Estes Laços Que Unem
6 Um Beijo Pode Construir Um Sonho.
Notas iniciais
Na manhã seguinte, a primeira coisa que eu senti quando abri os olhos foi a enorme e desgastante dor de cabeça que, por um segundo, me tirou a visão do que estava bem à minha frente. O cheiro forte e quase enjoativo de café que vinha da cozinha, intoxicando praticamente a casa inteira, agora repousava pesadamente em meus pulmões e parecia ficar cada vez mais forte conforme os meus sentidos voltavam a funcionar aos poucos. Eu precisei de alguns segundos para processar todas as informações necessárias do por que eu estava me sentindo assim.
Sentei na cama de forma muito rápida e brusca, o que causou algumas pontadas quase insuportáveis por todo o meu corpo. Olhei ao redor e percebi que eu não sabia onde eu estava, e sempre que eu tentava me lembrar, meu cérebro parecia encolher e a dor apenas aumentava. O quarto em que eu me encontrava estava escuro devido às cortinas grossas estarem fechadas, enquanto o cheiro suave e aprazível de lavanda agora parecia dançar pelo meu nariz.
— Droga! — Resmunguei comigo mesma, não deixando de notar a voz rouca que acabara de sair da minha garganta. Levantei depressa da cama, procurando pela porta do banheiro dentre a quase completa escuridão ao meu redor.
Assim que me olhei no espelho, algumas imagens de ontem à noite brilharam em minha mente, como verdadeiras memórias fragmentadas. Abri a torneira e fiquei escutando o barulho da água cair por um singelo momento, tendo cada vez mais consciência de onde eu estava. A voz suave e melódica de Samara tomava vida novamente, assim como seu rosto incrivelmente bonito. Ela havia me trazido à sua casa depois que eu lhe contei sobre a irrelevante briga que eu tinha tido com meus pais ontem à tarde. Spencer e eu havíamos discutido também, depois que eu contei a ela sobre os recorrentes sonhos com que eu vinha tendo com a nossa Ali. Eram todos tão vívidos e cheios de nostalgia...
— Ei, você está bem? — Olhei quase de imediato para a origem do som, afastando-me completamente dos meus pensamentos. Samara estava parada na porta do banheiro, encostada no batente com os braços cruzados.
— Ei... — Fechei a torneira rapidamente, não tirando os meus olhos dela nem por um segundo sequer. — Melhor agora. — Garanti, com um sorriso confortável. Ela assentiu, baixando a cabeça por um instante.
— Eu fiz café. — Samara avisou, gesticulando com a mão direita, como se tivesse sido a única coisa que ela havia conseguido pensar em dizer. — Você quer tomar café comigo?
— Isso é um convite ou apenas você sendo cortês? — Perguntei com o tom beirando a seriedade. Samara franziu o cenho, desviando os olhos por uma pequena fração de segundos.
— Os dois, na verdade. — Admitiu, depois de pensar a respeito.
— Sendo assim, será um prazer. — Assenti polidamente, parando para observar seu pijama de leopardo rosa-cinza da Victoria’s Secret, que a deixava ainda mais atraente.
— Bem, eu vou esperá-la no andar de baixo. — Samara disse. — Desça assim que terminar. — Com isso, ela se virou e saiu do meu campo de visão, deixando-me sozinha novamente em seu espaçoso banheiro de cor extremamente clara.
Depois disso, no entanto, aproveitei o momento que me foi dado para tomar um banho rápido, com o intuito de amenizar as fortes dores no corpo que eu ainda sentia e tirar o resto de cansaço que parecia querer me dominar. Então, assim que eu havia me vestido com algumas roupas que Samara tinha deixado em cima da cama, desci as escadas cravadas na parede, observando as inúmeras obras de arte que se destacavam na parede branca ao meu lado. Até mesmo os degraus pareciam obras de arte.
Antes que eu chegasse aos últimos degraus, pude ouvir um barulho indizível vindo do andar superior, o que me chamou a atenção por alguns segundos, mas logo o ruído foi abafado pela música baixa que ecoava suavemente da cozinha. Era uma daquelas bandas britânicas que Samara gostava e que eu não conhecia por nome. Portanto, quando eu me aproximei de onde ela estava, de costas e com o torso curvado, tomei o cuidado para não abordá-la de maneira brusca, mas suave.
