Estranha Perfeição
9 Capítulo IX
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
Tobias estava tão surpreso quanto eu. Os olhos arregalados e suas sobrancelhas levantadas eram o que confirmava isso. Eu olhei para Christina e a vi com um sorriso malicioso nos lábios. Rapidamente mudei minha postura e tornei a falar, antes que a cena pudesse ficar mais constrangedora.
– Nós já nos conhecemos. – eu me apressei em dizer. Jeanine abriu um sorriso.
– É claro que conhecem. – ela piscou. – Quem não conhece o lendário Quatro? – uh... Ela estava usando o nome artístico dele. Eu não sabia se isso era bom. De certa forma, ainda era estranho. Jeanine também havia entendido errado. Eu não conhecia Tobias por sua fama. Ele era apenas o enteado do meu pai. Essa era a única maneira de eu tê-lo conhecido.
– Tris está morando comigo. – Tobias disse e eu levantei meu olhar para ele. Ele estava sorrindo como um maldito cafajeste. Isso não era justo.
Jeanine arregalou os olhos e só então percebi que ela havia entendido errado mais uma vez. Oh, não.
– Não é bem assim. Meu pai é casado com a mãe dele. Eu só estou lá até que meu pai volte de viagem. Nós somos como irmãos postiço. – eu não sabia porquê eu havia falado isso. Eu tinha sentido necessidade de explicar a ela, mas então eu não podia me concentrar com um par de olhos azuis me observando como se pudesse enxergar minha alma.
Jeanine não parecia muito convencida, mas eu não poderia fazer mais nada. Essa era a verdade, embora não fizesse muito sentido. Ela optou por assentir, mesmo que ainda houvesse incerteza.
– Bom, como vocês já tem algum tipo de afinidade, eu deixarei que Tris lhe mostre os deveres. – ela sorriu amigável para mim. – Christina, venha comigo.
Eu não esperei por nenhuma piada da minha amiga. Comecei a caminhar em direção a um pequeno cômodo que havíamos improvisado para virar uma biblioteca. Esse orfanato possuía muito espaço, porém pouco móvel. Ele sobrevivia à base de doações, então era de se esperar algo assim. Nós tínhamos poucos colaboradores. O mundo não estava tendo mais piedade de lugares assim. Essas crianças foram abandonadas pela sociedade. O amor e a compaixão estavam frios. O altruísmo era coisa do passado. Eu me orgulhava da mulher que minha mãe era. Ela tinha sido gentil e bondosa. Ela era rara. Eu sentia muito sua falta.
Quando ouvi passos atrás de mim lembrei de que eu não estava sozinha. Tobias e eu estávamos agora na biblioteca. As pequenas cinco mesas coloridas estavam espalhadas por toda sala. Christina e eu tínhamos comprado um dia depois da nossa primeira visita. Eu tinha retirado uma quantia do dinheiro que eu iria comprar a minha casa, mas eu me sentia realizada. Quando estivesse pronto, as crianças iriam adorar esse lugar.
– Você está quieta. – Tobias falou, enquanto eu pegava uma das caixas de livros doados. Eu não respondi. Não havia nada para explicar. Eu não queria conversar com ele. A humilhação que eu havia sofrido no aniversário de Nita tinha sido o suficiente para deixar claro que eu devia fazer o que ele me pedira: manter distância. Eu não pertencia a seu mundo. – Por onde eu começo?
Agradeci mentalmente pela mudança de assunto e acenei com a cabeça em direção à pilha de caixas. Tobias ainda estava apoiado no batente da porta de braços cruzados olhando para mim.
– Nós temos que separar os livros por idade. Depois daremos banho e comida para as crianças Então assaremos os biscoitos enquanto elas brincam. Depois do lanche elas costumam tirar uma soneca. Então você pode ir, eu acho. Depende do horário que Jeanine lhe deu.
Ele me observou por um momento.
– Você vai embora depois que as crianças dormem? – ele perguntou.
– Eu geralmente fico mais um pouco para limpar a bagunça que elas fazem. Quando é noite Jeanine assume. As crianças estão mais calmas. – eu pus uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e dei de ombros quando levantei minha cabeça para olhá-lo.
