Estranha Perfeição
15 Capítulo XV
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
Esse comportamento estranho dele estava me deixando confusa. Ontem, para ele, nosso beijo tinha sido um erro. Hoje de manhã ele tinha sido duro comigo. Como eu poderia entendê-lo se ele era tão confuso? Eu não estava acostumada com um Tobias sendo gentil, me transferindo para um quarto de hóspedes e me trazendo comida na cama. Eu sequer sabia como reagir a isso.
– Por que está fazendo isso?
Tobias não respondeu de imediato. Ele me deu um dos olhares mais profundos que eu já tinha visto e suspirou. Detestava a ideia dele ter me visto de sutiã. Era humilhante e vergonhosa. Meus seios eram pequenos demais e ele tinha um par de modelos na sua cama a cada noite. Como eu podia lidar com isso? Ele já tinha me visto de biquíni, mas o fato de me ver de sutiã me deixava aterrorizada, embora eu soubesse que era praticamente a mesma coisa.
Eu estava com uma toalha de rosto cobrindo minha peça íntima superior, mas ainda assim, toda vez que ele me olhava, eu sentia vergonha.
– Você cuida de todo mundo, Tris. Até mesmo da porra de um filhote, mas quem cuida de você? Você é tão forte e determinada, mas ao mesmo tempo tão pequena e indefesa. – ele suspirou. – Quem cuida de você, Tris?
– Eu cuido de mim. – respondi com sinceridade. Eu cuidava de mim desde que minha mãe ficou doente e eu tinha cuidado dela também.
– Você é tão nova. – ele pareceu distante.
– Qual é o seu problema com a minha idade? – perguntei, achando graça naquilo. Tobias tinha uma implicância com o fato de eu ter dezenove anos, embora ele fosse apenas uns três ou quarto anos mais velho que eu. – Não é como se eu tivesse dez anos. – ele riu. – Quantos anos você tem? – se estávamos conversando, eu iria direcionar as perguntas a ele. Eu queria saber mais a seu respeito.
– Tenho vinte e quatro. – ele levantou uma sobrancelha. – Velho demais para beijar alguém novo quanto você.
O beijo. Ele estava trazendo o assunto do beijo à tona. Eu não sabia se estava pronta para esclarecer as coisas agora. Ele estava sendo doce, mas ele já tinha sido assim e Tobias era completamente imprevisível. Eu não podia arriscar meu coração agora. Não depois de ter ficado tão arrasada ao ouvi-lo descrever nosso beijo como um erro.
Como eu fiquei em silêncio, Tobias desconversou.
– Como está sua barriga? – ele perguntou, descendo os olhos para a parte machucada.
– Só arde um pouco. O analgésico amenizou a dor. – respondo. – Acho que eu preciso tomar banho.
– Você consegue fazer isso sozinha? Eu posso chamar outra pessoa para te ajudar.
– Não estou aleijada, Tobias. Posso lidar com isso sem nenhum problema. Além do mais, não vou passar o tempo inteiro deitada nessa cama.
Ele coçou a cabeça, em seguida, se levantou da cama e ficou de pé na minha frente.
– Vou deixá-la sozinha. Preciso resolver algumas coisas no centro, mas me prometa que se sentir algo de estranho, você irá me ligar.
Droga, eu odiava admitir para as pessoas que eu não tinha um celular. Isso as fazia ter pena de mim e eu estava cansada de ter isso o tempo inteiro.
– Eu não tenho um celular. – respondi, tentando soar firme.
Tobias murmurou um palavrão e soltou um suspiro. Ele deu alguns passos até mim e passou uma das mãos pela sua barba.
– Pode usar o telefone da casa. Eu anoto meu número para você e você me liga assim que sentir que há algo estranho, ok? – ele me perguntou.
