Estranha Perfeição
3 Capítulo III
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
Will me acompanhou desde a entrada da casa até o meu quarto desta noite, parando apenas para cumprimentar os amigos e as garotas que falavam com ele. Ele era conhecido por todos e as garotas o desejavam. Claro que iriam. Will era lindo. Ao contrário de mim, as pessoas o olhavam com admiração e desejo. Eu estava sendo notada na festa apenas pelas minhas roupas.
– Não se deixe intimidar por eles. – Will diz, à medida que atravessamos a sala e nos dirigimos à cozinha.
– Eu estou bem. – eu lhe dou um sorriso.
Ao entrarmos na cozinha, nos deparamos com dois casais aos beijos. Ambos estão praticamente fazendo sexo, bem aqui, sem se preocupar em serem vistos ou não. Eles estão tão bêbados que nem parecem notar nossa chegada. Will suspira, revira os olhos e passa a mão no cabelo. Ele abre uma porta branca, que dá acesso a uma pequena dispensa. À esquerda, há mais uma porta branca. Will faz um sinal para que eu a abra e eu obedeço. Entramos um pequeno quarto, com uma cama na lateral e um guarda-roupa de duas portas de madeira branca. Há dois cobertores em cima da cama, junto com um travesseiro.
Will deixa minhas malas no chão do quarto e olha ao redor. O quarto, embora não caiba mais do que duas pessoas, é de tintura bege e aconchegante. Há duas prateleiras brancas na outra parede, mas ambas estão vazias. O quarto tem um cheiro... Diferente.
– É bem menor do que eu imaginei. – Will suspira. – Não acredito que ele vai mantê-la aqui em baixo. Você pode vir comigo pro meu apartamento. Tenho certeza do que o que eu posso oferecer é melhor que isso.
O quê? Isso não é um problema dele. E eu jamais o incomodaria.
– Eu estou bem aqui. – eu lhe dou um sorriso. – Não precisa se preocupar.
– Não sei como dá pra dormir aqui dentro. Você tem certeza? – Will analisa o quarto novamente.
Ele é persistente.
– Sim, Will. – respondo. – Meu antigo quarto era maior que este pouca coisa.
Ele balança um pouco a cabeça, mas a acaba concordando.
– Está bem. Já vi que não vou conseguir leva-la a lugar algum. Mas me prometa algo, Tris. – ele olha para mim e continua a falar, sem esperar por alguma resposta minha. – Me prometa que vai me ligar se precisar de algo. Posso gravar meu número no seu celular?
De todas as perguntas, essa foi de longe a mais constrangedora. Como posso responde-lo sem que ele sinta pena de mim?
– Bem... – remexo na minha bolsa. – Aqui. – retiro um pedaço de papel e uma caneta e o entrego. – Pode anotar aqui.
Ele franze as sobrancelhas, mas não diz nada.
– Tudo bem. – ele me entrega a caneta e o papel com seu número escrito. – Eu preciso voltar pro pessoal. Você quer vir?
– Não. Estou exausta da viagem e acho que é melhor descansar.
– Se você diz. – ele sorri. – Espero que você fique confortável aqui ao menos até amanhã.
– Eu vou ficar. – respondo convicta.
– Boa noite, Tris. – ele me dá uma piscadela e sai do quarto.
Quando ele fecha a porta do quarto, eu solto a respiração que não sabia que estava prendendo. Olho em volta do cômodo e o analiso mais uma vez. Apesar de ser extremamente pequeno, ele é muito aconchegante. Os móveis brancos nas paredes de tintura bege só o deixam ainda mais confortável.
Olho para minha bagagem no chão e penso em desfazê-las, porém não sei se ficarei aqui sem meu pai. Tobias deixou bastante claro que não está feliz comigo aqui. E, embora Will esteja sendo doce e gentil comigo, eu não poderia aceitar mais ajuda dele. Ele já intercedeu por mim e isso não é algo com o qual ele deva se preocupar.
Solto um longo suspiro e vejo que a melhor alternativa para mim é dormir. Me deito na cama e ponho o lençol fino sobre meu corpo. Não há ar-condicionado no quarto e nenhum sinal de ventilador, mas o clima está agradável para se dormir. Fecho os olhos e tento pegar no sono.
É em vão. Os passos fortes na escada fazem com que o teto estremeça. O som alto lá fora dói meus ouvidos e eu os tampo com as duas mãos. Ouço também alguns gemidos baixinhos e me pergunto como essas conseguem fazer isso de maneira tão pública.
Ok, talvez por ainda ser virgem aos 19 anos, eu não entenda nada sobre sexo. Mas acho que não conseguiria fazer da mesma forma que eles fazem.