Tobias mantinha o olhar fixo em mim. Eu senti minhas bochechas queimarem. No entanto, por mais tentador que fosse desviar o olhar, eu mantive meus olhos nos dele. Durou apenas segundos antes dele assentir e pegar uma caixa.
Nós começamos a empilhar os livros de acordo com a idade em silêncio. Eu tentei manter minha atenção apenas na tarefa, ao invés de me perder no intenso mistério daqueles olhos azuis. Ele parecia estar sempre escondendo algo. Eu tinha quase certeza de que se eu os olhasse bem de perto eu pudesse enxergar o verdadeiro Tobias.
– Tris. – Tobias me chamou e eu olhei para ele. Ele tinha uma expressão triste em seu rosto. – Eu sinto muito.
Eu juntei as sobrancelhas, confusa. Eu não sabia onde ele queria chegar. Não estava entendendo o motivo da sua declaração.
– Por ontem à noite. – ele me lembrou, parecendo poder ler meus pensamentos. – A festa da minha irmã. Eu sinto muito por aquilo.
Eu tinha estado tão distraída e concentrada em empilhar os livros que havia esquecido. Não era uma noite que eu gostaria de lembrar. Se eu pudesse apaga-la da minha vida, eu faria. Tinha sido desastroso de humilhante. Eu chorei por horas até conseguir pegar no sono. Tinha me lembrado o primeiro e único baile da escolha que eu havia ido. Só que dessa vez eu não tinha a minha mãe para me consolar.
Droga, eu não podia chorar agora.
– Tudo bem. – eu falei e senti minha voz vacilar. Eu só não queria que ele continuasse esse assunto.
– A minha irmã não lida muito bem com as coisas se ela não é o centro das atenções. Eu conversei com ela hoje. Eu não sabia que ela lhe tinha dito coisas tão horríveis. Eu sinto muito, Tris.
Ele estava sendo sincero. Minha mãe tinha me ensinado a ler as pessoas. Eu podia enxergar no brilho dos seus olhos que Tobias estava me dizendo a verdade. Só que isso não apagava a dor que eu tinha sentido. Eu estava me cansando de ser humilhada naquela casa. Eu não pertencia àquele lugar. Nita me odiava e Tobias, por mais gentil que estivesse sendo ao me deixar ficar em sua casa, não parecia se importar comigo. Ele conversava com sua irmã a respeito das coisas más que ela fazia, mas isso não significava que era por minha causa. Ele estava ensinando-a a ser uma pessoa boa.
– Eu só não entendo porquê ela me odeia tanto. – eu deixei escapar.
Eu realmente não entendia. O ódio que queimava os olhos de Nita quando ela olhava para mim era complexo demais para entender. Não fazia o menor sentido. Eu não falava com ela ou sequer ficava no mesmo lugar. Eu mantinha distância, tanto para não incomodá-la e tanto quanto para não me ferir. Mas a menina era venenosa. Era mimada e egoísta, e eu tinha sido o alvo que ela havia escolhido. Eu só não entendia o porquê de tudo. Eu não lhe dava motivos.
– Ela se sente ameaçada por você. Você é linda e doce. Você não precisa de esforço para atrair as pessoas. É natural. Basta um sorriso seu e o mundo inteiro cai aos seus pés. E ontem à noite... – ele suspirou e olhou para mim. – Você estava magnífica, Tris. Todos se encantaram por você. Nita não está acostumada a ser deixada de lado. Ainda mais em suas festas.
Uh. Então Tobias não achava que meu vestido era vagabundo. Eu não queria que isso tivesse tanta importância, mas ao ouvi-lo dizer coisas tão doces sobre mim, meu coração se aqueceu, como se a pequena chama que ainda estava viva se transformasse em um verdadeiro incêndio. Eu sentia meu peito queimar. Eu não queria admitir que Tobias mexia comigo. Por mais óbvio que fosse.
– O que eu disse para deixar essas bochechas vermelhas? – ele sorriu.
– Ontem... Eu pus a minha melhor roupa. Eu sei que não se compara ao que vocês vestem por aqui, mas eu queria fazer novos amigos. Eu não sabia como deveria ir e ouvir você dizendo que eu fiquei bonita é... Especial. – droga. – Obrigada.
– Você é linda, Tris. Ficaria maravilhosa mesmo vestida com um saco de lixo. – Tobias brincou.
