Estrada Perdida

6 Quem Me Vê Sorrindo


A chuva varou dia e noite durante três dias. Não deu pra saber quando terminava um e começava outro, pois estava escuro o tempo todo. O mestre está quase submerso — seu barraco parece mais uma piscina ou, talvez, um aquário.

O cheiro desagradável dos dias anteriores é lembrado como perfume francês perto do odor insuportável que se mistura ao oxigênio do lugar. A gorda não está trabalhando porque a correnteza abaixo do morro não a deixa sair de casa.

Ele chora. Chora, soluça e depois sorri. Parece louco. Um som ensurdecedor de sirene rasga o barulho da chuva, fazendo raios e trovões desaparecerem. O corpo de bombeiros está interditando a área, e ele continua a sorrir.

Quando um homem, alto e forte, vestindo roupas de proteção e capacete amarelo chega à sua janela e pede pra ele sair, tudo o que faz é sorrir mais. Ninguém consegue tirá-lo de lá, nem à força. E mesmo quando arrastam-no pelo barraco, ele continua a sorrir.

O intenso sorriso torna-se uma risada que pode ser ouvida a distância. As pessoas olham-no com estranheza. Ele não liga. “Quem me vê sorrindo, pensa que estou alegre. O meu sorriso é por consolação, porque sei conter, para ninguém ver, o pranto do meu coração”, pensa. Apesar de outrora derramar lágrimas, neste instante a postura de homem-macho volta a possuí-lo.

O mestre não está nem aí pro barraco que está caindo e, no meio da tempestade, caminhando entre a enxurrada, como um boi atravessando as águas do Paraíba do Sul, ele segue até o bar do outro lado da rua.

O bar está semifechado por uma lona toda suja, e ele entra por uma pequena fresta deixada do lado oposto da direção da chuva. O bar está sem energia elétrica, por isso não dá pra tomar uma gelada. Alguns arriscam uma pinga, outros ficam só observando a água cair na rua.

Pra passar o tempo, um rapaz toca um violão e uma senhora o acompanha com um pandeiro remendado com fitas e farrapos. Juntos, eles cantam um samba ponderado. “Meu amigo, sinto saudades de você, cuido da sua amada para quando ela te ver, estiver bela como você quer ver. Meu amigo, não deixo em ninguém ela tocar, porque nela só suas mãos podem pegar. Meu amigo venha fazer uma nova canção, sinto falta da sua emoção...”.

O mestre para ao lado deles e parece reconhecer o autor da canção.

— Esta música num é de ocês não, né?

— Não, sinhô. É não.

— Sabia... parece ser uma composição dum velho amigo... Melhor, dum ex-amigo.

— Sinhô, senta aí pra curtir...

— Nem...

— Sabe, falaram que compuseram ela prum tal de mestre.

— E?

— Bom, a gente num sabe quem é o mestre, intão a gente toca ela toda hora pra vê se o tal aparece.

— E eu com isso?

— Sei lá, só achei que quiria sabê.

— Nem... mas tá. Quem foi qui falô isso pro cês?

— Uma muié com um perfume doce que parecia um anjo, e um sujeito bom de samba.

Nesse momento, o mestre esqueceu, mais uma vez, do lance de homem-macho. Derramou outra lágrima. A chuva cessou.