Estes Laços Que Unem
14 Quarenta Tons De Verde.
Notas iniciais
— Onde você estava? — Madison perguntou quando eu retornei da casa de Emily tarde da noite, com um provável resfriado derrubando meu sistema imunológico num processo lento e perigoso.
Antes que eu pudesse arriscar outro passo em direção à minha sala de visitas, notei imediatamente o estado lastimável em que a mesma se encontrava. Madison havia destruído tudo o que pôde enquanto eu estava fora. Podia ver com clareza que, pela sua aparência selvagem, ela estava completamente fora de controle.
— Você não tem jeito mesmo, não é? — Apontei cansadamente ao nosso redor, mostrando-lhe o nível a que ela havia chegado.
— Eu não tenho jeito, Samara? — Ela gritou, aproximando-se perigosamente de mim. — Você está mesmo falando sério? — Sua voz estava cheia de amargura e o mesmo descontrole emocional de quando ficava possessa de ciúmes.
Arrisquei um contato visual breve, notando que, coberta apenas por um robe de seda e cabelos presos num coque desleixado, ela parecia transtornada com a sua provável suposição de onde e com quem eu estava. No entanto, em momento algum tentei transmitir qualquer sentimento que fosse à minha feição. Estava infeliz e irritada por ter sido completamente pega de surpresa pela sua aparição indesejada e descabida ontem à noite.
Portanto, sem me incomodar em respondê-la, direcionei-me imediatamente à minha estante de vidros quebrados no canto da sala de visitas e busquei, dentre as inúmeras prateleiras ocupadas por vinhos raros e antigos, a minha melhor safra. Precisava com urgência de algo que me esquentasse por dentro e, portanto, diminuísse aquela agonia devastadora que me atingia sempre que me lembrava da provável repulsa que Emily sentia de mim agora.
— Você estava com ela, não é? — Madison me seguiu ferozmente, puxando meu braço para que eu me virasse e a olhasse. — Quando eu vi você deixando-a sair correndo da Montaigne’s, sem ao menos tentar impedi-la, pensei que tivesse um pingo de dignidade e parasse com o caso inescrupuloso que estavam tendo, mas, pelo visto, pensei errado. — Cuspiu as palavras da maneira mais arrogante e desdenhosa que pôde, deixando algumas lágrimas teimosas lhe escapulirem enquanto demostrava verbalmente todo o seu ódio por mim.
— Eu realmente não entendo qual é o seu problema. — Entrei em sua onda de palavras duras, livrando meu braço de seu toque possessivo. — Será que esqueceu que eu estou longe de dever o mínimo de satisfações possíveis a você? — Retruquei logo em seguida, desviando-me de todo o interrogatório infundado.
— Samara, se você voltar a ver essa garota, eu juro por Deus que eu...
— Você o quê? — Dei alguns passos ameaçadores em sua direção, fazendo-a tremer. — Coloque uma coisa na sua cabeça, Madison: eu não devo nada a você. — Afastei-me bruscamente quando percebi a zona de perigo em que me encontrava.
— É aí que você se engana, minha querida. — Retorquiu aos gritos, forçando aquele sotaque irritante pelos meus ouvidos. — Enquanto eu não assinar o seu maldito pedido de divórcio, continuamos casadas e você ainda me deve tudo o que está me negando agora. Portanto, eu exijo que me respeite diante dessa cidade e pare com essa aventura passageira e ridícula que está tendo com aquela garota!
— Você não me conhece mesmo, não é? — Debochei cinicamente, erguendo os braços em descrença. — Acha mesmo que eu estaria com o humor tão detestável se fosse apenas uma aventura? Eu gostei dela e você estragou tudo! — Exasperei, sentindo todo o meu autocontrole desaparecer; eu estava furiosa por dentro e não conseguia me conter.
— Ótimo! Fico satisfeita com a mera suposição de que você não tenha sido aceita de braços abertos quando foi atrás dela. Isso mostra que sua queridinha não é tão estúpida quanto parece. — Provocou rispidamente, cruzando os braços sobre o peito.
Soltei o ar que estive prendendo em meus pulmões pesadamente, pegando a garrafa de vinho na prateleira enquanto tentava clarear a minha mente de toda aquela fumaça interna. Estava muito nítida qual era a sua intenção aqui: fazer com que eu perdesse a cabeça com as suas loucuras e as revidasse com o mesmo nível de insanidade.
Toda aquela discussão e gritaria gerada por nós duas, em consequência de nossas emoções afloradas e indomadas, estavam passando dos limites e minha cabeça estava a ponto de explodir com todo aquele caos de sentimentos e reações diante daquela situação imprevisível, impensada e, talvez, até imprudente. Não podia deixar a raiva e a frustração obterem o melhor de mim.
— Por que você simplesmente não me deixa tentar consertar o nosso casamento? — Exigiu depois de um instante, cansando-se de participar do meu silêncio mortal enquanto eu tentava distrair minha mente através do álcool.
Madison se deixou cair sentada no sofá, colocando o rosto entre suas mãos, num gesto sofrido e dramático. O momento de completo desequilíbrio já estava perdendo o efeito e sua sensatez estava voltando novamente.
— Porque não temos conserto. — Respondi com a voz neutra, sentindo-me muito cansada de repente. — Estamos muito danificadas para tamanha pertinência de reconstituição.
— Eu sei que, às vezes, me descontrolo facilmente, mas se você colaborasse e não perdesse a paciência comigo toda vez que eu me chateasse... — Ela começou, mas, antes que pudesse terminar, eu a interrompi bruscamente:
— Foi o que eu fiz durante anos! — Exclamei com visível irritação. — Eu aturei todas as suas loucuras durante muito tempo; fui paciente, compreensiva e até relevei suas palavras duras, seus momentos de agressividade e suas demonstrações de desconfiança na frente de outras pessoas. Você sempre me acusou de coisas absurdas, duvidava de tudo o que eu dizia, me pressionava a sempre fazer o que você queria e agora que finalmente eu sei o que é ter uma relação saudável, você aparece destruindo tudo, exigindo com propriedade o que deixou de ter direito há meses! — Soltei num fôlego só, percebendo a raiva se esvair gradativamente de dentro de mim.