Eu não iria liga-lo, caso algo acontecesse. Eu sabia lidar com isso sozinha, mas Tobias estava disposto a não ceder, então eu apenas balancei a cabeça em concordância. Queria tomar meu banho o mais rápido possível, então quanto mais rápido ele fosse embora, mais eu iria para debaixo do chuveiro.
– Eu sinto muito por isso, Tris. – sua voz saiu machucada, enquanto seus olhos fitavam os meus repletos pela emoção.
– Não foi sua culpa. – insisti mais uma vez, porque Tobias parecia não acreditar nisso. Não era culpa dele se sua irmã era maluca. Por mais que houvesse vezes em que ele não a repreendeu, não fora ele quem espirrou sopa quente em mim.
Ele não respondeu. Tobias apenas me deu um aceno de cabeça e saiu, me deixando sozinha no quarto. Tirei a toalha que cobria meu sutiã e a pus de lado da cama. Levantei com cuidado, sendo cautelosa com minha barriga. Ela estava começando a arder novamente. Eu tinha que apressar meu banho para que ele pudesse ser o menos doloroso possível.
O banheiro era enorme. Tinha uma banheira redonda no canto esquerdo, com jatos nas laterais, que eu deduzi ser uma hidromassagem. Um chuveiro luxuoso estava posicionado no canto direito e havia um balcão de mármore contendo duas pias, ambas com torneira gelada e quente. Também tinha um sofá branco embutido, com almofadas azuis. O banheiro era todo decorado nas cores do quarto: azul claro e branco.
Pensei me entrar na banheira, mas minha barriga iria arder ainda mais se eu passasse tanto tempo debaixo d’água e eu também não sabia se eu tinha permissão para usá-la. Me livrei das minhas roupas e entrei no box com cuidado. O banho precisava ser rápido, já que eu estava começando a sentir dores novamente. Liguei o chuveiro e deixei que a água lavasse meu corpo, enquanto dava alguns gritos quando ela batia nos lugares mais queimados.
Quando acabei, me enrolei numa toalha e saí. Abri a porta do banheiro e verifiquei antes para ver se eu estava sozinha no quarto. Tudo limpo. Peguei uma muda de roupa e vesti, optando por um top que deixasse minha barriga completamente à mostra. Iria passar a pomada novamente.
Me aproximei da cama e notei que na mesinha lateral direita estava a pomada, alguns analgésicos, itens de isolamento para queimadura e um bilhete.
Tris, o médico sugeriu que você fizesse um curativo por cima da queimadura, para que pudesse isolá-la. Volto para casa em vinte e preparei algo para comermos. Descanse e, para qualquer coisa, me ligue.
555 – 0125
Tobias.
Suspirei. O modo como ele citara “casa” fez com que o lugar pertencesse a mim também. Meu coração se apertou. Por que ele estava sendo gentil comigo, mesmo depois da noite desastrosa que tivemos? Eu sabia que ele estava se sentindo culpado pelo que sua irmã havia feito, mas por quanto tempo esse sentimento de culpa iria durar? E quando ele voltasse a ser o Tobias que me odiava, o que iria acontecer a mim? O que iria acontecer ao meu coração? Precisava tomar cuidado com Tobias. Ele despertava coisas em mim que nem mesmo eu entendia.
Espalhei a pomada por minha barriga e enfaixei o local queimado, não pressionando muito para não abafar e criar uma possível infecção. Tomei mais um analgésico e me sentei na cama. Não se passaram nem dez minutos desde que Tobias saiu e eu já estava entediada. Deitei e me cobri com um lençol, pois estava ventando frio e todas as janelas do quarto estavam abertas. Caí no sono segundos depois, sem me dar conta do quão cansada eu estava.
Quando abro meus olhos, as nuvens foram substituídas por estrelas e o céu já está escuro. Levanto parte do meu corpo, apenas o suficiente para enxergar Tobias encostado no batente de porta, de braços cruzados, olhando fixamente para mim. Quando meus olhos fitam os dele, vejo um sorriso surgir em seus lábios.