Fico perdida nos pensamentos até que a música vai sessando aos poucos e os passos na escadas são diminuídos. As vozes vão sumindo e eu presumo que a festa já esteja acabando e todos estão voltando para suas casas.
Por volta das três da manhã, eu finalmente adormeço.
Quando acordo, percebo o silêncio absoluto. Esfrego os olhos com as costas das mãos e me levanto. Eu dormi bem. Olho no relógio e vejo que já são nove horas. Acho que nunca acordei tão tarde. Abro minha mala e retiro um par de roupas, junto com calcinha e sutiã. Pego minha escova de dentes e escova de cabelo.
Abro a portinha aos poucos e saio. Abro a outra porta branca e verifico se há alguém, antes de sair e entrar na cozinha. O cenário é desastroso. Há lixo por toda parte. Garrafas de bebidas quebradas, copos de plásticos espalhados, restos de comidas... Tudo.
Abro a porta dos fundos e saio. Aqui, na área de trás da casa, deve haver algum banheiro que os funcionários possam usar. Olho para imensa piscina quando desço os únicos três degraus da escada. Há um grande gramado verde em volta dela.
Por fim, consigo achar um banheiro. Ele está afastado da piscina, churrasqueira e do jardim. Ele está mais próximo da areia da praia e imagino que seja usado depois de entrar no mar. Há duas portas. Abro a primeira e nela estão algumas boias, coletes e materiais de limpeza da piscina. Na outra, há o banheiro. E para minha sorte há esponja, sabonetes e uma toalha.
Tomo meu banho demorado e faço toda minha higiene matinal. Troco de roupa e depois de escovar os cabelos, eu saio. Volto para casa e entro no quartinho para deixar minha roupa suja e arrumar a cama.
Depois que arrumo o quarto da escada, eu saio e decido limpar toda a bagunça. Acho que é a única forma de agradecer a Tobias por me ter deixado dormir na sua casa.
Começo pela cozinha, recolhendo todo lixo e lavando toda a louça. Limpo o chão e quando acabo, vou para a sala. O cenário desta está pior, mas nada com o qual eu já não esteja acostumada. Posso lidar com isso. Sempre gostei de manter as coisas limpas e organizadas.
Quando tudo está limpo, por não ter ninguém acordado ainda, eu decido ir para a sacada da casa. À medida que me aproximo e abro as duas portas de vidro, um vento maravilhoso sopra meus cabelos, me fazendo fechar os olhos. Quando os abro, a vista me tira o fôlego.
Eu nunca vi o mar de perto. Já tinha visto algumas praias nos noticiários e filmes, mas nunca pisei na areia branca ou senti a água salgada. Eu sempre imaginei como seria quando eu o visse pela primeira vez. Minha mãe e eu pretendíamos conhecer juntas, quando ela melhorasse do câncer. Mas câncer não se melhora. E o pensamento da minha mãe vem junto com um aperto no peito. Acho que ela está feliz ao ver que consegui realizar um de nossos sonhos.
– É uma bela vista, não? – ouço a voz rouca inconfundível e viro meu rosto para ver Tobias.
Ele está vestindo o mesmo jeans de ontem, mas desta vez está sem camisa. Eu desvio meu olhar do seu torso nu e me concentro em seu rosto. A última coisa que ele precisa é que eu me distraia com seu corpo.
Que é incrivelmente gostoso.
– Sim. – respondo, sorrindo levemente.
Ele não sorri para mim. Ao invés disso, bebe um gole do seu café.
– Você que limpou toda bagunça? – ele pergunta com a voz arrastada, mas antes que eu possa responder, uma garota surge e o abraça por trás.
– Por que quando acordei você não estava ao meu lado? – a garota de cabelos castanhos diz com uma voz manhosa.
Tobias tira os braços dela de sua cintura e revira os olhos.
– Você ainda não foi embora? – ele fala entediado. Eu levanto as sobrancelhas em surpresa, mas não digo nada.
A garota arregala os olhos em descrença e sua boca se abre em O.
– O que você quer dizer com isso? – ela pergunta. – A noite de ontem foi incrível. Significou algo. Foi mais do que um sex...
– Não. – Tobias a corta friamente. – Ontem foi bom, eu não minto, mas eu deixei tudo bem claro quando você chegou implorando por meu pau que tudo não passaria de uma noite de sexo. Eu só fodi você. Nada mais que isso.
Os olhos da garota se enchem de lágrimas quando ele fala. Eu estou chocada demais para fazer qualquer coisa.
– Não cometa esse erro, Quatro. – ela diz, quando as lágrimas rolam dos olhos.
