Estranha Perfeição
14 Capítulo XIV
Notas iniciais
TOBIAS EATON
Foi pensando em Tris que minha liberação se espalhou pelo rosto de Shauna. Ela sorria vitoriosa, como se a minha porra fosse algo para se vangloriar. Não era difícil me fazer gozar. Eu já tinha transado com mais da metade de Miami. A maioria tinha sido quando eu ainda fazia parte da The Lost. Eu tinha diminuído o ritmo quando eu deixei minha vida de artista, mas então eu tinha o acelerado quando Tris pôs os pés na minha sala. Minha obsessão por ela estava saindo dos eixos. Eu não poderia tê-la. Nunca. Talvez por isso fosse ser tão difícil tirá-la da minha cabeça.
– Foi incrível. – Shauna falou. – Mas agora é a minha vez.
Nós estávamos em um dos quartos de hóspedes. Eu sempre dava uma desculpa para não leva-las para o meu. Estar com pressa era uma das mais famosas. Elas pareciam acreditar que eu estava maluco de tesão o suficiente para não aguentar esperar.
Não queria fazer Shauna gozar, porque depois de beijar Tris, isso me parecia errado. Entretanto, eu não era um covarde. Nós tínhamos combinado uma noite de sexo. Era isso que eu teria que proporcioná-la. Depois de um ménage com uma amiga dela, a noite agora seria nossa. Tinha sido o combinado. Eu dei minha palavra. Não podia simplesmente abandonar o barco.
Quando Shauna deslizou para a cama e abriu as pernas para mim, eu me enfiei nela e tentei não pensar em Tris, porque quando aqueles olhos verdes apareciam nos meus pensamentos, eu não conseguia pensar em mais nada. Eu não pretendia dormir com ninguém hoje. Depois da piscina, eu queria passar o dia inteiro abraçado a ela. Queria ouvi-la falar e rir também. Queria conhece-la. Gostava de tê-la perto de mim. Sabia a sensação de tê-la em meus braços e da maciez dos seus lábios juntos aos meus. Eu queria isso, mesmo que fosse errado. Eu queria ficar com ela até que ela se cansasse de mim. Mas então, quando minha irmã apareceu, simplesmente perdi a cabeça. Não poderia perder Nita. A decisão apareceu em minhas mãos e eu havia escolhido. Minha irmã vinha primeiro. Sempre fora assim.
– Oh, Tobias. Mais forte. Chupe mais forte!!! – Shauna gemeu, enquanto se contorcia na cama. Concentre-se, Tobias. Essa é Shauna.
Eu tinha chamado umas das amigas de Nita depois que tentei me desculpar com Tris. Eu queria pedir desculpas por mim e pela minha irmã. Ela não merecia aquilo. Ela não merecia ter ouvido o que eu disse. Falar que havia sido um erro fora para deixar minha irmã satisfeita. Eu sabia que aquilo seria o suficiente. Mas então, Tris havia levado a sério demais. E eu não podia culpa-la. Quando cheguei ao seu quarto e ouvi ela dizer que não havia significado nada, doeu. Senti um aperto tão forte no peito que por um momento esqueci como se respirava. Eu tinha sentido algo diferente com ela. Isso não significava nada? Porra!
Chamei Shauna porque fiquei puto e queria tirar Tris da cabeça. Mas, quando senti Tris observando meu ménage na sala, me senti péssimo. Me pareceu mais errado do que estar com ela.
– Ohhhh. – Shauna gozou e foi como se um peso tivesse sido tirado das minhas costas. Ela sorriu quando eu me deitei ao seu lado. Eu estava exausto. Meu dia tinha sido longo. Eu só queria que ela fosse embora. – Minha nossa, isso foi... Uau... Demais! – ela suspirou. – Eu estaria pronta para você me foder agora, mas puta que pariu, gato! Eu não consigo nem falar direito. – ela sorriu. Que bom. Eu não queria fodê-la.
