Estes Laços Que Unem

7 Tudo No Seu Devido Lugar.


Notas iniciais
Finalmente terminei! E, desculpem pela demora, vocês sabem, rotina de quem estuda o dia inteiro não é fácil. Espero que apreciem este capítulo, é contado pelo ponto de vista da Samara. :)

Na quarta-feira pela manhã, era numa cafeteria perto do Colégio Rosewood Day que eu me encontrava, tomando um frappuccino de baunilha e relendo algumas das anotações que Hanna havia feito sobre o desfile de Nova York. Eram quase oito horas do dia treze de maio e eu havia convidado Emily para tomar café comigo antes que ela fosse à escola.

— Desculpe se eu a fiz esperar, as minhas amigas não queriam me soltar. — Fui surpreendida quando ela se sentou apressada à minha frente, com um sorriso no rosto e os olhos fixos na garçonete que se aproximava. — Eu vou querer um latte, obrigada. — Pediu com delicadeza, voltando sua atenção para mim no instante em que a garçonete se afastou. Olhei para o visor do meu celular que estava sobre a mesa e constatei que ela não estava atrasada. Felizmente, Emily era muito pontual.

— Como você está? — Perguntei com polidez, analisando sua compostura com cuidado. — Espero que tenha conseguido dormir essa noite. Ontem você parecia exausta. — Observei com sensibilidade, tocando sua mão sobre a mesa com suavidade. Ela sorriu automaticamente, talvez pelo tom de preocupação que me escapuliu, ou então pelo toque singelo e inesperado.

— Eu estou muito bem, obrigada. — Emily respondeu, seus olhos brilharam com sinceridade. Em seguida, ela se inclinou sobre a mesa e sussurrou: — E quanto a você, ainda muito ocupada com o seu trabalho? — Sua voz possuía uma pontada de malícia e provocação divertida.

— Você sabe, nem tanto. — Balancei a cabeça devagar, sorrindo quando ela me encarou com curiosidade. — Eu tenho outras coisas para fazer. — Argumentei casualmente, com os olhos baixos.

— Parece importante. — Ela riu, afastando-se quando a garçonete se aproximou novamente, trazendo o que ela havia pedido. Emily encostou suas costas no couro confortável do banco, consertando sua postura, mas sem cortar o contato suave de nossas mãos sobre a mesa.

— Nem um pouco. — Murmurei com uma pontada de humor em meu tom de voz, erguendo o canto dos meus lábios num sorriso fraco. — Agora, me diz, o que você tem para fazer na escola num dia tão especial como hoje? — Perguntei de forma aleatória, referindo-me ao seu aniversário de dezoito anos e que, por conta disso, fazia com que eu me sentisse um pouco mais leve.

— Eu não sei, talvez porque seja um dia como qualquer outro. — Emily deu de ombros, como se realmente não fosse grande coisa. — A única coisa relevante neste dia é que você não tem mais desculpas para não ficar comigo, a não ser que realmente não queira isso, o que, neste caso, será muito frustrante para mim. — Ponderou com certa sensibilidade, bebericando seu latte brevemente.

Apesar de estarmos saindo há pouco mais de duas semanas e meia, não tínhamos nos beijado outra vez desde o dia em que nos encontramos na ponte. Eu estava levando as coisas de modo excessivamente devagar, uma vez que havíamos concordado em esperar até que ela fizesse dezoito anos. Desta forma parecia menos imprudente e Deus sabe como a imprudência me desagrada. Mas Emily, por sua vez, demonstrara um verdadeiro e inocente apreço pelos meus princípios e isso me encantou.

— Existe alguém que não queira ficar com você? — Arqueei as sobrancelhas divertidamente, sorrindo logo em seguida numa tentativa de aliviar sua aparente tensão depois de um curto e temível silêncio. — Eu julgo ser algo impossível, se você me perguntar.

— Por quê? — Emily sorriu. — Você me acha tão incrível assim?

— É uma possibilidade. — Deixei no ar, dando um longo gole na minha bebida.

