Estes Laços Que Unem
13 Entre o Inferno Crescente e a Paz Incrível.
Notas iniciais
— Identidade, por favor.
Revirei a minha bolsa desajeitadamente atrás da identidade falsa que eu carregava para todos os cantos desde os quinze anos, enquanto um barman robusto e viril despejava um punhado de sua bebida mais forte num copo posto sobre o balcão. Eu estava irreversivelmente convencida a fazer com que aquela noite nunca tivesse acontecido de verdade. Era apenas um sonho ruim e amanhã tudo estará bem novamente... Tirando a provável ressaca, é claro.
— Aqui. — Soltei um suspiro de alívio quando encontrei, mostrando a ele o rosto de uma Emily Fields de vinte e três anos.
Encarei o meu reflexo por um instante através de um extenso espelho atrás do barman, sentindo a agonia de momentos antes retornar com força redobrada ao ser preenchida com memórias que, daqui para frente, me afetariam como espinhos letais. No entanto, antes que eu pudesse ser submersa pela dor da sensação de traição, voltei a minha atenção imediatamente para o copo de uísque brilhando, cheio de possibilidades de aplacar sentimentos indesejáveis, que levavam ao esquecimento.
Perdi as contas de quantos copos milagrosos daquele eu havia tomado, da mesma forma com o tempo, que se tornou lento e sem sentido. Naquele momento, a terra estava fora de órbita — ou, talvez, essa fosse eu.
— Eu sabia que iria encontrá-la aqui. — Virei para trás e vi Hanna me encarando com o semblante em brasa. Ela se pôs ao meu lado, sentando-se no banco e jogando sua bolsa sobre o balcão enquanto me fitava com o rosto cheio de preocupação.
— O que está fazendo aqui? — Perguntei sem conseguir olhá-la.
— Vim buscar a minha melhor amiga bêbada. — Respondeu sem rodeios. — Eu estava preocupada com você.
Suspirei sofridamente quando fui capaz de assimilar suas repostas, sentindo o poder das lágrimas inundarem meu coração consternado. Não pude respondê-la da maneira que eu gostaria, portanto, ficamos em silêncio enquanto apreciava o sentimento de indignação de ter sido enganada crescer livremente e, assim, fluir por todos os meus poros.
Depois das constatações dos fatos de que Samara realmente é casada com aquela mulher de portes invejáveis, não hesitei nem por um segundo em sair o mais depressa possível da presença massacrante das duas. E Samara não me impediu, assim como também nem tentou. Era inacreditável que aquilo, de fato, estivesse acontecendo comigo. Será que a minha alegria e estabilidade emocional era algo tão superestimado assim?
— Ela é casada, Han. — Experimentei dizer as palavras em alto e bom som, rindo amargamente do quão emboladas elas saíram. — Samara é casada. — Tentei soar tão indiferente quanto pude, mas talvez eu tenha falhado.
Ela desviou seus olhos de mim, fitando qualquer canto sem qualquer interesse, com o único intento de esconder sua profunda consternação pelo meu estado deplorável. Em seguida, repousou sua mão em meu ombro, transmitindo sua compaixão diante do meu momento de extrema fragilidade. Seu próximo movimento foi me puxar para um abraço, onde descansei minha cabeça em seu tórax por um breve instante antes de ser acometida de súbito por ela.
— Vamos embora daqui. — Hanna se levantou. — Eu tenho certeza de que você já bebeu demais.
— Não, eu estou bem aqui. — Neguei com a cabeça, fungando após virar o copo e sentir o uísque correr violentamente em minhas veias.
Sorri satisfeita com a dormência de todos os meus órgãos vitais, com a provável falta de consciência do que eu estava fazendo e com a reação do meu corpo quando a constatação de que fui enganada o tempo inteiro se resumia a nada; todo e qualquer tipo de reminiscência era completamente indolor. Cortesia da grande quantidade de bebida que ingeri nesse tempo em que estive sentada nesse banco, talvez.
— Tudo bem. — Ela concordou fácil demais, deixando-me em estado de alerta. — Deixe-me falar com Spencer para ver o que ela pensa sobre isso. — Abriu sua bolsa para pegar seu celular e eu segurei seu braço, com os olhos salpicados; a última coisa que eu gostaria agora era de lidar com a fúria de Spencer.