– Boa noite, Shau. – eu disse e apaguei a luz do abajur, deitando de costas para ela. Shauna não discutiu. Ela sabia como as coisas funcionavam comigo. Se eu não estivesse tão exausto, teria deixado ela aqui e subiria para dormir no meu quarto. Shauna tinha dado sorte.
Quando eu acordei, a loira não estava ao meu lado. Eu deixei que a tensão fosse embora. Ela não era pegajosa, como as outras amigas de Nita. Ela me conhecia. Ela sabia como funcionava. Por isso que, quando eu estava a fim de uma transa sem compromisso e sem uma mulher grudenta, eu ligava para Shauna. Ela era a minha parceira de fodas ocasionais.
Subi para meu quarto e tomei um banho, me livrando do cheiro dela. Quando saí, vi que eram por volta das sete e meia. Por que diabos eu havia acordado tão cedo? Troquei de roupa e desci as escadas. Iria ligar para Will e chama-lo para fazer alguma coisa. Hoje eu não tinha orfanato para me distrair. Eu não queria ficar sentado no sofá assistindo a um jogo enquanto coçava o saco. Talvez fosse jogar golfe com os caras. Há tempos eu não fazia isso.
Quando me aproximei da cozinha, ouvi vozes. Shauna, aparentemente, não tinha ido embora.
– Acabou de sair da dispensa?! – podia ouvir a voz estridente da garota com quem eu havia comigo ontem à noite.
– Acabou de sair da cama do Tobias? – Tris atirou. Espere... Ela estava com ciúmes? Eu não pude deixar de sorrir. Minha menina estava se mostrando atrevida.
– Uma noite um tanto incrível, não é? Eu vi quando você nos bisbilhotou no sofá. Aquilo era só o início. O gozo dele na minha boca foi a melhor parte. – Shauna se exibiu. O que diabos ela estava fazendo? Se ela soubesse que eu pensava em Tris enquanto gozava nela, talvez ela não se sentisse tão vitoriosa.
Eu esperei mais um pouco. Queria ver se Tris iria lutar por mim. Eu queria que ela lutasse. Mas então, ao invés de ouvir a voz da minha loira perfeita, a voz de Shauna ecoou pela minha casa.
– Você deve ser a garota de quem Nita me falou antes de vir para cá. Exatamente como ela descreveu. Olhos muito afastados, nariz muito grande, seios pequenos... Argh. – Shauna atirou e eu quase pude imaginar Tris encolhendo os ombros. Era a minha hora de intervir.
– Basta, Shauna. – eu entrei na cozinha e as duas me olharam. Eu não podia deixar que Tris continuasse aqui. Se ela ficasse, Shauna iria espirrar seu veneno e eu não queria vê-la ferida. Minha melhor alternativa fora ativar meu modo filho da puta. – Você não estava indo para o trabalho? – olhei para Tris. Vi sua expressão vacilar, mas ela não discutiu. Ela girou os pés e caminhou para fora, usando a porta dos fundos. Eu odiava que ela continuasse fazendo isso. Me deixava maluco!
Quando restou apenas eu e Shauna, puxei um banquinho e me sentei ao balcão.
– Você preparou o café. – fiz essa observação ao comportamento estranho de Shauna. Nós dormíamos juntos, mas ela costumava ir embora antes de eu acordar.
– Quis fazer diferente. – ela deu de ombros.
– Obrigado.
– Não precisa agradecer. – ela piscou. – Só estou curiosa a respeito de uma coisa. Na verdade, de alguém. Por que você mantém a loira na sua dispensa? Ela vai acabar roubando sua comida. – Shauna riu da própria piada, mas eu não achei graça. Pelo contrário, senti a necessidade de defender Tris.
– Ela é uma hóspede e pode comer o que ela quiser. E isso não é assunto seu. – falei, colocando um pouco de café na minha xícara e bebendo.
– Não precisa bancar o durão agora. – ela falou, sentando-se ao meu lado. – Tivemos um sexo incrível. Achei que seu humor estaria muito melhor pela manhã.
– Não sou um cara matinal. – dei de ombros.
