Notas iniciais
Como prometido, dois capítulos seguidos pra vocês ♥ Em troca, quero contar com o apoio de vocês nos comentários, ok? Acabei acumulando alguns, mas estou respondendo todos aos poucos e podem me contatar por mensagem também, para qualquer dúvida. Estou sempre aqui por vocês! No mais, boa leitura e aproveitem! Os vejo nas notas finais ♥

BEATRICE PRIOR

— Tris.

A voz de Tobias do outro lado da linha fez com que eu congelasse ao mesmo tempo em que provocou um arrepio inteiro pelo meu corpo. Afastei o celular do ouvido só para ter certeza de que eu tinha ligado para o número certo. Era o número de Christina. O que ele estava fazendo com o celular dela? Será que Chris estava bem? Ou pior, será que havia acontecido algo com o seu bebê?

— Uh, oi... Christina está bem? – eu respondi, ainda incerta sobre como cumprimenta-lo sem que parecesse estranho. Sentia falta dele. Não havia um dia sequer em que eu não pensasse nele. Eu estava seguindo minha vida, mas isso não significava que eu tinha superado Tobias. Era difícil. Doía.

— Sim. Ela só esqueceu o celular aqui na boate – ele devolveu e nós ficamos em silêncio. Tinha ficado mais fácil ouvi-lo, então imaginei que tivesse deixado o lugar barulhento.

Tobias não ia a lugares assim enquanto eu morei em Miami. Geralmente suas festas eram dentro de sua casa. Eu me lembrava delas. Tinha sido um inferno dormir com todo aquele barulho. Sem contar das mulheres com quem ele dormia. Eu sentia meu estomago embrulhar só de lembrar deste fato. Será que ele estaca agindo assim novamente? Oh Deus, eu não queria pensar nisso. Saber que ele estava seguindo em frente acabava comigo, embora eu soubesse o quanto isso era egoísta. Ainda mais quando eu mesma o tinha mandado embora e seguido meu caminho.

Eu tinha seguido em frente.

Eu tinha um emprego. Eu era a nova garçonete de uma lanchonete em frente ao prédio do escritório de advocacia onde Al trabalhava; que por sinal, pertencia ao pai de Edward. Ele tinha me oferecido um cargo quando soube que eu procurava por algum trabalho, mas eu tinha recusado. Queria algo que eu pudesse conquistar. Quando deixei Al no escritório uma vez, vi a placa na porta da lanchonete dizendo que eles procuravam uma ajudante. O salário não era tão bom quanto o do clube – eu duvidava encontrar algum outro lugar que pagasse tão bem quanto eles – mas era bem melhor que não ter nada. Eu morava com Al, então economizaria no aluguel e assim tudo ficava mais fácil.

Eu tinha poupado muito dinheiro enquanto trabalhei em Miami e morei com o Tobias, mas eu ainda não queria mexer nele. Pretendia me mudar para meu próprio apartamento algum dia, mas também queria cursar uma faculdade. Eu tentaria uma bolsa, mas se não conseguisse, queria ao menos ter algum fundo para arcar com os custos. Eu não tinha noção do quanto custava ainda, no entanto.

Eu também tinha Edward. Eu tinha cedido depois que ele passou duas semanas inteiras insistindo para que eu aceitasse seu convite. Al tinha agido estranho a respeito disso, o que só confirmava minhas teorias de que ele ainda era apaixonado por mim, mas eu não podia voltar atrás. Aliás, esse tinha sido um dos motivos pelo qual eu insistia em Edward. Al e eu não podíamos ser mais que amigos. Tínhamos tentado e não deu certo. Eu também não podia magoá-lo com falsas esperanças. Eu amava Al. Além disso, Ed era uma ótima companhia. Ele era engraçado, inteligente e muito gentil. Era bom estar com ele. Por algumas horas do dia eu conseguia esquecer a dor em meu coração.

— Você está bem? – Tobias me trouxe à tona. Eu não tinha percebido que ainda estava com o celular no ouvido.

Como poderia responder a isso? Eu conseguia sentir a dor na sua voz e sabia que a verdade iria machuca-lo. Acho que ele também sabia disso. Eu tinha acabado de dizer que estava saindo com um cara. Eu estava animada para contar a Christina. Eu estava conseguindo seguir em frente mesmo depois de tanta bagunça na minha vida. Mesmo depois de sua família ter destruído minha base. Eu tinha sobrevivido a isso. Eu estava bem. Ainda havia aquela dorzinha no meu coração e eu sabia que jamais iria superá-lo. Nosso amor tinha sido único. Ele tinha sido o único. Mas eu estava seguindo. Eu estava bem.