– Vista suas roupas. Eu pago seu táxi. – Tobias diz e dá mais um gole no seu café.
A garota enfia o rosto nas mãos e sai correndo. Percebo que estou olhando na direção dela por muito tempo, pois Tobias pigarreia e atrai minha atenção para si mesmo.
– Você não respondeu à minha pergunta. – ele diz, casualmente. Eu levanto minhas sobrancelhas.
Como ele pôde usar a garota desse jeito e a descartar na manhã seguinte? Como ele consegue ser tão frio e insensível em relação a isso? Será que ele faz isso com todas? Isso é tão cruel.
– Você sempre age assim? – eu pergunto, incapaz de conter minha curiosidade. – Você a tratou como um lixo.
– Eu deixei a porra toda claro pra ela ontem, quando ela tava desesperada pra foder. – ele diz, quando se senta na cadeira reclinável e me dá um sorriso cafajeste.
– Como consegue ser assim? – junto minhas sobrancelhas e não contenho a descrença na minha voz.
– Por que você se interessa? Isso não é da sua conta. – ele diz me encarando com seus olhos friamente.
Eu me arrependo assim que volto à realidade e lembro de que este território é dele. Ele me deixou dormir aqui e a forma como o agradeço é interrogando sobre sua vida ou o que ele faz ou deixa de fazer?
– Desculpe, eu só... – viro-me de volta para o mar e o encaro, tentando me livrar do constrangimento.
– Eu falei com seu pai. – ele começa. – Ele não vai voltar nem tão cedo e me pediu para que eu a deixasse ficar aqui. Eu não gosto dele e nem de você, mas tenho uma dívida com ele e preciso acertar as coisas. O quartinho da escada é seu por um mês.
Eu viro minha cabeça novamente para ele, para verificar se foi isso mesmo que ele acabou de dizer. Eu poderei ficar?
– Você fica, arranja um emprego e tem um mês pra juntar toda grana e dar o fora daqui. Mas não limpe a casa depois das festas. Eu não preciso de empregada. – ele arqueia as sobrancelhas enquanto me encara.
– Só achei que eu devesse ser útil. – eu encolho um pouco os ombros.
– Se quer um emprego, arranje-o em outro lugar. Eu já tenho uma governanta e ela que cuida da casa. Não preciso da sua ajuda. Você precisa da minha. – ele diz de forma tão dura que eu sinto vontade de me encolher toda. – Sugiro o Teller Club. O salário é bom e as gorjetas são altas.
Ele não espera por mais uma resposta minha.
– É bom ir logo, se quiser o emprego. – ele fecha os olhos e solta um longo suspiro. – Boa sorte.
– Obrigada. – eu digo e saio, indo para o quartinho.
Reviro minhas roupas, procurando por algo que seja adequado para vestir na minha primeira entrevista de emprego. Por estarmos na praia, eu pego um short branco que vai até o meio das minhas coxas e uma camiseta amarela florida. Visto-a e apesar do short estar um pouco mais apertado do que costumava ser, ele me serviu. Ponho minhas sapatilhas claras e faço uma trança no meu cabelo. Quando me convenço de que estou boa, eu saio pela porta dos fundos.
Meu estômago ronca e eu lembro de que não como nada a mais de doze horas. Posso aguentar até conseguir um emprego. Então poderei gastar o dinheiro com alguma coisa que dure por mais ou menos uma semana.
Subo na picape, mas então eu lembro de que seu tanque está vazio e decido ir a pé. Caminho pela areia da praia, sem me dar conta de para onde estou indo. Quando vejo, já me distanciei da casa de Tobias e estou numa parte da praia mais movimentada. Saio da areia e começo a caminhar pela calçada, quando uma range rover prata é estacionada e Will desce do carro. Ele sorri ao me ver e aciona as travas do carro.
– Conhecendo a cidade? – ele pergunta, com um sorriso travesso nos lábios, enquanto põe o óculos escuro aviador nos olhos.
– Talvez à procura de um emprego. – eu ponho as mãos nos bolsos da frente do meu shorts e semicerro os olhos por conta do sol.
– Por quanto tempo você ficará? – Will se coloca ao meu lado e caminha comigo pelo calçadão.
– Não sei. Tobias me deu um mês para juntar dinheiro e ir embora. Se meu pai voltar antes disso, eu vou conversar com ele e ver o que posso fazer. Se não, vou pegar o dinheiro e alugar algum apartamento por perto, se eu conseguir me manter no emprego.
– Ah, então quer dizer que o filho da puta do Tobias te deixou ficar lá? Eu sabia que ele não era cem por cento mau. – ele solta uma risada.