– Eu aluguei alguns filmes para assistirmos. Desde ação até romance. Você pode escolher. Serei boazinha. – ela sorriu, enquanto tocou meu braço.
O quê? Que porra ela estava dizendo? Shauna deveria ir embora pela manhã. Nós não tínhamos nenhum relacionamento fora de quatro paredes. Era apenas sexo e nada mais. Ela havia concordado com isso. Por que porra ela estava agindo diferente agora?
– Como assim?
– Ah, Tobias, não banca o desentendido. Estamos nisso há meses! Só achei que era a hora de oficializar. – ela falou, com um tom doce, mas que nela era ridículo.
– Não tem isso de oficializar, Shau. Nós não temos nada além de fodas. – me levantei, pondo a xícara na pia e saindo para sala. Eu ouvia seus passos atrás de mim.
– Como assim só fodas?! Você não pode fazer isso comigo! Eu significo algo para você! Eu sei que sim! – ela reclamou atrás de mim. Porra, eu não queria ter que lidar com isso agora.
– Shau, escuta. Se soubesse que você pensava que era algo mais, eu nunca a teria chamado novamente. – suspirei e olhei para ela. – Porra, eu só a mantenho porque você é como eu. Só fodemos, sem compromisso. Nunca imaginaria que você queria algo mais.
Ela soltou um soluço. Merda.
– Eu estou apaixonada por você. – ela soltou. Isso não estava acontecendo.
– Sinto muito, Shau, mas meu lance com você era sem amarras. Pensei que você tivesse concordado.
– Eu concordei porque queria me aproximar de você! – ela gritou e chorou. – Por que você não quer me assumir? Isso não era apenas uma foda! – ela atirou. Eu suspirei e massageei minhas têmporas. – É por causa da idiota da sua dispensa? Fala sério, Tobias, você merece coisa melhor!
Meu sangue ferveu.
– Não fale dela, Shauna. Você não a conhece. – eu adverti, controlando meu tom de voz. Bastava tocar no nome de Tris que eu ficava louco. Ela era meu anjo, porra. Eles não a conheciam. Eu a conhecia. Ela não era nada menos que incrível.
– Sei o suficiente. Ela é pobre e uma aproveitadora. Nita me avisou sobre o quanto você estava cego. É inacreditável, Quatro! – meu nome artístico. A puta na minha frente estava usando meu nome artístico. Foda.
– Porra, Shau! – eu gritei. Ela deu um passo para trás. – Você não a conhece. Minha irmã não a conhece, então cala a porra da sua boca e dê o fora da minha casa! Agora!
Ela soluçou, em seguida subiu apressadamente as escadas e bateu a porta do quarto. Eu suspirei e sentei no sofá, apoiando os cotovelos nas minhas coxas e enterrando o rosto nas minhas mãos. Eu precisava manter a calma. Não podia perder o controle por Tris. Ela não era minha. Ela nunca poderia ser.
Shauna desceu as escadas com sua bolsa de alça no ombro. Ela me olhou. Seu rosto estava vermelho, seus olhos lacrimejados e seu lábio inferior tremia. Eu não sabia se tudo era apenas uma encenação. Ela era uma das melhores amigas da minha irmã. As duas eram ótimas atrizes.
– Você vai se arrepender por ter me tratado dessa forma. E não pense que vai ficar com a pobretona. Nita nunca irá permitir. E se ela precisar da minha ajuda para alguma coisa, fique ciente de que eu estarei disposta a fazer o que for para nunca deixá-lo tê-la. – ela disse e caminhou para porta.
– Não volte. E saiba que eu também farei o possível para mantê-la longe da minha irmã. – eu disse.
Ela fechou a porta da frente numa batida e eu respirei aliviado. Eu não precisava me preocupar com Shauna. Ela e minha irmã não iriam fazer nenhum mal a Tris. Eu não permitiria isso. Eu iria protege-la das garras venenosas das duas e a manteria bem. Ela estava segura comigo.