— Sim. – respondi depois de algum tempo.

Tobias respirou fundo do outro lado da linha.

— Eu sinto sua falta. – declarou e meu coração perdeu uma batida por ele. Por que ele estava fazendo isso? Não era justo. Meu corpo inteiro me traía só de ouvir sua voz. Meu coração batia aceleradamente no meu peito. – Eu sinto sua falta cada maldito dia desde que você foi embora.

— Tobias, não. – eu o cortei. A frieza na minha voz surpreendeu até a mim mesma. Eu não queria ser dura, mas estava trabalhando para não me machucar ainda mais. – Não vá por esse lado.

Ele soltou um suspiro cansado, parecendo querer falar mais alguma coisa, mas permaneceu em silêncio. Eu também não sabia o que falar. Por muitos dias me perguntei se não estava fazendo um drama desnecessário. Por muitos dias quis pegar um avião e ir até Miami, correr para os braços dele. No entanto, a impunidade sobre o que fizeram com meu irmão me fazia recuar. Aquilo era grave demais. Eles tiraram a vida de Caleb. Eu não podia perdoar isso. Não podia voltar lá e encarar todo mundo.

E isso significava perder Tobias.

— Nada mudou pra mim, Tris. Eu espero que você consiga se curar. Você tem meu número. Por favor, se precisar de algo, qualquer coisa que seja, me ligue. Eu vou estar sempre aqui por você, doce Tris. – ele tomou uma respiração antes de voltar a falar. – Quando estiver pronta pra voltar, estarei esperando. Não vou a lugar algum sem você.

— Tobias...

— Fica bem, doce Tris. – ele me interrompeu e finalizou a ligação.

A emoção que eu temia não sentir estava lá mais uma vez. Era inútil lutar contra o que eu sentia por Tobias. Eu o amava. O tempo longe não tinha nem mesmo amenizado esse sentimento. Eu queria que ele encontrasse alguma forma de ficarmos juntos, esquecer o passado, ignorar tudo que ele tinha dito sobre minha mãe, mesmo sabendo que isso era impossível. Eu queria ficar com ele. Meu peito tinha se contraído por tudo que ele disse.

Meus dedos tremiam enquanto eu ponderava entre ligar ou não de volta para Tobias. Dizer como eu me sentia mudaria algo? Melhoraria a nossa situação? Eu duvidava. Só tornaria tudo ainda mais difícil. Só que eu queria que ele soubesse como eu me sentia. Nada tinha mudado para mim também. Caramba, será que um dia mudaria?

A porta do apartamento de Al abriu e ele entrou, fechando-a atrás de si. Sua gravata tinha sido afrouxada, as mangas de sua camisa social estavam levantadas e seu cabelo era uma bagunça total. Coloquei meu celular na mesa de centro e me levantei. Não ligaria para Tobias. Pelo menos não agora. Al tinha me evitado desde o dia em que contei para ele sobre aceitar o convite de Edward e eu ia enfrenta-lo. Eu estava morando em sua casa. Nós éramos melhores amigos. Ele não podia simplesmente me ignorar aqui.

— Eu preparei o jantar. – falei, ainda incerta se podia me aproximar ou não.

— Eu comi no escritório, mas obrigado. Estou indo me deitar. Boa noite, Tris. – Al disse e começou a ir para seu quarto.

Fui atrás dele.

— Al, você pode me dizer o que eu fiz de errado? Você tá me tratando como se eu fosse uma estranha! Estou morando aqui há um mês, mas nas últimas duas semanas é como se eu nem existisse! Você me evita, você não conversa mais comigo... O que está acontecendo? – insisti. Eu queria consertar as coisas. Esse furacão todo não podia ser simplesmente porque Edward e eu estávamos saindo.

— Hoje não, gatinha. Por favor. – ele parou de andar e soltou um suspiro cansado. – Eu não tô com cabeça pra isso.

— Essa é sempre sua desculpa quando o confronto. Eu pensei que nós fôssemos amigos.