— Está bem, vamos embora. — Cedi por fim, agarrando a garrafa de Jack Daniels em cima do balcão enquanto Hanna sorria satisfeita diante de minha sábia decisão.
— Que bom que entramos num acordo. — Ela tirou algumas notas de sua carteira e colocou sobre o balcão, puxando-me pela mão para sairmos daquele bar mal iluminado e repleto de pessoas embriagadas.
A brisa fresca vinda das janelas entreabertas do sedan preto de Hanna esvoaçava levemente os meus cabelos, enquanto eu tentava a todo custo manter os olhos abertos sem senti-los salpicarem desconfortavelmente. As lágrimas que ainda não externaram, mas que tampouco o fariam, ardiam para serem libertadas de um cativeiro sufocante e entorpecido. Mal me lembrava dos motivos que tinha para tal feito; chorar não iria me ajudar agora.
Não me dei conta do exato momento em que fechei os olhos, mas, quando os abri novamente, já era outro dia. O barulho de cortinas sendo abertas causou uma terrível e latente dor de cabeça instantaneamente, assim como a exagerada claridade imediata, que, eu jurava, poderia ter me cegado se eu não houvesse protegido meus olhos com um travesseiro. O intoxicante odor de café e ovos inundou minhas narinas subitamente quando me permiti respirar profundamente.
— Hora de acordar, beberrona. — A voz de Hanna ecoou dolorosamente em meus ouvidos, fazendo-me encolher sob os edredons.
— Onde eu estou? — Balbuciei confusamente, tentando me recordar de alguma coisa da noite passada.
— Vamos, ande! Estamos atrasadas. — Ralhou impacientemente, ignorando minha completa falta de noção e, em seguida, arrancando os edredons de cima de mim.
— Droga, Hanna! — Resmunguei entredentes, sentindo o frio tocar a minha pele quente bruscamente.
Estava coberta apenas por uma calcinha de corações em inúmeros tons de vermelho e uma camiseta larga e comprida na cor azul bebê, com um cheiro inconfundível de couro e almíscar selvagem. Aquele odor másculo me embriagava, mas também me enjoava. Na verdade, tudo naquele instante me provocava náusea, dores incuráveis para todos os lados e uma sede que não tinha como ser apenas minha.
— Você tem vinte minutos. — Fui surpreendida com uma xícara de café quando me sentei na cama, sentindo-me menos pesada com o olhar acolhedor brilhando em suas íris azuladas. — Estarei lá embaixo se precisar de alguma coisa. — Avisou antes de fechar a porta atrás de si, levando consigo o sorriso encorajador.
Tomei alguns longos goles do café quente, passando os olhos suspirosamente pelo meu quarto. Forcei minha memória mais uma vez, na tentativa inútil de ter alguma ideia de como cheguei até aqui, concluindo, por fim, que Hanna tivera todo o trabalho de me conduzir. Infelizmente, eu não estava isenta de todas as reminiscências do dia anterior.
Ainda me recordava claramente do momento em que tive uma verdade incontestável jogada na minha cara: Samara tinha uma esposa durante todo o tempo em que esteve comigo. Tal pensamento me levou diretamente à vontade de sucumbir a uma depressão infinita por mais um fracasso em minha vida, mas eu não me permitiria chegar a tal ponto. Não valia a pena; não por causa de alguém que o tempo inteiro me enganou.
Levantei-me da cama de má vontade, despi-me dos poucos trajes que me cobriam e me encaminhei em direção ao banheiro. Depois de toda a bebedeira de ontem, e sabe Deus o que mais após isso, um banho quente e demorado me faria novinha em folha.
— Emily... — Minha mãe suspirou quando me viu descer as escadas, vestida num uniforme limpo e impecável, depois de quase quarenta minutos de demora.
— Já está pronta? — Hanna perguntou; seu tronco encurvado sobre o balcão enquanto encarava a tela de seu celular com um olhar ansioso.
— É o que parece, não é? — Dei de ombros, rumando até o armário à procura de algo que aliviasse a minha maldita enxaqueca.
— Está tudo bem, querida? — Virei meu pescoço para trás, a tempo de ver minha mãe derramando um punhado de café em uma garrafa térmica ao lado de Hanna.
— Melhor impossível! — Respondi com fria polidez.
