Estranha Perfeição
8 Capítulo VIII
Notas iniciais
TOBIAS EATON
– Porra, cara, qual é o seu problema? – Peter rosnou, enquanto seu olhar aquecia para mim. Ele fez um movimento para ir atrás dela, mas eu me pus no seu caminho.
– Ela está fora dos limites. – eu aviso a ele, dando um passo a frente. – Você precisa ficar bem longe dela, tá me ouvindo?
– Fazer a família trabalhar no clube é baixo, até mesmo para você, Tobias. – ele balança a cabeça.
– Foda-se o que você pensa. Fique fora disso e fique longe dela. Essa é a sua única advertência. – eu digo, com o tom de voz duro.
Antes que Peter possa dizer alguma coisa, eu saio e vou em direção à cozinha. Não me impressiona ver que as pessoas estão cagando para o que acontece aqui. Todas elas estão bêbadas demais para se importar com alguma coisa. Eu também estava pouco me importando com a festa aqui dentro. Meu único foco agora era Tris. Eu não entendia por que ela estava fugindo de mim.
Encontro Will vindo em minha direção. Não consigo decifrar o que ele tá sentindo. É uma mistura de confusão e raiva.
– A menina passou chorando. O que Nita fez? – ele pergunta, incapaz de conter o ódio ao pronunciar o nome da minha irmã.
– Deixe minha irmã fora disso. Eu não sei o que aconteceu, mas Tris está ferida. Vá até o quarto dela e veja se está tudo bem.
– É você quem deve consertar isso, porra!
– Eu tenho quase certeza de que ela não quer me ver.
– O que você fez? – Will rosna.
– Ela está chateada com alguma coisa. Por favor, vá até ela e conserte isso para mim. – eu praticamente implorei a Will. Se ele queria que eu ficasse de joelhos, eu estava fazendo isso agora.
Will seguiu em direção a dispensa e fechou a porta. Eu não sabia o que eu havia dito para machuca-la. O olhar vazio e perdido que ela me dera não tinha passado despercebido. Porra, ela saiu chorando. Eu repassei mentalmente nossa conversa milhares de vezes. Não havia nada de mais. Eu apenas havia ficado enciumado ao ver as mãos de Peter tocando-a. Diabos, isso não fazia o menor sentido, porra.
– Eu não posso acreditar que você vai ficar do lado dela! – a voz estridente da minha irmã me tirou de transe. De todas as coisas que eu evitar, Nita era de longe a maior delas.
– Não quero foder a porra da sua noite, Nit, mas se você continuar falando suas merdas, isso vai acontecer. – eu suspirei. – Não existe lado.
– Não?! Desde quando essa vadia chegou que você está diferente comigo. – ela pôs as mãos na cintura, numa postura defensiva.
– Desfrute da sua festa cara, irmãzinha. Não me faça perder a cabeça. – eu adverti.
– Eu odeio você, Tobias! – as lágrimas embaçaram sua visão. Merda. – Esse foi o pior aniversário da minha vida. Eu não quero vê-lo nunca mais!
Ela estava fazendo uma cena. Eu odiava quando Nita fazia isso. Ela estava o tempo todo tetando chamar atenção e agora tinha conseguido. Todas as pessoas estavam olhando para cozinha em direção a nós. Era patético. Todos eles abriram passagem quando minha irmã saiu pisando duro. Escutei a batida da porta principal e me dei conta de que ela estava indo embora. Eu precisava falar com ela. Quando pensei em ir atrás de Nita, a porta que dava à dispensa se abriu e Will saiu dela. Ele estava furioso. Eu estava tentando ler sua expressão quando senti seu punho atingir meu maxilar. Instintivamente eu me afastei e o encarei. Ele estava respirando fundo, tentando controlar sua raiva. Eu não tinha entendido porra nenhuma até ver seu olhar. Puta que pariu. Eu tinha machucado a garota.
– Ela está tão quebrada, porra. Você é um filho da puta! – Will rosnou e pude notar pelo seu tom que ele havia bebido demais. Isso não era bom. Muitas pessoas ainda olhavam para nós e isso só me deixou furioso. Eu odiava ser o centro das atenções há muito tempo.
– A festa acabou! – eu gritei para que cada um deles pudesse me ouvir com clareza. – Fora da minha casa! Agora!