– Eu estava vindo te acordar. – ele falou, aproximando-se da cama, com ambas as mãos enfiadas nos bolsos do seu jeans. – Vejo que conseguiu fazer o curativo. Se sente melhor?
Eu assenti.
– Que horas são? – perguntei, franzindo a testa. Por quanto tempo eu havia dormido?
– São quase nove horas. Você dormiu bastante. Fiquei preocupado, mas você tem trabalhado muito e dormido pouco, e como o médico recomendou repouso, decidi deixar você descansar. Só estava vindo chama-la para jantar. Preparei algo para comermos.
Ele tinha feito o jantar? E eu estava indo comer com ele? Me acostumar com essa versão do Tobias estava sendo estranho. Por mais que meu coração se derretesse a cada palavra de cuidado que ele dirigia a mim, eu não sabia o que esperar depois disso. Quanto tempo duraria até que ele me chutasse da sua casa por sua irmã?
– Ponha algum casaco e desça. Está ventando um pouco, então você pode sentir frio. Eu vou preparar a mesa enquanto você se apronta, ok? – Tobias perguntou.
– Certo. – assenti mais uma vez e ele sorriu para mim, antes de sair do quarto e fechar a porta.
Fiz o que ele me instruíra a fazer e parei diante o espelho. Pus alguns fios de cabelo rebeldes atrás da orelha, por mais que eles sentissem a necessidade ficar espetados. Dei uma última olhada no meu reflexo e decidi que era o melhor que poderia ficar. A trança lateral do meu cabelo loiro não era ruim. Eu também não queria passar maquiagem, afinal estávamos em casa. Aliás, eu não sei por que eu estava dando tanta importância para isso. Era apenas um jantar com Tobias. Não era grande coisa.
Desci as escadas com cuidado para não dar passos largos e acabar esticando minha barriga. Isso doía muito. Quando parei no último degrau e olhei para a entrada da cozinha, Tobias estava saindo de lá com uma garrafa de vinho, duas taças na mão e um sorriso no rosto.
– Vem comigo. – ele acenou com a cabeça em direção à sacada com vista para o mar.
Segui-o, com meu coração palpitando cada vez mais alto e forte, sentindo que Tobias podia ouvi-lo. Odiava ficar tão ansiosa perto dele, mas não tinha mais controle pelo que eu sentia. Era uma tremenda confusão. Havia dias em que eu gostaria de sentar e conversar com ele; saber de todos os seus gostos e por fim, sentir novamente seus lábios nos meus. Em outros, eu queria simplesmente estapeá-lo e ir embora.
Quando pus meus pés na ampla varanda com vista para o mar, o cheiro característico de tempero mexicano invadiu minhas narinas. Mamãe adorava comida mexicana. Eu tinha aprendido a cozinhar e a amar também, já que ela me pedira para fazer nas vezes em que não se sentia muito bem. Mesmo que isso não estivesse incluído na dieta médica dela.
– Sente-se. – Tobias pôs o vinho e as taças na mesa redonda, enquanto puxava a cadeira para que eu pudesse me sentar. Quando eu o fiz, ele sentou-se à minha frente. – Você gosta de vinho?
– Eu nunca provei um. – respondi a ele, enquanto colocava o guardanapo de tecido sob o meu colo. Tobias havia pensado em tudo, desde a iluminação com base de lâmpadas a querosene até as quesadillas. O som das ondas do mar ao fundo só fez com que tudo parecesse ainda mais calmo.
– Bom, esse é o melhor que já tomei e quase não há álcool. – ele sorriu e serviu minha taça. – Eu acho que você vai gostar.
Quando ele despejou o vinho na sua taça e me incentivou com um aceno de cabeça para dar o primeiro gole, eu o fiz. O gosto era mais forte do que eu tinha imaginado, mas não era ruim. E Tobias estava certo: quase não percebi o gosto de álcool. Sua concentração era pouca e ficava quase imperceptível devido ao sabor da uva.
