Estrada Perdida

4 Ordenes e Farei


— Dá um jeito de fazer um preto bem forte — ele funga e diz em um tom seco, tentando não encarar a gorda. Ela finge que não escutou e continua a esfregar o chão.

Já é outro dia, e ela mal acaba de chegar e já tem de limpar uma poça enorme de mijo pra entrar no barraco. Ele insiste.

— Vai fazer um café preto bem forte – ele a encara.

Como é ele quem paga o meio período de serviço, ela acaba indo fazer o tal café. Ela está com tanto ódio do serviço que nem ao menos lava as mãos sujas, apenas pega o pó, um bule enferrujado e taca fogo na única boca do fogão que ainda funciona.

— Pronto.

— Uma hora depois.

— É que o gás tá no fim.

— Larga mão de inventar desculpas, tu nem sabe fazer as coisas direito.

— E o sinhô?

— Chega.

Ele dá a discussão por encerrada e pega uma xícara pra colocar o café fervendo dentro dela. Enquanto o “preto bem forte” desce pela boca do bule, sua mente só pensa na amada. “Será que era ela, mesmo?”.

Talvez fosse só um delírio. Afinal, o mestre está há quase uma semana sem comer. Às vezes belisca um pão envelhecido ou um biscoito apodrecido, mas nada mais do que isso. Não que a gorda não insistisse pra ele se alimentar, mas esta é outra das coisas que ela desistiu de tentar.

Falar com ele era como falar com a parede. Agora mais, afinal, além da depressão, a vontade de ver sua amada também o deixava sem palavras.