Inspirei profundamente, inflando meus pulmões com o ar que me faltava. Encarei a garrafa de vinho ainda na minha mão e, então, olhei com atenção toda a bagunça em que minha sala se encontrava. Ela definitivamente não tinha o direito de chegar quebrando tudo o que estava em seu caminho como vinha fazendo desde que pisou em Rosewood.
— Tudo o que você disse... Talvez tenha razão. No entanto, nós já ficamos separadas por meses e eu aprendi a minha lição! — Ela ergueu o rosto das mãos instantaneamente; seus olhos cor de avelã estavam marejados. — Sam, acabe com essa besteira e volte para mim. Lembre-se que da última vez que tentou me deixar não durou muito. — Madison se levantou do sofá e veio até mim.
Aquele seu aspecto intenso e vibrante havia retornado, como se tudo estivesse bem outra vez. Essa, definitivamente, era uma das peculiaridades que eu mal suportava de sua ácida personalidade; a sua constante mudança de comportamento arruinou tudo o que tínhamos.
Contudo, apesar de sua aparência refinada e perfeitamente equilibrada, ela era o oposto de tudo o que transmitia, pois adorava brigar, gritar e falar alto apenas para mostrar o seu autoritarismo. Madison nunca se preocupava em medir suas palavras e têm acessos contínuos de raiva e agressividade.
— Talvez esteja na hora de finalmente termos um bebê. — Ela sorriu e então eu percebi a pouquíssima distância que nos separava.
Madison estava tão próxima de mim que arriscou tomar meu rosto com as suas mãos, acariciando com ternura, o que me fez arregalar os olhos quando processei o que ela havia dito instantes atrás. Deus, ela não podia estar falando sério!
— Um bebê? Você ficou maluca? — Tirei suas mãos do meu rosto, sentindo um aperto no peito só de pensar na possibilidade. — Emily nunca me perdoaria e você não é o tipo de pessoa com quem quero ter uma família. — Deixei escapar, arrependo-me das minhas duras palavras no instante em que vi seu maxilar trincar.
— Você está mesmo preocupada com o que uma garota que nem se formou no colégio ainda vai pensar? — Ela começou a gritar outra vez, enquanto eu apenas revirei os olhos e a deixei falando sozinha. — Eu não acredito que está deixando aquela colegial estúpida ficar entre nós duas! — Virei-me assim que ela terminou, com o intento de repreendê-la por chamar Emily dessa forma, mas, ao invés disso, tive que pensar rápido quando vi que ela estava prestes a lançar um dos meus vinhos favoritos em minha direção.
— Madison, não faça... — Antes que eu pudesse terminar, ela o arremessou em minha direção, fazendo-me desviar rapidamente e encolher os ombros num gesto de defesa.
A garrafa acertou em cheio a estante atrás de mim, causando um barulho horrível em meus tímpanos. O líquido vermelho escuro começou a se espalhar pelo meu chão antes impecável, formando uma poça extensa dentre os cacos de vidros.
— Isso. — Murmurei entredentes, rangendo-os furiosamente. — Eu vou para o meu quarto agora, porque, se eu ficar mais um minuto perto de você, é capaz de eu rasgar a sua jugular sem misericórdia.
Fechei os olhos com força, tentando arduamente respirar estavelmente enquanto contava até cem. Ela não tiraria a minha sanidade. Virei-me em direção às escadas imediatamente, apertando a garrafa que eu tinha em mãos dolorosamente.
— Divirta-se limpando toda essa bagunça enquanto eu me lamento sobre o maldito dia em que te conheci. — Apontei ao redor da sala parcialmente destruída conforme subia os degraus a passos largos e firmes.
— O quê? Não! — Exclamou sonoramente. — Nós ainda não terminamos. — Virei o pescoço para trás bem a tempo de vê-la dar a volta no sofá para me seguir, mas eu a ignorei e continuei o meu caminho para o meu quarto.
No outro dia pela manhã, no entanto, desci as escadas enquanto massageava calmamente as têmporas. Depois de um dia conturbado e traumatizante, as enfermidades logicamente começariam a aparecer, o que, por sua vez, resumia-se a uma terrível enxaqueca que me deixava ligeiramente indisposta.
Felizmente, dormir não havia sido um problema na noite passada, visto que, depois de um bom banho e inúmeras taças de vinho, eu simplesmente apaguei sem ao menos perceber. Agradeci internamente acordar e não me deparar com Madison ocupando minha sala toda destruída, ou minha cozinha, que por enquanto ainda estava intacta.
Como eu havia imaginado, ela não movera um músculo para limpar a bagunça que tinha feito ao surtar como uma completa insana ontem à noite. Certamente, como sempre acontecia, ela chamara alguém para vir arrumar tudo mais tarde. Então, pensando nisso, liguei o som num volume ambiente e sentei-me no sofá enquanto a sala inteira era preenchida pela doce melodia de Chet Baker.
Fechei os olhos e puxei o ar profundamente para os meus pulmões, deixando com que a música me invadisse aos poucos. Não sei por quanto tempo exatamente fiquei daquele jeito — de olhos fechados e mente bem aberta —, mas pude concluir que não foram poucos minutos quando meus pensamentos me arrastaram de volta para a minha realidade.
— Esta é a minha recepção? — Alguém soou atrás de mim, fazendo-me girar o pescoço na direção da voz.
