Fodido.

Era um modo eficiente de descrever Josh em vários momentos de sua vida, especialmente neste. Completamente fodido. Não que ele já não estivesse assim há algum tempo, mas de algum modo hoje ele parece ter atingido o ápice disso. Tipo ele mal consegue pensar de onde começar a falar sobre esse dia, ou noite melhor dizendo.

Pensando bem, ele não acha que consegue falar agora de todo modo. Sua cabeça parecia vazia, mais vazia que ele mesmo antes de hoje, como se fazer qualquer tipo de movimento fosse muito exaustivo. Ele só teve força para se sentar e mais nada. Sua cabeça parecia enganosamente calma, seja lá o que lhe enfiaram na veia parecia ter feito algum efeito. Elas não estavam aqui, ele gostaria que elas não voltassem, mas sabe que é uma questão de tempo até velas de novo… por mais que não queira.

Vocês morreram… só fiquem longe de mim, por favor!

As únicas coisas de que os remédios não o livraram foram o frio e a fome quase sobrenaturais que Josh sentia, fazendo ele se perguntar se realmente havia saído da caverna ou se apenas imaginou vividamente que havia saído e sido levado a um hospital, e o borrão entre esses eventos apenas dificultava seu julgamento em questão. Enquanto se focava em desvendar o mistério da parede branca na frente dele (ele acha que viu algo se mover nela), Josh percebe algum movimento à sua esquerda.

Ele tem a impressão de ter visto uma silhueta ao lado dele, mas assume que era meramente um fruto de sua mente há muito perturbada e opta por ignorá-la. O que é fácil já que a pessoa (vagamente familiar) que ele acredita estar vendo esta quieta; sem cantos, chamados, ordens ou acusações. Uma companhia ao mesmo tempo reconfortante, assustadora e lastimável.

Até que essa o abraça apertado. Não é como suas outras visões que tentam afogá-lo em culpa e obediência; ela apenas o abraça firme, de um modo que dói em seus machucados. Como alguém desesperadamente procurando conforto. (Como ele próprio.)

Exceto que ele não está alucinando essa pessoa, alguém realmente o está abraçando e quando ele olhou pra conferir quem era ele gelou em choque. Já fazia um tempo que ele não confiava mais em seus próprios olhos, mas a imagem na frente dele acaba de levar um prêmio.

Porque a pessoa que está escondendo o rosto no ombro dele enquanto mantém um aperto firme ao redor dele é Emily. Emily Davis. O abraçando como se sua vida dependesse disso. Um segundo após ela fazer isso ele sente mais do que ouve um soluço ser abafado contra ele. Socorro. Ele não fazia ideia do que fazer, nunca foi muito bom em lidar com esse tipo de situação, menos ainda se for Emily de todas as suas amigas.

Ok, ele tenta botar seu cérebro dormente para pensar em uma explicação para aquela situação, mas não encontra nada que faça sentido e nesse ponto ele começa a sentir o local onde o rosto dela está escondido ficar úmido, então num impulso pouco sensato ele e abraça de modo a puxá-la para o colo dele.

Ela não se opõe ao ato de modo algum e até se acomoda facilmente na nova posição sem nunca soltá-lo durante o processo. E isso o deixou um tanto quanto perturbado, um comportamento quieto e maleável em relação a ele não é algo que ele esperaria de Emily dentre todos os seus amigos. O que significa que alguma coisa está muito errada aqui!

A questão é: O que? O silêncio da morena complica ainda mais a situação, já que ela geralmente não é de guardar reclamações ou ofensas, então tudo fica um pouco mais preocupante.

Respire Josh, respire.

Tudo bem... ela está obviamente procurando conforto, mas porque ele? Por que ela procuraria isso nele? Não deveria procurar isso com Matt, Mike, Sam ou até mesmo Chris? O que a faria procurá-lo ao invés dos outros? Aliás, o que aconteceu com os demais?

“...Jessica ESTÁ MORTA…”

Ele sente um arrepio ao lembrar do que Mike disse antes de bater nele e junto a Chris o arrastar para fora do chalé... Não é verdade. Eu não matei ela. Eu não matei ninguém.

Porém algo mais lhe vem à mente; corpos pendurados em ganchos em uma caverna escura. Não, não pode ser. Mas, a dúvida o tomou e com uma voz tão fraca que ele quase não reconheceu como sua Josh pergunta:

— Em, o que aconteceu com os outros? ...

A resposta dela a pergunta foi um choro mais óbvio, desistindo de qualquer tentativa de discrição que pudesse estar tentando ter, e ao mesmo tempo dando a resposta que o moreno mais temia ouvir.

Mortos... eles morreram!

O choque e a dor o tomam de novo e Josh mal consegue respirar com a percepção que o atinge agora. Primeiro ele perdeu suas irmãzinhas e agora mais uma vez perdeu pessoas que amava… e uma delas provavelmente foi responsável por matar as outras por culpa dele. Porque ele não cuidou dela quando deveria, porque ele é um maldito de um imprestável doente.