— Não se deixe enganar, eu posso ser terrível. — Alertou com um sorriso firme, mas que não me enganava. — É o que as pessoas daqui dizem. — Deu de ombros, olhando para o movimento tranquilo ao redor.

— As pessoas falam demais, é por isso que temos dois ouvidos, porque, senão, estaríamos em apuros. — Comentei vagamente, acariciando a palma de sua mão num gesto de conforto e compreensão.

— O que você quer dizer com isso? — Tornou confusamente.

— O que não é útil para ser ao menos filtrado deve entrar por um ouvido e sair pelo outro. É o que a minha mãe de criação sempre me disse. — Expliquei, observando seu sorriso de pura gratidão crescer nos seus lábios bonitos e beijáveis. — Agora, já que eu não vou vê-la pelo resto do dia inteiro... — Despertei depois de um momento, desviando a minha atenção para uma sacola que estava ao meu lado no banco. Emily seguiu meu olhar e arqueou as sobrancelhas confusamente quando eu entreguei a ela.

— Eu pensei que tivesse dito que não queria presentes. — Comentou com os olhos fixos nos meus, ainda com a sua mão em cima da minha.

— Abre, por favor. — Pedi com doçura, sustentando seu olhar por meio segundo. — Eu posso lhe assegurar que isso não se trata do seu aniversário. É apenas casual, algo que eu já havia notado. — Não era completamente verdade, mas aquilo pareceu funcionar, uma vez que foram precisos apenas alguns segundos até que ela finalmente fizesse o que eu pedi. — Isso é...

— Incrível! — Emily concluiu por si mesma, depositando grande ênfase depois que descobriu uma caixinha de veludo preta dentro da sacola da Cartier, uma famosa joalheria francesa fundada em 1847, que, por sua vez, continha uma pulseira de prata no seu interior. — Aparentemente, você acertou em cheio, eu adoro pulseiras, mas eu não me lembro de ter dito isso a você. — Ela sorriu com astúcia.

— Hanna me disse que você gostava. — Admiti com sinceridade, mordendo o interior do meu lábio com um pouco de força. — E, bem, eu nunca agradeci propriamente a sua boa vontade de desfilar no evento da Semana da Moda em Rosewood. — Usei como desculpa a primeira coisa que eu achei mais apropriada, mas, no fundo, eu sabia que ela ainda estava desconfiada.

— Eu fiz aquilo pela Hanna. — Insistiu, com o olhar bem atento a mim. — Mas, de qualquer forma, obrigada. Isso foi muito gentil da sua parte. — Sua voz era tão tranquila e amena que me fez sorrir. Sua atenção rapidamente se voltou à caixinha em sua mão.

— Posso? — Pedi sua permissão para colocar a pulseira em seu pulso e ela logo assentiu. — O que significava aquele pingente de “L”? — Perguntei distraída, notando, então, que ela não estava mais usando a pulseira de antes.

— Lorenzo. — Respondeu simplesmente, balançando os pingentes de laços que adornavam ainda mais o seu presente não assumido. Olhei para ela, mas não disse nada, esperando que ela continuasse. — É o idiota do meu ex-namorado. — Emily deu de ombros, desviando sua atenção para os lados, parecendo um pouco incomodada com o assunto.

— Desculpe, eu não deveria ter perguntado. — Apesar de surpresa, senti-me estranha por saber que ela tinha um namorado.

— Não se preocupe, é que eu ainda estou com raiva dele. — Explicou.

— Parece sério. — Comentei, observando seu sorriso de quem dizia “está tudo bem” crescer de forma quase espontânea. Ela checou as horas no seu celular sobre a mesa e deu um leve sobressalto.

— Droga! Eu tenho que ir. — Anunciou logo em seguida, suspirando pesadamente.

Emily estava pronta para se levantar quando eu toquei sua mão e acariciei com delicadeza, sorrindo sem pudores para ela. Levantei-me devagar, logo depois dela, e me inclinei em sua direção. Deixei um beijo casto e gracioso no canto de sua boca, lutando contra a vontade de beijá-la calorosamente até perder o ar.