Todos os convidados estavam saindo e eu fiquei satisfeito ao ver que eu ainda era respeitado. Embora a festa fosse da minha irmã, todos em Miami sabiam que eu controlava tudo. Nita estaria furiosa, mas eu lidaria com ela amanhã. Essa porra de confusão provavelmente iria virar manchete no jornal oficial, mas eu estava pouco fodendo para isso. Lidaria com eles depois também. Agora eu precisava ater certeza de que Will não iria dirigir até sua casa. Ele não podia sair assim. Então, depois eu me desculparia com Tris.
– Você. – eu apontei para Will. – Suba para o quarto antes que eu chute sua bunda.
Ele abriu um sorriso.
– Você está maltratando-a porque está atraído. Isso não faz a porra de sentido, mas não esqueça de quem ela é, Tobias. Tris não é idiota e já sofreu demais. Eu a conheço. Saiba que quando ela descobrir, ela não vai suportar e nunca vai perdoar você. Se afaste enquanto ainda dá tempo.
Lidar com Will bêbado não era exatamente a minha coisa favorita. Quando ele exagera no álcool, Will costuma falar muita besteira e eu não estava com paciência para aturá-lo. Apesar dele ter ido falar com Tris quando pedi, eu precisava ser rápido. Precisava me certificar de que ela estaria bem. Tinha a convidado para que ela se sentisse mais à vontade comigo. Não tinha sido uma das minhas melhores ideias.
Will começou a caminhar em direção às escadas, mas parou e se voltou para mim quando estava no segundo degrau.
– Eu estou gostando dela. Você não entende isso. Para você é só sexo e mais nada. Eu pensava assim também, mas ela é diferente. Ela cora quando você a faz um elogio e sua risada é o som mais bonito que eu já ouvi. Por favor, cara, não foda com a cabeça dela. Se você a assustar demais, ela vai fugir. Eu não quero que ela vá embora. Ela tem o coração mais bondoso que eu já conheci em toda minha vida. – ele soltou um suspiro cansado e voltou a subir, indo em direção ao seu antigo quarto.
Will não era nem um pouco intimidante, mas porra, ele era meu irmão. Por mais que eu quisesse ignorar esse pedido que ele havia me feito, eu não conseguia. Amava Will. Nós dois havíamos crescidos juntos e por um tempo éramos apenas eu e ele para cuidar de Nita. Então minha irmã se transformou numa puta egoísta e ele manteve distância de nós. Eu o entendi. Era mais seguro para qualquer um se manter longe das garras da minha irmã. Embora eu desconfiasse um pouco da relação deles. Nada passava despercebido por mim e Will não era tão bom em esconder algo. Porém, não era isso que estava me apavorando agora. Eu estava puto da vida por perceber que ele sabia várias coisas sobre Tris que eu não.
Droga, eu havia esquecido dela.
Abri a porta da dispensa e segui pelo pequeno corredor que dava até seu quarto. Odiava ter que deixá-la dormir aqui, mas era o mais seguro que eu poderia lhe dar. Tris era pura demais para o meu mundo em Miami. Quanto mais ela se aproximava, mas ela se feria. Tinha sido assim na festa hoje. Ninguém estava preparado para sua doçura.
Quando entrei em seu quarto, me deparei com seu vestido em cima da cadeira e sua figura esparramada na cama de solteiro. Eu quase não quis me aproximar porque tinha certeza de que era uma imagem do céu. Não havia possibilidade de algo ser tão bonito. Ela estava tão serena. Havia vestígios de que tinha chorado e isso fez meu peito doer. Não gostava dela chorando e me deixava confuso o fato disso ter tanta importância para mim. Não poderia misturar as coisas. Eu poderia me sentir atraído por ela, contanto que eu mantivesse esse sentimento para mim e isso não se tornasse mais forte. Eu precisava ter o controle de tudo. Minha vida estava boa. Não precisava do drama Tris agora.
Ela fazia um som adorável enquanto dormia e instintivamente meu sorriso estava lá. Eu estendi uma das minhas mãos e toquei seu cabelo. Eu gostava disso. Era macio e tinha cheiro de brisa. Me lembrava o amor e eu era louco pelo mar. Normalmente as mulheres cheiravam todas iguais: uma mistura de um xampu caro e fragrância Victoria Secret’s. Na maioria das vezes o cheiro costumava ser enjoativo. Não como Tris. Tris tinha cheiro doce mestiço à areia do mar.
