Estranha Perfeição
30 Capítulo XXIX
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
Quando abri o presente de Hector, uma lágrima caiu.
— Eu que fiz. – ele anunciou, ainda meio nervoso e apreensivo. – Espero que você goste.
Consegui ver um desenho, mas peguei o bilhete antes para ler.
Querida Tris,
Você e Tobias foi a melhor coisa que me aconteceu durante toda vida. Eu não lembrava mais o que era ter uma família. Rezo todos os dias pela sua vida, Tris, e peço para papai do céu me dar mais tempo com vocês.
Feliz Aniversário!
Amo você até a lua, como Tobias diz.
Com amor e muito carinho,
Hector.
Eu não iria chorar. Por Deus, eu não queria chorar. Não hoje. Não quando tudo estava sendo tão perfeito. Puxei Hector para os meus braços e o apertei, porque amava aquele menino. Meu coração se partia toda vez que eu o via, tendo de encarar dias difíceis, pois ele não tinha ninguém para lutar por ele. Ele era uma criança e eu o entendia. Tinha sido assim desde que mamãe morreu e Andrew nos abandonou. Eu entendia o que era lutar para sobreviver quando não há ninguém esperando por você em casa. Aliás, eu sabia o que era não ter uma casa. Eu o entendia e sabia que ele estava sofrendo.
— Eu nunca vou te abandonar, Hec. Você está me ouvindo? Eu te amo. – eu falei em seu ouvido, pois era nosso momento particular. Eu queria que ele soubesse que ele tinha a mim e a Tobias também. – Nós dois te amamos. Você é especial, nunca se esqueça disso.
— Você gostou do presente? – ele perguntou, com os pequenos olhos castanhos brilhando.
— Eu amei. – eu o assegurei, observando o desenho que ele tinha feito e me comovendo ainda mais. – Foi o melhor presente que eu já ganhei em toda minha vida.
— Obrigado. – ele sorriu. – Feliz Aniversário! – ele me abraçou e em seguida correu para perto das pizzas.
Levantei meus olhos para ver Tobias nos encarando. Os olhos estavam marejados, embora ele estivesse os apertando para afastar. Eu não sabia o quanto ele tinha visto, mas ele fazia parte da minha relação com Hector. Tínhamos duas crianças aqui que nós mais amávamos. Todas eram especiais, mas Hec e Lou tinham um espaço só deles em nossos corações. Eu tinha notado isso e percebi que Tobias se sentia da mesma forma. Nós éramos um time.
Ou melhor: éramos uma família.
— Está tudo bem? – eu perguntei, querendo saber se algo mais o afligia.
— Sim. Só estou feliz. – ele respondeu com sinceridade.
Seus olhos azuis que eu tanto amava se destacavam, embora ele tivesse combinado os tons na sua roupa. Não sei se fazia parte do seu plano de me impressionar. A verdade era que ele não precisava fazer muito esforço para me ter. Tobias Eaton era o dono do meu coração. A esta altura do campeonato, eu já sabia que eu o pertencia. Ele não precisou de muita coisa para me ganhar.
— Eu também. – o abracei e fiz um esforço para beijá-lo na bochecha. Ele não tinha noção do quanto estava fazendo por mim. Seria um dia do qual eu jamais esqueceria. – Eu nunca serei capaz de compensá-lo por isso, mas vou ser eternamente grata.
— Minha maior recompensa você já me deu. – ele riu e repousou suas mãos na minha cintura. – Não consigo resistir quando você sorri dessa maneira.
Tobias segurou meu queixo e o levantou, colando um beijo rápido, porém carinhoso em meus lábios. Por questão de milésimos de segundos, esqueci das pessoas à minha volta e me concentrei apenas em nós dois. Quando as crianças começaram a cochichar e soltar risadinhas, senti minhas bochechas queimarem e sabia que elas estavam vermelhas.
Droga de timidez.
— Eu num falei! – Lou soltou inesperadamente, fazendo todos nós darmos gargalhadas. – Eu sempe sabia que focês elam namolados.
Coloquei-a em meus braços e ela veio de bom grado, pondo suas mãozinhas envoltas do meu pescoço.
— Parece que alguém estava certa, não? – eu disse e beijei sua bochecha, ganhando um “eu te amo, tia Tlis” como resposta.
Ela não tinha noção do quanto amor eu sentia por ela.