— Feliz aniversário. — Sorri com vertigem, depois de um segundo contemplando a vivacidade com que seus olhos brilhavam bem diante dos meus.

— Já está sendo. — Ela sorriu de volta na mesma intensidade, olhando nossas mãos por um momento e se afastando aos poucos.

— Se ficar muito entediada, não hesite em me ligar. — Sussurrei em sua direção, antes que ela se virasse e saísse do meu campo de visão por completo.

***

Depois disso, as horas ao meu redor também se passaram devagar. Todos os meus afazeres já haviam sido devidamente feitos, mas, mesmo assim, eu permanecia inquieta. Hanna não estava na Montaigne’s Fashion Designer, portanto todo o andar parecia menos agitado do que o habitual. Eu já havia me acostumado com o seu ritmo ágil e competente, ao contrário das outras estagiárias que serviam apenas para fofocar e fazer intrigas.

No entanto, assim que eu havia chegado a minha casa, num condomínio de luxo ao norte de Rosewood, meu celular começou a tocar uma música suave de Eric Clapton. Era Emily me ligando.

— Eu estou entediada. — Ela disse assim que eu atendi.

— Isso é terrível! — Lamentei enfaticamente. — Tem algo que eu possa fazer quanto a isso? — Ofereci de bom grado, muito provavelmente correspondendo às suas intenções.

— Você sabe jogar pôquer? — Emily perguntou, depois de alguns segundos pensando a respeito.

— Sei, mas não sou muito boa nisso. Por quê? — Atravessei a sala de estar sem pressa enquanto largava as minhas coisas pelo caminho.

— Porque eu quero jogar com você. — Não pude deixar de sorrir com o seu tom de voz ansioso, que estava se tornando um pouco mais animado. — Mas sinto que vai ficar para a próxima, por isso quero chamá-la para sair comigo. — Antes que eu pudesse perguntar para onde, ela rapidamente acrescentou: — Para qualquer lugar, eu realmente não me importo.

— Aconteceu alguma coisa? — Perguntei com visível preocupação, parando momentaneamente a poucos centímetros do meu sofá convidativo, até escutar alguns ruídos conhecidos vindos do outro lado da linha.

— Nada que eu já não esteja acostumada. — Ela respondeu da forma mais vaga que pôde. — Mas, se você estiver ocupada, não tem problema. — Passei a mão pelo meu cabelo propositalmente ondulado e inspirei devagar antes de respondê-la de maneira agradável.

— Você quer vir até a minha casa? Eu acabei de chegar e estou inteiramente disponível para o que você precisar. — Sentei-me no sofá confortável e cruzei as pernas, esperando pelo que ela diria a seguir.

— Parece perfeito. — Emily riu brevemente, uma risada agradável e intoxicante.

Enquanto isso, eu pude escutar alguém chamando seu nome com impaciência do outro lado da linha. Parecia ser a voz de Hanna, mas eu não poderia afirmar com absoluta certeza e, se eu estava prestes a dizer alguma coisa, desisti da ideia no mesmo instante.

— Tudo bem, eu preciso desligar agora, mas vejo você daqui a quarenta minutos. — Ela estalou um beijo que eu não pude ver nem sentir, mas que me fez querê-lo com ardência. Em seguida, encerrou a chamada e, então, deixei a minha cabeça cair no encosto do sofá, cansadamente.

Depois do que foram alguns pensamentos aleatórios, escutei passos familiares vindos diretamente da cozinha, sendo logo seguidos por barulhos de armários abrindo e fechando com certa propriedade. Levantei-me rapidamente e me encaminhei até a origem dos sons, onde encontrei Charlotte dominando todo o espaço da minha cozinha. Ela parecia tão concentrada no que estava fazendo que mal notou a minha presença.

— Você nunca me abandona, não é mesmo? — Parei no batente da entrada, cruzando os braços enquanto eu a observava com um sorriso caloroso. Assim que me viu, ela imediatamente veio ao meu encontro, abraçando-me com inegável afeto.

