Estes Laços Que Unem
4 Carta Fechada Ao Mundo.
Notas iniciais
Estava sendo uma manhã calma e tranquila na cidade de Rosewood e eu me encontrava sentada numa mesa afastada das demais, em um café de estilo francês que Hanna tanto comentava a respeito, Rive Gauche, lendo e relendo a matéria que eu escrevi sobre o evento que ocorreu há três dias numa mansão de patrimônio inglês, construída no século XX, enquanto eu me intoxicava de forma quase irremediável com as bebidas que o bistrô oferecia.
Enquanto, do outro lado da mesa, estava uma das minhas amigas da época em que comecei a minha segunda faculdade, Melanie McCartney, uma mulher muito bem vivida e de aparência inofensiva, cuja experiência de vida retratava suas estimadas obras de artes.
— Sam, eu estou pensando... — Ela irrompeu de repente, desfocando sua atenção do artigo sobre Andy Warhol, um importante cineasta e artista plástico por quem Mel nutria profunda admiração desde que nos conhecemos. — A Tank me convidou para uma experiência como mentora de jovens artistas. — Contou, demonstrando uma neutralidade quase angustiante.
— Melanie, isso é ótimo! — Exclamei com contida emoção, me endireitando na cadeira mais do que depressa. — Por que você não está pulando de alegria? — Pisquei confusa, fixando meus olhos nela. A Tank é uma importante revista inglesa, a qual tem como característica principal mostrar editoriais autorais e de vanguarda.
— Bem, talvez porque eu esteja muito centrada nas minhas questões de existencialismo e...
— Tudo bem, eu entendo. — Interrompi sua linha de raciocínio bruscamente. — Apenas não descarte essa oportunidade assim tão depressa. — Aconselhei enquanto analisava sua postura relaxada e desatenta por um instante.
— Não se preocupe, irei considerar com muito carinho esta oferta de ouro. — Mel sorriu debochadamente, erguendo sua taça de vinho numa referência explícita a um brinde, enquanto revezava sua atenção entre o livro que lia e o meu tablet com a tela acesa sobre a mesa. — Por que você tirou uma foto dela? — Suspirou depois de um momento, deixando sua leitura de lado.
— Quem? — Olhei para ela do outro lado da mesa, desviando a minha atenção do que eu estava tentando fazer desde que chegamos aqui, e logo Mel empurrou o aparelho em minha direção.
A foto que eu havia tirado de Emily Fields durante o desfile parecia flutuar na tela. Ela tinha um sorriso encantador moldando os seus lábios, daqueles que poderiam roubar o coração de qualquer um em apenas um piscar de olhos, enquanto a sua atenção parecia estar voltada para onde Mel estava. Por um instante, eu encarei a imagem com um leve tom de curiosidade. Algo parecia não se encaixar de forma tão adequada, afinal, Melanie parecia meio... Enciumada.
— Ela é encantadora. — Respondi simplesmente, procurando não render muito o assunto.
— Você realmente acha? — Algo em seu tom de voz pareceu meio desafiador e implacável, como se ela desconfiasse de alguma coisa e estivesse a ponto de me punir por isso. Mas, então, sua expressão se suavizou e ela sorriu. — Bem, talvez você deva saber que eu tenho o número dela. — Mel anunciou, recostando-se na cadeira com falsa calmaria.
— Mesmo? — Arqueei as sobrancelhas, deixando os meus rascunhos de lado enquanto eu a observava com atenção, já que Mel tanto a queria. — Agora eu vejo... — Sorri com pretensão, descruzando as minhas pernas. De fato, ela estava com ciúmes.
— Não é nada disso, está bem? — Ela deu de ombros, rindo nervosamente com o rumo que a conversa estava tomando. — Eu, honestamente, gostei dela. Ela parece meio genuína, apesar de ser extremamente tentadora e provocante. — Divagou de maneira sóbria e confiante, desviando seus olhos esverdeados para o outro lado enquanto falava.
E era verdade. Eu mal a conhecia, mas Emily se encaixava de modo quase irretocável nessas três categorias que Mel a colocou. Ela era provocante e a sua quase imperceptível inocência a tornava tentadora. E essa ideia apenas tomou uma forma mais sólida quando os meus olhos captaram cada movimento seu naquela passarela, e os seus flertes... Eu não tinha certeza se ela realmente estava interessada em mim, ou se aquilo havia sido apenas uma brincadeira de garotas da sua idade.