– Obrigada. – eu agradeci mais uma vez, desejando que ele parasse. Eu estava começando a ficar sem graça. Se ele continuasse, eu não saberia o que falar e provavelmente faria papel de boba.
Nós ficamos em silêncio e eu estava acabando minha última caixa. Tobias também estava fazendo um ótimo trabalho. Eu olhei para ele de vez em quando e o peguei olhando para mim. Ele sorria, mas nada mais que isso. Nós não tocamos mais em nenhum assunto e, diferentemente de mais cedo, o silêncio agora era confortável. Talvez estivéssemos dizendo mais coisas agora a que quando conversávamos.
– Você me chamou de irmão postiço mais cedo. – ele arqueou as sobrancelhas. – Jura, Tris? – Tobias abriu aquele sorriso insinuador. Eu estava ferrada. Como eu iria explicar o que eu queria dizer sem que parecesse uma tonta? Eu não queria me enrolar. Seria desastroso demais.
– Não queria que Jeanine entendesse errado. – comecei. – Eu sei que você não me considera sua família. Eu prometo esclarecer com ela depois. – eu torci minha mãos, temendo que ele não acreditasse em mim.
– Não estou chateado com o fato de você ter me chamado de irmão, Tris. – ele me tranquilizou. – Eu só estou curioso. – Tobias se aproximou de mim e eu dei um passo para trás, batendo as costas na parede. Ele estava perto demais, mas não parecia se preocupar. Eu, no entanto, estava tremendo. – Não fique nervosa. – ele pôs uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. – Você pensa em mim como um irmão, Tris?
Não. Mas eu não estava pronta para admitir agora. Ele estava muito perto e a maneira como ele me olhava me dizia que ele estava interessado em mim. Eu tinha recebido muitos olhares e cantadas quando cheguei aqui e tinha aprendido a identificar quando alguém me queria. Tobias parecia se sentir atraído, mas quando eu o deixava se aproximar demais, ele fugia. Era injusto.
Ele aproximou seus lábios da minha orelha.
– Eu não penso em você como uma irmã, Tris. – ele sussurrou. – Foda, eu só penso em ter você comigo.
– Você está perto demais... – eu disse, porque ele não parecia entender o quão errado isso parecia.
– Eu sei. Porra, como eu sei. Mas eu não quero ficar longe. Eu não consigo mais ficar longe de você.
Ele se aproximou ainda mais e eu entrei em pânico. Eu sentia sua respiração nos meus lábios enquanto ele fechava os olhos e inalava profundamente. Ele abaixou a cabeça e beijou meu ombro nu, fazendo com que sentisse calafrios. Tobias continuou a inspirar meu cheiro e começou a balbuciar coisas sem sentido.
– Eu imaginava uma pessoa diferente, levando em conta que eu conheço seu pai. Você não é como ele. Você é tudo aquilo de que um cara como eu deve ficar longe. Eu quero proteger você, Tris. Quero proteger você de mim... – ele continuou a dizer coisas sem nexo. Eu fechei os olhos e desfrutei da incrível sensação de que era tê-lo beijando meu pescoço. – Não posso tocar em você. Quero tanto fazer isso que está doendo, mas eu não posso. Você é perfeita. E doce. Porra, como você é doce. Seu cheiro é incrível, Tris. Seu cabelo é tão macio...
– Tris. – a voz de Christina fez com que Tobias desse um pulo para trás.
Ele olhou para mim como se tivesse acordado de um transe. O que eu vi em seus olhos fez com que meu peito queimasse e eu me sentisse a beira de um abismo de dor. Tobias parecia estar arrependido e o pior... Enojado. A tristeza que havia em seu rosto não era algo que eu estava acostumada a ver. Meu coração batia tão forte que parecia saltar do meu corpo a qualquer momento.
– Desculpe, eu não sabia que vocês estavam tão... – Christina nos lembrou de que não estávamos sozinhos novamente. Ela também não completou a frase porque parecia sem palavras, ao mesmo tempo em que se divertia com a situação.
– Eu já terminei por aqui. – Tobias disse para Christina e saiu da sala, sem sequer olhar para mim.
Eu senti meu coração doer mais uma vez.
– O que foi isso? – ela perguntou com um sorriso malicioso brincando nos lábios. Eu dei de ombros. – Eu não acredito que vi você e o famoso Tobias Eaton dando um amasso! Ai meu Deus, eu poderia ter tirado uma foto e vender para as revistas de fofocas!
