Estilhaços de Uma Mente e Alma
1 Emily
Notas iniciais
Entorpecida.
É como Emily se sente, entorpecida (letárgica de certa forma). Assombrada pelo que a realidade havia se tornado pra ela, um pesadelo totalmente fodido. Onde existiam monstros canibais escondidos na montanha. Onde ela e seus amigos foram atacados por esses monstros. Onde ela não tinha certeza se poderia chamar as pessoas que ela perdeu de amigos.
Uma pequena parte dela ainda queria acreditar que isso era um sonho muito esquisito do qual ela acordaria em breve, mas seu joelho lacerado gentilmente a lembra que ela esta bem acordada (que ela provavelmente nunca mais vai ter um sono traquilo), não que ela se sinta capaz de dormir agora, por mais que seu corpo maltratado pela noite infernal a qual ela havia sobrevivido esteja praticamente implorando por um descanso. Ela não consegue achar paz o suficiente para dormir, e o silêncio enlouquecedor do hospital não era de grande ajuda.
Ela imagina que deveria estar irritada. Irritada com Mike por considerar atirar nela. Irritada com Chris e Ashley por o incentivarem. Irritada com Jessica por ter sugerido a pegadinha. E irritada com Josh por tê-los convencido a retornar para a montanha.
Mas, ela não consegue. É como se … como se algo nela estivesse quebrado, como se após estar por horas no limite da insanidade, ela tivesse finalmente sido atingida pela surrealidade da noite. Ela basicamente sobreviveu a um massacre, ela imagina que deveria se orgulhar de ter tido sucesso onde tantos falharam, mas após a adrenalina e a raiva baixarem tudo que restou foi um vazio. De desamparo, desesperança e solidão.
Como os Washingtons devem ter sentido durante todo esse tempo.
Sua mente por alguma razão decidiu que aquela era uma boa hora para lembrar do que ela havia descoberto sobre as gêmeas, do destino horrendo que elas haviam encontrado nas minas (Deus a cabeça de Beth vai assombrar seus sonhos por anos, senão décadas!!!). Tanto elas quanto Matt e outros. Ela havia ouvido de passagem os policiais comentarem sobre o estado dos corpos: decapitados, desmembrados, queimados. (Ela ainda se lembra claramente do grito de Sam quando o Wendigo a empala).
Em algum momento entre suas divagações ela saiu do quarto e começou a andar pelos corredores do hospital, como se seu corpo estivesse procurando alguma coisa (talvez sua própria alma). Ela não tem certeza se deveria conseguir perambular com tanta facilidade pelos corredores vazios, sem movimento aparente de enfermeiros, médicos ou outros funcionários, mas talvez fosse melhor assim. Não é como se ela soubesse explicar o que estava fazendo ali de qualquer forma.
Ela anda pelo corredor até parar ao lado de uma porta que lhe chama a atenção em específico. Ou talvez seria melhor dizer pela pessoa que lhe chamou a atenção em específico. E sentado na cama olhando para frente com um olhar perdido como estivesse drogado (o que possivelmente estava), se encontrava Josh.
Joshua Washington. O responsável por chamá-los de volta para Blackwood. Que horas atrás foi dito que estava morto, apenas para que horas depois fosse revelado como o único outro sobrevivente do incidente.
Ele foi encontrado nas minas várias horas após Emily ter dado seu depoimento na delegacia. Ela não sabe os detalhes ou sequer consegue imaginar como ele sobreviveu a o ataque do Wendigo, de algum modo dentre todos os que foram atacados Josh, estando desconectado da realidade como estava foi agraciado com alguma forma de misericórdia.
Aproveitando o fato de que a porta estava aberta, (por negligência do hospital, talvez?) ela entra no quarto e caminha silenciosamente até estar ao lado da maca de Josh. O referido aparentemente não tendo notado sua presença continua olhando para o nada, com um cansaço que quase espelha o de Emily neste momento. Ela não sabe dizer porque está aqui. Não sabe dizer porque saiu do quarto dela, e nem consegue imaginar como ela encontrou o quarto de Josh ou porque entrou ainda por cima.
Ainda sim, aqui está ela. Vendo Josh encarar o nada, silenciosamente perdido. Perdida… Esse é talvez o melhor termo para descrever ela mesma durante a noite, perdida. Sempre buscando uma saída que parecia se distanciar implacavelmente dela cada vez que ela achava estar no caminho certo.
Mas, apesar de tudo, ela ainda acertou onde muitos erraram, ela chamou ajuda, descobriu a verdade sobre as gêmeas, fugiu do monstro apesar do lugar estreito e da perna machucada, revelou o paradeiro de Josh, sobreviveu. Mesmo sem qualquer certeza de que conseguiria (especialmente quando Mike apontou o revólver pra ela).
De algum modo tudo isso parece meio sem sentido, especialmente quando o homem na frente dela também sobreviveu, sem metade desse esforço. Não que ela o inveje de algum modo, Cristo ela não ousa imaginar o deve ser estar na pele de Josh naquele momento. Se ele já estava mal no ano passado, quando souber o que aconteceu com as gêmeas e os demais… ela o veria de novo? Ou ele tentaria encontrar os demais antes disso?
Ela se perde por um tempo nesse debate enquanto encarava em silêncio o homem que mal se mexeu desde a sua chegada. Ela não acha que deva dizer algo já que o outro claramente não a ouviria mesmo que ela tivesse o que falar, mas o que ela faz a seguir surpreende tanto Josh quanto ela mesma.
Ela dá um passo à frente estando agora encostada na maca, e estende os braços envolvendo Joshua em um abraço apertado.
Não é algo que você vê todo dia, Emily Davis chorando nos braços de alguém, ainda mais se for de Josh que estamos falando. Eles não tinham uma relação particularmente ruim, mas próximos não é um adjetivo que os descreveria. Pelo menos não desse modo, especialmente antes de todo o ocorrido, mas agora as coisas eram diferentes.
Ambos haviam perdido várias coisas naquela noite infernal, “o trauma conecta as pessoas”. Emily achava essa frase estúpida, ainda acha um pouco, mas talvez seja uma explicação para suas ações atuais. Há alguma coisa diferente em serem os únicos sobreviventes, em serem os únicos que experienciaram o inferno e saíram para contar histórias. Histórias que ninguém além deles iria acreditar.
Em meio a o seu pranto Emily nem percebeu quando Josh retribuiu o abraço, puxando-a para seu colo. A pressão em seu ombro machucado a fez perceber sua posição atual, mas isso apenas a fez chorar mais intensamente enquanto escondia seu rosto no ombro do outro.
E assim eles permanecem por um tempo, chorando juntos até que a exaustão se abatesse sobre algum dos dois. Sendo Emily a primeira a ser vencida pela exaustão, relaxando o aperto que tinha sobre os ombros do outro (e por consequência reduzindo a pressão sobre os machucados de ambos), e se acomodando melhor na posição em que estava, sem quaisquer planos ou forças para sair dali.
Pouco antes de mergulhar na inconsciência Emily se lembra de já ter ouvido alguém dizer que ela e Josh eram parecidos. Ambos caçoaram disso na época, mas agora nessa maca de hospital, encobertos de feridas e envolvidos no calor do abraço partilhado que tentava aquecer um pouco de suas dores, talvez aquela afirmação feita há tanto tempo carregasse bastante verdade. Ela xinga mentalmente essa percepção como último ato antes ceder ao cansaço e ao calor que a envolvem.
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