— Olá de novo. — Ela sorriu assim que eu me coloquei à sua frente, no balcão onde havia todo um café da manhã preparado.
— Isto tudo é para mim? — Perguntei com o tom de voz baixo, inclinando minha cabeça para o lado com um sorriso sugestivo.
— Você percebe, eu sou uma perfeita anfitriã. — Samara colocou os papéis que estavam em suas mãos no canto da mesa, que, colada à extremidade do balcão, formava um “T”, e ergueu os olhos para poder me encarar.
— Notório. — Assenti lentamente, não deixando de observá-la nem por um momento. Ela tinha um olhar indecifrável e postura relaxada, que me fez querer saber no que ela estava pensando, até que algo surgiu em minha mente antes de qualquer coisa. — Você parece ser perfeitamente independente, também.
— Você acha? — Ela riu forçadamente, despejando um punhado de suco no copo que estava sobre a mesa.
— É como eu a vejo. — Dei de ombros, desviando os olhos para qualquer outro lugar.
— Sendo assim, talvez você devesse ter me conhecido alguns anos atrás. Você teria tido uma visão mais aprimorada de mim. — Murmurou de forma quase inaudível. — Suco ou café? — Samara perguntou rapidamente, erguendo os olhos para me fitar.
— Acho que eu estou bem com o agora. Eu sinto como se tivesse conhecido você no momento certo. — Respondi com certa lascívia, dando a volta no balcão apenas para ajudá-la.
— O que isso significa? — Ela estava contendo um sorriso, mas era possível notar o brilho que havia em seus olhos.
— Significa que o destino, às vezes, pode ser trágico, muitas vezes implacável, mas eu sei que ele não erra. — Argumentei com naturalidade, pegando um pedaço cortado de morango na vasilha de vidro e colocando na boca, enquanto Samara me analisava com um cuidado irretocável.
— Eu acho você uma garota muito esperta. — Ela assentiu depois de um segundo. — E também acho que, talvez, você tenha razão.
— Eu estou certa. — Garanti rapidamente, aproximando-me ainda mais dela. — E, sobre ontem à noite, no bar, eu gostaria que você soubesse que eu não a beijei porque estava bêbeda, mas porque eu realmente quis fazer aquilo desde o momento em que eu a vi. — Agora, nós estávamos a pouquíssimos centímetros de distância e eu podia sentir o seu cheiro suave de lavanda com cedro. Era intoxicante e familiar, como se eu estivesse na minha própria casa.
— Oh. — Samara piscou com certo embaraço, seus lábios convidativos entreabertos. — Você se lembra.
— É claro que eu me lembro. — Sorri docemente. — E não me arrependo, se você me perguntar. Eu me lembro de absolutamente tudo, como o quão bonita você estava ontem.
De repente, a imagem de Samara vestida com calça jeans preta skinny, sapatos de salto alto Louboutin e casaco de lã na cor cinza escura preencheu minha mente instantaneamente e, então, a lembrança pulou para o momento exato em que estávamos do lado de fora do bar, nos beijando profundamente, seus braços em torno da minha cintura enquanto eu pressionava o meu corpo trêmulo contra o dela, quente e delicado. Havia sido surreal e, depois que ela quebrou o nosso contato, passei a querê-la ainda mais.
Com o efeito entorpecente da memória, antes que eu soubesse o que estava fazendo, inclinei-me um pouco em sua direção e toquei seus lábios suavemente com os meus, mantendo-os entreabertos enquanto deslizava meu lábio inferior contra o seu lentamente. Levei a minha mão até a sua nuca, escorregando pelo seu pescoço e pressionando nossos lábios com um pouco mais de intensidade. O aroma delicioso que sua pele tinha me fez sorrir, o que imediatamente me fez desejar prolongar o momento por mais algum tempo antes de quebrar a nossa pequena e íntima interação.
— Isso é tão bom. — Deixei escapar ainda com os olhos fechados. Quando eu os abri, Samara estava com os olhos bem abertos, observando-me com candura e leve confusão. — Eu estou forçando a barra? — Inclinei a cabeça para o lado, mordendo o interior do meu lábio com uma força desnecessária.