Deslizei a mão pelo meu cabelo confusamente, focando minha visão na direção da entrada da sala. Melanie parecia paralisada com a imagem da atual situação da minha sala de visitas, mas, ao invés de espantada, ela parecia se divertir com o que via; nada realmente a abalava, afinal de contas.
Encarei seu rosto por um instante, equilibrando-me em minhas pernas quando me coloquei de pé em um pulo ágil, enquanto deixava de lado a parte de me sentir feliz, ou simplesmente pega de surpresa por vê-la num momento tão inesperado como esse e ir direto ao cerne da questão:
— O que está fazendo aqui? — Esforcei-me para transmitir alguma boa vontade, mas falhei vergonhosamente; eu estava muito cansada para me importar com o que fosse.
— Ora, você sabe, senti saudade e etc. — Deu de ombros, largando sua mala vermelha perto da escada enquanto se aproximava. Ela vestia um belíssimo vestido na cor oliva e sapatos de salto da mais nova coleção de sua mãe. — Se não está feliz em me ver, ao menos finja. — Resmungou, atravessando a sala conforme se desvencilhava dos generosos pedaços de vidros espalhados pelo chão até chegar à estante de bebidas. Ela sempre fazia isso quando chegava de viagem.
Voltei a me sentar confortavelmente no sofá, passando então a olhar com cuidado ao meu redor, visualizando cada item quebrado; vasos de porcelana destruídos por todos os cantos, vidros estilhaçados no meu chão, que era sempre tão impecavelmente encerado, e resquícios do descontrole de Madison na minha parede com pedras filetadas. Aquilo era uma verdadeira loucura e eu já estava chegando ao meu limite.
— Então, o que houve? — Melanie perguntou ao se servir de vinho do Porto, oferecendo-me uma taça logo que se aproximou. — Parece que um furacão passou por aqui.
Ela passava os olhos por todos os cantos com curiosidade, tomando goladas suaves de sua bebida. Não deixei de notar que seu sotaque londrino estava mais evidente; isso sempre acontecia quando ela, de alguma forma, voltava às origens.
— Ah, sim... Isso. — Segui seu olhar por todo o cômodo, não me importando muito com os danos materiais que Madison me causara. — É o mesmo furacão de sempre, aquele que atende por Madison, sabe? — Suspirei depois de tomar um longo gole de meu vinho, recostando no sofá.
Não precisei olhá-la para saber que sua expressão era de completo choque e surpresa, assim como havia sido a minha quando Madison apareceu de repente no meu suposto ambiente de trabalho. O silêncio de Melanie diante de tal informação, no entanto, me fez pensar em maneiras de poder me livrar de Madison.
— Droga! Isso é ruim. — Sibilou com o tom de voz solidário. — Mas o que ela veio fazer aqui, afinal? Pensei que você tivesse deixado claro que o casamento acabou quando a deixou na Irlanda. Sua mãe ficou tão feliz... — Divagou, apoiando a taça em seu queixo enquanto tinha os olhos vazios e distantes.
— Eu deixei, está bem? — Rebati, lembrando-me dos fatos com certa resistência.
Antes de vir à Pensilvânia, Rosewood, estávamos — Madison e eu — separadas há três meses e, durante todo esse tempo, eu não havia me encantado por ninguém. Emily tinha sido um acaso diferente e bem-vindo, seduzindo-me com sua juventude, charme e real delicadeza. Apesar de parecer tão danificada pelos anos de tortura, não teve medo de se envolver com alguém que mal conhecia; fora guiada pelos seus instintos de que, talvez, eu realmente fosse tudo o que ela imaginava.
— Eu estou apaixonada pela Emily. — Confessei baixinho, inclinando minha cabeça para o lado lentamente. — Tanto que quero fazer loucuras com aquela garota. — Ergui o canto dos lábios num meio sorriso, sentindo, então, meu coração apertar com a ideia de que eu a perdi.
— Entendo perfeitamente, sei bem do que está falando, afinal, eu já quis isso também. No entanto, você foi mais rápida. — Ela disse, rindo confortavelmente e sem pudores, recebendo meu olhar de censura.
— Não sabia que você tinha ficado com ela. — Defendi-me. — Soube depois que já estávamos envolvidas demais para voltar atrás.
— Por que não me poupa de toda essa conversa fiada e vai logo atrás dela? — Perguntou, desprezando minha tentativa de me explicar, o que realmente não me surpreendia, visto que Melanie não dava importância a certos princípios básicos. — Eu tive um voo com escalas, foi desgastante e agora estou cansada. Trate imediatamente de colocar Madison no lugar dela e arrume sua vida do jeito que achar melhor. Você sabe que aquela gracinha vale à pena, assim como eu também sei.
Dito isso, levantou-se de maneira quase animada do sofá e se retirou de minha presença sem nem me dar o direito da palavra antes. Senti-me comovida pelas suas palavras, mas também incomodada; não gostava da forma íntima com que ela se referia à Emily, mesmo que aquilo já não significasse mais nada para nenhuma das duas. Ainda assim, não deixava de me causar uma pontinha de ciúmes.
Meu celular começou a vibrar no bolso da minha jaqueta, tirando-me das minhas vagas reflexões, e eu imediatamente o puxei para fora. Arqueei as duas sobrancelhas pelo inesperado sobressalto de ler o nome Hanna Marin piscando na tela do meu iPhone furiosamente. Preparei-me psicologicamente para todas as ofensas que eu iria escutar assim que atendesse e, dessa forma, eu o fiz:
— Hanna... — Comecei, mas fui bruscamente interrompida por ela.
