqui. Você deveria manter seus olhos abertos em Nita, irmão. Chega de deixar que ela controle você.
– Ela não me controla, Will, e você sabe disso. – Tobias diz, mas a insegurança em sua voz o entrega. Will está certo e até ele sabe disso.
– Então o que ela faz? – Will pergunta e ele fica em silêncio.
– Isso não é assunto aqui. Estamos falando de Tris. É sempre Tris. Desde que ela chegou só me trouxe dor de cabeça. Estou cansado dela. – Tobias suspira e sua voz já não está mais tão feroz quanto antes. Ele fala como se tivesse um enorme fardo em suas costas e isso faz com que meu coração se aperte. Eu nunca quis causar tanto problema. – Estou cansado de ter minha irmã no meu pé o dia inteiro. Tenho a imprensa, uma legião de fãs loucas, minha irmã e agora essa garota no meu pé. Por que diabos ela não está com a mãe dela?! – ele diz, como se implorasse por ajuda. Ao ouvir a menção da minha mãe, lágrimas rolam dos meus olhos e eu engulo o nó imenso que se formou em minha garganta. Sei que devo voltar para o meu quarto e ignorar o que ele irá dizer, porque também sei que irá me machucar, mas simplesmente não consigo me mover. – Por que porra ela não está com a mãe dela, Will?! – ele grita.
– Tobias... – Will repreende, como se ele soubesse, mesmo não me vendo, que isso tudo me machuca. – Tris está indo embora.
– Eu lembro que ela tinha uma mãe! – Tobias grita, como se Will não tivesse falado nada. A forma como consegue ignorar as pessoas me impressiona. – Onde está a porra da sua mãe?!
– Ela morreu. – Will diz num suspiro, baixo, mas o suficiente para que Tobias se cale e paralise.
A confissão de Will faz com que um soluço escape da minha boca, dessa vez alto o suficiente para que me notem. Tobias me olha, com uma expressão indecifrável e Will encolhe os ombros, como se pedisse desculpas por ter revelado algo que só contei a ele. De longe, isso foi a coisa que menos me machucou. Eu imaginei que eles sabiam. Meu pai deveria ter contado.
– Há quanto tempo você tá aí? – Will pergunta, caminhando lentamente em minha direção.
– Sua mãe nunca lhe ensinou que é feio bisbilhotar a conversa dos outros? – ouço o tom duro de Tobias e mais uma lágrima cai, dessa vez de fúria. Ele não tem nenhum direito de falar da minha mãe.
– Porra. – Will solta e segura minha mão, mas eu me desvencilho dele.
Caminho até Tobias e fico frente a ele. Sou muito baixa, então preciso levantar a cabeça para que eu possa encará-lo bem no fundo dos olhos. Meu coração arde em raiva e eu sinto vontade de dar um tapa e deixar uma marca vermelha no seu rostinho bonitinho de astro do rock.
– Eu não estou aqui porque eu quero. Eu não fazia a menor ideia de onde eu estava me metendo antes de Will me dizer quem você é. Eu não estou nem aí para o seu dinheiro. Nunca pedi nada além de um lugar para dormir. Não precisa pagar por nada que foi destruído. Não quero que sinta pena de mim. Sou muito grata pelo quarto que você me ofereceu e eu poderia lidar com todas as humilhações que eu passaria aqui, mas eu não posso lidar com você falando da minha mãe. Ela era uma mulher incrível e você não tem o direito de falar dela. Não ligo se você é astro do rock. – eu aponto o dedo bem no meio do seu rosto. – Se você falar dela novamente, eu acabo com você.
Ele cruza os braços e levanta uma das sobrancelhas, como se debochasse de mim. Eu devo estar parecendo infantil mesmo, mas não estou preocupada com isso agora. Provavelmente serei mandada embora hoje mesmo. E agora que ele despertou minha raiva, eu irei terminar o que comecei.
Dou dois passos para trás, me afastando dele, mas mantendo contato com seus olhos.
– Vou ligar para o meu pai. Vou embora amanhã cedo. – respiro fundo. – Sinto muito se eu te trouxe problema. Eu nunca tive a intenção, mas obrigada por me deixar ficar mesmo sabendo de tudo que iria acontecer. Vou voltar para Chicago. Sei que não se importa, mas sinto como se devesse uma explicação a você. – solto uma risada seca e abaixo a cabeça. – Deve ficar feliz ao saber que não ficarei um mês aqui.
Ele permanece em silêncio. Will ainda está aqui na sala e eu olho para ele como se pedisse socorro, mas ele também não diz nada. Volto meu olhar para Tobias e ele dá um passo à frente, de modo que fique bem próximo de mim. Ele aproxima sua boca do meu ouvido e eu sinto todo meu corpo arrepiar-se com a aproximação.
– Eu deveria estar, Tris. Feliz, eu quero dizer. Mas por quê não estou? – ele sussurra e se afasta, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. – Por que não estou feliz com isso, Tris? – ele junta as sobrancelhas em uma expressão confusa, mas antes que eu possa responder, ele pisca como se acordasse de um transe e sobe as escadas, sem falar absolutamente nada.