— Eu soube que estava na cidade há poucos dias. — Ela disse enquanto ainda me apertava em seu abraço amistoso, mas logo se afastou. — Por que não me avisou que estava vindo? — Agora, ela estava com uma postura rígida e séria.

Charlotte Earnshaw havia sido a governanta dos meus pais durante toda a minha infância e adolescência. Ela me pegou no colo no meu primeiro dia de vida, incentivou-me a dar os meus primeiros passos e, portanto, foi ela quem me criou. Charlotte era a minha constante companhia quando ainda morávamos em Melbourne, até que meus pais resolveram se separar e ela teve que acompanhar minha mãe em sua nova vida na cidade de Nova York. Nessa época, entretanto, eu estava a caminho da Universidade de Sydney, onde me formei em Jornalismo aos vinte e um anos.

— Desculpe, eu estive muito ocupada por essas semanas. — Respondi depois de um longo suspiro.

Houve um breve instante, até que eu me atrevi a notar que seus cabelos grisalhos pareciam mais compridos e que ela estava um pouco mais franzina do que antes. A idade, inevitavelmente, estava lhe atingindo com uma frequência generosa, visto que Charlotte se encontrava no auge dos quarenta e sete anos e ainda possuía a mesma aparência de quando nos vimos pela última vez, há pouco mais de um ano, quase intacta. Seus olhos cor de esmeralda tinham um genuíno brilho de contentamento pleno, o que, de certa forma, me felicitou também. Era tão bom vê-la depois de alguns meses turbulentos...

— Você está se alimentando? — Charlotte tocou meus braços, analisando-me com cuidado. Ela nunca chegou a ser mãe, mas me tratava como se eu fosse sua filha. — Parece mais magra e frágil. — Ponderou depois de alguns segundos, fitando-me com cautela quase excessiva.

— Charlotte, eu estou bem. — Garanti com um sorriso sincero, surpreendo a mim mesma com tamanha veracidade. — Eu só preciso de um banho e, então, serei outra pessoa. — Depositei um beijo casto no topo de sua cabeça, sentindo uma vivacidade se apoderar de mim enquanto me afastava dela com um sorriso tranquilo.

— Eu vou preparar alguma coisa para você comer. — Avisou em alto e bom som quando eu estava subindo as escadas, o que me fez lembrar imediatamente que Emily viria para cá.

— Eu preciso de um bolo. — Parei no meio do caminho para o meu quarto. — Você pode comprá-lo para mim? E, por favor, tente o mais caseiro possível. É especial. — Charlotte logo emergiu da cozinha prontamente, carregando seu casaco de lã alemão e com as chaves tintilando conforme ela se movia.

Os quarenta minutos que Emily impôs foram o suficiente para que eu pudesse tomar banho e colocar roupas limpas e mais confortáveis. Então, quando eu já estava de volta à cozinha, encontrei um bolo de chocolate de tamanho mediano e aparentemente delicioso em cima do balcão. Junto dele, porém, havia um bilhete escrito em letras uniformes e redondas, assinado formalmente por Charlotte, dizendo que seu dever com a minha mãe a chamava. Era no mínimo interessante observar que, depois do divórcio, minha mãe se tornara ainda mais dependente de sua fiel governanta do que jamais fora.

A campainha soou nitidamente por todas as estruturas da casa, trazendo-me de volta à realidade enquanto eu tratava de deixar o bilhete de lado e correr até a porta para atendê-la. Assim que abri a porta, encontrei Emily com as mãos nos bolsos de sua blusa de moletom cinza escuro, com os olhos agora encarando diretamente os meus e um sorriso contido de contentamento.

— Olá, aniversariante. — Deixei escapar no instante seguinte em que a vi, sorrindo de volta para ela. — Por favor, entre. — Abri ainda mais a porta e fiz um gesto com a mão, saindo do caminho para que ela pudesse adentrar.

— Estamos sozinhas? — Ela perguntou enquanto avançava alguns passos cuidadosos.