Porra, eu estava fazendo de novo. Estava colocando-a em um pedestal e comparando-a com as outras. Tinha que parar com isso. Precisava sair desse quarto agora.
Dei uma última olhada na figura loira à minha frente e caminhei para fora desse quarto. Embora fosse pequeno, Tris parecia estar confortável e isso era o que me mantinha são. Bastava apenas estar um pouco quente e eu perderia a cabeça. A mandaria para o andar de cima e isso foderia a merda toda. Ali ela estaria exposta. Nita acabaria machucando-a e eu amava minha irmã. Tris representava dor e eu não poderia escolher entre ela e Nita. Minha irmã tinha tudo de mim. Eu estaria falando com Tris amanhã e então manteria distância. Estava quase esquecendo do que ela significava para minha família.
Não consegui pegar no sono porque as palavras de Will permaneciam frescas em minha mente. Ele estava observando-a diariamente. Ele sabia quando ela corava. Ele sabia o som da sua risada. Eu não. Ela não ria quando estava comigo. Ou eu a deixava tensa ou eu a fazia chorar. Eu não gostava disso. Queria saber mais coisas que Will sabia. Tinha vontade de conhece-la. A imagem dela tocando piano não saía do meu pensamento. Eu nunca tinha visto alguém tocar com tanta emoção. Era algo surreal. Eu conseguia sentir a sua ligação com a mãe. Tinha o desejo de saber mais sobre a relação delas. Pela maneira como ela havia falado, parecia ser algo incrível de olhar. Meu peito doeu. Tris não tinha mais ninguém por ela agora. Isso me fazia odiar ainda mais o pai dela. Como ele pôde abandoná-la?
Empurrei a loira da cabeça e me concentrei em dormir. Não precisava me sentir ainda mais culpado por ela sofrer tanto.
Ser acordado com fortes batidas na minha porta não é o melhor jeito de começar o dia. Quem quer que fosse, eu o mandaria se foder. Tinha conseguido dormir por volta das quatro da manhã e agora quando olhei no relógio não eram nem oito horas. Me levantei e chutei o cobertor para longe, enquanto caminhava em direção à porta. Ninguém tinha permissão para ficar nesse andar. Talvez Lucy estivesse com problemas. Ela só batia aqui para fazer a faxina uma ou duas vezes por semana. Ou talvez Tris precisasse da minha ajuda. Despertei rapidamente com o pensamento de que algo estivesse errado com ela.
Dar de cara com Will à porta foi a minha decepção. Ele parecia que havia acabado de acordar também. O olhar preguiçoso e sua cara de poucos amigos só me fizeram ter certeza. Ele estava péssimo. Essa ressaca seria uma das piores.
– O que você quer? – eu perguntei.
– O delegado Max está lá em baixo. Acordei com a maldita sirene nos meus ouvidos. Você não ouviu? Era alto para caralho.
– Você tá brincando comigo. – eu soltei uma risada seca. O senso de humor de Will era péssimo. Eu iria chutar sua bunda
– Uma porra. Acha que eu estaria acordado tão cedo com uma ressaca infernal? – ele pôs a mão na cabeça e apertou os olhos. – Resolva aquela merda.
Ele desceu as escadas e sumiu do meu campo de visão. Eu não sabia que ele estava falando sério até agora. Resmunguei um palavrão e bati a porta do meu quarto, descendo os dois andares e chegando à sala principal. O delegado e mais dois policiais estavam sentados no sofá, enquanto Lucy lhes servia algo que eu deduzi ser café. Eu não estava com paciência para polícia agora. O delegado Max me odiava por ter dormido com suas duas filhas e desde então queria me colocar atrás das grades. Era inútil fazer isso. Eu não era um estúpido fora da lei. O máximo que cometi foi dirigir enquanto tinha tomado uísque. O teste do bafômetro havia me condenado, mas nada que uma fiança não resolvesse. Eu tinha dinheiro. Ele nunca iria conseguir.
– Delegado. – eu o saudei, assim que pus meus pés na sala de estar. Os três se levantaram quase imediatamente.
– Tobias, é um prazer revê-lo. – ele sorriu.
– Eu não posso dizer o mesmo. – eu sorri também. – Nita fez algo? Seja o que for, eu pago quanto quiserem.
– Não é sua irmã dessa vez. – ele estendeu alguns papéis para mim. – Tenho recebido denúncias das suas festas barulhentas que duram até o outro dia e eu lhe avisei sobre isso.