— Está na hora de cantar os parabéns, vocês não acham? – Jeanine falou, obtendo uma resposta animada de todas nossas crianças.
Me aproximei do “bolo improvisado” que era na verdade uma pizza, com vinte velas azuis espalhadas. Todos cantamos juntos o famoso parabéns pela segunda vez no dia e eu me senti amada. A sensação fez com que fosse impossível reprimir a lágrima que caiu do meu olho. Soprei as velas e só desejei que mamãe e Caleb estivessem aqui. Eles sentiriam orgulho de mim. Eu estava sobrevivendo e era amada também. Por muitas pessoas, aliás. Me sentia protegida.
Depois de muito tempo, senti que estava em casa novamente.
Meu lar.
— Digam “xis”. – Will abriu um sorriso gentil, tirando uma foto nossa pelo seu celular. Eu não me preocupei em limpar meu rosto. Queria aquela manchinha de lágrima lá.
Eu tinha plena certeza de que eu seria incapaz de esquecer o dia de hoje.
— Podem comer quantos pedaços de pizza vocês quiserem, crianças. Hoje tá liberado tudo. – todas as crianças correram em direção a mesa, enquanto Jeanine e Christina partiam pedaços para distribuir.
Notei Tobias afastado e fui até ele sem que ele visse. Eu amava aquele homem. Desde o início, eu sabia que seu coração era bom. Apesar da postura indiferente pelo qual ele me tratou, eu sabia que era apenas proteção à irmã. Ela não era minha fã. Nenhum deles eram. Graças à fama do aproveitador do meu pai, eles tiraram conclusões precipitadas sobre mim. Entretanto, por mais que Tobias odiasse Andrew, ele nunca me negou um lugar para ficar. Mesmo tendo que encarar sua irmã, ele me deixou ficar. Me deu cama, alimento e agora carinho.
Eu o amava.
— Eu nunca vou esquecer. – o abracei por trás, pegando-o de surpresa e plantei um beijo em suas costas. Eu amava suas costas. – Eu nunca vou esquecer do você fez hoje. Significa muito mais do você pode imaginar. Eu nunca fui tão mimada em toda minha vida. – fui tão sincera quanto pude.
Tobias não respondeu, mas sorriu e parecia distante, como se planejasse algo. Não durou muito tempo até que ele virou-se para mim e beijou minha testa, de uma forma carinhosa e respeitosa, como se eu fosse alguém que ele adorava. Eu tinha certeza que nem mesmo a princesa Kate havia sido tão bem tratada quanto eu estava sendo.
— Eu ainda não terminei por hoje. – ele me deu um sorriso sedutor, quando apenas um dos lados da sua boca se curva para cima. Não consegui conter minha surpresa.
— Eu ainda tenho mais? – questionei. Não era possível.
Seu sorriso ficou ainda mais malicioso, mas ele foi impedido de falar qualquer coisa quando Lou correu até mim com duas barbie’s nas mãos.
— Tia Tlis, vem bincar comigo. – ela disse, entregando a de cabelo loiro para mim.
Segurei sua mãozinha e fomos até a sala de brinquedos. Olhei para Tobias, mas ele já tinha se distanciado. A voz dele cantando para mim, como se nós dois fossemos as únicas pessoas do mundo, ainda soava nos meus ouvidos. Calma, suave, rouca... Nada nunca chegaria aos pés disso. Nada nunca chegaria aos pés dele. Eu não o escutava quando ele fazia parte da The Lost. Na minha vida não havia espaço para ser jovem como todas as outras garotas. Quando cheguei aqui, não entendia porque ele era tão amado pelo mundo. Não até agora. Tobias era incrivelmente talentoso. Sua voz era mágica. Eu tinha certeza de que quando ele cantava, ele era invencível. Ele poderia salvar vidas com sua voz.
— Agola pecisamos ir ao shoppin, mamãe. – Lou anunciou e meu coração deu um pulo quando ela me chamou assim. Sabia que fazia parte da brincadeira, mas ainda assim mexeu comigo. Um calor diferente me preencheu e senti vontade de puxá-la contra mim, mas continuei na nossa brincadeira.
Lou e eu ficamos juntas por mais algum tempo até que ela começou a bocejar e fechar os olhinhos. Tobias chegou para pegá-la nos braços e niná-la, enquanto eu me juntei a Chris e Will. Todas as crianças tinham ido ao quarto com Jeanine para hora da soneca. Meus amigos ainda comiam.