Agarrei um copo e o enchi de água diversas vezes, bebendo tudo em todas elas. Ressaca poderia ser um verdadeiro atraso de vida quando não convinha. Peguei um frasco de comprimidos da dispensa, derramando três na palma de minha mão. Virei-os na boca logo em seguida e, então, com a ajuda de alguns goles de água, engoli-os facilmente.
Joguei o frasco de qualquer jeito na bolsa, peguei as chaves do meu carro em cima do bufê e já estava com a mão na maçaneta da porta, pronta para abri-la, quando escutei minha mãe me questionar:
— Não vai tomar café?
— Estou sem fome. — Encolhi os ombros quando encarei seus olhos rigidamente semicerrados sendo lançados como flechas em chamas sobre mim.
Ela estava prestes a abrir a boca para dizer alguma coisa, mas o barulho de buzina fez com que ela deixasse de lado seja lá o que estivesse em sua mente. Olhei para fora e vi que Hanna já estava dentro de seu carro, apontando furiosamente para o relógio, claramente sem paciência. Minha mãe bufou sonoramente diante de sua atitude e pediu brevemente para que eu não voltasse tarde, já que não havia me visto chegar ontem.
Em nossos respectivos carros, Hanna e eu seguimos o rumo da escola sem paradas pelo meio do caminho, o que nos fez chegar ao estacionamento para alunos e professores de Rosewood Day em onze minutos. Logo na entrada do colégio, encontramos com Aria e Spencer, que conversavam distraidamente com Mike e Noel.
— Estão atrasadas. — Spencer apontou, olhando de Hanna para mim.
Aria nos cumprimentou com um aceno de cabeça e um sorriso amistoso, logo se agarrando a Noel firmemente. Ele me deu um beijo no rosto, fazendo o mesmo com Hanna, enquanto esbanjava um meio sorriso preguiçoso e galanteador para todos os lados. Mike, no entanto, foi o que menos se conteve em seus modos.
— Ei, Em! — Ele pareceu se animar quando me viu, mal olhando para Hanna. — E aí, tem pegado muitas garotas ultimamente? — Abriu um enorme sorriso com o provável pensamento sujo que surgiu em sua mente.
— Você não faz ideia. — Forcei um sorriso, sentindo-me incapaz de entrar na onda de gracinhas dele.
Até ontem, eu teria me divertido muito aguçando ainda mais a sua curiosidade acerca da minha aventura sexual com Samara na sala dela, mas hoje não; eu estava acabada pela recém-descoberta sobre sua possível vida dupla e pretendia evitar tudo o que pudesse me remeter a ela de alguma forma.
— Vamos logo, Em! Nós temos Biologia agora. — Hanna me puxou pela mão, arrastando-me em direção a nossa primeira aula sem ao menos se dirigir uma única vez ao seu namorado.
As duas aulas de Biologia passaram rápidas demais, talvez por ser a minha matéria favorita, mas nem isso foi o suficiente para me fazer evitar pensar em Samara nos momentos de distração. Vez ou outra, eu me pegava encarando o vazio, enquanto minha mente viajava de encontro àqueles bonitos e irresistíveis olhos azuis.
Assim como eu, Hanna fingia que nada estava errado e assim seguimos o nosso dia de ocupações no colégio. Dividimos a aula de Inglês Avançado com Spencer e Aria no último período e nada do episódio de ontem havia sido mencionado por Hanna, o mesmo na hora do intervalo e na saída. Tudo indicava que ela estava esperando a hora certa de trazer o assunto à tona, como sempre acontecia em situações delicadas.
Mas, por enquanto, estávamos ambas céticas diante do óbvio: Samara partiu meu coração em milhões de pedacinhos e eu tentava ignorar a dor de ter sido enganada por tanto tempo.
Eu estava chegando em minha casa quando me deparei com um inconfundível Escalade preto estacionado próximo ao meio fio. Ignorei as batidas aceleradas de meu coração tão profundamente consternado e saí do meu carro sem me preocupar em estacioná-lo adequadamente na garagem. Planejava ir à casa de Hanna e pretendia fazê-lo o mais depressa possível assim que ela chegasse em casa; apenas ela seria capaz de manter minha cabeça ocupada por tempo suficiente — mesmo que fosse com suas futilidades.
