Estrada Perdida
2 Disfarça e Chora
— Esquece nosso amor, vê se esquece — ele sussurra enquanto tira uma meleca do nariz.
— Mestre, o sinhô tá falano comigo? — pergunta a gorda de uns quarenta anos, que usa um vestido todo manchado de cândida e desinfetante.
A gorda masca um chiclete vencido, e sua sandália havaiana de camelô está toda suja de merda de gato. Ela nem liga. Esfrega a velha camisa xadrez, com tantos furos que parece roupa da Segunda Guerra. Ele não responde e sussurra novamente:
— Vê se me esquece, já não sei mais amar.
— O sinhô num me ama mais?— Desculpa, o que tu disse?— Preguntei se o sinhô num me ama mais.
— Ah, tu. Bom, tu nunca amei, viu?
— Mas mestre...
— Volta a lavar essa bosta remendada que é pra isso que tu tá aqui.
— Vá cagá.
Ele só não fica mais irritado porque cada vez mais a depressão toma conta de sua alma em decomposição. A desgraçada da sua mão já não é mais a mesma, ele não consegue nem se segurar direito e, pra piorar a sua manhã de bosta, derruba a trincada e já lascada xícara, desperdiçado os últimos resquícios daquele café.
Nada pra ele tem mais sentido — a única coisa que ainda o mantém firme é a calcinha com cheiro de mijo. A mão desgraçada está sangrando com os cacos da xícara, mas isso não a impede de entrar por entre o cinto de couro falso descascado, correr por detrás do zíper quebrado e descer até coçar o saco. A voz do lamento ecoa na sua cabeça. “É ela”, pensa. Desde que ela se foi, ele ouve essa voz e sente vontade de chorar. Mas a sua reputação de homem-macho não o permite. A gorda apenas ri da situação:
— Onde já se viu? Canta sobre choro e lamento e não tem coragem de chorar?Mais uma vez, ele a manda trabalhar.
“Num sei nem por que tô aqui”, ela pensa em voz alta, como se quisesse que o mestre a ouvisse. Ou melhor, ela quer.
— De que adianta lavá a roupa, se ele só usa aquela mesma camisa cinza? – murmura.
— Tu sabes que eu não canto mais.
— Mas devia.
— Pra quê? Ou mió, pra quem?
— Cê sabe que a galera ainda gosta.
— Já foi a época da Portela.
Portela, Mangueira, não importa mais. O mestre acabava de decretar oficialmente a morte do samba, porque já fazia anos que ele o havia assassinado. Quando passava algum garoto com um cavaquinho ou um pandeiro, ele logo dava um jeito de jogar merda no coitado. Só mais um gole, é tudo que ele quer no momento.
Só mais um gole de café.
Mas é incapaz de levantar um dedo pra fazer café. E já que a gorda não toma nada que é de cor escura, então nem se importa em coar o pó — se é que há pó.
Coador, não tem problema.
Da última vez, ele usou uma meia mesmo. O mestre abaixa a cabeça e, em passos arrastados, rasgando a sola do sapato que achara no lixo na semana anterior, caminha pra dentro do outro cômodo do barraco. Só há dois. Ele soluça forte e range os dentes. A gorda continua a esfregar. Nem liga pra ele, já que o mestre também não se importa com ela.
A porta improvisada do outro cômodo bate com força, deixando a alvorada pra trás. Ele não quer mais saber de ver o sorriso da natureza. Sorrir não é mais permitido — ele coloca como ementa em seu decreto. Tudo fica escuro, pois não há janela no cômodo e a lâmpada está quebrada.
A gorda termina de esfregar a “bosta remendada” e troca de roupa. O outro vestido está menos manchado. Ela arruma o balde e uma vassoura quase sem pêlos e tenta fechar a torneira do tanque, que não pára de pingar. Não consegue. Tenta novamente e nada. Desiste e, resmungando sobre a vida de merda que leva, desce os degraus quebrados da escada ao lado do barraco e vai embora. Ela não trabalha mais o dia inteiro.
O mestre quase não paga por esse meio período. “Na semana passada me faltou com dois mangos. Se faltar esta semana, ele vai ter de esfregar a bosta remendada sozinho. Aí eu quero ver”, pensa com raiva. Já é quase meio-dia. Ao fundo ouve-se um choro. Um choro de quem tomou coragem e está pondo pra fora seu sentimento.
— Cacete que estou chorando! — ele responde logo em seguida que alguém grita em direção ao seu barraco, perguntando se ele estava chorando. — Não sou maricas, não. Sou homem-macho – resmunga.
Irritado, mandou calarem a boca e parar de atormentá-lo. Assumir seus sentimentos era algo que não conseguia mesmo, por isso muitas vezes falou pra um tal jornalista que era o seu colega compositor quem escrevia as letras de suas canções. “Eu só faço a melodia.”
Só que a fita não colava. Cada vez que dizia isso, alguém vinha botando a boca no trombone. Hoje ninguém mais fala nada — não por ele. O mestre havia sido esquecido fazia tempo, tanto tempo que a última vez que foi visto ainda tinha resquícios de cabelos pretos. Até mesmo a gorda tenta esquecê-lo, mas depende dos trocados que ele paga.
Ainda se ouve o choro.
Agora dá para perceber que é um choro seco, sem lágrimas. Outra voz veio encher o saco dele e, dessa vez com um tom mais intenso, ele manda todo mundo pra aquele lugar; e, de novo, manda calarem a boca. Então, por incrível que pareça, o silêncio toma conta do morro.
Não se ouve mais nada.
Nem mesmo uma respiração. O mestre apalpa um baú empoeirado e consegue encontrar uma corda dentro dele. Pelo menos parece ser uma corda — é o que ele sente com os calos de sua mão fodida. Como viveu muitos anos sem energia no seu barraco, aprendeu a se virar no escuro.
Às vezes zoava, fingindo ser o Ray Charles. Só que ele tinha dificuldade com o inglês e cantava tudo errado. E ainda tentava fazer “Hit the Road, Jack” parecer um samba do tipo “Alegria”. Pegando a corda, ele a enrola e entrelaça. Dá uma fungada, daquelas profundas de choro, e joga o outro lado da corda sobre um cabideiro pendurado no alto de uma parede de pedra e papelão.
Com as duas mãos segura o laço que fez e ergue os braços, direcionando as mãos em direção à sua cabeça. Novamente dá outra fungada e deixa o silêncio ser curtido no morro.
Então, uma lágrima escorre.
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