– É uma ilha privada. – eu revirei os olhos. Ele não estava mentindo. Max tinha me avisado sobre as denúncias, mas eu claramente não me importava.
– Sim, mas não é sua. – ele disse sério. – Você age como se fosse o único a viver aqui.
– Foda-se, eu posso comprar toda a vizinhança. – dei de ombros.
Ele me deu um olhar furioso.
– Cuidado como fala comigo, garoto. Eu posso acusa-lo por desacato à autoridade. – eu cruzei os braços sob o peito. Só queria que ele acabasse de falar logo. – Além do mais, toda essa gente tem tanto dinheiro quanto você. Não seja infantil. Dinheiro não compra tudo.
– Compra sim. – eu rebati com um sorriso satisfeito no rosto. Era divertido provocar o delegado. – Seja como for, o que você realmente quer?
– Além das denúncias das suas festas, você está sendo acusado por uso de drogas. – eu pisquei. Ele havia ficado maluco.
– Isso soa ridículo até mesmo vindo de você. Eu não uso esse tipo de coisa. A única porra de droga que eu uso são suas filhas na minha cama.
– Delegado... – um policial advertiu Max, quando ele fechou o punho e deu um passo em minha direção. Ele respirou fundo e relaxou a postura tensa. Então manteve o sorriso no rosto enquanto se voltava para falar comigo.
– Eu não disse que você usou. Mas, de acordo com todos esses papéis, no aniversário da sua irmã, que aconteceu ontem à noite, havia vestígios de droga ilegal.
– Que se foda, todos os que estavam aqui eram de maior e eu não vou arcar consequência de ninguém.
– Mais uma vez, você está enganado. – Max estendeu três fotos de garotas que eu não conhecia. – Haviam três adolescentes aqui. E duas delas acompanhavam seus amigos Uriah e Zeke.
– Bom, isso é problema dele. Se não se importa, o senhor está convidado a sair da porra da minha casa.
– Mais um engano, Sr. Eaton. Como você era o anfitrião da festa e o responsável por ela, isso é responsabilidade sua. Isso não está aberto a discussões. A justiça concorda comigo. Eu sou a justiça.
Suspirei fundo, sabendo que o delegado não ia desistir.
– Ok. – eu solto. – Você venceu. Quanto tenho que pagar dessa vez?
– O pagamento não será em dinheiro dessa vez, Tobias. Devido às inúmeras denúncias de música alta, dirigir bêbado, sempre estar metido em problemas e nada disso colocar ordem em na sua vida, a justiça determinou que sua fiança fosse paga por prestação de serviço à sociedade durante um mês.
– Isso é ridículo. – eu ri, porque era a única coisa que eu havia achado realmente engraçado desde o momento em que acordei.
– Não vejo em que achar graça, Sr. Eaton. A justiça já determinou...
– Eu estou cagando para justiça! Exijo que falem com meu advogado.
– Isso não será possível, visto que o Juiz já determinou. Isso também não está aberto a discussões.
– E se eu não fizer?
– Teste a justiça, Tobias. Vá em frente. Estou aguardando apenas um motivo para ter você atrás das grades. – ele pôs a xícara em cima da mesinha de centro e ajeitou os papéis. – Nós já encerramos. Sempre é bom rever você, garoto. Todas as informações do local onde você trabalhará pelas próximas semanas estão nesse arquivo. Qualquer dúvida, procure a delegacia. E não tente rebater com seu advogado. A decisão já foi tomada. – ele sorriu. – Tenha um bom dia. – em seguida saiu pela porta principal, seguido por seus dois colegas de trabalho.
Eu queria quebrar alguma coisa, então peguei a bandeja com as três xicaras de café e as arremessei contra a parede. Lucy estava chegando à sala para recolher e tomou um susto ao ouvir o barulho dos estilhaços.
– Senhor? Está tudo bem? – ela me perguntou, um pouco incerta se devia se aproximar ou não. – Eu devo preparar um chá ou algo assim?
– Não. – eu respondi e desejei que eu não soasse tão duro. Lucy era a minha governanta que se recusava a se aposentar aos seus cinquenta e cinco anos. Ela esteve comigo desde que eu era criança. – Desculpe. Eu estou com muita coisa na cabeça. – eu me abaixei para recolher a bandeja e o que restou das porcelanas das xícaras.