Olho para Will. Ele tem um brilho nos olhos que nunca vi. É como se tivesse orgulhoso de mim. Ele se aproxima e segura minha mão. Depois do que Tobias falou, é quase como se eu temesse que Will fosse tentar algo comigo, então seu toque é estranho e eu afasto minha mão da dele. Ele parece não se incomodar com isso.
– Ninguém nunca o enfrentou dessa maneira. Tenho certeza de que a visão dele sobre você irá mudar. – Will diz, e faz um aceno para que eu o acompanhe.
– Isso não importa. – digo, enquanto caminhamos para fora de casa e vamos até o carro de Will.
– Ele não vai manda-la embora. Eu o conheço. – Will diz, quando já estamos no carro e ele dá a partida.
– Você conhece o lado bom dele, Will. Mas comigo ele só age com seu lado ruim. – eu suspiro e encosto a cabeça no vidro do carro. – Eu gostaria de entender porquê ele me odeia tanto.
– Ele não a odeia, acredite. – Will sorri.
– Eu gostaria de pensar o contrário, mas não consigo. Ele já me provou que não está satisfeito com a minha chegada. Sei que meu pai não é uma boa pessoa, mas eu não sou como ele.
– Ele sabe disso. E ele não odeia você. Ele só está te protegendo.
Isso não faz o menor sentido.
– Me protegendo?! – eu solto uma risada sem humor. – Essa foi a coisa mais ridícula que já ouvi.
– Sei que não parece, mas é isso que ele está fazendo. – Will dá a seta e nós viramos na esquina, nos deparando com uma cafeteria aconchegante.
– Me protegendo de quê? – pergunto, porque tento entender Will. Ele parece estar falando sério.
– Dele. – Will desliga o carro numa vaga do estacionamento e solta um longo suspiro. – De Nita também. – ele vira o rosto para mim. – Essa família é cheia de problemas, Tris. Tobias está fazendo o que acha ser melhor para você. Talvez ele não esteja fazendo muito certo, mas está fazendo do jeito dele. Tenha paciência. Ele quer ficar longe de você.
– Longe de mim? – eu franzo a testa. – Eu não sou uma ameaça.
– Para Nita sim. Ela nunca permitirá que vocês dois se aproximem e está disposta a tudo. Tobias está te protegendo dela também.
– Eu não sabia que ela costuma ser tão ciumenta.
– Isso é bem mais do que ciúmes, querida. – Will sorri. – Agora vamos comer. Eu já falei demais. Tobias não irá gostar quando souber do que eu te disse.
– Não se preocupe. Eu não vou contar.
Will apenas sorri para mim e me ajuda a descer do carro. A cafeteria que estamos, apesar de ser pequena e diferente dos lugares que pessoas como Will frequentam, é bastante aconchegante. É um lugar calmo, sem o fluxo estressante de pessoas. O cheiro de café é delicioso e o das rosquinhas faz com que meu estomago faça barulho.
– Eu não como nada desde manhã. – eu encolho os ombros, como um pedido de desculpas.
Will balança um pouco a cabeça e olha para baixo por um momento. Depois ele faz um aceno para que eu o siga e eu o faço, e nós caminhamos até uma mesa redonda para dois, próximo a uma janela.
A noite segue tranquila. Não falamos da discussão anterior e fico feliz por ele não tocar nesse assunto. Will me faz rir durante toda a noite e não me deixa parar de comer até que eu esteja realmente satisfeita. Tento argumentar dizendo que estou poupando meu dinheiro, mas ele diz que eu não pagarei por nada. Tento argumentar contra isso também, mas Will é decidido. Ele parece se preocupar de verdade comigo. Eu gostaria de entender o porquê de tanto cuidado.
Então eu decido falar sobre o que Tobias dissera mais cedo.
– Will... O que Tobias falou mais cedo... Era verdade? – tento escolher as palavras certas, mas é como se eu estivesse envergonhada demais para pensar em Will daquele jeito.
– Quanto você ouviu, Tris? – Will pergunta, um pouco desconfortável.
– Muito. Ele falou que você... Bem. Você e eu... – respiro fundo. – Não me sinto à vontade falando desse jeito. Não consigo pensar em você além de um amigo, Will.
Vejo um rastro de mágoa passar por seus olhos, enquanto ele fica em silêncio. Não sei o que se passa com ele. Não consigo decifrá-lo agora.
– Serei seu amigo, Tris. – ele me olha e sorri, levantando o canto dos lábios.
– Obrigada. – eu sorrio e encerro o assunto.