– Não era o que você está pensando. – eu argumentei, enquanto evitava olhar para ela.
– Ah, era exatamente o que eu estava pensando. – Christina sorriu de forma vitoriosa.
Eu não queria insistir no assunto, então dei de ombros mais uma vez e saí da sala. Christina era a minha única amiga e era muito simpática e divertida, mas ela ainda não era confiável o suficiente. Eu tinha certeza de que seríamos ótimas amigas, porém agora não parecia o momento certo para pedir conselhos.
– Eu soube que você causou uma pequena confusão ontem à noite na festa daquela vaca da Nita. Queria ter presenciado, mas os empregados não são convidados para esse tipo de evento. – Christina falou à medida que íamos em direção à cozinha.
Não havia muita coisa para contar sobre ontem à noite.
– Você sabe que eu estou morando na casa do irmão dela. Ele me convidou por educação, mas foi um erro. Aquela família é muito confusa. Nita não ficou feliz comigo e fez uma cena. Tobias só apareceu depois, mas ele parecia chateado com o fato de eu ter aparecido. Foi mais ou menos isso.
– Não foi isso que eu escutei. – ela riu. – Uma das amigas de Nita comentou hoje no clube que Tobias viu Peter com a mão em você e ficou louco.
– Ela entendeu errado. Tobias pouco liga para quem põe a mão em mim.
– Não foi isso que pareceu. – Christina juntou as sobrancelhas. – Na sala, agora pouco, ele parecia bem determinado a beijar você.
– Não vamos falar sobre isso, Chris. Por favor. – eu pedi, porque eu realmente não queria lembrar desse fato. A expressão nos olhos de Tobias era algo que eu queria esquecer. Eu me sentia ainda mais humilhada.
Christina parecia querer falar mais alguma coisa, porque prendia os lábios com os dentes nervosamente, mas assentiu e não falou mais nada. Por mais curiosa que ela fosse, ela estava respeitando e me dando espaço. Eu precisava lidar com o fato de que Tobias estava insinuando um espaço em meu coração. Eu não poderia deixar que isso acontecesse, porque quando ele fosse embora, eu ficaria magoada. E eu estava cansada de me sentir tão triste. Tinha perdido meu irmão, meu pai e depois a minha mãe. Eu não queria perder mais ninguém.
Nós duas fomos em direção ao jardim para buscar as crianças e, depois de darmos banho nelas, nós as alimentamos. Tobias se manteve distante de mim. Algumas vezes trocamos uns “obrigado” e um aceno ou outro de cabeça, mas nada que ultrapasse essa linha. Eu queria ficar chateada com ele, mas eu estava magoada demais. Eu também não entendia esses seus joguinhos de quente e frio e estava cansada disso. Talvez a decisão mais inteligente a ser tomada seja continuar mantendo distância dele.
– Você está tão distante... – Christina falou.
– Eu só estou pensando. – dei de ombros.
– Eu estive pensando... – ela falou, enquanto colocava os pratos sujos na lava-louças. – Você topa sair esse fim de semana comigo?
– Eu preciso economizar. Estou poupando quase tudo que eu ganho para comprar meu apartamento. Não sei se sair é uma boa ideia.
– Hum... Com certeza não é uma boa ideia. – ela sorriu e eu agradeci por não tê-la chateado. Christina não levava uma vida fácil também. Ela me entendia na maioria das vezes. – Ele não para de olhar para você.
– Quem? – perguntei por força do hábito.
– Tobias. – ela riu e eu me virei para olhar em sua direção. Christina estava falando a verdade. Entretanto, quando eu o olhei, ele desviou o olhar e saiu com uma das crianças em direção ao jardim. – É um milagre a imprensa não estar aqui. Não sei como ainda não ficaram sabendo que ele está cumprindo pena em um orfanato.
– Deve ser difícil para ele ter que aguentar tudo isso. – eu falei.
– Eu não sei. Acho que uma vida sobre os holofotes não é tão ruim. Você tem dinheiro, fama e consegue quem você que quiser. Acho que se eu me encaixasse no círculo da elite deles talvez Will me notasse. – Christina divagou.