– Gostou? – Tobias perguntou, mesmo eu tendo a certeza de que meus olhos haviam brilhado em aprovação. Ele sorriu quando eu assenti e tomou um gole da sua taça. – Tomara que você goste de comida mexicana. Foi tudo o que fiz. – ele riu.
– Eu amo. Mamãe costumava cozinhar muito dessas e eu acabei aprendendo a fazer quando ela ficou doente. Aprendi a amar o tempero mexicano. É delicioso. – respondi.
Os olhos de Tobias refletiam pena quando eu mencionei minha mãe, mas o sentimento logo fora substituído e ele não insistiu no assunto. Eu gostava disso. Estava cansada de ser alvo de pena. Eu não gostaria de lembrar da minha mãe como algo triste. Ela era alegre e divertida. Eu gostava de lembrar dela dessa forma e não ser invadida pelas emoções de não tê-la mais aqui comigo.
– Eu fiz de tudo um pouco. Tacos, quesadillas, enchiladas... De alguma coisa você irá gostar. E mesmo se não gostar, minta para mim. Não suportarei a dor de você não ter gostado da minha comida. – ele brincou, enquanto servia meu prato.
Eu sorri. Já tinha provado dos seus dons culinários mais cedo e não duvidava de que ele fosse fazer diferente. Podia ver que pelo seu sorriso, o cara tinha o dom para isso. Ele levava jeito e fazia questão de deixar isso claro para todo mundo. Quando olhei para comida e vi que estava coberta por vários pratos diferentes, sorri. Não havia hipótese de que eu conseguisse comer tudo, mas eu iria tentar comer de tudo. Ele havia preparado tudo para nós, já que não havia mais nenhuma outra cadeira na varanda e nós estávamos sozinhos, embora eu não pudesse saber o motivo pelo qual ele fazia isso.
Bastou apenas que um pedaço da comida encostasse nos meus lábios para que eu gemesse em aprovação. Estava maravilhoso. Tão bom quanto o tempero da minha mãe, que já era uma especialista no assunto. Ela iria adorar Tobias se o conhecesse. Há muito dela sobre ele.
– Está delicioso. – respondi, enquanto dava mais uma garfada e a levava até minha boca. – Tudo o que tenho comido ultimamente tem sido pão e manteiga de amendoim e isso aqui está simplesmente... Uau. – soltei, não me dando conta no que essa terrível informação traria para nós.
Tobias franziu a testa, ficando um pouco pálido.
– O que você disse? – ele perguntou, controlando o tom de voz o máximo possível. Ele estava tentando manter a calma. – Eu não tenho pão e manteiga de amendoim na minha cozinha.
Como eu poderia explica-lo? Dizer que não pus minha comida na sua cozinha para que seus amigos não comessem dela seria egoísmo e minha mãe sempre me ensinara a ser altruísta. Não queria manchá-la com meu pensamento, mas se eu optasse pela mentira, seria muito pior.
– Eu tenho no meu quarto. – abaixei a voz. – Não queria que seus amigos comessem minha comida. Não tenho muito dinheiro para desperdiçar e eu também não tinha permissão para usar sua cozinha.
Tobias ficou pálido, com seu lábio se formando em uma linha firme, enquanto numa tentativa falha ele tentava controlar sua respiração. O que eu havia dito para deixá-lo tão furioso?
– Tobias, está tudo bem? – perguntei, cautelosa. Não queria que o jantar se transformasse num desastre. O clima estava agradável entre nós. Eu não queria estragar isso. Estava malditamente arrependida de ter aberto a boca.
– Você está me dizendo que só come manteiga de amendoim e pão enquanto está em casa? É isso, Tris?
Eu apenas balancei a cabeça em concordância, sem saber a importância daquilo.