Não quero dar continuidade porque tenho medo do que Will pode me revelar. Ele é uma pessoa tão boa e eu não gostaria de magoá-lo, então nós apenas conversamos sobre outra coisa. Ele não mora aqui em Miami. Ele veio a trabalho. Administração. Percebo que ele é apaixonado pelo que faz. A forma como fala do seu cargo e como gosta de trabalhar é interessante. Will é diferente dos demais que eu conheci aqui em Miami. Ele não é só mais um rapaz que ficou rico à custa dos pais. Ele é esforçado e inteligente e é bom ficar ao seu lado.
Quando é por volta das onze, Will me leva de volta para casa. Ele não fala nada durante todo o percurso e isso me deixa um pouco inquieta. Will não costuma ficar calado. Não quando ele está comigo.
Ele estaciona o carro próximo à entrada da casa.
– Você não vai entrar? – franzo a testa.
– Tenho uma reunião amanhã cedo. Tá meio tarde. – ele dá de ombros, com um sorriso travesso nos lábios. Quando abro a porta do carro para descer, ele segura meu antebraço. – Espere. Você ainda estará aqui amanhã de manhã?
– Provavelmente não.
– Porra, Tris. Eu fico preocupado com você. – ele solta um muxoxo. – Pra onde você vai? Você não pode simplesmente dirigir até Chicago. É perigoso.
– Eu consigo cuidar de mim mesma. Tenho uma arma, lembra? – eu brinco e ele sorri, balançando a cabeça negativamente.
– Vou sentir sua falta. Não quero deixá-la ir, mas acho que não consigo convencê-la a ficar.
– Eu manterei contato com você. Você foi a única pessoa que me recebeu aqui, Will, e eu serei muito grata.
– Tome cuidado. – ele diz e abre os braços, me oferecendo um abraço. Eu o aceito de bom agrado e encosto minha cabeça em seu ombro.
Quando ele beija o topo da minha cabeça, sinto que é a minha deixa. Desço do carro e aceno, enquanto o vejo engatar a marcha ré e ir embora. Me viro e estou prestes a entrar pela porta dos fundos, quando percebo que estou sendo observada e paraliso.
Tobias está lá, de braços cruzados, olhando para mim atentamente, mas sem dizer coisa alguma. Eu olho para ele, esperando por alguma reação, mas ele permanece em silêncio. Imagino que ele esteja esperando que eu dê meia volta e vá embora. Não posso ir agora. Sei que não fui muito agradável mais cedo e que não deveria ter dito tudo que eu disse, mas ele não me deixou escolha. Eu estava furiosa. Agora, vendo que ele pode me expulsar da sua casa, vejo que não foi uma decisão muito inteligente.
Começo a andar em direção aos fundos da casa, quando o ouço atrás de mim.
– Onde você está indo?
Paro de andar, mas não me viro para encará-lo.
– Vou entrar. Se vai me mandar embora agora, eu preciso pegar minhas coisas antes.
– Eu não vou manda-la embora. – ele diz e isso é o suficiente para que eu me vire. Eu ouvi direito? – Não franza a testa para mim como se eu tivesse dito algo incompreensível. Eu nunca mencionei em expulsar você. Você quem propôs isso. – ele ainda está de braços cruzados, mas desta vez com uma das suas sobrancelhas arqueadas.
Eu permaneço em silêncio. Ele espera que eu fale, mas não sei o que falar.
– Eu lhe dei um mês para conseguir grana e dar o fora, e eu cumpro com a minha palavra. Você pode voltar, dormir e ir ao trabalho amanhã como se nada tivesse acontecido. Imagino que queira descansar. Você me ajudou hoje, e eu lhe devo uma. Pense no quanto poderá economizar se continuar aqui. Se amanhã ainda quiser ir, eu ligarei para o seu pai.
Eu apenas pisco.
– Você está me deixando assustado. Eu falei alguma coisa errada?
Não agora.
– Tudo bem. Vamos entrar. Essa área é vigiada por seguranças, mas ainda é perigoso. Está tarde.
Eu apenas balanço a cabeça e me viro, caminhando em direção à porta dos fundos.
– Você pode usar a entrada principal. Eu nunca lhe proibi isso.
Eu continuo caminhando em direção aos fundos, então ouço seus passos e o bater da porta. Ele finalmente entrou e minha postura relaxa. Eu não sabia que estava segurando a respiração. Não sei o que significa, mas eu fico tensa quando ele está perto de mim.
Entro no quarto e ele está no mesmo estado em que o deixei. A foto rasgada da minha mãe está em cima de uma prateleira branca. Eu penso no que Tobias me disse e não sei o que fazer. Eu poderia ficar aqui, economizar dinheiro e me mudar para outra cidade. Will me mostrou que há muitas por aqui por perto onde o custo de vida não é tão caro. Entretanto, eu não sei se é uma boa ideia. Eu não sei se seria capaz de lidar com tanta humilhação.
Suspiro e olho para a imagem da minha mãe. Fomos separadas pelo rasgão. Pego a parte onde ela aparece e a observo.
– Eu gostaria que você estivesse aqui, mamãe. Eu não consigo decidir. O que você faria?
Agarrada com sua imagem ao meu peito, eu adormeço dentro de minutos.
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