— Jesus, Tris! Vou rezar para você fazer aniversário todos os dias. Eu nunca comi tão bem em toda minha vida. – Christina disparou, pondo outro pedaço de pizza na boca.
— Eu não sabia que ela podia comer tanto. – Will arregalou os olhos. – Estou repensando se vou mesmo me casar com ela.
Christina engasgou-se e começou a bater no próprio peito. Rapidamente lhe dei o copo de refrigerante para que ela pudesse engolir melhor. Ela o fez e arregalou os olhos para mim.
— Ele falou em casamento?! – ela quase cuspiu, enquanto a descrença tomava sua expressão. – Eu ouvi direito ou tem comida até no meu ouvido?!
Eu soltei uma risada, enquanto Will se divertia com a confusão da minha amiga.
— Se tiver no seu, tem no meu também porque ouvi a mesma coisa. – sorri para ela, enquanto pegava uma fatia de pizza para mim.
— Eu estou pronta para dizer “sim”, amor. – ele segurou sua mão e beijou cada nó dos seus dedos. – Basta você dizer aquela palavrinha e serei seu até que a morte nos separe.
Will estava falando sério e eu parei de rir no mesmo momento. Tive a certeza de que estava presenciando o começo de algo lindo. Me afastei um pouco deles, batendo as costas no peito de Tobias. Ele me abraçou na cintura e eu fiz um sinal para que ele ficasse em silêncio. Voltamos nossa atenção para Will e Christina e pela primeira vez vi minha amiga ficar sem palavras.
— Isso é sério? – ela perguntou, piscando os olhos.
— Eu sei que estamos indo rápido, Chris. – Will a pôs em cima da mesa de mármore e olhou nos olhos dela. – Mas eu não quero você morando naquela porra de trailer. Não acho seguro e fico preocupado como o inferno. E, embora eu te ache a pessoa mais sexy do mundo naquele uniforme, também não quero que você trabalhe no clube. Odeio a forma como todos os caras te olham naquele lugar; como se você fosse um pedaço de carne. Eu quero que você se descubra, que estude. Quero você more comigo também. – ele riu. – Eu não sou bom nessas coisas, Christina. Tô nervoso pra caralho. Se você disser que...
Ele foi interrompido pela voz da minha amiga.
— Aceito. – ela riu e enlaçou as mãos no pescoço de Will. – Acho que será justo me casar com a única pessoa que consegue me deixar sem palavras.
— Porra, graças a Deus. – ele suspirou aliviado e eu ri. Quando eles iam oficializar com um beijo, Tobias pigarreou.
Por um momento, eles acharam que não tinham plateia.
— Se você está tentando tirar o foco de Tris hoje eu quebro seus dentes. – Tobias ameaçou e depois inclinou-se para plantar um beijo na curva do meu pescoço.
Senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro.
— Vocês já vão? – Will desconversou. Christina ainda olhava para ele com admiração. Ela ainda estava sonhando. – Tô doido para levar minha garota para casa e fazer amor com ela.
— Uh, Will, que desnecessário! – soltei, fazendo uma careta por imaginar a cena.
Eu não queria essa imagem na minha mente.
Saia. Saia. Saia.
— Sem detalhes, irmão. Não precisamos dos detalhes. – Tobias disse e mordiscou o lóbulo da minha orelha. Eu fechei os olhos. Não podia gemer bem aqui, na frente de todo mundo. – Vamos nos despedir de Jeanine, em seguida nós vamos para casa. Ainda tenho um presente para Tris.
— Ótimo! – Christina finalmente soltou. – Eu estou ansiosa para os planos que meu noivo tem para mim. – ela deu um beijo casto em Will e saltou da bancada, vindo até minha direção. Tobias me soltou quando Chris me puxou para o abraço. – Você é minha melhor amiga. Agradeço a Deus todos os dias pela sua existência. Você pode contar comigo para o que precisar, ouviu? Eu sempre vou estar aqui. – eu retribuí o abraço e as lágrimas voltaram nos meus olhos. Me senti tão amada que não sabia como agradecer o suficiente. – Eu te amo, amiga. Feliz seu dia! – ela se afastou um pouco e sorriu para mim. Seus olhos também estavam molhados.