— Melanie, você parece um pouco deslumbrada. — Ergui o meu copo de cappuccino de chocolate com menta e o levei até a boca, bebericando longamente. Ela riu fraco, voltando a olhar para a tela do meu tablet com a foto de Emily ainda cobrindo o visor.
— Acredite em mim, você também estaria se soubesse do que eu estou falando...
Com isso, ponderei perguntar o que aquilo deveria significar, mas a minha atenção foi rapidamente roubada pelas figuras que acabaram de surgir na porta dupla e automática do bistrô francês. Era Hanna e suas amigas, todas vestidas em seus típicos uniformes de colégio particular — camisa branca, blazer com o brasão de Rosewood Day e saia com estampa xadrez na cor cinza —, com bolsas que pendiam em seus ombros e uma delas, que logo deduzi ser Spencer Hastings, carregava um caderno grosso em seu braço direito e estava com a gravata propositalmente desarrumada, assim como Hanna.
— Ora, ora. — Mel havia seguido o meu olhar e agora ela estava com o pescoço virado para trás, observando a aparente e divertida interação que rolava entre elas no balcão que logo ficava a entrada. — Espere um segundo! Aquela não é Hanna Marin, a sua estagiária? — Ela voltou seu olhar quase de imediato para mim.
— Ela não é a minha estagiária, Mel. — Balancei a cabeça lentamente, voltando minha atenção aos meus rascunhos que estavam sobre as minhas pernas, agora, cruzadas. — Mas, sim, aquela é Hanna Marin, e aquelas são suas melhores amigas. — Apontei com os olhos para as meninas que estavam na companhia de Hanna, incluindo a encantadora Emily, a qual teve a minha atenção por um pouco mais de tempo antes de eu desviar os olhos.
— Eu sabia que eu já tinha a visto em algum lugar! — Mel exclamou, pegando o tablet sobre a mesa e passando os seus dedos na tela com considerável pressa.
— Conhecia quem? — Enruguei a testa, devolvendo o copo para a mesa enquanto os meus olhos alternavam de onde Emily estava para Mel à minha frente.
— Como quem? Eu estou falando de Emily. — Ela disse impaciente, virando a tela do tablet para mim. — Ela é uma daquelas meninas da People, você se lembra? — Mel voltou a olhar o visor que tinha a imagem de Hanna, Emily e as outras duas com seus uniformes e com uma aparência mais jovem, na capa da revista People. — Mal posso acreditar que eu me envolvi com uma Pretty Little Liar.
— Não a chame assim, ela não gosta. — Eu a repreendi, lembrando-me da primeira vez em que eu conversei com Emily.
Ela soube logo de cara que eu estava a olhando porque sabia quem ela era por causa de todo o escândalo sobre a sua amiga morta ter explodido em todo o país e de forma tão chocante. E ela estava certa, no entanto. Algo em seus traços bonitos e marcantes me parecia muito familiar, mas eu não havia a reconhecido de imediato, isso levou alguns dias e, então, as recepcionistas da Montaigne’s Fashion Designer ficaram fofocando sobre a má sorte que elas tiveram durante os dois últimos anos de suas vidas, e logo eu soube.
— Deus! Ela ficou ainda mais gostosa depois de todo aquele drama com a garota morta e as acusações de assassinato. — Mel suspirou sonoramente, afastando-me dos meus pensamentos. Seu pescoço estava novamente virado para trás e, certamente, ela estava checando as curvas de Emily, que tinha o seu tronco inclinado sobre o balcão.
— Jesus, Melanie! — Olhei com certo espanto para ela. — Você é uma artista, deveria ter um pouco mais de tato. Aquilo deve ter sido terrível para ela. — Ponderei com sensibilidade.
— Bem, não da forma como eu gostaria de ser. — Ela retrucou, sustentando o meu olhar com determinação. — E não seja tão complacente, se estas garotas foram perseguidas, alguma coisa de muito podre elas fizeram. — Desviei a minha atenção dela, encarando as quatro garotas conversando animadamente enquanto esperavam seus cafés. — Não se esqueça de que um rosto bonito é capaz de esconder uma mente perversa. — Mel disse e, então, se levantou com uma leve reverência de quem pedia permissão para se retirar.