Com Emily de costas para mim, tomei a liberdade de analisá-la por um instante, percebendo suas notáveis curvas e também suas roupas normais. Fora do seu quase habitual uniforme de colégio, ela vestia calça jeans escura e uma camiseta da Torre Eiffel por baixo de seu moletom, enquanto seus cabelos ondulados caíam perfeitamente sobre os ombros. Simples e confortável, ela estava inegavelmente linda.

— Sim, nós estamos. — Respondi depois de um segundo, soltando o ar que estava preso em meus pulmões lentamente. — Melanie está em Londres a uma hora dessas. — Fechei a porta atrás de mim e a levei até a cozinha.

— Falando nela, eu tenho algo para contar a você. — Emily disse, sentando-se no banco em frente ao balcão de modo hesitante.

— Tudo bem. — Decidi depois de um momento, debruçando-me sobre o balcão para fitá-la melhor. — O que é?

— Bem, é sobre nós duas. Mel e eu. — Apontou pausadamente, com visível dificuldade. — Nós meio que... Ficamos. — Suas palavras foram perdendo a força conforme elas saíam, mas não foi o suficiente para que eu não ficasse completamente estarrecida com a notícia.

— Você ficou com a minha amiga? — Arqueei as sobrancelhas, incrédula demais para fazer qualquer outro movimento. Ela assentiu, mas não disse nada. — Emily, sério? — Foi tudo o que eu consegui dizer depois de um longo momento de reflexão.

— Eu estava bêbada e deprimida. — Argumentou com o rosto cheio de culpa. — Sinceramente, eu não pensei que eu mudaria de ideia sobre isso, mas eu realmente sinto muito. — Ela relaxou os ombros e se inclinou em minha direção, tomando minhas mãos nas suas com cuidado.

— Eu aprecio sua honestidade, mas você deve saber que eu estou desapontada. — Suspirei pesadamente, desviando os olhos dela para qualquer outro lugar da cozinha.

— Apenas me escute, está bem? — Pediu com firmeza. — Nós não nos conhecíamos, eu não fazia ideia de que ela era sua amiga. — Aos poucos, meus batimentos cardíacos foram desacelerando. — No desfile, quando eu olhei para você, eu pensei que você era boa demais para ser de verdade; gentil, atenciosa e incrivelmente linda. Mas, então, nós conversamos e eu estava tão a fim de você que até me esqueci dela. — Emily parecia inegavelmente sincera e envolvida. Ela logo se levantou e veio em minha direção, parando a pouquíssimos centímetros de distância de mim.

— O que eu faço com você? — Murmurei ainda sem reação, baixando os olhos para os botões do seu moletom, bastante pensativa.

No fundo, eu suspeitava que elas pudessem ter tido alguma coisa, apreciava a sinceridade de Emily, mas isso não mudava os fatos. No entanto, eu não tinha o direito de ficar brava com ela, ou com Melanie. Estava aliviada por saber que não havia sido nada de importante para nenhuma das duas, uma vez que Mel nem comentara sobre isso, e que Emily estava interessada em mim. O sentimento, claro, era mútuo. Ela me encantava e, muito mais do que isso, me atraía também.

— Você quer uma opinião pessoal? — Emily tocou meu rosto devagar, como se estivesse ponderando algo em sua mente. Em seguida, ela empurrou alguns fios de cabelo para trás da minha orelha, com os olhos negros e adoráveis nos meus. — Eu acho que você deveria me beijar, porque eu fui honesta com você e também... Porque hoje é o meu aniversário. — Ela sorriu diante da própria barganha, inclinando-se ainda mais em minha direção.

— Você sabe, eu deveria simplesmente mandá-la embora ao invés de beijá-la. — Ponderei com os olhos semicerrados, direcionados a sua boca muito próxima da minha.

— Por favor, não faça isso. — Mais uma vez, Emily acariciou o meu rosto, deslizando seu dedo indicador pelo meu queixo com cuidado. Seu toque era deliciosamente envolvente e genuíno. — Eu prometo não desapontá-la, mas, para isso, eu preciso que você me dê uma chance. — Ela sussurrou as últimas palavras, sorrindo esperançosa.