— Emily? — Fechei os olhos fortemente ao escutar aquela voz outra vez, e em uma situação tão indesejada, inspirando todo o ar que pude.
— O que você está fazendo aqui? — Consegui dizer pausadamente, sem me virar para encará-la, tentando arduamente conter a raiva que aquele sentimento de tristeza me causava. — Vá embora, Samara. — Levei a mão até a maçaneta da porta, destrancando-a com a chave com os dedos trêmulos.
— Não. — Negou-se firmemente; o barulho ensurdecedor de seu salto alto ecoando enquanto subia os degraus da varanda, hesitante em sua aproximação arriscada. — Nós precisamos conversar.
— Agora nós precisamos, não é? — Virei-me bruscamente em sua direção, encontrando suas íris acinzentadas de imediato.
Ela estava a poucos passos de distância de mim; seu costumeiro cheiro feminino invadia meus pulmões com agressividade, enquanto seu rosto parecia mais pálido e vazio. Os olhos eram uma grande mistura de turbulência e culpa.
— Eu sei o que está pensando, — Ela disse rapidamente, agarrando as minhas mãos entre as suas. — mas eu juro que posso explicar...
— Você me enganou. — Puxei minhas mãos dentre as suas e não deixei que ela terminasse, balançando a cabeça conforme as primeiras gotículas de lágrimas apareciam. — Eu pensei que estávamos começando a ter algo sério quando, o tempo inteiro, tudo não passava de uma fantasia ridícula! Como pôde fazer isso comigo?
— Eu não fiz de propósito! — Replicou em tom de desespero. — Emily, acredite em mim, eu nunca mentiria para você. Eu juro que pretendia contar tudo a você, mas somente quando fosse o momento certo.
— E quando seria isso? — Exigi com os braços cruzados. — Quando já tivesse uma família a sua espera? — Retruquei possessa de ódio e indignação.
— As coisas não funcionam assim! — Defendeu-se exasperada. — Eu sei que errei, mas me deixe apenas explicar, por favor. — Samara juntou a palma de suas duas mãos, num gesto involuntário de súplica.
— Não é a mim que você deve explicações. — Suspirei cansadamente, secando com delicadeza algumas lágrimas teimosas com as costas do meu dedo indicador. — Você partiu meu coração e não quero vê-la nunca mais. Seja feliz com a sua esposa. — Dei às costas a ela e não hesitei em entrar em minha casa o mais rápido que pude.
Encostei minhas costas à porta, levando as mãos ao rosto com força. Não conseguia conter as lágrimas que finalmente resolveram emergir; alguns soluços sofridos foram inevitáveis. Tudo estava desmoronando diante dos meus olhos e não demoraria até a cidade inteira começar a especular sobre a minha vida outra vez, chegando aos ouvidos de minha mãe...
Subi as escadas com dificuldade, arrastando-me a cada degrau vencido. Joguei minhas coisas em qualquer canto do meu quarto e comecei a me despir lentamente, sentindo a dor de cabeça ficar cada vez mais forte e, como se não fosse o suficiente, minha garganta se rasgava um pouco a cada soluço duramente contido. Eu não queria chorar, mas eu precisava; aquela amargura tinha de sair de alguma forma.
Tratei, então, de tomar banho e me enfiar debaixo das cobertas até a hora de Hanna estar em casa. Eu poderia usar Spencer como distração até lá, mas, com sua irritante perspicácia, faria com que eu me sentisse mil vezes pior do que eu já estava ao me questionar sobre coisas que eu não gostaria de pensar no momento.
Fechei os olhos com algumas lágrimas que ainda escorriam sem a minha permissão, sentindo o sono me embalar aos poucos, conforme as pontadas em minha cabeça cessavam. Quando acordei, o céu já estava escuro e o tempo rigidamente glacial. Levantei-me sem pressa, vestindo-me com um casaco preto, calça jeans skinny e botas até o joelho. Prendi meu cabelo num coque frouxo e procurei pela minha bolsa.
Peguei meu celular pela primeira vez em todo o dia, deparando-me com centenas de ligações perdidas; algumas de Aria e Spencer, outras de Hanna e o restante de Samara. Apenas ontem, ela havia me ligado mais de setenta vezes, deixando inúmeras mensagens de voz em seguida. Decidi ignorar todas, apagando-as sem ao menos escutá-las enquanto me encaminhava em direção à porta.