Subi para o meu quarto e tirei uma dos meus violões do apoio na parede. Eu iria compor. Eu não podia falar dos meus sentimentos por Tris a ninguém, então os transformaria em poesia. Ela iria ser eternizada. Nenhuma garota jamais havia me pegado de tal forma. Ela era especial. Havia coisas que eram raras de se encontrar: sua bondade, sua gentileza, seu altruísmo... Tudo isso a tornava única.
Os primeiros acordes saíram com uma facilidade indescritível. Eu dedilhava, enquanto compunha primeiro a melodia. E como nos velhos tempos, tudo desaparecia, e só havia então eu e a minha música. Entretanto, pela primeira vez, eu enxerguei algo além da sincronia dos acordes. Eu enxerguei Tris. A minha Tris. No fundo, como se fizesse parte de tudo que eu mais amava, parecendo-se como uma luz no fim do túnel. E foi nesse momento que a letra fluiu.
And how can I stand here with you / E como posso ficar aqui com você
And not be moved by you? / E não ser comovido por você?
Would you tell me how could it be any better than this? / Você poderia me dizer como pode ficar melhor do que isso?
Eu a estava transformando em poesia. Isso nunca havia acontecido comigo antes. Quando eu fazia parte da The Lost, costumava cantar sobre o amor, mas isso era somente porque as minhas fãs queriam ouvir. Eu nunca havia tido uma inspiração real. Uma música nunca tinha sido vivida por mim como muitos achavam. Eu sequer havia transformado minha irmã em algo tão puro como a música. Mas então, eu havia feito isso com Tris, e mesmo não querendo admitir, a verdade estava lá: eu estava me apaixonando por ela.
Larguei o violão em cima da minha cama e me levantei. Não queria ter sido fisgado por ela, porque eu nunca poderia tê-la. Ela era inalcançável e eu não a merecia. Ela não tinha sido feita para alguém como eu. Ela era bondosa, forte e determinada. Porra, eu tinha passado a minha vida inteira bebendo e curtindo com sexo e festas, enquanto ela tinha perdido o pai e cuidava da mãe quando ainda era uma adolescente. Pela primeira vez em toda a minha vida, eu estava arrependido de tudo que eu tinha vivido.
Liguei para Will, mas seu celular estava ocupado. Decidi trocar de roupa, optando pelo meu traje de golfe, e estava pegando minhas chaves para encontrar os meninos no clube quando meu celular tocou. O nome de Will iluminou a tela do iPhone preto na minha mão.
– Will. – eu atendi. Ele ainda não tinha falado comigo, porque estava discutindo com alguém. Fiquei atento. Will raramente perdia a cabeça. Ele era calmo e calculista, mas pela maneira como gritava desesperado, eu sabia que havia algo errado.
À medida que ele falou comigo, senti meu peito se contorcer com suas palavras. Isso não estava acontecendo.
– Chame a porra de um médico! Eu tenho Tris desmaiada no banco de trás do meu carro com toda sua barriga queimada. Eu vou matar sua irmã cadela, Tobias. Eu juro que eu vou quebrar seu pescoço! – ele rugiu ao telefone.
Eu não conseguia entender direito.
– O que você tá dizendo?! – minha voz falhou. Tinha ficado difícil respirar e o nó formado em minha garganta só dificultava ainda mais.
– Um médico, Tobias. Porra, para agora! – ele gritou e encerrou a ligação.
Quando minha ficha caiu, eu rapidamente digitei o número do melhor médico que eu conhecia. Eu não ligaria para seu consultório. Eu tinha o seu número pessoal para emergências como esta.
– Jack Kang. – ele atendeu logo depois do primeiro toque.
– Jack, aqui é o Tobias. Estou com uma emergência e preciso que você faça um atendimento domiciliar. É para uma amiga. – eu prossegui, tentando me lembrar das poucas informações que Will havia me dado. – Ela tem a barriga queimada e está desmaiada. Preciso que ela seja examinada o mais rápido possível.
Ele suspirou.
– Essas consultas costumam ser caras, Tobias. Você está me tirando do ambiente de trabalho.