Tobias estava tenso. Ele não respondeu ao que eu falei, apenas apertou os olhos com muita força e respirou com dificuldade. O peito dele subia e descia rapidamente. A camisa azul-marinho de manga comprida estava dobrada na altura do cotovelo, com os dois primeiros botões abertos e ele não se parecia em nada com uma ex–estrela do rock. Exceto por esse seu comportamento estranho.
– Tobias, eu...
– Pare. Não fale agora. – ele me cortou e eu obedeci.
Só depois do que pareceram horas, Tobias soltou um longo suspirou e voltou a me olhar. Ele estendeu sua mão sob a mesa e pôs em cima da minha. Seus olhos, que antes tinham uma mistura de raiva e frustração, se suavizaram quando pousaram em mim.
– A partir de hoje, quero que você coma da minha comida. – sua voz também estava suave.
Eu franzi a testa.
– Por quê? Estou bem com a minha. Contanto que eu não tenha que dividir com seu fluxo incessante de amigos, por mim tudo bem.
Isso o fez dar uma risada leve. Eu gostei do som. Tobias estava mais relaxado comigo agora.
– Não, quero que você coma algo da minha geladeira, do meu armário, da minha fruteira... Coma algo meu e coma na minha cozinha. Você é minha hóspede, Tris. Fiquei com a maldita imagem de você comendo essa porra de sanduíche de manteiga e não sei como superar isso. Por favor, se quer me ver são, coma da minha comida. Por favor. – ele insistiu, embora não precisasse fazer isso.
Eu não respondi de imediato. Pensei em sua proposta e visto que eu já estava me organizando para ir embora dali, não haveria problema em fazer o que ele me pedira por mais uns dias.
– Tudo bem. – concordei e levei mais uma garfada à boca, saboreando do jantar que Tobias havia preparado para nós, enquanto o observava aliviado fazendo a mesma coisa.
Nosso jantar fluiu de maneira calma. Tobias me fez algumas perguntas sobre a queimadura e como eu estava me sentindo. Fora a ardência incessante e a dor local, eu estava bem. Já tinha tido piores quando ainda era uma criança e tinha lidado com isso. Sorri para ele, que não estava muito convencido sobre meu estado, e nós mudamos de assunto.
Senti a necessidade de perguntar o porquê daquele jantar, mas estava conseguindo me controlar. Talvez fosse um pedido de desculpas por Nita, sua irmã que havia me queimado pela manhã. Ou talvez fosse apenas uma trégua entre nós dois. Ou então poderia ser o seu pedido de desculpas por ter sido um idiota na noite passada.
Dentre essas três possibilidades, eu estava torcendo para que a última fosse verdadeira.
– Você fez faculdade? – eu pergunto, enquanto nós estamos acabando de comer o jantar. Percebi que estava com mais fome do que imaginava, pois comi de tudo que Tobias prepara.
– Minha vida como estrela de rock não tinha muito espaço para isso, mas... Sim, eu fiz faculdade. Sou formado em Economia pela Harvard.
– Economia?
– Surpresa? – ele riu. – Eu levo jeito para coisa, estou sempre mexendo com bolsas e ações. Gosto da área. E você? Fez faculdade?
– Não. Mas eu quero tentar o vestibular quando puder. – dei de ombros, enquanto limpei o canto da minha boca com a ponta do guardanapo. – Por que desistiu de ser uma estrela, Tobias?
Pude ver que ele ponderou entre responder ou não à minha pergunta. Se isso o deixasse desconfortável, eu não insistiria no assunto. Quando Tobias perguntou sobre o câncer da minha mãe, eu fui sincera e respondi que não podia conta-lo agora. Ele respeitou e desviou o assunto. Se isso o deixasse tenso, eu faria a mesma coisa.
Quando abri a boca para falar algo, Tobias respondeu.