– Ele está sendo gentil e eu sou muito grata. – eu respondo. Tobias não me trata da melhor forma, mas está sendo gentil o suficiente para me deixar ficar na sua casa.
– Ele tá tratando você bem?
– Na medida do possível.
– Bom. – Will balança a cabeça. – Pra onde estamos indo?
Eu sorrio.
– Eu não sei. Estou procurando pelo Teller Club.
– Não dá pra ir caminhando. É longe pra caralho. Posso te levar lá. Aceita uma carona?
Eu paro e cruzo os braços na altura do peito.
– Seria bom, mas sinto como se eu estivesse incomodando demais.
– Fica fria. Não me importo em deixar você lá. E não é bom pra você ficar caminhando por aí. Eu conheço Miami. É uma cidade foda, mas é perigoso uma garota bonita sair por aí andando sozinha. Aqui tá cheio de filho da puta.
Ele me dá uma piscadela e põe a mão nas minhas costas, me guiando para o range rover. Ele me ajuda a subir, já que o carro é alto e eu sou baixa. Quando estou dentro do carro, ele fecha a porta e entra também, dando a partida e seguindo o caminho.
– Você dormiu bem? – Will pergunta, quando viramos avançamos no sinal.
– Sim. Eu consegui descansar de toda viagem.
– Por que não me ligou pra te levar ao clube? – ele desvia a atenção da estrada e me olha. – Eu falei que se precisasse de algo você poderia me ligar.
Respiro fundo e decido contar a verdade.
– Eu não tenho celular, Will. Eu vendi junto com as outras coisas.
– Eu imaginei. – ele diz e volta a atenção para o trânsito. – Mas tente dar um jeito. Eu fico maluco pensando se tá tudo bem com você.
Eu sorri, porque a maneira que Will se preocupava comigo era doce. Nós seremos bons amigos.
– Eu vou tentar da próxima vez.
– Obrigado. – ele sorri. – Nós chegamos. Bem-vinda ao Teller Club.
Eu olho para frente e vejo dois portões de ferro sendo abertos para que o carro possa entrar. O segurança cumprimenta Will com um aceno de cabeça e ele retribui o gesto. Eu observo o lugar. Dos portões de ferro até a entrada principal, o caminho é cercado de árvores dos dois lados.
Will para o carro e recusa o manobrista.
– Eu acompanharia você, mas acho que você quer fazer isso sozinha. – ele diz e eu assinto com a cabeça. – Boa sorte na caçada ao emprego. Você vai gostar daqui.
– Obrigada pela carona. – eu digo, abrindo a porta do carro.
– Disponha sempre, Tris. – ele sorri e eu desço do carro. Aceno quando ele dá a marcha ré e vai embora.
Olho para o clube e vejo várias pessoas chegando e entrando. Eu não sei por onde devo entrar. Há alguma entrada restrita para pessoas que trabalham ou querem trabalhar aqui? Sempre há. Eu só preciso acha-la. Talvez eu devesse ter lido em algum anúncio ou aceitado a ajuda de Will. Eu não faço a mínima ideia de para onde ir ou o que fazer agora.
– Você é a namorada dele? – uma voz feminina surge atrás de mim e eu me viro para ver uma morena de cabelos curtos me encarando de braços cruzados.
– Dele? – pergunto.
– Will. – ela diz, como se fosse óbvio. – Eu vi quando ele a deixou aqui. Vocês estão saindo?
– Oh, não. Eu estou apenas procurando um emprego.
– Ah, então você está aqui para trabalhar? – sua voz está mais animada e a carranca que estava em seu rosto sumiu. – Ótimo. Você apareceu na hora certa. Acabamos de perder uma garçonete e eu estou sozinha para dar conta de todas as bebidas do campo. – ela sorri. – Venha, eu te mostro o caminho.
Eu a sigo e a ouço falar tudo o que eu preciso saber para conseguir o emprego. Eu vou trabalhar com ela. É simples: eu só preciso servir as bebidas no campo de golfe. Não me parece uma tarefa difícil, mas ela me diz que é cansativo.
Nós paramos em frente à uma porta de madeira verniz.
– Minha tia Johanna trabalha aqui. Ela quem cuida dos funcionários. Acima dela só Peter ou o Sr. Teller. – ela bate na porta e a abre. – Tia, esta é a Tris e ela tá procurando o emprego.
– Oh, Graças a Deus. – eu entro na sala e Christina nos deixa a sós. – Seu rostinho é o que precisamos. Você sabe dirigir um carrinho de golfe e abrir latas? – eu assinto. – Ótimo. Está contratada. Esse lugar está cheio de gente e temos poucos funcionários. Você começa agora e Christina vai lhe mostrar tudo que deve fazer.