— Você já tem dezoito anos, então acho que agora nós podemos. — Sussurrei de volta com a voz vaga e, por fim, acabei com a distância que existia entre nossos lábios e a beijei sem nenhum resquício de hesitação.

Seus lábios famintos se arrastavam contra os meus de forma provocante e carinhosa, assim como as suas mãos que apertavam minha cintura contra a sua. Emily possuía um ritmo lento e eletrizante, mas também repleto de urgência e atitude. Levei minhas mãos a sua nuca e apertei meus dedos contra a pele suave, logo os escorregando até seu rosto bonito e delicado. Abri os olhos no instante seguinte, quebrando o beijo ao sentir a necessidade de respirar se tornar cada vez mais latente.

— Era disso que eu estava falando. — Emily murmurou com vertigem, selando nossos lábios mais uma vez.

Ela continuava com os braços em torno da minha cintura, vez ou outra me apertando contra o seu corpo convidativo, enquanto eu acariciava seu rosto, alternando uma mão entre seu pescoço e sua nuca, conforme nossos beijos se tornavam intensos.

— Espere. — Ela se afastou de repente, respirando pesadamente e olhando em direção ao bolo sobre o balcão. — Foi você quem fez? — Perguntou com curiosidade.

— Não. — Balancei a cabeça devagar, negando em meio a um riso fraco. — Está com fome? — Olhei para ela brevemente enquanto me afastava, notando seu olhar cheio de fascínio.

— Acho que agora eu estou. — Ela riu silenciosamente, atenta a todos os meus movimentos.

— Muito bom. — Peguei os pratos no armário e os coloquei em cima da mesa, junto dos talheres. — Então, conte-me, como foi o seu dia? Espero que tenha sido tão agradável quanto o meu. — Lembrei-me imediatamente da visita surpresa de Charlotte e não pude deixar de transparecer minha alegria quase ruidosa.

— Passar um tempo com as minhas melhores amigas é sempre maravilhoso, principalmente quando não entramos em contendas tolas e supérfluas. — Contou com calmaria natural, sorrindo torto quando seu olhar encontrou o meu. — Agora, eu preciso saber, qual é o motivo de tamanho júbilo? Não pode ser somente a minha presença, deve ter algo a mais.

Antes mesmo de perceber, eu já havia contado tudo sobre a minha mãe postiça para ela. Até mesmo as mais loucas e embaraçosas situações que Charlotte teve que passar por minha causa, como me ajudar a esconder da minha mãe quase todos os meus relacionamentos passados, que, julgados como inadequados e imprudentes por ela, não possuíam seu formal consentimento.

Mas, de certo, isso somente se prolongou até o dia em que decidi que não seria mais ordenada por suas opiniões caprichosas e persuasivas, que me tiravam o direito de servir às minhas próprias vontades e me conduziam ao extremo do descontentamento angustiante. Esses, no entanto, eram alguns dos detalhes que haviam ficado de fora de todo o meu extenso relato.

— Onde ela vivia antes de tudo isso? — Emily perguntou assim que eu terminei.

Com muita empatia e acessibilidade, agora estávamos sentadas confortavelmente no sofá da sala de estar, tomando vinho tinto de uma safra de quase duzentos anos atrás, enquanto passava algo interativo na televisão à nossa frente. Era algo notório que estivéssemos em sintonia com todos os tópicos de nossa atual conversa.

— Você quis dizer antes de ela ter praticamente me adotado? — Observei com naturalidade genuína depois de um breve instante. — Bem, ela era de uma família de fazendeiros da Inglaterra, em Derbyshire, mas fora enviada para a Irlanda quando tinha vinte e um anos, onde começou a prestar serviços para a minha família. — Expliquei, notando que Emily me escutava com uma atenção irretocável.

— Você vem de uma linhagem irlandesa? — Ela franziu o cenho, parecendo surpresa.

— Não completamente. — Comecei. — Minha mãe é irlandesa, meus avós maternos são franceses e meu pai é inglês com descendência alemã.