— Esse é o problema, Tris. Amigos. – ele se virou pra mim. – Quando você chegou aqui, eu perguntei se haveria alguma chance pra nós dois. Você disse que não sabia e eu entendi que era a sua maneira de dizer que não estava pronta. Eu esperei. Eu fiquei do seu lado quando você mais precisou. Então bastou Edward aparecer e jogar a porra do charme e você caiu que nem patinho. Eu tenho tentado lidar com isso do meu jeito. Sonhava com o dia em que teria você nos meus braços novamente, mas agora eu tenho que ver você beijar meu melhor amigo. Como você quer que eu fique? Como você quer que eu aja? Dói olhar pra você, Tris. Eu te amo desde que nós éramos crianças. Eu errei naquela época, mas eu era só um moleque cheio de tesão, porra! Será que eu ainda não provei que mudei? Eu não sou mais aquele pirralho, Tris. Eu sou um homem agora. Eu sei o que eu quero. E eu quero você. Tem sido você por todo esse tempo. – ele soltou uma risada dura. – Mas eu já entendi seu recado. Todo mundo tem chance, até mesmo um cara que você acabou de conhecer, menos eu. Eu só queria que você me dissesse o porquê. Por Deus, Beatrice, eu não acredito que ainda seja por um deslize do passado. Eu posso ver que não é apenas isso.

Ele estava certo. Acontece que com Edward eu sabia que não ia passar disso. Não tinha sequer a menor possibilidade de eu amá-lo. Com Al era diferente. Eu já o amava. Só que por hora eu também amava Tobias e era apaixonada por ele. Eu sabia que não me sentiria assim por outra pessoa nem tão cedo. Não podia fazer isso com Al. Eu o amava demais para magoá-lo desta forma. Ficar com ele sabendo da forma como ele se sentia por mim era injusto e desumano. Eu aceitei sair com Ed porque sabia que ele não me amaria tão rápido. Ele estava atraído. Al e eu já tínhamos história. Eu não ia machuca-lo. Ele podia não entender agora, mas me agradeceria depois por isso.

— Não é justo fazer de você um estepe. Eu não estou pronta, Al, e você sabe. Com Edward é fácil porque eu sei que ele não me ama ou é apaixonado por mim. A gente é mais difícil. Nós temos história. Há amor também. – eu segurei sua mão e seus olhos fitaram os meus. – Eu te amo, Al. Você sabe que eu te amo. Eu só estou apaixonada por outra pessoa.

— Ainda é ele? – ele perguntou como se sentisse dor.

— Ainda é ele. – afirmei. – Sinto muito, Al.

— Tudo bem. – ele pegou minha mão e a beijou. – Eu só tenho tido alguns dias bem ruins lá no trabalho e tenho descontado em você. Acho que foi a junção de tudo. Sinto muito por agir tão babaca ultimamente. É bem difícil, pra mim, ver você com o Ed. Imagina só se você visse o fodão do rock lá com outra. É basicamente assim que eu me sinto. Eu só tenho alguns anos a mais me sentindo assim.

Pensar em Tobias com outra pessoa me dava náuseas. A dor seguida dessa hipótese era torturante. Eu podia imaginar o quanto era difícil para Al depois de tudo e me sentia péssima. Odiava que ele ainda se sentisse assim por mim. Não queria que ele me amasse desta forma, mas sabia que não podia fazer nada a respeito. Não mandamos no nosso coração. Eu entendia isso melhor que ninguém.

— Eu não quero te magoar. Não posso ficar com você se eu não estiver cem por cento com você, entende?

— Sinceramente, não. Acho que se você nos desse uma chance, eu poderia fazê-la se apaixonar por mim novamente. – ele me deu um sorriso convencido. – Eu sou muito apaixonável. Pergunte a Tori.

— Oh, eu não tenho dúvidas a respeito disso. – eu ri com ele. – Obrigada por entender. Não gosto de ficar brigada com você. Você é o melhor amigo do mundo!

— Me diga quando você estiver pronta para eu ser mais que isso, ok?

— Al, por favor, não espere por mim. Não é justo com você. – eu pedi.

— É involuntário, gatinha. Faço isso desde que eu era só uma criança. – ele deu de ombros como se não fosse um sacrifício. – Sinceramente, eu nem sei como parar. Sempre foi você pra mim.

— Gostaria que as coisas fossem diferentes.

— Eu também. – ele riu. – Mas não são e isso é uma merda. Por que você não vem pro meu quarto e a gente assiste Netflix um pouco? Quem sabe assim eu consigo tirar minha cabeça do trabalho. Eu juro, estou prestes a tacar fogo no escritório inteiro. Tenho tanto processo pra analisar que tô quase me enforcando com minha própria gravata.