– Foda-se, eu pago quanto você quiser! – eu exaltei. – Só venha aqui. Por favor.
Ele deu mais um suspiro.
– Certo. Na sua casa, não é? – ele perguntou. Eu acenei com a cabeça, embora soubesse que ele não poderia me ver.
– Isso. Não demore.
– Estarei aí em dez minutos. – ele encerrou a chamada.
Suspirei, tentando manter o controle. Então ouvi o barulho de pneus de carro e me apressei em abrir a porta. O carro de Will estava estacionado em frente à minha casa, enquanto Uriah tomava Tris em seus braços. Ele andou até a porta principal e eu abri o caminho para que ele pudesse passar. Will ficou do lado de fora, encostado no seu carro, com ambas as mãos cobrindo seu rosto. Eu não queria pensar no que ele estava sentindo agora. Precisava primeiro cuidar da minha Tris.
– Tome cuidado. Ela não acorda, mas sente muita dor na barriga. – ele instruiu, quando passou Tris para os meus braços. Eu subi as escadas com ela em meus braços, enquanto Uriah seguia atrás de mim.
Abri a porta do melhor quarto de hóspedes que eu tinha e entrei, carregando Tris em meus braços. Ninguém usava esse quarto. Ele era decorado nas cores azul e branco. Por alguma razão, ele me lembrava ela. Era puro e delicado. Hana fazia a limpeza dele uma vez por semana, embora ninguém tenha estado aqui.
Deitei Tris na cama da maneira mais cuidadosa possível. Eu tentava pensar no quanto ela estava segura agora, mas observando o machucado mais perto, meu peito se contraía com a imagem que eu estava recebendo. Sua barriga seca estava completamente vermelha, com algumas bolhas espalhadas nas extremidades. Eu quis chorar, porque vê-la machucada era demais.
– Como isso aconteceu? – eu me virei para Uriah e pisquei para afastar as lágrimas. Precisava manter o controle.
– Estávamos no restaurante do clube, quando Tris servia nossas mesas. Eu observava sua irmã. Ela acompanhava cada passo que a menina dava. Ela tem inveja de Tris, porque todo mundo a adora. Não deu tempo de impedir, porque quando nós vimos, Tris estava gritando de dor, enquanto Nita e seu comboio tirava sarro dela. – ele falou, olhando para a Tris deitada na minha cama.
– Minha irmã fez isso? – perguntei, em descrença, embora já desconfiasse pelo que Will havia me dito.
– Não é nenhuma novidade que Nita odeia a menina. Só... – ele suspirou. – Você só precisa conversar com ela. Eu adoro Tris, cara. Todo mundo a ama, mas sua irmã está envenenando-a e temos medo que ela nos deixe. Peter a adora também. Foi uma bagunça quando essa merda aconteceu. Ele ficou puto e expulsou a cadela do clube. Eu nunca tinha o visto com tanta raiva.
– Peter?
– É, Peter. E vendo a maneira como você olha para ela, dá para ver que você a adora. Então, Tobias, não deixe que sua irmã a tire da gente. Essa garota é especial. Eu nunca conheci alguém tão determinado quanto ela.
– Eu sei. – concordei. Eu cuidaria da minha irmã mais tarde. Agora, eu precisava ficar com a minha garota. – Você pode nos deixar a sós?
– Claro. Zeke e eu temos uma coisa para resolver também. Cuide dela e se precisar de alguma coisa, qualquer que seja, pode nos ligar. Estamos à disposição.
– Obrigado. – eu disse e ele saiu do quarto.
Me aproximei da cama e olhei para ela. Ela tinha apenas o sutiã vestido, mas nada nesse momento me faria ter qualquer pensamento sexual em relação a ela. Tris estava imóvel e indefesa. Enquanto eu observava seu corpo, eu a admirava. Ela era perfeita. Quando notei uma bolha enorme do lado esquerdo da sua barriga, meus joelhos cederam e eu caí à sua frente. Isso tinha sido minha culpa. Eu não tinha cuidado dela e não tinha a mantido longe da minha irmã. Por causa da minha insensibilidade, ela agora estava machucada. Eu estava quebrado. Vê-la dessa forma era demais. Solucei, tão alto quanto pude, e o som preencheu todo o quarto.
