“Nosso ninho de amor está vazio” são as últimas palavras dele naquele instante. Fecha os olhos — como se precisasse, afinal, está escuro lá dentro. Ele segura firme a corda e tenta empurrar o banco que está debaixo dos seus pés. Faz um esforço, já que suas pernas não são mais as mesmas. Ele ainda sente algo caminhar pela sua perna esquerda — a princípio acha que é o suor, depois pensa ser uma barata, mas é algo maior: um rato.

Rapidamente deixa de pensar na coisa que sobe nele; afinal, não precisa mais se importar. Está preste a partir desta pra outra quando percebe que alguém está desfazendo as suas malas.

“Não vá”, ele pensa ter ouvido uma doce voz sussurrar.

Repentinamente, a corda é cortada e ele é segurado por alguém. Uma pele suave e um perfume angelical. O mestre fica anestesiado quando percebe está apoiado no colchão rasgado no canto do quarto. Mal consegue perceber a doce melodia abrindo a porta e caminhando pra fora do cômodo. A luz que vem do outro lado ainda ofende seus olhos, acostumados com a escuridão. Ele se levanta — quase não dá tempo — e consegue alcançá-la.

Quando chega perto, vê a sua amada, a mulher de sua vida, que estava nos céus havia uns quatro ou cinco anos. Ele não consegue acreditar no que está vendo.

— Estou sonhando ou será que morri? — pergunta desesperadamente.

Ela estica a mão e tampa a sua boca. Uma mão que, apesar de delicada, é grande o suficiente para cobrir-lhe lábios e o queixo com a barba mal feita. Ela faz um gesto com o dedo indicador da outra mão.

— Xiiiiuuu — é tudo que ele ouve, e então ela sai do barraco e esmaece no ar. Ao mesmo tempo em que o coração bate forte, e o amor ferve intensamente, o mestre arregala os olhos e seu queixo fica caído.

— Isso não acontece.

“...apesar de todo erro, espero ainda que a festa do adeus seja a festa da vinda”. O som vem de longe, mas ele reconhece no ato. Isso é o pouco que se espera de quem compõe uma canção. Reconhecer a própria música. Mal deu tempo de absorver e pensar no que tinha acabado de acontecer, e ele já mudou seu humor.

O mestre fica puto da vida, com os olhos fervidos e os dedos das duas mãos cruzados. Suas pernas começam a tremer. “Mas quem será o merdinha que tá tocando minha música?”

O problema não é o fato de outra pessoa tocar a sua música, mas o fato de sua música estar sendo tocada. Alguém havia rompido o decreto.

Sem pensar, ele sai às pressas e desce, num único pulo, a escada. Vai a toda em direção ao samba. Seu ódio é tanto que nem percebe quando pisa nos pés de uma senhora, derruba seu vizinho cego que tenta atravessar a ruela e esbarra em um coitado que está descarregando umas garrafas de cerveja para abastecer o boteco.

Logo chega numa esquina onde vê um rapaz não muito alto, sem camisa, com um colar dourado, bermuda florida e sandálias de pano. O rapaz não está ingerindo nicotina ou álcool. Apenas toma um café forte enquanto escuta uma velha fita cassete num daqueles tocadores de fita que funcionam a pilhas.

— Que tu pensas que estás fazendo?

— Eu? Nada.

— E essa música aí?

— Que é que tem? Não gostou?

— Eu...

— Olha, o pessoal curte esse samba. Até mesmo uma mulher apareceu aqui e disse que adora muito essa canção e que queria saber onde tava um tal de mestre... Parece que é o cara que fez a música...

O rapaz descreve a mulher, e o mestre chora. Dessa vez, ele esquece todo aquele lance de homem-macho e de mandar quem zoa com ele pra aquele lugar. Apenas puxa uma cadeira, apóia-se sobre a mesa, respira fundo, assoa o nariz na toalha da mesa e chora.

— É a segunda ou terceira vez que ela parece aqui.

— E...

— Eu não sabia responder pra ela onde tava o tal do mestre.

— Mas...

— Hoje tinha um camarada aqui servindo a gente e ele falou pra ela subir lá no morro.

O mestre chora mais ainda. Soluçando mais do que já havia soluçado na vida, ele apenas olha para o rapaz e tenta entender como aquilo tudo era possível. O rapaz lhe conta que, todas às vezes, estava escutando aquele samba e...

— ... tomando café.

— Café?

— Pois é.