— Você tem dois minutos para se explicar antes que eu conte a Spencer sobre sua aventura como Hester Prynne durante todo esse tempo, e acredite quando eu digo que ela fará muito mais do que condená-la com a letra “A” bordada em seu peito por toda sua vida. — Disparou rapidamente, fazendo-me sorrir fraquinho com a divertida, porém insana referência ao livro A Letra Escarlate.
— Você leu o livro? — Perguntei casualmente, ouvindo-a bufar do outro lado da linha.
— Mas é claro que eu li. — Respondeu com impaciência. — Não é só porque eu sou popular e obcecada por moda que não me atrevo a dar uma olhada nas listas de livros que Rosewood Day recomenda todo semestre.
— Ora, Hanna, não foi o que insinuei. — Tornei hesitante, mas ainda na defensiva. — Bem, se você o leu, provavelmente sabe os motivos que levaram Hester ao adultério. Ela não amava o marido, nunca amou, e havia sido deixada de lado por conta da devoção do próprio à Medicina. Não é exatamente o meu caso, mas se assemelha.
— Você não está fazendo sentido, Letra Escarlate, e seu tempo está se esgotando. — Hanna me lembrou, com a voz monótona e cortante.
— Eu não sou uma adúltera, Hanna! — Fui direto ao ponto. — As coisas não são como parecem. Eu nunca quis esconder meu casamento de Emily, mas as coisas com Madison são complicadas e juro que minhas intenções foram as mais nobres possíveis.
Do outro lado da linha, pude escutar seu sonoro riso incrédulo e eu realmente não podia culpá-la por isso; era difícil acreditar que todo o meu empenho quanto a esquecer de um casamento infeliz e fracassado havia sido em vão. Desde que cheguei à cidade, tudo o que fiz foi tentar evitar pensar em qualquer coisa que me levasse às lembranças do que eu abandonei meses antes.
— Escute, eu não planejei me envolver com Emily, mas aconteceu. — Comecei a me explicar decididamente. — Eu sei que você tem todo o direito de não acreditar no que estou dizendo, mas se você viesse à minha casa agora, entenderia que a minha situação nunca foi favorável para ser compartilhada. — Suspirei, passando os olhos ao redor da sala e encarando o resultado da fúria de Madison. Aquela mulher era um desastre na minha vida.
— Acho que você está com sorte hoje. — Ela disse depois de um instante, e, então, houve o som estridente da campainha preenchendo toda a casa.
Levantei-me do sofá sem dizer nada, indo em direção à porta a passos cansados e hesitantes. Abri a porta e me deparei com Hanna segurando o celular no ouvido, desligando-o logo em seguida. Ela parecia uma boneca de porcelana, vestida com uma blusa de renda fina, saia plissada na cor vermelha e sapatos de salto alto da atual coleção de Michael Kors.
— Espero que aquela vadia arrogante não esteja aqui. — Hanna nem esperou por um convite para entrar, passando direto por mim enquanto eu ainda processava sua aparição repentina.
— Você estava do lado de fora esse tempo todo? — Enruguei a testa confusamente, fechando a porta atrás de mim.
— Não esse tempo todo, foram só alguns minutos. — Respondeu com o mesmo humor ríspido de antes, enquanto encarava com curiosidade e espanto a minha sala destruída. — Jesus! Isso tudo foi ela? — Perguntou, apontando ao redor.
Fiz que sim com a cabeça e a observei por um instante, vendo-a suspirar longamente enquanto aparentemente organizava seus pensamentos diante do que via. Ela parecia indecisa e confusa sobre qual posição tomar a partir de então, fitando-me com expectativa.
— Você deve uma explicação a Emily. — Ela disse seriamente, ajeitando sua bolsa Chanel no braço com delicadeza. — Mas, primeiro, vamos conversar sobre tudo isso.
Com isso, contei a ela sobre os problemas que Madison me causava e a sua recusa em me conceder o divórcio desde que decidi colocar, de uma vez por todas, um fim na nossa desastrosa união. Hanna escutou tudo com atenção, mostrando-se cada vez mais compreensiva.
No final, resolvi ir atrás de Emily outra vez, tentar fazê-la me escutar antes de concluir sua opinião decisiva sobre mim. Não estava certo deixá-la com a ideia errada a meu respeito; ela merecia saber a minha versão da história. Para isso acontecer, no entanto, esperei os dias passarem com angústia e impaciência. Ficar sem Emily e ter que aguentar Madison exigir coisas que estavam fora do meu alcance e também da nossa realidade estava começando a afetar seriamente o meu humor.
Agora, depois de cinco longos dias que não nos víamos, ou tampouco nos falávamos, eu tinha a oportunidade perfeita para poder vê-la e, talvez, até conversar por um instante que fosse. Ouvir sua voz seria o suficiente se tudo o que ela tivesse para me dizer se resumisse em algo como, “Esqueça que eu existo e suma da minha vida”.
Contudo, enquanto no meu novo relógio da Cartier marcava vinte minutos para as sete da noite, eu terminava de assinar todos os documentos que me cabiam da empresa, assim como os do divórcio que haviam sido mandados de volta direto da Irlanda há quase cinco meses sem a assinatura de Madison. Aquela havia sido a última vez em que tentei convencê-la a assiná-los sem sucesso, uma vez que, durante as poucas vezes que conversamos ao telefone na primeira semana em que cheguei à cidade, ela insistia em dizer que aquilo era uma fase e que iríamos superá-la assim que eu voltasse para casa.
— Samara? — Chamou uma voz distante, fazendo-me olhar em direção à origem do som. Era Beth, a secretaria fofoqueira e dispersa que me recebeu no meu primeiro dia aqui. — Melanie acabou de chegar. Ela está com Hanna no décimo quarto andar ajudando as modelos a se prepararem. — Avisou prontamente, apertando o tablet que carregava no braço contra o seu peito.