Antes que ela pudesse me responder, houve um barulho de passos pesados vindos das escadas, o que fez com que eu me afastasse dela para olhar em direção à origem do som. Alguns segundos se passaram e um rapaz alto, forte e de cabelos negros emergiu na cozinha. Samara, assim que o viu, deu de ombros e desviou sua atenção para as frutas cortadas na vasilha à sua frente, como se elas fossem mais interessantes. Um sentimento estranho e desagradável cruzou pelo meu peito quando percebi o seu estado.
— Ei... — Murmurou meio sem jeito, deslizando a mão pelo seu cabelo bagunçado.
— Olá. — Samara lhe direcionou um meio sorriso antes de ele atravessar a cozinha e parar perto dos armários, onde pegou suas chaves e, então, deu meia volta e se afastou sem dizer mais nada.
— Quem é ele? — Perguntei num sussurro articulado, prestando atenção em cada movimento que Samara fazia.
— Não faço a mínima ideia. — Ela respondeu, logo voltando ao que agora estava comendo. — Deus, isso é bom! — Gemeu em apreciação, referindo-se a uma geleia de cheiro agradável em cima da mesa. Em seguida, ela cobriu uma fatia inteira de pão integral com a geleia e empurrou em minha direção. — Prove. — Abri a boca devagar e aceitei de bom grado quando ela se aproximou ainda mais para que eu mordesse, e logo o gosto delicioso de jabuticaba inundou a minha boca.
— Gostoso. — Assenti enquanto mantinha minha atenção voltada somente para ela. — Então, vejo que está acostumada a trazer estranhos para a sua casa. — Observei, tentando esconder o pouco de mágoa que beirou no meu tom de voz.
— Na verdade, não. — Ela disse. — Eu não acho que você seja uma estranha.
— Oh, certo. — Ri fracamente, baixando os olhos por um momento, lembrando-me do detalhe de que minha vida havia estado em todos os jornais algum tempo atrás e isso fez com que eu me perguntasse se Samara sabia de algumas das coisas terríveis que eu já fiz. — E quanto a ele? — Apontei na direção em que o rapaz havia acabado de sair.
— Ele provavelmente é alguém com quem Melanie passou a noite. — Ela me observou com certa curiosidade.
— Isso é algo comum para você? — Agora, eu estava tentando me desviar do embaraço que eu mesma me coloquei.
— Basicamente. — Deu de ombros, virando-se para o armário. — Ela faz isso desde a época da faculdade, cada dia é alguém diferente. — Samara pegou um adoçante e pingou pacientemente no seu suco.
— Por favor, diga-me que você nunca foi assim. — Encarei sua expressão serena com contida ansiedade, mas a resposta era muito óbvia.
— Não, isso é um grande desperdício de juventude. — Afirmou com convicção, enquanto passava geleia entre dois pedaços de morango. Certamente, não pude deixar de sorrir com sua resposta. — O quê? — Ela sorriu também, trocando o peso do seu corpo.
— Desculpe, eu só estou encantada com você. — Dei de ombros, não quebrando o contato visual que sustentávamos.
— O que exatamente você quer de mim, Emily? — Samara perguntou, sem rodeios. — Desculpe se estou sendo rude, mas eu ainda não consegui compreender as razões de suas investidas, então, por favor, peço que me situe. — Ela pediu com extrema profusão e gentileza, em momento algum perdendo sua admirável polidez.
— Você está falando sério? — Deixei uma risadinha confortável escapar. — Bem, você sabe, talvez seja o seu sotaque irresistível, que realmente me deixa com vontade de agarrá-la, ou então os seus bonitos e apaixonantes olhos azuis. Eles são sinceros e profundos, quase como um mar calmo de boas sensações. — Era tudo verdade e eu mal pude acreditar que eu realmente havia acabado de dizer aquilo.
— Parece que você enxerga com o coração. — Samara disse depois de um momento de contida surpresa. Olhando para ela, eu podia dizer que seus olhos possuíam um pouco do brilho da satisfação.
Peguei meu celular ao lado da minha bolsa e vi que havia algumas ligações perdidas de Spencer, junto de mensagens, como: “Sinto muito por ontem, acho que exagerei.” e “Onde você está? Nós precisamos conversar.”. Ignorei todas elas e empurrei o celular para dentro da bolsa, endireitando-me logo em seguida.