Enquanto processa a notícia ele inconscientemente aumenta seu aperto ao redor de Emily, que chora copiosamente tendo escondido os olhos na junção de seu ombro com o pescoço. Ele mal sente uma lágrima cair de seu olho esquerdo, logo em seguida do direito, e assim mais e mais lágrimas caem enquanto ele chora silenciosamente junto a ela.

“Você os matou Josh…”

“Porque não nos salvou Josh?”

“Eles morreram por sua culpa.”

“Nós sentimos sua falta…”

“Maldito assassino!”

“Você é um de nós agora.”

E assim as vozes começaram a tentar voltar, uma maldita cacofonia ameaçando recomeçar na cabeça dele. Não, de novo não. Vocês não são reais, nenhum de vocês!

Ele não pode deixar isso começar de novo. Ele não vai aguentar passar por isso de novo, então ele tenta de algum modo se focar em algo que é real. Como a garota que ele está abraçando no momento. Então ele foca o máximo de atenção possível em Emily.

Que tem três curativos até onde ele pode perceber; um na testa que ele viu de relance antes dela esconder o rosto, um no ombro direito que está meio escondido pelo avental do hospital e um bem grande na perna direita (que deve estar bem desconfortável com a posição atual). Ele se pergunta como ela os conseguiu, ela também esteve nas minas? Ela se deparou com… a Hannah? Foi atacada?

“Por SUA culpa Josh!”

“Por que deixou isso acontecer conosco?”

“Ela não cheira bem?”

Parem… Vocês não me dão ordens mais!

Porém dando ouvidos a última voz ele tenta se focar no cheiro de Emily. O cheiro geral de antisséptico do hospital normalmente sobrepõem qualquer cheiro que possa ser sentido, então a princípio ele não percebe nada de especial nela até colocar o nariz no cabelo dela.

Terra. É o primeiro cheiro que ele percebe, o cheiro de terra úmida… neve e por fim sangue. Os primeiros talvez fossem esperados, afinal eles estavam em uma montanha no inverno, cercados por neve, rochas e criaturas perigosas… Como a caverna nas minas… Em esteve lá? Por que ela iria pra lá? Ela foi levada pra lá? Ela também viu os corpos? Ou viu a…?

Seu estômago acaba por cortar seu monólogo interno com uma pontada de dor aguda, que o fez perceber que ele se moveu de modo a estar com o nariz quase apoiado no ombro ferido dela, tornando o cheiro de sangue mais proeminente do que deveria ser possível mesmo com a proximidade física de ambos naquele momento.

“Você é louco?”

“Não quer um pouco?”

“Estamos com você agora.”

Parem! Vocês não são reais! Ela é!

Ela é real e está chorando de dor… assim como ele. E é nisso que Josh se foca, na pessoa em dor junto a ele (literalmente em seu colo) e que ele tenta de algum modo oferecer conforto correspondendo na mesma intensidade o abraço lhe dado e ouvindo atentamente os soluços precariamente abafados que ela emite.

E ele dedica toda sua atenção a isso até a exaustão começar a se abater sobre eles. Emily tendo sido a primeira a ser tomada por ela, afrouxa o aperto nos ombros de Josh (que sente um misto de alívio e incômodo com o ato) e se acomoda contra ele sem demonstrar qualquer interesse em sair do lugar que ocupava. Pouco depois a respiração dela se torna suave e regular enquanto ela mergulha na inconsciência, com Josh a seguindo pouco depois.

Algum tempo depois Josh acordou do cochilo acidental ouvindo vozes à distância. A princípio ele acredita que elas estão em sua cabeça, mas rapidamente percebe que elas vem do corredor já que não parecem estar direcionadas a ele:

— Você viu a paciente do 212?

— Ainda não, mas ela difícil teria ido longe sem alertar a segurança.

— Acha que ela pode estar em algum dos quartos?

— Possível, mas qual? Ela não foi resgatada sozinha? Porque entraria em outro quarto?

— Eu não sei mais temos que levá-la de volta logo.

Levá-la? Levá-la para onde?

“Para longe de você!”

A voz de Beth o livra do torpor em que se encontrava e o coloca em alerta. Ele não quer, não pode ficar sozinho, de novo não. Então os passos se aproximam e ele aumenta seu aperto em Emily que ainda está dormindo em seus braços. A porta se abre para revelar a silhueta de uma das enfermeiras e Josh se sente como um cervo nos faróis atordoado pela luz, mas ao invés de esconder seus olhos da luz forte do corredor que entrava pela porta aberta ele precariamente tenta esconder Emily com seu corpo. Ele não sabe o que a enfermeira está vendo, mas a mesma parece assustada enquanto olha para Josh.

“Nós estamos aqui pra você Josh.”

Mentira. Pensa Josh em resposta a voz de Sam. Você também morreu.

Notas finais
Espero que tenham gostado, Emily e Josh são 2 dos meus personagens favoritos de Until Dawn, então gostei bastante de escrever sobre ambos, ainda mais considerando que eles não tem interação canônica no jogo. Obrigado por ler e até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!