– O mundo da fama não é apenas flor, Beatrice. Quando você entra, é quase impossível sair sem suas sequelas. Eu tinha sonhos. Quando nasci, meu pai já era famoso no mundo inteiro. Pareceu-me legal até a adolescência, quando eu podia tirar vantagem disso. Depois, eu quis minha própria fama. Estava cansado de ser conhecido como o filho de Marcus Eaton. Entrei como vocalista na The Lost e o sucesso apenas veio até mim. Eu tinha 17 quando comecei minha carreira e só parei porque eu estava me tornando alguém que eu não queria ser. O meu pai.
Tobias suspirou, desviando seu olhar para longe de mim. Eu entendi. Era muita informação que ele não estava preparado nem acostumado a compartilhar. Dei-lhe o seu tempo. Sabia que ele iria continuar a falar. Quando ele se voltou a mim, pude ver a tristeza em seus olhos.
– As mulheres, as bebidas, a fama, o dinheiro, as drogas... – ele parou quando pronunciou a última palavra. Parecia ser a pior parte admitir que já tinha usado. Eu não fiquei muito surpresa. Era de se esperar que alguém tão famoso quanto ele fizesse isso. Ele também era jovem. Isso era “normal”. – Tudo estava me tornando completamente igual a Marcus Eaton. E o meu maior medo é que um dia eu me torne alguém como meu pai.
Eu entendi.
– Também tenho medo de ser como o meu. – respondi com sinceridade. Meu pai já havia sido muito bom para mim em outra época, mas agora ele era frio, duro e insensível. Eu não queria ser como ele. Queria ser como minha mãe era.
– Por causa desse motivo decidi largar tudo. Sinto muita falta de tocar minha música para que o mundo pudesse ouvir, mas não me arrependo da decisão.
Eu sorri para ele, orgulhosa por ser tão corajoso e feliz demais porque ele estava compartilhando sua vida comigo. Se iríamos ser amigos, esse era um grande passo para nossa relação. Eu estava gostando de conhecê-lo, só estava decepcionada comigo mesma por pensar nele em algo mais. Tobias estava se mostrando cada vez mais atraente, inteligente e interessante. Como poderia evitar a isso?
Quando estávamos completamente satisfeitos, Tobias se levantou e pediu licença para ir ao banheiro. Eu me levantei também, mas optei por ficar encostada no parapeito de vidro da varanda, olhando diretamente para o mar, enquanto as ondas iam e viam, batendo nas pedras e fazendo o barulho da calmaria.
– Tenho um presente para você. – Tobias falou atrás de mim e eu me virei para vê-lo com um pequeno embrulho branco na mão decorado com um perfeito laço vermelho no centro da caixinha.
Surpresa e sem saber o que dizer, peguei o pacote nas mãos e retirei-o do embrulho com cuidado, me deparando com um iPhone branco lá dentro, com uma capa dura e acessórios como fone de ouvido e carregadores.
Apertei o único botão central e a tela se iluminou. Não havia nada além das horas, um papel de parede simples e a frase “deslize para desbloquear”.
– Fiquei maluco quando você me disse que não tinha um. É por segurança, Tris. Toda mulher... Ou melhor, toda pessoa deve ter um. Torpedos, ligações e internet são ilimitados. Você pode usar o quanto quiser. Já gravei meu número, caso você tenha alguma emergência. Também há o de Christina e o de Will, mas eu prefiro que você ligue para mim se precisar de alguma coisa.
Ok. Muita informação e nada parecia fazer sentido para esse comportamento estranho dele.
– Eu não posso aceitar, Tobias. É muito gentil de sua parte, mas eu não quero ter dar mais despesas. – pus o celular de volta na caixa e estendi para ele. – O jantar foi ótimo e eu realmente agradeço a você, mas se você sente culpado pelo que sua irmã fizera hoje de manhã, eu já te disse que a culpa...