Tomei sua mão e a segurei, enquanto Tris estava pálida e desacordada na cama e eu era o de joelhos, chorando como um menino. Meu corpo inteiro tremia. Quando ela acordasse, eu imploraria por seu perdão. Eu iria cuidar dela e tranquiliza-la.
– Você é homem, não se despedace. – a voz de Will soou atrás de mim.
Eu me virei para olhá-lo. Eu era grato por ele ter salvado ela de Nita, mas estava pouco me fodendo para o que ele achava disso. Ele não sabia como eu me sentia em relação a Tris. Ele não tinha que me dar ordens.
– Foda-se, você não entende. – eu rugi, querendo que ele fosse embora.
– Entendo que você esteja apaixonado por ela. – ele disse, soando duro o suficiente para que eu soubesse que ele estava falando sério.
Eu não respondi.
– Ela escolheu você, seu filho da puta! Como você deixa a vadia da sua irmã fazer isso?! – ele rugiu.
– Eu vou cuidar dela. – disse, me levantando.
– Você não a merece, Tobias.
– Eu sei que não, mas não vou deixá-la ir embora. – respondi com convicção.
– Se pretende continuar mantendo-a aqui, então deve lhe contar a verdade. Ela merece saber. E quanto mais você adiar, pior será para ela. Ninguém merece viver sob mentiras, Tobias. Lembre-se disso. – ele falou, então se aproximou de Tris e beijou sua testa.
Jack Kang apareceu na porta do quarto.
– Ao menos deveria ter me explicado onde ficava o quarto. – ele entrou, carregando uma maleta de primeiro socorros. Jack estava vestido com o jaleco, como se tivesse acabado de deixar seu consultório. – Deixe-me ver a garota. – eu segurei a mão de Tris, enquanto Jack a examinava e Will estava encostado à porta.
Ela estava com algumas bolhas devido à queimadura de primeiro grau, mas era apenas isso. O desmaio tinha sido causado pela queda de pressão. Jack deixou uma pomada para o tratamento das queimaduras. Ele havia dito que ficariam apenas algumas manchas como cicatrizes e nada mais. Ele também deixou alguns analgésicos para que eles diminuíssem a dor, caso ela voltasse a sentir. Tris acordaria em breve, bastava manter um pano gelado em sua testa. E quando ela acordasse, eu teria que alimentá-la.
Jack e eu acertamos o preço e eu depositaria em sua conta mais tarde. Ele verificou a pressão de Tris uma última vez e se despediu. Eu anotei mentalmente todas as suas instruções: antibióticos na hora certa, pomada, repouso e alimentação. Tudo estava ok.
– Ela vai ficar bem. – Will falou, ainda parado perto da porta. Ele estava mais calmo. Jack nos passou a segurança de que não tinha sido tão grave quanto parecia.
Eu sentei na cama, ficando de frente para Tris.
– Eu mesmo cuidarei disso. – respondi, pressionando o pano molhado na testa dela.
– Você está mesmo apaixonado por Tris?
– Estou me apaixonando por ela. – suspirei. Se eu deveria contar a alguém, esse alguém deveria ser o meu irmão. Embora estivéssemos lutando um com o outro, eu só confiava nele. – Ela é tudo que eu quero ser um dia.
– Merda. – ele murmurou, pondo as mãos nos bolsos. – Ela quer você, de qualquer forma. – ele deu de ombros.
– Sinto muito. Eu tentei ficar longe. – respondi, quando Tris começou a se mexer lentamente.
Eu fiquei atento, enquanto ela piscava os olhos lentamente. Quando ela me olhou, seus olhos arregalaram, mas ao ver Will atrás de mim, a tensão em seus ombros diminuiu lentamente. Eu odiava que ela não confiasse em mim o tanto que confiava nele, mas eu não podia fazer nada para reverter isso agora. Primeiro eu tinha que cuidar dela.