— Não seja tão dramático. – eu zombei, enquanto o seguia para seu quarto.

— Você me chamando de dramático? – ele fingiu surpresa, enquanto entrávamos no cômodo e ele tirava seus sapatos. – Jura?

— Não sei do que você está falando. – juntei as sobrancelhas, me sentando em sua cama.

— Sério? E quanto ao fato de você fazer tempestade em um copinho d’água a respeito da sua história com o manezão lá? Pelo amor de Deus, gatinha, você tá exagerando. Tá fugindo porque sente medo.

— Ele sabia da morte de Caleb, Al. E disse que mamãe tinha sido uma prostituta! Ela não destruiu o casamento de ninguém como eles falaram. Ela não faria isso. Natalie era uma santa! E eu não estou com medo.

— Conversei com o irmão dele quando ele veio com a noiva aqui. Will falou que o Quatro não fazia ideia do assassinato de Caleb e sendo bem sincero Tris, eu acreditei nele. O cara não parecia um mentiroso. – ele tirou a gravata e depois sua camisa. – E quanto à Natalie... Amanhã visitaremos a mamãe. Ela me ligou, perguntou de você e disse que tinha algo para te entregar. Sua mãe deixou um envelope com ela antes de morrer. Ela disse que só poderia entregar depois que você voltasse da casa do seu pai. Acho que pode explicar alguma coisa.

Me levantei. Era incapaz de ficar sentada.

— Quando você soube disso? – perguntei. Meu coração batia tão forte no meu peito que chegava a doer. Mamãe nunca tinha comentado nada comigo. A ideia de ter algo escrito dela pra mim provocou um nó na minha garganta. Eu sentia tanta saudade dela.

— Soube assim que você chegou. Sendo honesto, eu não queria te contar. Algo me diz que fará você voltar pra ele. – Al confessa, parecendo derrotado. – Mas eu não aguento mais te ver assim, gatinha. Todo dia você diz que tá bem, mas não é verdade. Você voltou arrasada de Miami. Tá usando o Ed como um tapa buraco. Seus olhos estão sempre tão... Vazios. Eu não gosto de te ver assim, Tris. Acredite, eu nunca te aconselharia a voltar para o roqueiro lá se isso não fosse a coisa certa. Eu sou seu melhor amigo, gatinha. Eu vou sempre querer o seu melhor e você sabe que isso não está aqui.

O garoto que era apaixonado por mim tinha sumido e agora meu melhor amigo protetor tinha assumido a postura de Al. Eu tinha muita sorte de tê-lo comigo. Al é uma daquelas pessoas que, por mais que seja contra a vontade dele, sempre vai fazer você enxergar o melhor. Era isso que ele estava fazendo agora. Eu podia imaginar o quanto era difícil pra ele assumir que meu lugar não era mais aqui. Esse tempo tinha sido o suficiente para tanto ele quanto eu percebermos isso.

— Eu não quero que você vá embora, mas eu quero te dar o poder de escolher. Achei que você superaria rápido, mas eu já percebi que não foi só um caso de verão. Acho que não tem como superar algo assim. Ele foi mais pra você. – Al suspirou. – E você foi mais para ele também.

— Você tá me aconselhando a voltar?

— Eu tô te aconselhando a pelo menos ouvir o cara. Ele alguma vez mentiu pra você?

— Ele escondeu o fato de Nita e eu termos o mesmo pai. – respondi.

— Mas ele não mentiu pra você, Tris. – Al exasperou. – Você tá fazendo muito drama desnecessário. Eu quase não te reconheço mais. O cara pegou um voo de Miami só pra te pedir desculpas por um erro que nem foi dele. Ele te ama. A culpa não é dele se a mãe é uma desequilibrada. Você precisa enxergar isso. Ou vai acabar perdendo seu amor. E acredite em mim quando eu digo que isso é uma grande merda.

— Voltar pra lá é conviver com todos eles e eu não quero isso. Não consigo encará-los depois de tudo. Vamos imaginar que Tobias e eu voltamos a ser um casal. Como eu poderia viver com a mãe dele lá? Ter ela como sogra! E quanto à Nita? Não é só a questão do Tobias, Al. Eu já me conformei que ele não tem culpa nenhuma nessa história, mas voltar pra lá... Não consigo fazer isso. E ele mentiu pra mim. As mentiras que ele disse sobre a minha mãe serão sempre um impasse para eu conseguir perdoá-lo.