– Não é por Nita, Tris. Ouça. – ele pegou a caixinha e a pôs em cima da mesa. Segurou minhas duas mãos e entrelaçou seus dedos nos meus, nunca parando de olhar bem no fundo dos meus olhos. – Eu sinto muito pelo que Nita fez, mas o jantar não está sendo um pedido de desculpas pela minha irmã. Ela irá consertar isso por conta própria. Eu preparei tudo porque quero me desculpar por mim mesmo. Não tenho sido muito receptivo com você, Tris. Eu fui um completo idiota ontem.
Esperei por ele falar, sentindo meu coração acelerando novamente. Eu tinha plena certeza que Tobias podia ouvi-lo e sentia minhas bochechas avermelharem com o pensamento. Nem mesmo eu tinha ideia do quanto ele podia me afetar.
– Fiquei puto pelo que você disse. Não pensei quando chamei Shauna e a amiga dela. Estava cego pela mágoa e pelo álcool. Saber que você nos assistiu... Porra, isso está me matando, Tris. Eu juro pela minha alma que se eu pudesse voltar atrás, eu faria. Estou arrependido.
Ele soava sincero, eu não duvidava disso. E, embora meu coração me traísse no quesito de perdoá-lo por ontem, eu era inteligente o suficiente para saber que isso não daria certo. Tobias e eu erámos opostos, embora tivéssemos poucas semelhanças que ainda nos unia, como a música. Ele vivia em seu mundo perfeito, enquanto eu lutava contra as dificuldades para sobreviver.
Se as diferenças eram tantas, por que ficar com ele não me parecia errado?
– Não estou te pedindo para me perdoar, Tris. Fui um canalha, pisei na bola com você e sei disso. Só peço que me dê mais uma chance. Quero conhecer você. Quero conversar, saber qual sua comida favorita e quem você prefere entre Bach ou Beethoven. Também quero tocar com você, Beatrice. Quero muito. – ele sorriu. – Quero tentar o lance de amigos novamente. Receber a notícia de que você estava desmaiada no carro do meu irmão foi o suficiente para que eu perdesse a cabeça. Não quero mais manter você longe de mim. – ele pôs uma mecha solta da trança do meu cabelo atrás da orelha e esperou por minha resposta.
– Ok. Mas amigos não olham para amigas desse jeito. – eu brinquei, porque Tobias me encarava com algo muito mais forte que amizade.
Ele sorriu também.
– O lance de amigos só está valendo se você quiser, baby. – ele riu. – Só quero ir com calma dessa vez e provar que sou digno de você. Gosto de quem sou quando estou ao seu lado, Tris.
– Ok. – sorri novamente.
– Isso é tudo que você tem para mim? – ele tentou segurar o sorriso, mas fora em vão. Tobias estava divertido, leve e relaxado hoje à noite. – Eu passei horas ensaiando em frente a um espelho para receber um “ok” como resposta? Você é decepcionante, Tris.
– O que aconteceu com a parte de ir com calma? – rebati, semicerrando os olhos para ele.
– Tem razão. – ele de ombros.
A campainha da casa ressoou em alto e bom som, fazendo com que Tobias e eu olhássemos confusos. Já era tarde. Quem estaria na casa dele há essa hora? Pelo que eu sabia, Tobias estava cumprindo pena no orfanato e não poderia dar festas por mais alguns dias.
O pensamento de que Nita estivesse do outro lado da porta fez com que meu coração despencasse e eu senti um frio na barriga seguido por um tremor nas mãos e nas pernas. Eu não estava pronta para confrontá-la ainda e estava com medo de ser humilhada novamente. Também temia que ela estragasse minha noite com Tobias. Tudo estava sendo tão maravilhoso que eu não duvidava que fosse ela a me tirar do devaneio.
– Fique aqui. Eu não costumo receber visitas a essa hora, então não sei se é seguro. Volto logo. – Tobias num gesto singelo beijou minha testa e deixou a varanda, seguindo para o salão principal.