— Obrigada. Eu nunca tive uma amiga além da minha mãe; sou muito grata por tê-la agora. – eu a abracei mais uma vez. – Eu também amo você. Obrigada por tudo.
— Não me agradeça agora. – ela riu. – Ainda não te dei meu presente; tenho certeza de que será o melhor de todos.
Desta vez, Tobias interviu:
— Para isso você precisaria superar o meu, querida, e não é querendo me gabar, mas já me gabando, afirmo que esta é uma batalha perdida pra você. – ele lhe lançou um olhar desafiador, mas minha amiga apenas mostrou a língua para ela.
Não sabia o que ainda me aguardava. Não conseguia sequer imaginar o que mais poderia me surpreender. Tobias tinha me dado tudo hoje. Uma festa com todos que eu amava e pareciam me amar também; outra comemoração com as melhores crianças que eu já conheci e de quebra eu ainda iria para sua casa. Tobias não me levava lá desde a noite da festa dos sócios. Isso havia me deixado preocupada no início e até um pouco triste. Talvez ele estivesse enjoado de mim e estava procurando uma maneira de me mandar embora. Eu já tinha visto esse lado sujo dele. Na primeira vez que cheguei aqui, Tobias transou com uma mulher e no segundo seguinte estava mandando-a sair sem qualquer piedade.
Saber que sua distância de mim era graças a uma surpresa que ele estava planejando fez meu coração se encher de alívio. Ele havia mudado. Aquele cara grosso e arrogante não estava mais aqui; havia sido substituído por um de coração bondoso e gentil. Quis pular de alegria ao saber que aquela mudança era graças a mim. Senti que pude fazer a diferença na vida dele, assim como minha mãe havia me aconselhado antes de morrer.
Flashback — ON
— Seja altruísta, Beatrice. Faça a diferença na vida das pessoas. Por mais que algumas possam ser amargas, não desista. Sempre há um pedaço bom em todo mundo. – ela me dizia com um sorriso doce, enquanto eu segurava sua mão repleta de marcas de agulha. Estávamos no hospital mais uma vez. Mamãe havia piorado.
— Será que ainda há um pedaço bom no papai? – perguntei, sentindo meus olhos embaçarem. Eu odiava sentir falta dele. Odiava o que ele estava fazendo. Nunca o perdoaria por abandonar a mim e a mamãe. Principalmente agora, onde eu sabia que ela estava morrendo.
Papai era um fraco. Após a morte de Caleb, tudo mudou. Mamãe dizia que ele se sentia culpado, por isso nos deixou. Eu odiava que mamãe ainda sentisse pena dele. Odiava o que ele estava fazendo, a pessoa que ele havia se tornado, o fato de que ele não retornou nenhuma das minhas ligações... Odiava tudo. Entretanto, havia algo que eu mais odiava: o fato de não conseguir odiá-lo de verdade.
Diante do sofrimento da minha mãe, me sentia culpada por ainda amar o homem que havia me dado a vida.
— Querida, eu sei que você está chateada. – ela suspirou. Sua voz era fraca. – Mas se o Andy nos deixou, ele deve ter tido seus motivos. Lembre-se do homem que ele foi para nós. Vocês dois eram praticamente inseparáveis. Eu sei que você ainda o ama e tudo bem. Não se martirize por isso. Eu também o amo.
— Não sei se vou conseguir perdoá-lo algum dia, mas sinto muito a falta dele. – permiti que as lágrimas caíssem e minha mãe apertou minha mão, tentando transmitir conforto. Seu aperto era fraco e isso só fez com que eu chorasse ainda mais.
— Nunca se esqueça, Beatrice. – ela tossiu e eu vi o sangue saltar. Peguei o pano e passei em sua boca, enquanto ela apertava os olhos. Sabia que estava sentindo dor. – Seja altruísta e gentil, amor. Perdoe as pessoas. Seja a diferença. Faça o bem e ele virá em dobro.
Estas foram as últimas palavras coerentes que ouvi da minha mãe. Três dias depois, ela morreu em meus braços.
Flashback – OFF
— Eu falei algo que a deixou chateada? – Tobias perguntou, enquanto um vínculo de preocupação se formava em sua testa. – Você está distante desde que saímos do orfanato. O que houve?
