Para o mestre, a alvorada não é mais a mesma. Nem o Sol colorido. Ele não quer mais saber de “bom-dia”, porque os dias não serão bons nunca mais.

— Me enganaram facilmente — diz ao léu. Ele se sente um tolo. Disseram que não há tristeza no morro.

— Mentira.

Ele se lembra do puta gosto amargo do café requentado e se debruça sobre o parapeito da outrora janela. Seu barraco já nem tem mais dois cômodos —a chuva levou um —, e o parapeito é o único lugar que ele ainda tem pra se apoiar. Respira fundo, dá uma soluçada e volta a se lembrar da velha corda que outro dia achara no baú empoeirado. Ele busca a calcinha com cheiro de mijo. Mas não quer mais cheirá-la. “Num tem mais o suave perfume”.

Uma pequena brisa atinge seu rosto como se quisesse dizer a ele que o dia está maravilhoso só para irritá-lo ainda mais.

— Agora percebo... aqui só tem cheiro de mijo.

O mestre levanta-se, com muito esforço, e rasga a calcinha com toda a força que possui no momento. Sua mão machucada não ajuda muito, mas a outra consegue resolver o problema.

— Tu não me mereces mais.

Ele dá uma última olhada pra trás e desce o morro. O mestre caminha desgovernado e segue sem rumo algum. Sua vida de merda perdeu todo o rumo. Não há mais destino pra alcançar, não há mais o velho e bom samba. Agora, o decreto vai ser regra fundamental. Ele se prende na amargura, como o gosto do café, que corrompeu a última gota de esperança de sua vida. A esperança não vai mais escorrer sobre seu coração — se é que ainda tem um. Se algum dia vier a romper novamente o decreto, a sua lei, agora, exige pena de morte.

Ao descer pelo último quarteirão, ele tem uma visão maravilhosa. Não, não é a esperança que voltou. Não, não é a mulher de sua vida e a chance dele se redimir. Tudo o que ele vê é o três-oitão na mão de um garoto.

Seria pecado desejar a morte?

Talvez ele nem pense nisso. Pra ele, a morte seria a chance de poder ir ao além e se desculpar com a sua amada e seu amigo. Mas o povo do morro “num tá nem aí” com ele e ninguém gastaria uma bala sequer para matá-lo. “Talvez se arrumar uma boa briga, ele me passe fogo”, pensa. E o mestre arregala os olhos, focando no revólver.

Seu corpo estremece e ele sua frio. “Bem, talvez nem precise disso”. Afinal, basta romper o decreto e sua morte será obrigatória. Daí sim, os caras lá do morro vão ter motivo de sobra para eliminá-lo. Todos os caras, menos talvez aquele rapaz que estava no bar ouvindo sua canção, o moço com o violão, a senhora com o pandeiro e talvez um tal de Bezerra, que sempre canta as velhas melodias.

Mas ele não tem mais força pra tocar o samba e muito menos para se enterrar no leito da morte. Ele não tem ânimo nem para pegar aquela corda que achou no baú empoeirado do seu barraco. O mestre está ferrado mesmo.

* * *

Tudo o que ele é capaz de fazer no momento é seguir cambaleando e sumir no horizonte. Uma voz triste e rouca esmaece no ar.

“O que me resta é bem pouco, quase nada, do que ir assim vagando numa estrada perdida”.

FIM

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!