— Obrigada, Beth. — Agradeci cordialmente, ajeitando os papéis em ordem de importância e, em seguida, erguendo-me de minha cadeira com um sorriso satisfeito moldando meus lábios.
Hoje seria um bom dia, afinal, era quarta-feira, o grande e aguardado evento de caridade de Rosewood, que esse ano tinha como tema as Noivas. Esperava com ansiedade poder ver Emily antes que todo o espetáculo começasse, mas desde que Melanie havia assumido as rédeas dos últimos preparativos desde que chegara, não tinha muitos motivos, se não os mais óbvios, para sequer me aproximar daquele andar.
Não me importei com tal obstáculo, no entanto, e me mantive firme e ereta enquanto caminhava a passos firmes para fora do elevador. As paredes adornadas com quadros autobiográficos de cada revista filiada à MFD pareciam me sufocar a medida em que me aproximava da porta de número “14E”. Cantarolando internamente um mantra de que tudo ficaria bem, abri a porta devagar, percebendo de imediato a familiar agitação de todos naquela sala.
Mesmo de longe, avistei Emily vestida com um roupão de algodão branco, conversando com Hanna e Melanie distraidamente. Ela parecia estar atenta às específicas orientações de ambas. Resolvi, portanto, ficar apenas observando Emily se aprontar em silêncio enquanto tentava me manter o mais imperceptível possível naquela sala movimentadíssima.
— Alguém sabe onde Aria e Spencer estão? — Pude ouvir Hanna perguntar às assistentes de produção que por ali passavam.
Sorri ao notar o quão profissional ela ficava nesses tipos de eventos, usando óculos de grau com armação quadrada e fone de ouvido sem fio na orelha esquerda. Em suas mãos havia uma prancheta e um tablet, os quais ela checava de cinco em cinco minutos para ter certeza de que tudo estava em perfeito e absoluto controle. Suas vestimentas se resumiam a uma camisa branca sob um blazer preto, calça skinny social na mesma cor e sapatos de salto alto.
— Spencer ficou conversando com Melissa e Wilden quando subi. — Emily respondeu, olhando-se brevemente no espelho.
— E Aria? — Tornou incisiva.
— A última vez em que a vi, ela estava conversando com um artista bonitinho que veio de Nova Iorque.
— Eu tenho quase certeza de que já vi esse filme antes, mas com personagens diferentes. — Hanna resmungou, bufando com visível irritação. — Eu vou buscá-las. E você não ouse a sair daqui. — Apontou para Emily, que apenas assentiu em resposta.
Assisti enquanto Hanna se desvencilhava das pessoas que estavam em seu caminho, até finalmente alcançar a porta e sair por ela sem ao menos notar a minha presença. Com toda aquela correria, eu realmente não a culpava por isso e até agradecia; não queria ser notada. Logo, tratei de voltar minha atenção à Emily, que agora estava sentada numa cadeira com seu nome escrito, enquanto alguns profissionais começavam a mexer em seu cabelo.
Cruzei os braços sobre o peito e recostei meu ombro na parede, sorrindo com a visão de Emily ficando pronta monopolizando toda a minha atenção naquele exato momento, e nos que se seguiriam também. Melanie se aproximava de vez em quando de Emily, iniciando conversas íntimas e animadas, mas logo se afastava quando alguém requeria seu auxílio.
Alguns longos minutos haviam se passado e Hanna já estava de volta com Aria e Spencer, que passaram a rir desvairadamente enquanto também se aprontavam para o desfile, deixando Hanna ainda mais impaciente. Emily estava tão quieta e contida, parecia sempre triste e distante. Meu corpo inteiro havia entrado em alerta quando ela retirou o roupão que a cobria, ficando apenas de lingerie vermelha de renda, e começou a vestir o seu belíssimo vestido de noiva. Aquela visão era tão perfeita e... Mágica.
Até mesmo depois de um casamento infeliz e inconsequente, não havia fechado meu coração para tal possibilidade futura. Não podia negar, porém, que a ideia me embrulhava, e muito, o estômago. Contudo, nãoeram de todo mal as lamentáveis experiências que, causadas pelo ápice da imaturidade de um coração jovem, repleto de calor humano e afeição, fui submetida a passar — ora, mas justo eu, que sempre se moldou a certas condutas, cair no erro da ocultação?
Com o pensamento em tal nível de pertinência, saí da minha atual zona de conforto e fui até Emily, afastando a assistente que a ajudava com o vestido. Dispensei-a com a mais perfeita polidez, decaindo meus olhos para as costas nuas de Emily. Ajeitei o corpete do vestido em seu busto cuidadosamente, inspirando devagar o aroma delicioso que circulava ao nosso redor. Erguendo os olhos do celular para o espelho, seu rosto rapidamente empalideceu assim que se deu conta de minha presença; nossos olhares se chocaram com uma devastadora e imponente carga elétrica.
— Samara... — Escapou por entre seus lábios rosados e beijáveis.
Aproximei-me um pouco mais dela, o que fez com que meus dedos tocassem sua pele com o movimento. Desviei meus olhos do nosso reflexo e voltei minha atenção ao que eu estava fazendo, sem ao menos dizer uma palavra. De repente, todas as minhas expectativas em tentar fazê-la me perdoar se perderam num labirinto distorcido da verdade; ela estava completamente certa quanto a querer distância de mim. Eu a decepcionei ao omitir algo tão importante de minha vida.
— Está muito apertado? — Perguntei baixinho, referindo-me ao espartilho que parecia prestes a sufocá-la. — É, acho que sim... — Sussurrei mais para mim, ajeitando-me de maneira um pouco mais ereta atrás dela.
— Está um pouco. — Respondeu por sua vez. — Pode afrouxá-lo, por favor? — Sua voz soou tão neutra e profissional que me causou um leve desconforto no peito.