Eu estava tão perdida nos pensamentos que não notei que estávamos em frente à casa de Tobias. Devo ter agido no automático. Não acontecia com frequência, apenas quando me deixava envolver nas lembranças com a mamãe e o Caleb. Não me lembro de ter me despedido de Christina ou de Jeanine; sequer me lembro de ter entrado no carro. Meu silêncio deve ter preocupado o homem lindo que estava diante de mim agora e eu vi que precisava dizer o que sentia.
Queria dizer que o amava, mas tive medo. Sabia que Tobias era novo nisso, mas meu maior receio era por mim mesma. Algo nele ainda me alertava para manter distância. Eu não sabia o que era e nem entendia porque me sentia assim agora. Todos esses dias com ele tinham sido maravilhoso, mas essa sensação sempre estava lá. Quase imperceptível na maioria das vezes, mas ainda estava lá. Minha intuição nunca falhava, mas desta vez decidi ouvir meu coração. Eu não podia arriscar perder o homem que amava.
— Estava pensando na minha mãe. – respondi e o olhei com ternura. Levantei uma mão para acariciar seu rosto e seus olhos brilharam com carinho. – Você é o tipo de pessoa que ela sempre admirou. Tenho orgulho de ver sua mudança. Quando cheguei aqui, você era totalmente diferente do Tobias que conheço agora.
— Obrigado por me deixar e me fazer querer ser eu mesmo. – ele beijou minha mão. Esse momento parecia tão certo. – Não me sinto o Quatro com você. Gosto de ser Tobias. – ele confessou e plantou um beijo simples nos meus lábios. Rápido, porém doce e romântico.
— Eu nunca vou esquecer do que você fez hoje. – repeti com um sorriso e engoli o nó que formou na minha garganta. Queria chorar. – Eu não me sentia feliz desde... – não conseguia continuar, então desconversei. – Bem, não quero que hoje seja um dia triste.
— Você é tudo, Beatrice Prior. – ele olhou bem no fundo dos meus olhos e repetiu a frase da música que havia composto para mim. O sentimento que beirava entre nós era além da paixão. Tobias me amava também. Ele ainda não tinha dito, mas eu sentia. E podia arriscar que ele também sabia que eu o amava. – Terei que vendar seus olhos mais uma vez.
— Você está me acostumando muito mal. – eu sorri e me virei de costas para que Tobias pusesse novamente a venda em mim.
— Pelo contrário. Isso é só uma prévia do que você terá. – senti sua risada e não pude deixar de sorrir também. Não iria negar de que estava adorando ser tão mimada.
Tobias me deu algumas instruções e me guiou até o quintal da casa. Eu sabia que era para lá que ele estava me levando, pois com os olhos vendados meus sentidos ficavam aguçados e eu já conhecia toda casa. À medida que íamos chegando, meu coração acelerava e a respiração de Tobias ficava pesada. Sabia que ele estava ficando nervoso e isso só fazia minha curiosidade aumentar.
Quando paramos, Tobias ainda não tinha tirado minha venda, mas podia senti-lo diante de mim.
— Ok, agora estou meio nervoso. – ele riu e pôs as mãos atrás da minha cabeça, ainda sem desatar a venda. – Quis fazer algo especial. Trabalhei nisso a semana toda. Tornou-se o meu lugar favorito da casa somente porque ele me lembra você. – eu sentia o cheiro de flores pairando pelo ar; então Tobias liberou minha vista e meu queixo caiu.
Diante de mim, num canto afastado da piscina do quintal, havia uma estufa. Completamente trabalhada no vidro, os suportes que a sustentavam eram todos brancos. As luzes nela faziam parecer como se tivesse saído de um filme. Dei um passo a frente para me aproximar, não sabendo dizer se era real ou um sonho.
Deus, não me deixe acordar.
— Queria que você tivesse um lugar especial aqui e quando mencionou que você e sua mãe tiveram uma floricultura, tentei juntar algo dela com algo meu. Aqui está. – ele ficou atrás de mim e pousou as mãos na minha cintura.
Todo o choro que eu tentei engolir durante o dia veio com toda força. Eu tinha pensado muito na minha mãe e no meu irmão hoje. Saber que Tobias havia se apegado a um pedaço tão pequeno, mas tão importante para mim me fez querer gritar em adoração. Eu soluçava ao olhar para aquela estufa. Tudo era uma mistura de sentimentos: amor, gratidão, saudade...
— Deus, Tris, que esse choro seja de alegria, porque juro que estou começando a ficar preocupado. – Tobias me virou para ele e levantou meu rosto. Eu não conseguia parar de chorar.