– Will não é assim. Ele é gentil e humilde. Ele não liga muito para dinheiro. Ele foi o único que me acolheu quando eu cheguei aqui.
– Porque você é bonita, Tris. É claro que Will te notou. – Christina não se preocupou em esconder a tristeza na sua voz. – Eu sou só a funcionária que os sócios do clube comem.
Será mesmo que era assim para ela? Christina era tão bonita. Lá em Chicago, os caras do meu bairro iriam babar por ela. Eles não eram podres de rico como o círculo daqui, mas vinham de família boa e eram trabalhadores. Com a pele morena e os lindos lábios dela, eu tinha certeza de que Christina seria um sucesso. Só ela parecia não ter noção da sua beleza.
– Você é linda, Chris. Merece muito mais do que está recebendo. Encontre um cara que não queira só transar com você. Ache um que a queira e pronto. Você é divertida e inteligente. Não é uma busca difícil.
– Eu sou apaixonada por Will há três anos. – ela suspirou. – Simplesmente não consigo tirá-lo da minha cabeça.
– Ele sabe disso? – eu perguntei.
– Will não é um cara de relacionamento. Nesse quesito ele se parece muito com Tobias. A única maneira de fazê-lo me notar foi dormir com ele uma vez. Ele estava bêbado e precisava de uma carona. Eu ainda tinha minha picape. Aconteceu. Depois disso, ele só me cumprimentou uma vez ou outra. Will não repete as garotas. – Chris olhou para mim com uma expressão cabisbaixa. – E ele está interessado em você. Eu vi o jeito como ele te olha.
– Eu não estou interessada nele. Ele é apenas um amigo. Will sabe disso.
– Claro que não está interessada. – ela riu, irônica. – Você está babando pelo rockeiro.
– Não é bem assim. Eu só estou curiosa. – eu dei de ombros. Tobias era um poço de mistério. Eu estava ficando obcecada por isso.
– Há coisas que você é melhor você não saber, Tris. – Christina disse, parecendo mais séria a que qualquer outra vez que eu já tenha visto. – Tenha cuidado até onde você vai. Nita não é sua fã e nós duas sabemos disso. Ela é muito possessiva em relação ao seu irmão. Você é a principal inimiga dela. Fique atenta. – ela aconselhou.
E lá estavam de novo me aconselhando sobre Nita. A irmã mimada de Tobias que me odiava. Eu tinha quase certeza de que seu ódio era por eu estar morando na casa do seu irmão, e como Christina dissera, ela era muito possessiva em relação a ele. Nita estava sendo infantil. Eu estava lá porque não tinha mais para onde ir e meu pai era casado com a mãe deles. Tobias estava sendo generoso. Não era como se estivéssemos juntos. Por mais atração que houvesse, isso estava fora de cogitação. Ele amava sua irmã. Ele abriria mão de mim quando chegasse a hora. Eu não tinha duvidas quanto a isso e não estava disposta a arriscar. Eu já tinha provado do veneno dela. Estava poupando todo meu dinheiro para sair de lá o mais rápido possível.
– Eu vou. – respondi, porque era verdade. Se eu percebesse que as coisas estavam fugindo do controle, eu iria recuar.
Depois que limpamos toda a cozinha, nós fomos ao jardim brincar um pouco com os meninos. Enquanto eu empurrava a pequena Tessa no par de balanço que havia no quintal, eu observava Tobias. Ele estava abraçado a Hector, sentado na areia e brincando com dois carrinhos da hot wheels. Se a mídia o visse desse jeito, jamais pensariam que é o mesmo Tobias que fazia shows de rock e era adorado pelo mundo. Ele não se parecia desse jeito. Ele estava leve, sorrindo, como uma pessoa normal. Eram em momentos como esse que eu sabia que Tobias era feito de camadas. Ele não era mau como ele pensava que eu o achava. Ele tinha sido gentil comigo me deixando morar na sua casa, mesmo quando toda sua vontade era de me mandar embora. Ele estava enfrentando a irmã por mim. Eu tinha trazido dor de cabeça, mas ainda assim, ele me deixava ficar lá. Eu tinha um quartinho só meu. Ele era bom com Will. E ele era fantástico quando estava com as crianças. Mesmo sendo seu primeiro dia aqui, eu podia ver que ele estava amando. Eu não iria culpa-lo. As crianças daqui eram mesmo maravilhosas.