– Deixe-me fazer isso. – ela rapidamente foi até o chão e começou a juntar. Eu odiava fazê-la limpar minha bagunça.
– Eu posso fazer isso, Lucy.
– Não. É o meu trabalho. O senhor precisa descansar a cabeça.
– Eu já disse para parar de chamar de “senhor”. Eu não sou um velho rabugento. Sou seu amigo, Lucy. Você praticamente me criou. Me chame de Tobias. Eu gosto do meu nome.
– Como quiser. – ela sorriu e piscou para mim.
Lucy havia sido minha babá desde meus cinco anos. Ela trabalhava na casa do meu pai e cuidava de mim todas as vezes que eu ia visita-lo. Quando ela se mudou para Miami quinze anos depois, eu a contratei. Ela havia me criado e era de bom coração. Eu queria mantê-la por perto. Foi uma das poucas pessoas que não se deixou atingir pelo veneno da minha irmã.
Depois de ajuda-la a limpar toda a bagunça, eu sentei o sofá e abri o envelope que o delegado havia me dado. Era melhor ler isso e entender como iria funcionar. Eu poderia rebater com Max e levar esse caso adiante, mas eu não faria isso porque era o que ele queria que eu fizesse. Eu poderia lidar com um trabalho voluntário por um mês. Eu tinha o hábito de fazê-lo quando eu não estava de férias e mantê-lo em anonimato. Não queria que o mundo aplaudisse minha ação. Se eu estava fazendo aquilo era porque me mantinha bem cuidar das outras pessoas. Eu não precisava dos malditos jornalistas no meu pé. E além do mais, não seria difícil. Eu amava crianças e eu levava jeito com elas. Era divertido.
Sorri pensando na ideia tola do delegado me fazer pagar por ter transado com suas filhas. Isso era de longe a melhor coisa que ele já tinha feito por mim. Me lembraria de agradecê-lo quando tudo acabasse. O único ponto negativo desse trabalho era que ele começaria hoje e eu não havia me preparado. Porém, levando em conta o quanto eu tinha acordado cedo, eu tinha tempo de sobra para chegar lá.
Voltei para meu quarto subindo de dois em dois degraus e tomei um banho, antes de vestir um jeans e uma camiseta. Peguei minha carteira e meu óculos escuro. Passaria no clube para dar uma bronca em Zeke e Uriah, e então eu seguiria para o orfanato. Eu trabalharia lá durante a tarde, e os dias seriam contados até que completassem trinta. Então eu estaria livre e minha dívida paga.
Dirigi até o Teller Club e estacionei na vaga destinada aos sócios. Uriah e Zeke estavam sempre aqui. Eles eram viciados em golfe e aqui era o melhor lugar da cidade para jogar. Desci do carro e caminhei até o campo. Quando os avistei, segui em direção até eles.
– O lendário Quatro! A que nos deve a honra da sua visita? – Zeke brincou, enquanto Uriah se preparava para a tacada.
– Vá se foder. – eu sorri. – Vocês dois me trouxeram problemas.
– A culpa foi do Zeke. – Uriah disse, enquanto se juntava a nós.
– Cale a boca. – Zeke advertiu. – Como assim, cara?
– As três loiras de ontem. Duas delas eram de menor.
– Porra. – Zeke resmungou.
– Isso é uma merda. – Uriah disse.
– Imagino que os dois não sabiam. – eu falei e eles negaram. – Que seja. Da próxima vez sejam mais cuidadosos. Por causa disso terei trabalho num orfanato durante um mês.
Zeke reprimiu os lábios para não rir, mas Uriah deu solto uma gargalhada extremamente alta.
– Caralho, o delegado ainda não te perdoou. – ele zombou. – Isso é engraçado como o inferno, Eaton. Você está fodido.
– Não é tão ruim assim. Provavelmente é o mesmo orfanato onde eu paguei minha detenção por dirigir bêbado uma vez. As crianças são adoráveis. – Zeke falou.
– Por falar em adorável, ela está vindo. – Uriah disse e eu virei meu rosto para saber do que ele estava falando.