Eu não sabia que estava chorando até que as lágrimas molharam meu rosto. Al ficou parado lá, apenas me olhando. Eu estava desabafando. Conversar sobre como eu me sentia me ajudava a lidar melhor com as coisas, mesmo eu não fazendo isso com frequência. Eu também estava com medo. Medo de uma vida com Tobias. Medo de uma vida sem Tobias.

— Vem cá. – ele abriu os braços e eu fui de bom grado. Al me abraçou como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo. – Você é a melhor coisa que aconteceu comigo. Quero te ver bem. Você vai superar isso, ok? A morte de Caleb, a situação de Natalie... Você vai superar tudo.

— Você acha que ela foi uma prostituta como eles dizem? Tobias tinha tanta certeza quando falou. Nita e Evelyn também. Eles não pareciam mentir; eram bem seguros.

— Eu não sei. – Al respondeu acariciando meu cabelo. – Amanhã buscaremos respostas, mas agora vamos esquecer tudo e ver um bom filme. Que tal?

Eu concordei balançando a cabeça e Al ligou a Netflix. Passamos o resto da noite distraídos com o filme e a companhia do meu amigo amenizou o vazio que eu sentia. Por mais que eu tentasse me concentrar, as palavras de Al rondaram minha mente. Eu queria voltar. Meu coração também queria. Sentia falta de Miami. Sentia falta de Tobias.

Acabei adormecendo e quando acordei estava sozinha. Podia ouvir Al cantarolando de longe e imaginei que estivesse fazendo o café. O relógio marcava 06:52. Eu tinha que estar no trabalho até as oito. Hoje eu trabalharia só meio período. Isso me daria algum descanso e tempo para visitar a mãe de Al.

Eu tentava acalmar meu coração enquanto tomava banho e pensava sobre a carta da minha mãe. Eu queria encontrar todas as respostas lá. Será que ela sabia do assassinato de Caleb? Ou então de Nita? Ela tinha sido mesmo uma prostituta? Ela destruiu o primeiro casamento do papai? Ela tinha conhecido Tobias? Deus, eram tantas perguntas! Tantos furos nessa história que não faziam sentido. Eu esperava que ela me explicasse algo. Eu queria entender. Pelo menos conhecer uma versão onde as coisas fizessem sentido. A mulher que tinha me criado não se parecia nada com uma prostituta. Ela tinha valores. Ela tinha me passado esses valores. Ela também nunca seria capaz de destruir um casamento. Mamãe não era assim.

Saí do banho e me troquei, indo até a cozinha para encontrar Al de costas para mim, em frente ao fogão, mexendo no celular.

— Você vai acabar queimando o bacon desse jeito. – eu falei, enquanto abria o armário e pegava dois pratos. – Quer ajuda?

Ele guardou o celular no bolso e me deu um sorriso.

— Está quase tudo pronto. Você prefere suco ou café? Tem chá na geladeira também. – sugeriu.

— Eu fico com o suco. Cafeína tão cedo me deixaria mais ansiosa do que já estou.

— Você está ansiosa? – Al levantou uma das sobrancelhas, enquanto virava o café na sua xícara. – Eu pensei que você não fosse trabalhar hoje. Que horas você larga?

— Vou cobrir uma garçonete que precisou faltar, mas saio às doze. Nós vamos almoçar na sua mãe?

— É uma ótima ideia, ela vai adorar. – Al pôs os ovos e o bacon nos dois pratos. – Tenta relaxar um pouco, gatinha. Vai ficar tudo bem.

O resto da manhã passou voando. Com a lanchonete cheia e uma funcionária a menos, eu tinha que me dividir para atender a todos os pedidos. Meus chefes eram um casal de meia idade um tanto rigorosos. A esposa era um doce, mas só enquanto não estávamos em funcionamento. O homem era resmungão e grosso, mas um verdadeiro chef. Sua culinária atraía uma multidão para o lugar.

Meu turno estava prestes a acabar e eu limpava uma das mesas quando fui surpreendida por uma voz feminina.

— Caramba, menina, você parece uma vara. Cada vez que eu venho aqui você parece mais magra; não tá comendo, não? – Christina, minha melhor amiga, falou atrás de mim.

Eu me virei, incapaz de conter o sorriso no meu rosto e corri para abraça-la.