Pude ouvir a voz de Will ao fundo e respirei aliviada, mas ele não estava sozinho. A voz feminina seguida da dele fez com que eu me sentisse ainda melhor. A reconheci imediatamente. Christina, minha amiga, estava com ele.
– Tris, você tem visitas. – Tobias me chamou e eu andei até a sala de estar, onde Will e Christina estavam de pé, sorrindo para mim.
Minha amiga foi a primeira se apressar, dando-me um forte abraço, fazendo com que eu gemesse de dor com o contato do seu corpo sob minha barriga. Christina se afastou instantaneamente.
– Sinto muito. Nita é uma vaca louca mimada e egoísta. Ela sente ciúmes de você por ser o centro das atenções agora, principalmente por ser a do irmãozinho astro do rock. – ela piscou e eu virei meu rosto para olhar Tobias. Ele estava visivelmente desconfortável pela maneira como Christina se referia a Nita e pelo comentário bizarro dela, entretanto, ele não discutiu. – Você está bem?
– Sim. Tirando o fato de que eu tenho que tomar analgésico a cada três horas para aliviar a dor, eu estou bem. Como está no clube? Me senti horrível por deixá-los na mão.
Christina riu.
– Peter não perde tempo ou talvez tudo conspire a seu favor. Poucos minutos depois que você nos deixou, uma garota apresentou currículo para garçonete. Ela é um doce, mas senti sua falta.
Sorri para ela e olhei para os rapazes, que pareciam conversar sobre algo sério, pois Tobias estava tenso novamente e Will sussurrava para que talvez Christina e eu não pudéssemos ouvir. Voltei-me para minha amiga e com um aceno de cabeça discreto, apontei na direção dos garotos.
– Por que vieram até aqui? E por que você está com Will? – levantei as sobrancelhas. Alguma coisa não estava encaixando bem.
– Bom, parece que tem algo a ver com Nita. Ela saiu furiosa do clube e até agora não deu nenhum sinal. – Chris deu de ombros e abriu um sorriso que ia de orelha à orelha. – E... Estou com Will porque transei com ele! – ela deu um gritinho histérico, abafando-o com uma de suas mãos.
O quê?!
– Chris. – soei decepcionada, enquanto balançava a cabeça num gesto de desaprovação.
– Eu sinto muito, mas não consegui evitar. Aconteceu. – ela se explicou.
– Como aconteceu?! – tive a noção do que acabara de dizer e reformulei minha frase. – Não, esqueça o que eu disse. Quando foi isso?
– Ontem à noite. Ele estava bebendo no clube e era meu turno. Nós conversamos um pouco e ele pediu para me acompanhar quando meu turno acabasse. Não podia deixar essa oportunidade passar, Tris. Você não entende. – Christina soou cabisbaixa.
Embora eu não entendesse, sabia que Will não estava sendo completamente honesto com Chris e isso me partia o coração, por ambos os lados. Hoje de manhã ele havia me dito que não desistiria de mim, mesmo sabendo que eu nunca poderia correspondê-lo. Por que ele estava sendo tão frio em relação à minha amiga? Eu precisava avisá-la, mas temia que se eu falasse a verdade, ela se virasse contra mim.
– Sou apaixonada por ele há três anos, Tris. Meu coração está com ele e o que ele estiver disposto a me oferecer, eu aceitarei.
Não respondi. Não queria magoar Christina e nem fazê-la ficar com raiva de Will ou até mesmo de mim. Preferi permanecer calada, afinal isso era uma coisa deles e não minha.
Quando voltei a olhar na direção de Tobias, ele já estava olhando para mim cauteloso enquanto eu levantava as minhas sobrancelhas e tentava decifrá-lo. Fitei seus olhos e ele acenou com a cabeça para que eu me aproximasse. Eu o fiz. Então entendi que ele queria me dizer alguma coisa muito importante.
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