Quando já passavam das nove da noite, as crianças já estavam na cama. Tobias já havia ido embora, porque sua parte já havia sido cumprida. Christina e eu ficamos para organizar a bagunça que os pequenos fizeram e depois que terminamos nós estávamos exaustas. Eu iria deixá-la em seu trailer, porque a picape de Christinha tinha quebrado e ela tinha vendido ao ferro velho. Eu sempre a deixava em casa depois do trabalho desde então. Era a parte do dia em que ela mais comentava sobre Will. Eu sempre a dava conselhos e ela sempre me fazia rir com suas piadas divertidas. Eu não queria ser como Chris, mas era gostoso conviver com ela.
Ao me despedir de Jeanine, abri a porta e dei de cara com Will. Christina congelou ao meu lado e eu franzi as sobrancelhas ao olhar para ele. O que diabos ele fazia ali?
– O que você faz aqui? – eu perguntei. – Tobias já foi embora. – eu falei, porque a única razão para ele estar ali era seu irmão. Ao menos eu achava que era.
– Eu vim te convidar para jantar. – ele sorriu.
Não precisei virar para minha amiga para saber que ela estava prestes a desabar.
– Eu... – respirei fundo e pensei em algo. – Estou exausta e preciso passar na farmácia para comprar alguns analgésicos para dor de cabeça. Você poderia levar a Chris em casa? A picape dela quebrou e eu sou sua única carona. Mas eu não quero chegar tarde em casa.
Ele parecia um pouco confuso, mas eu conhecia Will o suficiente para saber que ele era cavalheiro demais para não dizer não.
– Ãh... Tudo bem, eu acho. Tudo bem para você, Christina? – ele a notou pela primeira vez desde que chegou e eu ouvi minha amiga soltar um suspiro.
– Claro. – ela soou um pouco insegura e eu olhei para ela. Ela sorriu para mim em forma de agradecimento. – Obrigada.
– Eu vejo você amanhã. – eu a abracei e depois me voltei para Will. – Você é incrível, Will. Obrigada. – eu beijei sua bochecha e saí do orfanato, indo em direção a minha velha caminhonete.
Eu esperei estar dentro do carro para olhar para eles. Christina estava rindo de algo que Will falou e eles estavam seguindo para o carro dele. Eu estava feliz pela minha amiga, mas estava torcendo para que ela não fosse fácil hoje. Will era bondoso, mas ele era homem. Desde que cheguei aqui eu entendia que eles tinham mulheres fáceis em suas camas todas as noites. Christina não poderia ser mais assim com ele. Ela o amava. Eu sabia disso. E se ela queria mantê-lo por perto, ela teria que bolar alguma estratégia. Uma que não envolvesse estar nua com ele hoje à noite. Eu não queria vê-la magoada.
Já estava escuro quando eu estava no meio do caminho para casa e a caminhonete começou a fazer um ronco estranho. Eu apertei o volante com as duas mãos e comecei a torcer para que ela não parasse de funcionar. Ela já havia falhado antes, mas depois de cinco minutos voltava a funcionar. Só que dessa vez não tinha. E a rodovia estava deserta. Eu olhei para os dois lados e desci do carro, travando as portas. A picape não estava sem gasolina, o que significava que ela tinha quebrado de vez. Eu iria cuidar disso amanhã de manhã. Estava longe de casa, mas se eu caminhasse pela praia, seria menos perigoso e talvez eu me distraísse o bastante para não ficar com medo. Eu poderia ligar para Will. Tinha seu número na minha bolsa, mas eu não tinha um celular e não havia nenhum telefone público por perto. E além do mais, eu não iria incomodá-lo. Ele estava com Christina. Eu não estragaria tudo. E eu tinha minha arma também. Se qualquer estranho se aproximasse, eu o assustaria. Eu não tinha coragem de machucar ninguém, mas iria lhe dar um susto para que eu tivesse tempo o suficiente para poder fugir.