— E-eu posso entrar? – solucei e ele sorriu, limpando as lágrimas que caíam dos meus olhos. Pôs a mão no bolso, retirou uma pequena chave e me entregou.
— É sua, Beatrice. – ele me assegurou. – Assim como eu tenho sido desde que você pôs os pés na minha casa.
Assenti, ainda imersa naquela atmosfera de sensações. Abri a estufa e o cheiro de flores ficou ainda mais forte. Fechei os olhos e fui levada para uma lembrança em que Caleb e eu discutíamos o arranjo, enquanto mamãe fazia os laços e sorria com nossas provocações. Não tinha notado o quanto sentia falta deles até que flashes de memórias começavam a voltar na minha mente.
Admirei todas as flores e a variedade aqui era imensa. Eu tinha acabado de entrar e não queria sair nunca mais. Olhei para Tobias e as palavras que eu queria dizer me sufocavam. Ele não tinha falado nada, apenas me observava e me deixava ter meu momento. Ele sentiu que significava muito mais do que ele podia imaginar e a emoção em seu rosto só me fez sentir ainda mais pressionada com o que queria revelar.
O medo ainda estava lá, mas eu me recusei a permitir que ele me atrapalhasse desta vez. Criei coragem e precisava me livrar de tudo que estava me deixando sem ar. Tinha certeza de que se guardasse para mim por mais um segundo, eu morreria. Me sentia presa e queria ser livre.
Então como um pássaro, eu me libertei.
— Eu te amo. – falei, com Tobias há alguns metros de mim. Segurei meu olhar no seu, pois desta vez eu não iria fugir. Era como se um fardo tivesse sido retirado das minhas costas. O ar voltou aos meus pulmões e pude respirar com facilidade.
Tobias piscou e deu alguns passos, parando há centímetros de mim. Eu não conseguia ler o que se passava na sua mente. Seus olhos brilhavam, como se o paraíso o tivesse sido apresentado. Suas mãos foram diretamente para o meu rosto e ele os segurou, procurando nos meus olhos alguma resposta.
— Por favor, diga isso de novo. – ele suplicou.
— Eu amo você, Tobias Eaton. – afirme, desta vez com mais convicção e não vi qualquer rastro de dúvida passar pelo semblante do meu homem. Pelo contrário, Tobias estava maravilhado.
— Você me tem, Beatrice. – ele disse, passando a língua pelos meus lábios e fechando os olhos, como se quisesse guardar aquele momento. Eu me sentia dessa forma também. – De todas as formas, eu sou seu. Ninguém jamais terá meu coração além de você. – ele tomou minha boca em um beijo apaixonado.
Sempre que ele me beijava, parecia como se fosse o primeiro beijo. Aquele que faz você flutuar, se sentir leve e amada. A textura dos lábios de Tobias era única. Os suspiros que ele dava, a forma como sua língua se movimentava... Deus, tudo era mágico. Suas mãos começaram a vagar pelo meu corpo e algo formigava dentro de mim.
Eu o queria.
Esta noite, eu queria que ele me fizesse sua mulher.
— Eu vou dizer as três palavras, mas somente quando eu estiver dentro de você. – ele revelou, parando nosso beijo com pequenos selinhos. – Deus, Tris, senti tanta falta de tê-la aqui comigo.
— Me faça sua. – eu praticamente implorei. O desespero na minha voz era notável. – Hoje a noite eu quero ser completamente sua. Estou pronta.
Eu tinha passado a semana inteira pensando sobre isso. Na verdade, já tinha mais um tempo que eu planejava como seria minha primeira vez com Tobias. Nunca tive tanta certeza de algo como tinha de que ele era a pessoa certa. Com ele eu me sentia segura; em casa. Eu estava completa.
Tobias me beijou mais uma vez, desta vez um pouco mais duro e urgente.
— Eu tenho algo para contar antes. Estou correndo o risco de perder você para sempre, mas tenho de fazê-lo. É o certo. – ele falava enquanto beijava meu pescoço. A luxúria e o desejo estavam me fazendo raciocinar muito pouco e eu não entendia direito o que ele queria me dizer, mas não importava. – Droga, não consigo me concentrar vendo você assim.