Minha respiração falhou. Tris havia parado o carrinho de bebidas e desceu dele vestida com o minúsculo uniforme do clube. Eu já tinha fodido meninas com esse traje porque ele era curto e sexy o suficiente para não deixar muito para imaginação. Mas porra, nela ficava incrível. Eu não tinha reparado bem da última vez que eu a tinha visto. Adorável não a descreveria bem. Ela estava sexy como o inferno, mas a inocência em seus olhos fazia o pacote vir completo. A garota e vestia como uma adulta, mas não conseguia ofuscar a essência de menina. Isso era fascinante.
Quando ela acenou para os garotos e me notou, seus ombros ficaram tensos. Eu não havia entendido até me lembrar o porquê. Eu havia esquecido de me desculpar com ela por ontem a noite. Merda.
– A nossa favorita está de volta! – Zeke anunciou.
– Com duas latas de Corona que vocês adoram. – ela sorriu para Zeke e Uriah e os entregou as latas.
– Ela é linda e sabe a minha cerveja favorita. Eu não sei se consigo resistir a isso. – Uriah colocou dramaticamente a mão no peito e fechou os olhos. Ele conseguia ultrapassar os limites do ridículo.
Tris sorriu para ele e então se voltou para mim. Ela estava séria.
– O que você quer beber? – ela perguntou, torcendo as mãos nervosamente.
– Nada. Eu já estava de saída. Você tem um minuto para mim?
– Não. – a dureza em sua voz me surpreendeu. – Eu estou no trabalho. Tenho mais bebidas para servir e meu turno ainda não acabou.
– Sobre ontem à noite... – eu comecei, mas ela me interrompeu.
– Eu entendi. Não preciso de explicação. Eu só não entendo porquê você me convidou se não queria que eu estivesse lá. Foi a pior humilhação da minha vida, Tobias. Só porque uso um vestido vagabundo e sapatos idiotas com um significado para mim não significa que eu não tenho sentimentos. Mas eu capitei a mensagem. Vou me manter longe das suas festas. E fique feliz que em pouco tempo estarei longe da sua vida também.
E ela voltou para o carrinho e deu a partida, antes que eu pudesse falar alguma coisa. Eu estava confuso para merda. Nada do que ela havia dito fazia sentido. Não havia nada de errado com a sua roupa. Ela estava tão linda que doía olhar. Isso foi um dos motivos que me fez ser duro com Peter. Ele estava tocando-a e podia ver que ele a desejava. O inferno isso. Se ele a tocasse, eu chutaria seu maldito rabo. Ela não era para ser tocada. Tris era aquela garota que merecia o príncipe encantado e que devia ser admirada de longe. Peter não conseguia controlar suas calças. Eu precisava protege-la e havia feito isso ontem. Só não entendi porquê ela estava tão chateada.
– Parece que você tem muitos problemas para lidar, Tobias. – Zeke anunciou e eu me dei conta de que ele e Uriah haviam escutado toda conversa. – Eu imagino que ela ainda não sabe.
– Não. – eu confirmei.
– E você pretende conta-la?
– Eu só pretendo protege-la no momento. Fique fora disso. É assunto meu. – eu respondi e os deixei.
Meu apetite havia sumido devido à ideia de Tris me servindo. Eu precisava evita-la até que estivéssemos em casa. Então teríamos uma conversa de verdade e ela me faria entender as coisas. E aí tudo estaria resolvido.
Caminhei de volta até meu carro e dirigi para casa. Eu ainda tinha algumas horas antes de começar o turno no orfanato. Andei em direção à minha sala do piano e permaneci ali, sentado olhando para ele. Queria me convencer de que eu havia vindo aqui para estar mais perto da música, mas a verdade é que eu estava aqui porque esse lugar me lembrava Tris. A imagem dela nessa sala jamais seria capaz de ser esquecida. Eu ainda estava fascinado.
Os cliques de salto vindos de fora me fizeram levantar e caminhar até a sala de estar principal. Nita estava caminhando até mim com uma carranca no rosto. Ela não estava acostumada a ser ignorada. Não por mim.
– Você sequer ligou para pedir desculpas! – ela gritou, assumindo a mesma postura defensiva de sempre. Eu estava cansado de lidar com esse lado da minha irmã.
– Tá bem, Nit, você está certa. Eu deveria ter ligado. Sinto muito. – eu suspirei.
– Era o meu aniversário e aquela vadia arruinou tudo! – ela fez bico. Eu não queria que ela falasse desse jeito a respeito de Tris, mas eu estava cansado demais para prolongar essa discussão.
– O que Tris tem a ver com isso?
