“Traí meu grande amigo.” Ele se condena o tempo todo. É uma culpa que vai carregar pelo resto da vida. Essa que ele não consegue mais chamar de vida. Pra ele, todos os dias poderiam ser dias de chuva, muita chuva, assim ninguém mais tocaria samba algum.

Mesmo assim, ele se lembra do rapaz e da senhora tocando samba, mesmo com todo aquele temporal.

“Ela se foi. Eu a perdi.” Ele sabe que a culpa é toda dele. Passam horas e horas, e o mestre continua lá, estagnado, imóvel. Ainda tentou arriscar umas desculpas, tomando um gole de café que, por pena, o dono do bar lhe deu.

Pediu à senhora pra tocar novamente o tal samba. A senhora também continuava lá, afinal ela era esposa do homem barbudo e careca, o tal dono do bar — e ainda a responsável pelas horríveis coxinhas e pelo molho de pimenta com gosto de vômito. O rapaz já tinha ido embora — aproveitou um bote que passava por perto.

Seu olhar se fecha e ele debruça novamente sobre a mesa. A magia acabou. Ele apenas chora. Nunca mais haverá homem-macho. Nunca mais haverá seu amigo compositor. E, o pior, nunca mais haverá a sua amada. Percebendo que o samba não poderia mais ser tocado, e que o café não tinha mais efeito algum, ele apenas solta um daqueles longos palavrões que o faz soluçar para conseguir dizê-lo.

— O bar precisa ser fechado — anuncia o gentil homem barbudo e careca.

Ele finge que não escuta — ou talvez não esteja escutando mesmo. Então a senhora para de tocar o pandeiro e diz ao marido que vai carregá-lo de volta pro morro. O mestre é persistente, faz corpo duro, não quer mais saber do morro ou de fazer coisa alguma — se bem que já não fazia nada havia muito tempo.

Mesmo assim, ela consegue arrastá-lo e, quando chega ao morro, ela nem se arrisca a subir toda a escada e o deixa sobre o primeiro lance de degraus.

Também já fizera muito por um sujeito que ela nem mesmo conhecia. O dia termina de súbito, e a noite vem fria, mas com o céu límpido. Só não entra no seu barraco porque a depressão o está acorrentando. A noite caminha veloz pro horizonte, e o dia vem chegando.

A alvorada lá no morro é uma beleza. Todos curtem o dia lindo. Ele não. Ele quer dar um grande tiro de três-oitão no Sol, só pra não ver mais o sorriso estampado na face sarcástica das pessoas. Ele ainda está na escada.

Notas finais
penúltimo capítulo.