Depois de uma hora e meia de caminhada, eu cheguei à grande casa de Tobias. Estava silencioso, mas dava para ver do lado de fora que as luzes da sala estavam acesas. Eu caminhei até a porta principal e girei a maçaneta. Eu não costumava entrar pela frente, mas Tobias tinha me dito que eu poderia usá-la e dar a volta pela casa para usar a porta dos fundos iriam matar meus pés. Minhas sandálias tinha feito bolhas devido à caminhada e tudo que eu queria agora era me deitar e relaxar. Mas quando eu fechei a porta e me dirigi à cozinha, congelei. Uma mulher estava gemendo. Meu estômago embrulhou. Tentei ignorar, mas os meus pés pareciam duas pedras cravadas no chão de mármore. Eu simplesmente não conseguia movê-los.
– Isso... Assim. Oh, mais forte, Tobias. Por favor, me chupe mais forte! – ela gritava.
Eu senti nojo. Ele quase tinha me beijado hoje e tinha fugido com se tivesse levado um belo soco no meio do nariz. Eu avancei em direção ao som, mesmo sabendo que eu não queria presenciar aquela cena. Era como o acidente de carro que matou o meu irmão. Mesmo que eu não quisesse aquilo gravado em meu cérebro, eu não conseguia deixar de testemunhar.
– Isso, Tobias. Toque em mim. Ah, como é gostoso. Me fode com seu dedo, vai. Por favor.
Ao entrar na sala, encontrei os dois no sofá. Ela estava nua e com um dos mamilos na boca dele, enquanto Tobias movia a mão entre suas pernas. Eu senti meu pulmão sumir e de repente não conseguia respirar. Eu nunca tinha visto ninguém fazer sexo. As únicas cenas que eu já tinha imaginado fora graças aos filmes de comédias românticas que eu assistia com a minha mãe. Eu não sabia que era tão... Sujo. Precisava sair dali. Imediatamente.
Corri em direção ao meu quartinho e fechei a porta. Por sorte, os dois estavam tão ocupados que sequer me viram. Tobias estava transando bem ali no sofá para qualquer um entrar e ver. Sabia que eu chegaria em casa a qualquer momento. Eu lhe tinha dito como era minha rotina hoje mais cedo. Acho que ela queria que eu os visse. Eu só não entendia muito bem o motivo. Eu não estava a fim dele. Talvez ele pensasse isso por causa do que havíamos feito mais cedo. Mas eu não tinha feito nada. Ele quem começara a me enjaular e cheirar o meu pescoço. Eu não tinha deixado claro que gostava da sensação de tê-lo tão perto de mim. Ou talvez eu tivesse. E isso era uma droga. A última coisa que eu precisava era que Tobias soubesse da atração maluca que eu sentia por ele.
Eu tirei minhas roupas e pus uma cueca samba-canção e uma camisa que Al tinha me dado quando nós éramos namorados. Ele dizia que eu deveria dormir com elas para me lembrar dele. Mesmo depois de acabarmos o namoro, eu não tinha devolvido. Não porque eu ainda gostasse dele, porque agora Al era apenas um amigo meu, mas as roupas eram confortáveis e eu já tinha me apegado a elas. Eu não queria perder isso também.
Eu deitei na pequena cama de solteiro em posição fetal e abracei meus joelhos. Eu não entendia porque me sentia tão abalada com o fato de ver Tobias transando com outra pessoa. Eu já tinha visto uma cena parecida no meu primeiro dia aqui. Eu sabia que ele descartava as garotas em seguidas como se elas fossem um lixo. Eu não me importava com elas, mas estava me importando com ele. Queria entende-lo. Não fazia sentido.
Eu rapidamente me repreendi. Precisava tomar muito cuidado. Tobias estava insinuando um espaço em meu coração. Eu não poderia deixar isso acontecer, porque quando eu fosse embora, Tobias não iria atrás de mim. Ele não iria sentir minha falta, embora eu tivesse a certeza de que eu poderia me quebrar quando eu fosse embora se eu o deixasse chegar muito tempo. Ele tinha algo cativante. Fazia todos a sua volta quererem ficar perto dele. E eu não estava falando da sua fama.
Eu demorei um pouco para dormir, porque os gemidos tinham ficado mais altos e eu não conseguia pegar no sono. Mas quando eles cessaram, meia hora depois, eu finalmente sentir meus olhos pesados e me rendi. O dia tinha sido cansativo. Amanhã seria mais um trabalhando no clube e depois no orfanato.
E então eu teria que ver Tobias. Enfrentá-lo depois dessa noite não iria ser fácil.
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