— Minha cabeça acabou de dar um nó. — Emily brincou, deixando sua taça com vinho tinto de lado e se aproximando de mim com cuidado. — Então, acho que é por isso que seu sotaque é tão carregado. — Pausou por um instante, desviando os olhos com um ar pensativo. — Há misturas de peso nele. — Observou sabiamente, voltando-se quase que de imediato para mim.

— Meu sotaque é irrelevante. — Dei de ombros, virando-me por completo para que eu pudesse retribuir seu olhar afetuoso.

— Não mesmo. — Emily discordou lentamente, afastando uma mecha de cabelo para trás da minha orelha, com o rosto bem próximo do meu e os olhos brilhando de puro deslumbre e contentamento. — Eu acho muito atraente, assim como você. — No instante seguinte, seus lábios pressionaram os meus firmemente e sua mão agora deslizava entre meus cabelos, devagar.

— Você gosta? — Provoquei com candura, mordendo seu lábio inferior sem força.

— Claro que sim. — Ela disse, rindo abertamente. — Foi a terceira coisa que eu reparei em você, depois das suas infinitas demonstrações de graciosidade e seus apaixonantes olhos azuis. — Sua voz se tornou um fio suave e cálido, enquanto seus dedos brincavam com algumas mechas do meu cabelo de forma quase distraída.

— Isso é tão lindo! — Toquei seu rosto carinhosamente, sentindo meu coração acelerar com excitação. — Agora eu entendo essa tensão que existe entre nós duas desde o início. — Comentei vagamente, não conseguindo conter um sorriso quando seus olhos capturaram os meus.

— Do que você está falando? — Emily sorriu e logo se afastou, deitando-se no sofá enquanto eu a observava com atenção. Ela tomou a minha mão na sua e me puxou para cima dela com cuidado. — Este tipo de tensão?

Estávamos agora muito perto uma da outra, sendo para mim perfeitamente possível escutar e sentir sua respiração oscilar, até que seus lábios vieram de encontro aos meus, macios e urgentes. Sua voz havia soado melosa e despretensiosa, mas suas recorrentes ações insistiam em contradizê-la, uma vez que ela me beijava com certa malícia.

— É um tipo de tensão perigosa. — Adverti sem forças, arrastando meus lábios até o seu pescoço delicado e convidativo.

— Tão perigosa que tentou ignorá-la, não é? — Emily provocou, afagando meu cabelo enquanto eu depositava beijos suaves por toda a extensão alcançável do seu tronco. — Por isso, eis o que eu aprendi ao longo desses últimos anos: não tente resistir ao que, às vezes, é inevitável.

— Você não acha que este nosso tipo de envolvimento é imprudente? — Perguntei de repente, afastando-me dela para uma melhor análise do que ela diria.

— Eu acho que você ficaria surpresa com a minha definição de imprudência. — Retorquiu despreocupada. — Mas eu sei que é diferente para você. Eu estou sendo o seu desequilíbrio moral. — Emily se sentou novamente, encarando-me com seriedade.

— Não. — Neguei com veemência, tomando sua mão e a colocando-a entre as minhas. — Você está mais para o meu doce florescer depois de uma espinhosa estação de outono. — Puxei Emily para mais perto, sentindo o aroma de lavanda com maçã verde preencher os meus pulmões fortemente.

— Talvez isso seja o universo conspirando ao nosso favor. — Comentou com astúcia, inclinando-se em minha direção apenas para depositar um beijo casto nos meus lábios. — Portanto, por favor, seja compreensiva com a nossa relação.

Dito isso, ela retribuiu o sorriso ardente que agora estava estampado em meu rosto e entornou seus braços no meu pescoço, beijando-me calorosamente. Seu corpo estava tão colocado e pressionado contra o meu que as faíscas se dispersavam por cada célula da minha frágil matéria. Desta forma, eu mostrava a ela que a minha compreensão já era superestimada.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse capítulo, especialmente por ter sido um pouco difícil de escrevê-lo, uma vez que meu tempo livre está extramente limitado. Bem, é isso. Compartilhem suas opiniões comigo aí nessa caixinha mágica. Até mais! :'))