— Precisa de ajuda? — Melanie surgiu bem ao meu lado juntamente de Hanna, que segurava alguns tecidos de renda nos braços.
— Não, obrigada. — Recusei com fria polidez, concentrada demais para sequer olhá-la direito. Mas, então, eu me lembrei: — Na verdade, preciso de um favor. — Dessa vez, eu a olhei. — Leve Hanna para conhecer Valentino. — Pedi com um sorriso benevolente, prosseguindo logo em seguida: — Ele chegará dentro de uma hora e eu não estarei mais aqui.
— Valentino? — Hanna deixou cair os tecidos que segurava, incluindo o tablet com o famoso símbolo da maçã mordida no chão. — Meu Deus, você só pode estar brincando! Por favor, não esteja... — Ela quase suplicou ao perceber a pequena possibilidade.
— Eu não estou. — Sorri para ela, voltando a mexer no vestido de Emily a tempo de poder vê-la revirar os olhos pela minha visão periférica. — Ele quer conhecê-la. — Contei.
— Espere, você falou de mim para ele? — Seus olhos quase saltaram de surpresa, causando os risos de Melanie e eu.
— Devo ter comentado algo a respeito. — Dei de ombros, escutando o suspiro aliviado de Emily quando afrouxei consideravelmente o espartilho em seu busto perfeito.
— Adriana também estará aqui, não é? — Melanie olhou em sua prancheta com informações especiais. — Você vai adorar conhecê-la também, Hanna, ela é um amor. — Garantiu com um sorriso empolgante.
— Quem é essa? — Emily perguntou a ela, virando-se para encará-la com falso interesse.
— Adriana Lima! — Hanna deu pulinhos de alegria. Mas, então, enrugou a testa parecendo ofendida. — Jesus, Em, em que mundo você vive? Ela é uma das modelos da Victoria’s Secret!
Emily deu de ombros e se virou, afastando-se de nós três. Melanie ajudou Hanna a recolher os tecidos do chão enquanto conversavam mais a respeito de Adriana, ao passo em que eu observava Em procurar alguma coisa perto de sua cadeira mais adiante. Estava prestes a ir atrás dela outra vez quando Hanna me impediu ao empurrar um buquê de flores lindíssimo contra o meu peito, apontando para Emily com os olhos. Fiz o que ela me indicou, começando com a aproximação.
— Você parece um pouco agitada. — Observei casualmente, escondendo as flores atrás de mim. — Está tudo bem? — Perguntei quando ela me olhou com visível desconforto.
— O que você quer, Samara? — Tratou de cortar qualquer tipo de assunto que pudesse vir a surgir por provável insistência minha. — É melhor você se afastar antes que... — Ela não terminou, mas eu sabia exatamente o que se passava por sua mente.
— Ei, que tal começarmos tudo de novo? — Sugeri, sorrindo docemente com a ideia enquanto ela balançava a cabeça negativamente, tentando sem sucesso passar por mim. — Olá, eu sou Samara. — Estendi minha mão livre em sua direção, fazendo-a olhá-la com curiosidade.
— Não estou interessada no seu jogo. — Ela recusou o meu polido cumprimento.
— Vamos lá, moça bonita, eu juro que não mordo... — Fitei-a esperançosa, mantendo a mão estendida.
— Você têm maneiras adoráveis, Samara, mas inúteis quando usadas com perigosíssima obstinação. — Meu sorriso murchou lentamente diante de sua frieza. — Agora, se me permite... — Retirou-se polidamente de minha presença, deixando-me sem resquícios de argumentos válidos para tentar persuadi-la; porém, eu não desistiria e tão logo a faria ceder.
Esperei pacientemente até que ela estivesse totalmente pronta, indo ao seu encontro quando todos ao redor se mantinham ocupados com seus próprios assuntos. Emily tomava o máximo de cuidado para não bagunçar o cabelo e não amassar o longo vestido que usava. Estranhamente, ela parecia muito confortável com toda a situação, tirando os momentos em que se olhava no espelho com visível nervosismo, como agora.
— Você me perguntou o que eu queria... — Comecei hesitante enquanto me sentava na cadeira de Spencer, vendo Emily bufar audivelmente com a minha insistência em tentar um diálogo. — Eu quero tudo que envolva você, Emily Fields. — Prossegui, pronunciando as últimas palavras pausadamente.
— Por que está fazendo isso? — Ela perguntou com os olhos baixos e eu percebi que aquilo era uma tentativa de esconder as lágrimas.
— Estou apaixonada, o que mais posso dizer? — Sorri abertamente, levantando-me da cadeira por puro reflexo de felicidade. — Eu quero ficar com você, não aguento mais toda essa saudade. — Confessei com sinceridade, aproximando-me dela firmemente.
— Não serei sua amante. — Emily disse, cruzando os braços em sinal de determinação.
— Não pedi para que fosse. — Tornei ainda mais firme.
— Sua mulher foi até a minha casa me pedir para ficar longe de você, porque claramente eu estou sendo um problema desgastante para o casamento de vocês. — Explodiu num rompante. — Você vê, Samara, não posso lidar com isso... Se eu soubesse que você era casada...
— Você teria desistido de mim? — Interrompi bruscamente, inclinando minha cabeça para fitá-la melhor. — Se eu tivesse contado sobre o meu casamento para você, teria feito alguma diferença, você teria se afastado? — Insisti, tomando sua mão na minha com profunda estima.
— Não. — Respondeu com um fio de voz, fechando os olhos diante de tal afirmação. — Mas teria sido uma escolha minha ficar com você mesmo sabendo que é casada.