— Acho que é melhor eu ir embora. — Irrompi de repente, enrugando a testa ao me deparar com a sensação estranha que me acometeu quando eu olhei para ela novamente.
— Mas você mal tocou no seu café da manhã... — Observou, segurando a minha mão delicadamente antes que eu pudesse me virar. Com um sorriso preguiçoso, balancei a cabeça devagar e olhei para o chão momentaneamente.
— Obrigada por ter gastado seu tempo comigo, mas se não quiser me passar uma impressão errada, é melhor você parar, porque acho que as minhas intenções estão muito óbvias. — Deixei bem claro, não permitindo a seriedade abalar meu tom de voz sóbrio e sereno. Samara não disse nada, apenas soltou a minha mão e, com isso, dei às costas para ela e fui embora.
***
Algumas horas depois, eu estava deitada na minha cama, tentando ler a revista sobre moda e comportamento que Hanna havia deixado comigo antes de viajar à Nova York. Aparentemente, ela iria apenas assistir ao desfile da grife Marc Jacobs e depois contar tudo à Samara, em detalhes, para que ela pudesse escrever a respeito. Era no mínimo interessante ver como a opinião de Hanna em relação à Samara estava sofrendo uma alteração positiva. No entanto, conforme os minutos ao meu redor se arrastavam, minhas pálpebras pareciam ficar cada vez mais pesadas e logo eu não saberia dizer em qual momento eu me renderia ao sono.
De repente, tive um angustiante sobressalto com o barulho de uma gaveta se abrindo, o que me fez abrir os olhos imediatamente e sentar ereta na cama. A primeira coisa que puxou a minha atenção foi uma figura parada perto da minha escrivaninha, de costas. Os cabelos longos e loiros fizeram meu coração disparar diante da possibilidade.
— Alison? — Consegui dizer.
Lentamente, a figura resplandecente parada a alguns metros de distância da minha cama virou-se e, por conta da quase completa escuridão, tudo o que eu consegui enxergar foi um rosto em formato de coração. Minha cabeça agora parecia querer girar e os meus olhos estavam salpicados.
— Olá, Emily. — A voz rouca e melódica que eu nunca havia sido capaz de esquecer soou calma e profunda. Ela era a minha Ali, a garota que eu conheci na sexta série e por quem eu verdadeiramente me apaixonei, não a completa estranha que fingiu ser a minha amiga e depois tentou me matar. — Eu pensei que não conseguiria mais vê-la... — Ela se aproximou um pouco, parando sob o punhado de luz natural que atravessava pela janela aberta.
— Eu não entendo por que você continua entrando na minha cabeça. — Suspirei cansadamente, lembrando-me das últimas vezes em que eu podia vê-la com extrema nitidez.
— Porque você ainda quer algo de mim. — Ali se arrastou até a minha cama, sentando-se de frente para mim. — E eu sinto muito por não poder dá-lo a você. — Sua voz possuía um pouco de amargura, como se realmente quisesse dizer aquilo.
— Eu ainda sinto a sua falta. — Murmurei com dificuldade, desviando os olhos para o vazio da noite do lado de fora da janela. — Você se foi há tanto tempo, mas não teve um dia que eu deixei de sentir.
— Eu gostaria de ter tido a chance de fazer as coisas diferentes, mas eu não tive muitas opções. — Ela forçou uma risada, mas a tristeza era tão óbvia que doía.
— Eu nunca me perdoei por não ter estado ao seu lado quando você precisou de mim. Agora, eu sinto como se tivesse que conviver todos os dias com o grande vazio que você me deixou. — Olhei para ela e vi que seus olhos estavam salpicados, mas que também havia um brilho especial neles.
— O destino, às vezes, é trágico, mas ele não erra. — Ali repetiu o que eu havia dito mais cedo. Ela, então, desviou sua atenção para o meu lençol e seu queixo tremeu por um segundo antes que ela voltasse a me fitar. — No entanto, isso não significa que não ficaremos juntas. Naquele cartão postal, eu jurei a eternidade para você e, apesar de a minha vida ter sido uma grande mentira, aquilo não foi. Se eu ainda estivesse viva...
— Mas você não está. — Concluí tristemente, baixando a cabeça por um momento. Desapontada, Ali suspirou e balançou a cabeça com veemência, espantando o que parecia passar pela sua mente.