— Podemos conversar amanhã. – eu sugeri, fechando os olhos quando suas mãos foram para os meus seios. Uma onda de prazer me atravessou e minha visão ficou turva. – Hoje foi o melhor dia da minha vida. Quero que fique comigo esta noite; preciso me ligar a você o máximo que puder. Sem esperar. Sem joguinhos. Sem parar. Apenas nós dois, Tobias.
Eu estava cansada de esperar. Tínhamos tido muitas oportunidades, mas Tobias nunca tinha avançado. Eu era inexperiente no assunto e temia que se eu desse o primeiro passo, passasse uma imagem errada. Queria sexo com ele. Al não me passava segurança e certeza que Tobias passava.
Hoje a noite, eu queria isso.
Ele ainda travava uma batalha consigo mesmo. Talvez fosse pelo que ele queria me contar, mas hoje, qualquer coisa poderia esperar até amanhã. Meus hormônios estavam uma loucura. Nada do que ele me dissesse me faria desistir dele. Não hoje. Eu o queria e podia sentir que ele sentia o mesmo, então me aproximei da sua boca e pedi mais uma vez:
— Me faça sua. – sussurrei.
Tobias não começou com delicadeza: sua boca tomou a minha, firme e exigente. Foi diferente de todos os beijos que ele já tinha me dado. Era como se ele necessitasse disso. Eu fechei os olhos, enquanto cada movimento da sua língua era atrevido. Nossos corpos estavam colados e Tobias me pressionava contra ele. Podia sentir o volume formado nas suas calças tocando minha barriga. A ideia do que faríamos hoje me fez soltar um gemido.
— Ah, foda-se. – ele grunhiu e me levantou. Cruzei minhas pernas envoltas do seu abdômen, enquanto tomava fôlego. Tobias preenchia meu pescoço de beijos, fazendo meu corpo inteiro vibrar de prazer. – Isso é muito melhor do que eu imaginei. Porra, eu tô tão fodido. – ele riu e tomou minha boca novamente.
Fomos para dentro de casa comigo ainda presa nele. Tobias subiu todo aquele lance de escadas como se eu não pesasse sequer um quilo. Ele não me soltou em momento algum. Estava sempre colado a minha boca ou então no meu pescoço e também acima dos meus seios. Eu estava quase enfiando sua cabeça no meio deles. A dormência que eu sentia era torturante.
Quando chegamos ao seu quarto, ele me pôs no chão apenas tempo o suficiente para entrarmos e fecharmos a porta. Tobias me imprensou contra a parede e me beijou mais uma vez. Jesus, ele deveria vir com alguma advertência. Beijá-lo e senti-lo contra mim era como provar algo proibido.
Tobias me levou até sua cama e desceu sua mão para abrir minhas pernas, se colocando no meio delas. Nessa posição, a fricção que tínhamos lá em baixo era gostosa demais. Gemi mais alto e fechei os olhos, me movimentando contra ele a fim de conseguir algum alívio.
— Porra, Tris, você tá tão molhada. – ele disse quando passou a dois dedos por cima da minha calcinha. Eu não sabia o que pensar sobre isso. Me sentia envergonhada, mas ao mesmo tempo queria que ele movesse o dedo ali também. – Caralho, queria meter com tudo agora, mas preciso chupar você antes. Vai fazer você se sentir melhor quando eu tiver dentro de você.
No estado que eu estava, ele podia dizer que me rasgaria com uma faca e eu não daria a mínima. Não estava raciocinando. A pressa de tê-lo entre minhas pernas novamente me deixava em êxtase só de pensar. Eu era uma bagunça. Não sabia quando tinha me tornado tão dependente dele, mas depois do sexo oral que Tobias me deu, eu estava completamente entregue aquele homem.
Tobias tirou minha roupa com tanta pressa que cheguei a ouvi-lo rasgar algo. Quando fiquei nua, me senti exposta. Eu tinha visto as garotas que Tobias costumava sair e não chegava sequer aos pés de nenhuma delas. Quando Tobias começou a segurar o olhar no meu corpo, me senti ainda mais desconfortável.
— Você é a mulher mais linda que eu já vi. – ele declarou com um brilho de adoração. A maneira como ele falou e seu olhar sincero me fez acreditar nele.
Quando Tobias desceu seu rosto bem aonde eu mais desejava ele, fechei os olhos, esperando pela onda de prazer que ele me proporcionaria. Tendo a certeza do que ele era capaz, me entreguei aquele homem e se eu morresse naquele dia, morreria imensamente feliz.
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