– Ei, linda, como você se sente? – Will se aproximou e sorriu para Tris, que agora tinha as sobrancelhas juntas.
– Minha barriga ainda arde. – ela respondeu, fazendo uma careta. Eu larguei o pano em sua testa e peguei o copo de água em cima do criado-mudo ao lado de sua cama, junto com um analgésico.
– Aqui, isso pode aliviar. – eu estendi o copo e, embora ainda estivesse confusa, Tris aceitou e tomou.
– Você nos deu um baita susto. – Will falou, ainda sorrindo. – O médico já examinou você. Em cerca de duas semanas você estará completamente nova.
– Duas semanas?! – ela exclamou. – E o meu emprego? E o orfanato? Eu preciso desse dinheiro, Will. – Tris conversava, como se eu não estivesse no quarto.
– Quanto ao clube, Peter vai cuidar de tudo. Ele falou que foi um acidente no trabalho, então isso não irá interferir no seu salário. E não se preocupe, o cara é louco por você. – Will brincou, embora eu não gostasse da brincadeira.
– Eu me resolvo com Jeanine. – falei e Tris ergueu seus olhos para mim. – Ela vai entender.
– Ok. – ela respondeu, com a voz baixa, desviando seus olhos de mim para Will.
– O médico recomendou repouso para você, Tris. Acha que consegue? – meu irmão perguntou.
– O quê? Ficar deitada o dia inteiro? – ela devolveu, incrédula. – Não, Will. Eu não consigo. Além do mais, não preciso tanto desse repouso. Eu posso enfaixar minha barriga e voltar para meu trabalho. Estou prestes a comprar minha própria casa.
– Você vai embora? – perguntei.
– Você não achou que eu fosse ficar aqui para sempre, não é? – ela retrucou. Vi meu irmão reprimir os lábios, segurando um sorriso. Merda. Eu esperava que ela ficasse aqui para sempre.
– Você não pode ir embora assim. – apontei.
Foi nesse momento que ela notou que vestia apenas o sutiã. Seu rosto se contorceu e ela apertou os olhos.
– Tem como ficar pior? – Tris soltou.
Assim como Will, eu tentei segurar o riso. Ela estava com a barriga completamente queimada e estava preocupada em como estava vestida. Eu quis beijá-la de emoção. Ao menos a dor havia ido embora e ela agora estava mais leve.
– Não se preocupe, linda. Seu corpo é maravilhoso. – Will piscou e Tris corou. Merda, ele precisava se mandar. Eu queria ficar sozinho com ela agora, já que eu a tinha acordada.
– Você está com fome? – desviei o assunto.
Tris assentiu.
– Eu vou preparar algo.
– Você cozinhando para alguém além de si mesmo? Impressionante. – Will provocou.
– Vá para o inferno! – retruquei, sorrindo, e desci as escadas, indo para a cozinha.
Comecei a preparar algo prático que eu sabia que ela iria gostar: bolo de chocolate na caneca. Embora soubesse que Tris precisava de nutrientes mais fortes que esses, eu queria agradá-la. Além do mais, eu não sabia o que ela gostava de comer. Eu não sabia quase nada sobre ela, mas estava prestes a tornar diferente hoje à noite.
Enquanto eu estava na cozinha, podia ouvir as risadas de Tris mescladas com as do meu irmão. Eu sentia inveja dele. Tris não estava segura o bastante para se divertir dessa forma comigo. Eu precisava conquistar sua segurança se eu quisesse mantê-la por perto.
Além do bolo de caneca eu também preparei um sanduíche natural, um copo de suco de limão e pus também algumas frutas na bandeja. Se ela não gostasse de nada, eu optaria por um delivery. Tudo para alimentá-la e agradá-la. Ela estava bem agora.
Subi carregando a bandeja nas mãos e quando cheguei ao quarto, Will arregalou os olhos.