Houve um momento de silêncio entre nós duas e eu logo tratei de quebrá-lo:
— Tudo o que fiz foi tentar poupá-la, Emily. Eu queria protegê-la dessa parte terrível do meu passado. — Garanti a ela. — Você acha que é um problema? Pois eu digo que você é a solução! Eu sei que quase não há mais tempo, mas me deixe recompensá-la pelas falhas que cometi. Perdoe-me pelas omissões...
— Emily! — Hanna surgiu de repente, atrapalhando-me completamente. — O que ainda está fazendo aqui? Vamos, já está na hora! — Ela não se importou com a minha presença e a puxou para longe de mim.
Deixei um suspiro alto e frustrado escapar dentre meus lábios, passando as mãos pelo meu cabelo furiosamente. Peguei o buquê que eu não havia lhe entregado e corri atrás dela. Não estava nos meus planos participar daquele evento, mas para conseguir ter a atenção de Emily eu teria que esperar até o desfile acabar.
Tomei o elevador e fui até o andar em que o evento em si estava acontecendo, ignorando toda aquela confusão de pessoas ao meu redor e indo direto ao camarim atrás da passarela brilhante. Assim que meus olhos avistaram Emily se preparando para desfilar, tratei de me apressar para alcançá-la a tempo. Toquei seu braço com delicadeza antes que ela se movesse para onde as inúmeras vozes misturadas a orientavam.
— Eu me esqueci de duas coisas. — Primeiro, eu estendi o buquê de flores em sua direção.
Percebi, porém, que ela já tinha um em suas mãos; eu estava prestes a recolher o meu braço quando Emily escolheu ficar com o meu ao invés do que segurava. Ela aceitou o buquê de bom grado, levando as flores ao seu nariz para poder cheirá-las. Não esperava por aquilo, mas fiquei feliz ao constatar que ela estava começando a ceder às minhas investidas para tê-la de volta. Assisti de perto ao sorriso involuntário que cresceu em seus lábios, o que causou o meu de imediato.
— Agora, isso... — Inclinei-me em sua direção e toquei seus lábios suavemente com os meus, sentindo o gosto de espumante ao prolongar o contato por alguns significantes segundos a mais.
Quando me afastei, no entanto, abri os olhos e tudo o que vi foi o brilho intenso estampado em suas íris negras. Ela não parecia brava pelo que eu fiz, mas feliz; os cantos de seus lábios ameaçavam se curvar num meio sorriso. Inspirei profundamente, não contendo um sorriso satisfeito que tomou conta do meu rosto.
— Pronto, já pode ir. — Afastei uma mecha de cabelo que insistia em cair sobre os seus olhos, tocando seu rosto delicadamente no processo. Eu não queria mesmo deixá-la ir.
— Não tão rápido, querida. — Soou uma voz conhecida atrás de mim. E também irritantemente sarcástica.
Fechei os olhos com força, pedindo a todas as forças superiores que me desse paciência, misericórdia e graça para aturar o desastre de sotaque irlandês que tanto me atormentava. Eu já havia aprendido a minha lição, agora Madison poderia simplesmente desaparecer da minha vida outra vez. Era tudo o que eu mais queria.
— Madison... — Rosnei entredentes, virando-me para poder encará-la. — Meu Deus, o que você está fazendo aqui? — Tentei controlar a repentina raiva que crescia em brasa dentro de mim.
Vestida num longo e elegante vestido Alexander McQueen, ela tinha os cabelos compridos e lisos presos num penteado que deixava algumas mechas estrategicamente soltas, combinando com sua franja repicada.
— Ora, minha caríssima Sra. Cook, não seja boba. — Fingindo um refinado equilíbrio que não tinha, sorriu sadicamente para mim ao continuar: — Eu também tenho algo para Srta. Fields, permita-me?
Num único e calculado passo para frente, ela derramou todo o líquido de sua taça de vinho tinto no vestido branquíssimo de Emily, que apenas arfou com o contato glacial em sua pele e também pela surpresa que o ato lhe causou. Naquele momento, tudo ao meu redor se desligou e eu imediatamente puxei Emily para perto de mim.
— Em, olhe para mim. — Pedi com o tom carregado de zelo e preocupação. — Fique calma, está bem? Eu vou limpá-la.
Ela estava completamente paralisada e em choque, com o queixo ligeiramente caído enquanto eu esfregava um pano grosso qualquer que eu havia pegado sem perceber no seu peito exposto e manchado de vinho.
— Palavra de honra, Srta. Fields, esta cor escarlate fica adorável em você. — Madison comentou com fria polidez, num tom imperturbável, fazendo com que a minha raiva retornasse num rompante violento.
— Você passou de todos os limites, Madison. Perdeu completamente o pouco de respeito que eu ainda possuía por você. — Comecei, tornando a minha preocupação com Emily mais importante do que a minha ira. — Em, eu sinto tanto! Muitíssimo! — Tentei me desculpar por todo aquele inconveniente, mas parecia tão difícil.
— É melhor eu tirá-lo. — Ela disse, e deslizou a mão pelo cabelo, afastando-o para trás. — Vou pedir a Hanna que me ajude...
Surpreendi-me ainda mais com o tom superior com que as palavras saíam de sua boca, tão cuidadosas e resolutas, como se fosse um recado a Madison, dizendo-lhe na mais sutil delicadeza de que era preciso mais do que uma artimanha baixa e medíocre para fazê-la se encolher.
— Faça isso, querida. — Madison interpôs, fingindo-se de preocupada. — E seja mais cuidadosa da próxima vez, nunca se sabe em quem você pode esbarrar. — Encarei-a atônita, vendo um sorriso cínico e debochado crescer monstruosamente em seu rosto.
— Não, Hanna está lá fora com Melanie. — Neguei rapidamente, ignorando-a por completo e me voltando de imediato à Emily. — Eu vou ajudá-la, estou aqui e não vou deixá-la. — Garanti com inegável firmeza quando ela fez menção de recusar meu auxílio para tirá-la daqui. — Em, você pode confiar em mim. Eu prometo que não vou desapontá-la outra vez.