– Tudo! O fato dela aparecer com roupas imundas e sujar minha festa com sua presença foi humilhante. Eu não sei se podia suportar aquilo. O melhor que eu pude fazer foi dizê-la a verdade. Era vergonhoso tê-la no meu aniversário.
Eu iria ignorar minha irmã, mas o que ela acabou de dizer fazia sentido. Fazia a porra de todo sentido para Tris estar chateada comigo. Quando eu falei da sua roupa... Merda, isso não. Tris tinha entendido tudo errado. Ela pensou que eu achava que sua roupa era vagabunda.
Puta que pariu!
– Você a fez chorar. Nita, como você pôde?! – eu gritei para minha irmã que no mesmo instante se encolheu. – Você a humilhou na frente de todo mundo, porra!
– Ela estava manchando minha imagem aparecendo na minha festa. Ela precisava ir embora! – as lágrimas da minha irmã começaram a escorrer. Isso teria funcionado, se eu não estivesse tão furioso ao ponto de enxergar o quanto Nita tinha sido má. Eu não queria que Tris se sentisse indesejável. Porra, eu queria que ela se socializasse. – Não acredito que você vai ficar do lado dela de novo! Isso é injusto comigo, Tobias!
– Porra, não existe essa maldita coisa de lado! – eu gritei. – Você foi má. Você foi egoísta e agiu como todos os jornais descrevem você! Eu não acredito que eu criei um monstro.
– Não quero mais ouvir isso! – ela pôs as mãos em seus ouvidos. – Eu não acredito que falou isso para mim. – ela choramingou e eu percebi que havia sido muito duro. Por mais que ela merecesse, eu não deveria tê-la chamado de monstro. Ela era minha irmãzinha.
– Desculpe, Nit, eu sinto...
– Não! – ela gritou. – Você não sente nada. Não por mim. Você não me ama mais. Eu vou sumir da sua vida! – ela começou a caminhar para fora.
– Nita, espere. – eu segurei seu braço. Ela olhou para mim com os olhos vermelhos e molhados.
– Não. Só lembre que quando chegou a hora de escolher, você escolheu ela. – minha irmã saiu em direção ao seu carro e deu partida para longe da minha casa.
Eu massageei minhas têmporas antes de fechar a porta. Não estava nem na metade do dia e eu já tinha tido demais por hoje. Primeiro Will, depois o delegado, em seguida Tris e agora Nita. Eu estava fazendo uma confusão. Precisava consertar as coisas. Mas agora eu tinha que ir até o orfanato ou eu chegaria atrasado e eu não queria passar uma má impressão. Não para aquele lugar.
Peguei minhas chaves e dirigi até o endereço que havia sido informado no arquivo. Ao chegar me deparei com algo pouco maior do que uma casa de classe média. Estava localizado em um bairro estável e isso me aliviou um pouco. Eu não queria ter que andar com algum segurança no meu pé. Odiava isso.
Quando desci do carro e toquei a campainha, uma loira de uns trinta e cinco anos atendeu à porta. Ela pareceu me reconhecer e seu sorriso cresceu.
– Quando o delegado Max me falou, eu não acreditei. O humor dele costuma ser bem ruim. – ela sorriu. – Mas aqui está você. Será um prazer nosso tê-lo como um colaborador. Eu sou Jeanine. – ela estendeu a mão e eu a cumprimentei.
– Tobias Eaton. – eu disse com um sorriso.
– Eu sei quem você é. O lendário Quatro. – ela riu. – Será bom tê-lo conosco. Entre e eu te mostro o lugar. Garanto que não será um fardo como todos pensam que é. E além do mais, você está com sorte. Nós temos duas voluntárias esse ano e elas vão te ajudar no que você precisar.
Eu a segui, enquanto Jeanine me mostrava o local e explicava tudo que eu tinha que fazer. Era variável. Em alguns dias eu cuidaria da organização da biblioteca, em outros eu teria que fazer a limpeza do lugar, em outros eu deveria cozinhar e cuidar das crianças. Isso era suportável por um mês. Eu poderia lidar com isso, mas quando duas garotas surgiram na minha frente, eu paralisei. O destino estava com uma puta raiva de mim.
– Essas são as meninas de quem eu lhe falei. – Jeanine disse, com o sorriso nunca deixando seus lábios. – Christina e Tris, conheçam Tobias Eaton. Ele estará conosco pelo próximo mês.
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