– O que fizeram com você? – ele perguntou, num tom de brincadeira. Eu lhe dei um olhar de advertência e pus a bandeja ao lado de Tris. Ela tinha coberto o sutiã com uma pequena toalha de rosto. Havia me esquecido do quanto ela era tímida.
– Fiz para você. – eu sorri. – Tem sanduíche, um bolo de caneca, suco de limão e algumas frutas. Sobre o bolo, se estiver ruim, não precisa falar. Meu ego não vai suportar tamanha desaprovação. – eu brinquei.
Ela sorriu. Porra, eu me senti como a porra de um herói.
– Tenho certeza de que eu vou adorar. Obrigada por isso. E por ter chamado o médico também. – ela agradeceu.
– Era o mínimo que eu poderia fazer.
O telefone do meu irmão tocou e ele saiu do quarto. Tris ficou em silêncio, então começou a comer. Eu estava fascinado. Cada movimento feito por sua mandíbula era adorável. Eu era a porra de um maluco, mas estava cagando para isso. Ela era fantástica. Tudo que ela fazia era maravilhoso, até mesmo uma simples mordida em um sanduíche.
– Eu preciso ir, Tris. – Will entrou. – Ocorreu um imprevisto e meu pai precisa de mim na empresa. Você vai ficar bem com esse coisa ruim?
Ela riu.
– Obrigada por tudo, Will. Eu não sei o que teria acontecido se você não estivesse lá.
– Uriah, Zeke, Peter ou qualquer outro teria a ajudado. Eles a amam, Tris. Não se esqueça disso. Tudo por você, linda. – Will beijou sua testa enquanto ela assentiu. Com um aceno, ele se despediu de mim e deixou o quarto.
Nós ficamos em silêncio, enquanto Tris ainda comia.
– Eu sinto muito, Tris. – soei tão derrotado quanto um cachorro que acabara de ser abandonado.
– Não foi sua culpa. – ela respondeu.
Eu suspirei e me sentei ao seu lado, ficando de frente para ela.
– Foi da minha irmã. – à menção de Nita, Tris ficou tensa novamente. – Eu vou consertar isso, eu prometo. Eu nunca deveria ter deixado ir tão longe. Eu devia tê-la parado. Eu só... Eu sinto muito, Tris. – tomei sua mão e a segurei, desejando passar qualquer segurança para ela.
– Está tudo bem. – ela me confortou. Ela estava machucada para caralho e estava me confortando. Eu não merecia o ar que eu respirava.
– Eu farei Nita vir aqui e pedir desculpas pelo que fez. – Tris estremeceu.
– Eu não quero vê-la. Por favor, não agora. Eu não quero que ela me veja assim. – a voz do meu anjo saiu trêmula.
Porra.
– Ok, então ela não virá. – assegurei. Tris juntou as sobrancelhas.
– Você não pode impedi-la de vir. Ela é sua irmã.
– Eu não estou proibindo ela de vir aqui, mas enquanto você estiver de repouso, eu não quero vê-la. Ela machuca você, Tris e eu não vou mais permitir isso.
Ela ficou em silêncio e começou a beber o suco. Ela era linda. Desde os cabelos loiros e até mesmo a ponta do seu nariz. Tudo nela era delicado e bonito. Ela era perfeita. A essência que ela estava deixando na minha casa era inebriante. Eu estava fascinado por tudo que vinha dela.
– Esse quarto é lindo. – ela suspirou, em admiração.
– E é seu a partir de agora. – sorri.
– Eu gosto do quartinho. – ela sorriu. – Na verdade todas as minhas coisas estão lá.
– Eu cuido disso para você. – eu me levantei.
– Tem certeza de que tá tudo bem se eu ficar nesse quarto? Quer dizer, ele é simplesmente incrível, mas eu posso voltar para o quartinho se isso for incomodar você. – Tris soou insegura.
Eu não pude deixar de sorrir mais uma vez.
– Seu lugar nunca foi lá em baixo. Ele sempre foi aqui, perto de mim. – eu pisquei e saí, seguindo para o antigo quartinho, disposto a muda-la para o andar de cima.
Disposto a muda-la para a minha vida.
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