Estava terminando de trancá-la por fora, lendo as mensagens de Aria, quando tão subitamente tive minha mão tocada por algo gélido, assaltando-me de imediato. Meu coração quase veio à boca quando olhei para o lado e vi Samara sentada no banco, com o rosto branco e os lábios roxos. Ela tinha estado aqui o tempo todo?
— Samara... — Soltei o ar que estava prendendo em meus pulmões. — Meu Deus, o que ainda está fazendo aqui, perdeu completamente o juízo? — Olhei para sua mão, que mais parecia uma pedra de gelo. Ela segurava a minha suavemente enquanto me olhava com os olhos salpicados.
— Eu... Estava esperando você sair. — Respondeu confusamente, desviando os olhos para a rua deserta. — Entendo que nunca mais queira me ver, mas isso não significa que o sentimento seja recíproco. — Ela levantou devagar, colocando as mãos dentro dos bolsos de seu casaco.
Suspirei pesadamente, observando cada pequeno músculo de seu rosto bonito se contrair por conta do frio. Samara tinha um olhar triste e perturbado, seus cabelos loiros esvoaçavam por causa do vento cortante de uma noite fria. Desviei os olhos dela por um instante, percebendo a forma como ela inclinou sua cabeça em busca do meu olhar. Raiva começou a pulsar em minhas artérias; eu estava me corroendo de repulsa de mim mesma pelo que eu estava prestes a fazer.
— Venha, vamos entrar antes que acabemos congelando aqui fora. — Destranquei a porta outra vez, puxando-a pela mão para dentro de casa. — Mas, por favor, sejamos breves, está bem? Estou muito ocupada tentando seguir em frente depois do que me fez. — Cruzei os braços sobre o peito, demonstrando uma firmeza e indiferença que não existiam.
— Você não quer escutar o que tenho a dizer? — Perguntou esperançosa, aproximando-se calmamente de mim. — Não insistirei se disser que não. Estou tentando respeitar o seu momento, entendê-la de alguma forma. Sei que o que fiz não foi certo, mas estou tentando consertar antes que seja tarde demais.
Puxei o ar quente e convidativo ao nosso redor com força, com medo do soluço involuntário escapar de minha garganta a qualquer momento, enquanto meus olhos enchiam de água outra vez. Nunca imaginei que estaríamos tendo aquela conversa, passando por aquele momento doloroso para, então, terminarmos tudo de maneira tão vazia e triste.
— Sorte minha você estar partindo para Nova Iorque em algumas semanas. — Disparei após uma risada amargurada. — No começo, eu vou sentir muito a sua falta. Lágrimas virão com facilidade sempre que seu rosto surgir em minha mente e, com certeza, meu coração irá apertar a cada vez que eu encontrar alguém que, em pensamento, me leve direto a você. O desconforto passará, eventualmente, mas a marca da tristeza que deixou em mim permanecerá como uma tatuagem invisível e dolorosa.
— Não precisa ser assim. — Samara balançou a cabeça devagar, visivelmente magoada com a ideia.
— Ora, não me diga. — Ri sarcasticamente, sucumbindo à tristeza imediata seguida do ato. — Apenas vá, está bem? Eu estou falando sério quando digo que não quero vê-la outra vez. Tente ficar fora do meu caminho nas próximas semanas. — Avancei em direção à porta, decidindo acabar logo com aquela tortura.
Abri a porta e esperei que ela se movesse, sentindo o silêncio daquela casa solitária convidá-la a se retirar por conta própria. Samara permaneceu de costas para mim, virando-se devagar após alguns instantes. Ela se aproximou com calma e seriedade, como se tudo estivesse prestes a se acertar outra vez.
— Não se engane, Em. — Parou em minha frente. — Você sabe que não será tão fácil assim; a cidade é muito pequena. — Um sorriso fraco surgiu em seus lábios e, antes que ela saísse, agarrou meu rosto com as duas mãos e me beijou demoradamente nos lábios.
Permiti-me a fechar os olhos por um instante, aproveitando aquele nosso último contato, como se tudo fosse acabar naquele momento. E realmente acabou. As lágrimas já inundavam meu rosto com propriedade diante de algo tão inegável, mas também tão devastador: eu estava perdidamente apaixonada por alguém que nunca tive e nunca poderia ter.
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