— Que saudade de você! – eu disse a apertando contra mim. – Me dá só um segundo pra terminar aqui antes que meu chefe me coma viva.

— Nem todos são como Peter, né? – ela riu. – Miami faz falta, baby!

Eu ri e ela foi para fora da lanchonete, enquanto eu terminava minha última mesa e ia para cozinha. Pus meu avental e meu uniforme no armário e depois de me trocar, fui até minha amiga. Quando cheguei próxima dela, não vi sinal de Will.

— Will não veio? – perguntei, enquanto começávamos a caminhar. Eu precisava me atentar à hora de voltar, pois Al logo me buscaria para irmos almoçar com a sua mãe.

— Não. Nós estamos correndo com os preparativos do casamento, então ele ficou para resolver o aluguel da ilha e a contratação da banda.

— Eu nem acredito que isso está mesmo acontecendo. – eu soei sonhadora e feliz pela minha amiga. – Você vai se casar!

— É incrível, não é? – Christina abriu um largo sorriso. O brilho que seus olhos tinham era invejável. – E vai ser em uma ilha privada, baby! Isso é muito mais do que eu sonhei. Estou ficando tão mal acostumada. Eu nem pego mais voo comercial. Quatro nos dá o jatinho assim que eu digo que preciso ver você.

— Você nem se parece mais com a garçonete do clube – eu zombei, levantando o queixo apenas para provoca-la. – Falando em Tobias...

— Ele me devolveu o celular hoje de manhã, antes de eu voar até aqui. Vocês conversaram?

— Acabei contando sobre minha noite com Edward. – Christina arregalou os olhos e parou de andar na mesma hora. – Em minha defesa eu achava que estava falando com você e as coisas simplesmente começaram a sair tudo de uma vez. Eu estava ansiosa. Não consegui controlar minha língua.

— Deus, Tris, isso é péssimo! – ela me repreendeu. – Como ele reagiu?

— Foi estranho. Ele perguntou como eu estava e eu respondi que estava bem. Depois ele disse que sentia minha falta e eu acabei cortando o assunto. Eu não sei o que fazer, Chris. Eu o amo. Ele sempre terá o meu coração. Só que eu simplesmente não posso esquecer tudo e voltar. Encarar todos eles. Conviver com sua família... Isso é muito pra mim.

— Ele expulsou todo mundo no dia que você voltou pra cá, Tris. – ela confessou, me olhando com compaixão nos olhos. – Quatro ama você. Ele surtou quando você o deixou.

— Ele tem melhorado?

— Sim. – Christina me respondeu. Era essa uma das qualidades da minha amiga: sinceridade. Chris não escondia nada, por mais que a verdade pudesse machucar. – Ele está trabalhando num novo álbum. Quer voltar a cantar. Vai lançar a música que ele fez pra você no seu aniversário. Está tão bonito, Tris. Will me mostrou a demo do CD. Vai ser um salto enorme na carreira dele.

A declaração de Chris fez meu peito encher de orgulho. Eu sabia do talento de Tobias. Sua pausa na carreira tinha sido necessária, mas eu mal podia esperar para vê-lo brilhando novamente. Ele merecia. Ele merecia ser reconhecido por sua música, não por causa do seu pai famoso. Eu o tinha visto tocar muitas vezes. Ele era ótimo. E havia amor também. Ele era apaixonado por música. Eu estava feliz por ele. Caramba, eu estava mais que isso.

— Sinto falta dele. – eu sentia as lágrimas queimarem meus olhos. Estava cansada de agir como se tudo estivesse bem. Eu odiava seguir em frente. Odiava seguir qualquer direção que não fosse para Miami. – Ontem meu coração acelerou só de ouvir a voz dele, Chris. Me sinto incompleta. É como se meu coração tivesse ficado lá. Estou oca.

— E as coisas com Edward?

— Eu nem sei por que aceitei sair com ele. Tava na cara que eu ainda não estava pronta. – respondi, envergonhada por usar um cara tão legal quanto ele.

— Caramba, Tris, olha bem o que você fez! Não era você quem me condenou por deixar os garotos me usarem como transa fácil? Você fez isso com o Ed.

— Edward e eu não transamos. – rebati.