Dito isso, peguei-a pela mão e a puxei para longe de todas aquelas pessoas curiosas e receosas em se aproximar para oferecer qualquer ajuda, ou até perguntar se estava tudo bem. Todos conheciam Madison, afinal, quem não conhecia? Ela havia sido a capa de centenas de revistas internacionais, inclusive a Modern Bride, que provavelmente a enviou para cá.
— Eu, sinceramente, não tenho palavras para expressar meu terrível embaraço diante disso. — Suspirei enquanto desatava as fitas do corpete de Emily em minha sala. — Nunca pude controlá-la, nem mesmo quando ainda estávamos juntas, e garanto que naquela época era ainda pior. — Continuei com palpável pesar, esquecendo-me por um instante de que Emily provavelmente não estava a par de toda a real situação entre Madison e eu.
— Vocês não... — Ela começou, mas sua voz foi sumindo. — O que aconteceu depois que foi me procurar naquela noite?
— Ela enlouqueceu e destruiu a minha sala de visitas. — Deixei uma risada nasal escapar, passando os dedos suavemente pelos ombros nus de Emily, que se arrepiou pelo contato. — Desculpe, meus esforços foram todos em vão; gostaria de ter a poupado de todo esse drama. — Lamentei com serena seriedade.
— Pretendia mesmo me contar algum dia ou fingiria para o resto da vida que ela não existia? — Perguntou incisiva.
— Apenas quando o divórcio saísse seria o momento certo para contar. — Respondi com sinceridade, e ela assentiu, ficando em silêncio a partir daquele momento.
De costas para mim e com cabelo preso num coque desajeitado, terminei de desfazer o aperto em seu corpete e o tirei de seu corpo com cuidado. Apesar de o momento não ser nada propício, não pude evitar a excitação que aquele corpo cheio de curvas exercia sobre mim. Ela era tentadora em diversas formas e a nossa atual situação criava involuntariamente a fantasia de possuí-la no meu sofá de couro com todo o direito que me cabia.
— Você acha mesmo que essa cor fica bem em mim? — Emily perguntou de repente, sorrindo divertidamente ao apontar para o vestido manchado de vinho jogado no chão.
— Qualquer cor fica bem em você. — Devolvi seu sorriso de uma forma terna, desviando meus olhos para as suas peças íntimas extremamente atrativas. Então, com um aceno agitado de cabeça, voltei a olhá-la nos olhos. — Eu vou buscar algumas roupas para você, está bem? Fique aqui, eu volto num minuto.
Encarei Emily por um instante, sentindo-me hesitante quanto a deixá-la sozinha, mas não havia outro jeito; para sair daqui, ela precisava de roupas, e lá fora estava tão frio.
— Pegue as minhas coisas com Hanna. — Orientou-me ao começar a passear pela minha sala, tocando nas coisas como se fosse a primeira vez que estivesse aqui. — E, pelo amor de Deus, não diga nada a Spencer se a encontrá-la. — Avisou com o tom em alarme.
Limitei-me a apenas assentir, deixando uma risadinha confortável escapar quando estava saindo pela porta. Encontrei-me com Aria no caminho, junto de um rapaz alto e de aparência agradável, mas ela não pareceu me ver, o que muito agradeci. Precisava achar Hanna o mais depressa possível e, graças aos céus, encontrei-a conversando com Melanie e Adriana.
Pedi desculpas por interrompê-las, cumprimentando Adriana cordialmente, e puxei Hanna para um canto mais reservado e perguntei sobre as coisas de Emily. Ela pareceu confusa inicialmente, fazendo centenas de perguntas e, por fim, disse onde eu iria encontrá-las.
— Ah! Antes que eu me esqueça... — Ela chamou de volta, virando-se para mim outra vez. — Leve Emily para a minha casa, ela está ficando comigo esses últimos dias. — Orientou-me, tirando alguma coisa de dentro de sua bolsa.
— Eu vou levá-la para a minha casa. — Recusei quando ela me estendeu um molho de chaves.
Hanna arqueou as sobrancelhas, parando para pensar no assunto por alguns instantes, mas logo deu de ombros. Ela voltou rapidamente para onde estava antes e eu fui pegar as coisas de Emily. No caminho de volta, liguei para a recepção do primeiro andar e pedi para que tirassem meu carro da garagem e assim foi feito.
— Ei, está com fome? — Perguntei para Emily quando já estávamos a caminho de minha casa, tocando sua perna para chamar sua atenção. Felizmente, Madison não estava mais lá. — Deve ter algum restaurante por aqui... — Sussurrei, tentando me lembrar de qualquer um que fosse perto o suficiente.
— Não, não precisa. — Emily pegou a minha mão e a entrelaçou na sua, gesto esse que enviou cargas elétricas seríssimas por todo meu corpo. — Eu me contento com uma pizza.
Parei no sinal vermelho e olhei para ela, sorrindo de lado quando percebi suas pálpebras pesadas levando a melhor na batalha que ela mesma travava na intenção de conter o sono e o cansaço. Provavelmente, Hanna havia exigido muito de Emily hoje e ainda teve todo o momento desgastante com Madison...
— Será uma pizza então... — Concordei baixinho, tendo a certeza de que ela caíra no sono assim que seu aperto em minha mão afrouxou significativamente.
Inclinei-me rapidamente em sua direção e a beijei com delicadeza, afastando algumas mechas de cabelo que caíam em seu rosto para trás da orelha. Tínhamos tanto para conversar, mas hoje eu me contentaria em apenas cuidar dela; deixaria tudo o que eu tinha para lhe dizer amanhã e, então, ela seria minha outra vez.
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