— Eu sinto tanto a sua falta, Em. Você não tem ideia de como aqui é triste e solitário... A vida eterna é realmente uma droga quando não se tem alguém para compartilhá-la. — Choramingou com a voz embargada, olhando para o que estava em sua mão. Houve um momento de silêncio, até que eu me dei conta do que era.
— Você nunca chegou a ler, não é mesmo? — Apontei para a carta que ela segurava com certa amargura. Era a carta que eu havia escrito para ela depois que nos beijamos na sua casa da árvore.
— Na verdade, eu li. — Ela confessou. — Mas na época, eu não queria ter lido. Aquilo me deixou ainda mais confusa sobre o que eu estava sentindo, sobre nós duas, o beijo.
— É uma pena que você não teve tempo de se desfazer dessa confusão. — Murmurei mais para mim.
Observei sua feição mudar lentamente e, agora, parando para observá-la de maneira mais ampla, Alison parecia melancólica e seu rosto em formato de coração ainda possuía o mesmo efeito sobre mim. Seus hipnotizantes olhos azuis continuavam imutáveis, com o mesmo brilho libertador de sempre. Era terrível pensar que ela estava tão longe de mim, que a sua vida havia acabado prematuramente e que, por conta disso, nunca iríamos cumprir a nossa promessa de ficarmos juntas para sempre.
— Hoje é diferente, você sabe. Eu consigo ver as coisas com mais clareza, mesmo que isso não faça mais diferença alguma.
— Eu queria tanto acreditar que isso é real, mas, apesar de sua alma ainda me atormentar, eu sei que você não existe mais.
Deixei um longo e pesado suspiro escapar da minha boca, e tudo o que eu consegui fazer foi olhar para o outro lado e me entregar ao silêncio. Pelo canto do olho, pude ver Ali se arrastando ainda mais para perto de mim. Sua mão tocou a minha e permaneceu assim por um longo instante, até que ela se inclinou em minha direção e ergueu meu queixou para que eu pudesse fitá-la. Em seguida, selou nossos lábios profundamente. Fogos de artifício explodiram no meu estômago.
Toquei seu rosto com delicadeza, apreciando a sensação deliciosa que era tê-la perto de mim. Num instante, sua pele era quente e macia, mas, no outro, seu queixo se transformou em algo mais áspero, não liso, e o seu intoxicante cheiro de baunilha agora era um odor amadeirado. Abri os olhos e percebi que não era o rosto de Ali em contato com o meu e nem os seus lábios suaves tocando os meus, era o rosto de Enzo pressionando o meu. Ele cheirava a couro e hortelã, e o seu peso certamente não era compatível com o de Alison.
— Enzo! — Gritei, voltando imediatamente à realidade e empurrando-o para longe. — O que você está fazendo aqui? — Exigi depois de um segundo, quando eu já havia pulado para fora da cama.
— Eu fiquei com saudade. — Ele disse, parecendo ferido com a forma exagerada que eu reagi. — Você estava sonhando com ela de novo, não é? — Enzo me direcionou um olhar desapontado, quase impassível, e então se levantou da cama.
— Não. — Dei às costas para ele.
— Não minta para mim. — Seu tom de voz se elevou, mas era perfeitamente possível saber que ele estava tentando manter a calma. — Eu pensei que houvéssemos concordado em não guardar segredos. Não há espaço para eles num relacionamento, Emily.
— Eu não estou escondendo nada de você! — Impacientei-me. — Você está sendo paranoico. — Dito isso, ele tirou algo de dentro do bolso de sua calça jeans. Era um cartão postal de Paris.
— Eu achei isto em frente à sua porta quando vim procurá-la hoje pela manhã. — Enzo estendeu o cartão em minha direção e, quando eu o peguei, percebi que estava amassado.
— Você leu? — Perguntei de forma acusatória. — É claro que você leu. — De repente, eu me sentia extremamente irritada com sua intromissão.
— Quer saber de uma coisa? — Ele arqueou as mãos, em rendição. Seu semblante estava contorcido de fúria — Quando você perceber que é loucura continuar se importando tanto com uma garota que nem viva está mais e decidir finalmente seguir em frente, você me liga. Até lá, eu estou fora disso. — Enzo pegou seu casaco da cama e pisou firme até a porta do meu quarto, determinado.