— Mas ele foi um tapa buraco. – ela devolveu, balançando a cabeça negativamente em minha direção. – Você precisa se encontrar novamente, Tris. Em algum momento você se perdeu. Você sempre foi tão corajosa e agora age como uma covarde. Não encara mais seus medos, você foge. Você fugiu quando a merda fedeu em Miami. Você continua fugindo do Quatro, mesmo sabendo que ele é tão vítima quanto você. Eu não entendo. Você complica as coisas simples, amiga. Está sendo dramática e até meio mimada. Não quer simplesmente aceitar a verdade.

Christina segurou minhas duas mãos e voltou a falar:

— Você é minha melhor amiga e eu pego um jatinho quase todos os dias só pra te ver, então sou a melhor pessoa pra te aconselhar. Eu conheço você. Conheço a Tris que chegou a Miami completamente perdida. Você é forte. Sua vida é uma merda? Ótimo, a minha também era, lembra? Não fica ruim pra sempre, a menos que você se acomode com isso. Eu lutei por Will e veja como as coisas estão agora. Se você sente falta de Tobias, lute por ele. Engole esse orgulho e volta. Encare as coisas, lide com isso. Se não quer aceitar Nita como irmã, que se dane, é só ignorá-la. Se não quer aceitar a cobra da mãe dela também, ótimo, eles sumiram mesmo. Isso não importa. O que importa é que você tem um homem louco por você, mas que já tá ficando cansado. Todo mundo cansa, Tris. Se você não voltar, vai acabar perdendo ele e acredite em mim quando digo que é uma merda observar de longe quem a gente ama. – ela suspirou e acariciou um das minhas mãos. – E eu também detesto dizer isso, mas você tem concorrência. Uma bem forte, aliás.

— Concorrência? – perguntei, mas neste exato momento meu celular começou a tocar. Era Al. Atendi no segundo toque. – Hey.

— Onde você está? – ele falou do outro lado da linha. – Estou em frente à lanchonete, mas não vejo você.

— Hm, eu acabei caminhando um pouco. Christina está aqui. – respondi, encarando minha amiga que me olhava confusa. – Estamos em frente à Amy’s Candy Bar.

— Ok, eu chego em dois minutos. Mamãe está ansiosa para ver você. – ele disse e encerrou a ligação.

— Era o Al? – Christina pergunta e eu confirmo com um aceno de cabeça. – Vocês tinham planos? Oh, porra, eu sinto muito. Eu ligo da próxima vez que eu vier.

— Nós vamos almoçar na mãe dele hoje. Ela tem algo que me pertence. Você vai conosco. Quero que esteja lá. Parece que a minha mãe me deixou uma carta com algumas respostas e eu estou com medo do que pode ter nela. Será mais fácil se eu tiver você. Tudo bem?

— Caramba, estou me sentindo naqueles seriados de hollywood que tem um puta mistério, sabe? Eu vou adorar, baby! – ela gritou animada. – E eu estou morrendo de fome, aliás. Adoro a ideia de um almoço. Se bem que estou tentando perder peso para o meu vestido, mas o pequeno Will aqui me deixa faminta. Estou com medo de ter mais de um bebê aqui, amiga, porque sinceramente, eu estou comendo por quatro.

Eu soltei uma gargalhada e vi o carro de Al parar ao nosso lado na calçada. Nós entramos e seguimos em direção à casa da mãe dele. Chris e meu amigo conversaram por todo o trajeto, mas eu estava imersa a eles. A carta da minha mãe preenchia meus pensamentos. Eu queria as respostas lá. Eu queria que ela tivesse a solução para os meus problemas, assim como fazia quando eu era só uma garotinha. Minha esperança era essa carta. Natalie era uma mulher honrada e honesta. Ela era altruísta e nunca mentiria para mim. Se havia alguma verdade nessa história toda, somente mamãe poderia me contar. Eu não acreditava em Andrew. Não acreditava em Nita. Não acreditava em Evelyn. A história deles não fazia sentido. Pontas estavam soltas. Mamãe tinha que me dizer algo.

Eu me agarrava a isto. Era tudo que eu tinha.

Notas finais
Gostaram? Odiaram? Amaram? Comentem, comentem, comentem ♥ Antes das pedras, perdoem-me por parar nesta parte, mas eu tinha de guardar algum mistério para o próximo capítulo haha. Teremos a visão do Tobias, mais sobre o casamento do ano, música, pegação e um pouco sobre o orfanato. Quem está com saudade das crianças? Já está sendo escrito. Tentarei atualizar até o final de semana ♥ Vejo vocês nos comentários, tá?! Conto com isso! Mamãe ama vocês ♥