Ela se levanta da cadeira e dirige-se até um armário. Eu a sigo, porque acho que é o que devo fazer.
– Você veste 36? – ela pergunta, enquanto retira uma saia branca curta de tênis do vestiário. – Aqui. Isso deve servir. Mas a blusa terá que ser mais justa, já que os sócios são loucos por peitos e você tem um belo par deles. – ela sorri e se dirige às blusas.
Ela está falando dos meus peitos? Que constrangedor!
– Aqui. Tamanho P. Seus peitos ficarão maiores e você ganhará boas gorjetas com isso. – ela me entrega as roupas e aponta para um banheiro em sua sala. – Você pode se vestir ali dessa vez, mas logo a direi qual banheiro usar, por onde entrar... Essas coisas. Agora, depressa! Precisamos de gente trabalhando.
Ela me conduz até o banheiro e eu me troco o mais rápido que posso. Johanna também me deu um par de tênis esportivos branco. A saia ficou extremamente curta, e a blusa polo azul ficou justa como ela queria. Não me sinto confortável com a roupa, mas terei que me acostumar se pretendo ficar com o emprego.
O resto do dia se passa rápido como eu teria previsto. Aprendi tudo que devo fazer e como devo fazer. Tive duas pausas para comer e Christina esteve ao meu lado em todos os momentos. Percebi que ela é uma pessoa divertida de se ter ao lado. Se as coisas prosseguirem desse jeito, ela será uma ótima amiga.
Quando termino o expediente, vejo que consegui 500 dólares em gorjeta. Percebo que vale a pena todo o sol fervente e as cantadas dos velhos do buraco 16. As pessoas que frequentam aqui são ricas e o valor que nos dão de gorjetas chega a ser engraçado. Quem desperdiçaria tanto dinheiro dessa forma? Eu prefiro não contestar ou contrariar; preciso desse dinheiro para sobreviver.
Christina me dá carona até em casa, já que estou sem a picape e não há sinal de Will.
Quando chegamos, sua boca abre em descrença e ela vira para mim, com os olhos arregalados e ao mesmo tempo misturados com divertimento.
– Você mora aqui? Na casa dele? – ela não consegue conter a animação na voz.
Eu rolo meus olhos.
– Não aja como se ele fosse algum deus. – eu respondo.
– Mas ele é um deus! – ela suspira e abana uma mão perto do pescoço, como se estivesse se livrando de um calor. – Tris, ele é o cara mais sexy e quente de Miami. Ele é tão gostoso... – ela suspira. – Sem contar que é um astro do rock.
– Pelo que eu sei, ele foi um astro do rock. – eu digo, recordando-me de tudo que Will me falou na noite passada.
– Nunca se esquece de uma lenda. Ouvi dizer que ele leva as mulheres à loucura. É verdade?
– Eu não sei, Christina. O que eu sei é que ele usa as garotas e as descarta logo em seguida. Você não iria querer isso para si.
– Primeiro: não me chame de Christina. Só meu pai e minha tia minha chamam assim, mas ela só o faz por ele. Segundo: eu iria querer qualquer coisa com ele. Não me importo com quem me fode. Tem sido assim durante muito tempo. Ser pobre é ruim, porque ninguém nos enxerga de outra maneira. Os caras só nos usam. – ela diz, de forma distante, mas logo volta os olhos para mim e sorri, porém o sorriso não chega aos seus olhos. – Foi bom conhecer você, Tris. Vai ser bom ter uma amiga no trabalho.
– Obrigada por me ajudar em tudo hoje. Eu não teria conseguido sem você.
– Disponha. Nos vemos amanhã. – ela diz e eu aceno, descendo do carro.
Quando desço do carro, entro pelos fundos. Pelo que percebi, essa área da praia é muito reservada. Quase ninguém mora aqui e as pessoas que moram estão um pouco mais afastadas. É silencioso, mas é bom.
Abro a porta da cozinha e o cheiro de queijo com bacon invade minhas narinas. Meu estômago ronca imediatamente. Eu respiro fundo e me dirijo até o meu quartinho. Comprei biscoitos e manteiga de amendoim para comer com pão. Deve durar por pelo menos uma semana. Ganhei boa gorjeta hoje, mas quero poupar tudo para o apartamento.
Quando deito na minha cama, analiso o dia de hoje. Eu tenho um lugar para dormir, tenho amizade de Will, arranjei um emprego, ganhei boas gorjetas e conheci Christina.
Pela primeira vez, desde a morte da minha mãe, minha vida está boa.
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