— Sim, por favor, fuja! — Gritei com a voz embargada, sentando-me na cama logo que a porta se fechou com força.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, as lágrimas que eu pensei que houvessem se esgotado depois de longos anos chorando começaram a escorrer pelo meu rosto de forma incontrolável. Eu me sentia destruída e sem esperanças, como se tivessem arrancado uma parte de mim. Alison estava morta e eu não sabia se algum dia eu conseguiria superá-la a ponto de poder seguir em frente sem essa angústia, que constantemente me lembrava de que Ali existiu, mas que eu a perdi. Como eu havia chegado a esse ponto, afinal?
Meu celular apitou em alto e bom som no criado mudo ao meu lado, tirando-me do oceano de pensamentos melancólicos que eu havia mergulhado e no qual eu já estava quase me afogando. Assim que eu o peguei, vi o nome de Samara piscar na tela de forma eufórica, ou talvez essa fosse eu. Samara era completamente o oposto de Enzo e isso automaticamente despertou um pequeno fragmento de uma das minhas lembranças sobre ontem à noite, quando eu contei a ela sobre a minha Ali e até quando a verdadeira Alison me beijou. Sua sensibilidade diante de tudo àquilo era algo que me tocava profundamente.
“Você pode se encontrar comigo?”, enviei antes mesmo de ler o que sua mensagem anterior dizia.
“Agora?”, sua resposta veio de maneira quase instantânea.
“Sim, acho que temos algumas coisas para conversar.”, escrevi de volta e apertei em enviar.
“Tudo bem, me diga onde e eu estarei lá.”, logo que sua resposta positiva chegou, levantei da cama quase que de imediato e tratei de me arrumar às pressas antes que minha mãe aparecesse para saber o que havia de errado comigo.
Depois de dez minutos, eu estava estacionando o meu carro de qualquer jeito na ponte que ficava no alto de uma colina na extremidade da cidade de Rosewood. Agora, já se passavam da meia-noite e o que iluminava o caminho à minha frente eram os faróis ligados, contando também com a luz resplandecente que a lua emitia em quase toda a colina. As minhas roupas eram de acordo com o clima instável, jaqueta de couro na cor vinho, calça skinny preta e botas. Portanto, assim que eu saí do carro, avistei Samara encostada no peitoril que cercava a ponte, olhando para o riacho abaixo de nós. Ela logo se virou e me encarou com um sorriso preguiçoso.
— Eu espero que tenha aceitado as minhas sinceras desculpas. — Samara disse quando eu estava me aproximando dela. — Não soube direito como agir com você. — Acrescentou assim que estávamos de frente uma para a outra. Ela vestia um cardigã azul escuro com faixas brancas localizadas, calça jeans colada e botas pretas até o joelho. O vento fresco soprava seu cabelo loiro claríssimo para o lado.
— Não, está tudo bem. — Coloquei as mãos dentro do bolso da minha jaqueta college. — Desculpe por tê-la beijado. Talvez eu tenha passado dos limites, confundido as coisas. — Tentei soar madura e equilibrada, o tipo de garota que merece ser levada a sério por ela.
— Você não parece arrependida. — Observou com cautela. Por uma pequena fração de segundos, eu imaginei ter visto uma fina linha de esperança cruzar os seus profundos olhos azuis.
— Eu não estou. — Assenti devagar, tomando cuidado com a forma que eu me expressaria a seguir. — Acho que eu deveria ter esperado mais um pouco, você sabe, ter conquistado a sua amizade ao invés de agarrá-la do lado de fora de um bar que você odiou. — Despejei de maneira involuntária, o que a fez me inspecionar com mais atenção.
Samara se aproximou devagar, tomando as minhas mãos nas suas com suavidade. Antes de qualquer coisa e sem dizer nada, ela se inclinou em minha direção e me beijou nos lábios, movimentando-os de forma lenta e deleitosa. Ela deixou a minha mão direita escapar, usando a sua livre para me puxar pela cintura. Agora, os nossos corpos estavam colados e eu aproveitei para levar a minha mão até sua nuca, deslizando pelo seu pescoço e clavícula.
— Você é uma garota tão bonita. — Murmurou com um sorriso bobo, fazendo o meu coração acelerar. — Fico feliz que tenha me surpreendido.
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