Ela caminhou em direção às meninas, sentando-se no banco ao lado de Emily. Não pude evitar em ficar observando por alguns instantes a cena que se passava a alguns bons metros da mesa onde eu estava. Assim que Mel chamou a sua atenção, Emily teve um leve sobressalto de pura surpresa com a sua presença repentina, e logo cada uma de suas amigas pegou seu respectivo copo de café e se afastou, deixando-as conversar à vontade. Enquanto isso, eu voltei minha atenção às minhas próprias coisas, vez ou outra espiando a indecifrável interação entre Melanie e Emily.
***
Agora, já se passavam das três horas da tarde e eu andava de um lado para o outro enquanto terminava de conversar ao telefone com um dos produtores do desfile da grife Marc Jacobs, o qual eu havia sido encarregada de escrever a respeito para a revista V.
— Tudo bem, está perfeito. Muito obrigada. — Disse para o rapaz de voz rouca e profunda do outro lado da linha.
— Até breve, Srta. Cook. — Dito isso, encerrei a chamada rapidamente e me encaminhei em direção à porta entreaberta, por onde eu podia ouvir som de vozes baixas do lado de fora da sala.
— Amber, onde está Hanna? — Perguntei a uma das recepcionistas do sétimo andar, que, no mesmo instante em que me viu sair da minha sala, se dispersou da companhia de três estagiárias que estavam quase fechando um círculo em sua volta, muito provavelmente fofocando sobre a vida de todo mundo.
— Ela desceu para o estúdio 4B há uns quinze minutos. — Ela respondeu, tocando o telefone disfarçadamente no canto de sua mesa, aparentemente sem jeito.
— Obrigada. — Fechei a porta atrás de mim e me encaminhei ao final do corredor, onde estava o elevador.
Era perfeitamente possível escutar o barulho do meu salto alto ecoando conforme eu avançava com os meus passos em direção à sala do estúdio em que acontecia a maior parte dos ensaios fotográficos para as revistas filiadas à Montaigne’s Fashion Designer, como a Lula e a Visionaire. Enquanto me aproximava, eu podia ouvir claramente a voz de Hanna soando com animação do outro lado da porta.
— Ficaram ótimas! Você não quer ver? — Assim que eu entrei na sala, avistei Hanna inclinada sobre a mesa que ficava no centro da sala de cor neutra, encarando a tela do computador à sua frente com um sorriso estonteante.
— Não, obrigada. — Soou a voz da pessoa que estava a alguns metros de distância de onde eu estava.
Quando eu olhei para o outro lado, notei Emily sentada numa mesa estilo colegial, com os olhos baixos e dispersa. Ela balançava os pés, parecendo uma criança presa em seu próprio mundo e, quando eu avencei mais um passo, firmando meus pés no chão, ela ergueu a cabeça em minha direção de imediato e sorriu de maneira inesperadamente deleitosa, quase como se estivesse feliz por me ver. Não pude deixar de reparar que ela ainda usava o seu uniforme que, com a saia encurtada na altura da coxa, exalava um misto de inocência e volúpia.
— Hanna? — Chamei ainda distraída, desviando a minha atenção de Emily e rolando a página dos meus e-mails não lidos pela tela do meu tablet. Olhei para Hanna por um instante, vendo que sua postura agora estava ereta e disposta. — Você tem algum compromisso importante marcado para o final de semana? — Perguntei, observando sua expressão de quem estava pensando mudar lentamente.
— Apenas com Dot, meu cachorro. — Ela disse depois de um momento. — Nós temos spa neste final de semana, e eu prometi a ele que compraria uma nova caminha da Gucci para que ele se sinta mais confortável enquanto estamos separados. — Hanna sorriu com um misto de orgulho e melancolia.
— Tudo bem. — Decidi ainda um pouco confusa sobre sua definição de ocupação importante. — Bem, eu tenho este desfile marcado para sábado à noite em Nova York, o qual eu realmente não posso comparecer. Então, eu pensei que você poderia ser a pessoa ideal para me substituir, mas já que você tem outro compromisso, eu peço para Tara. — Tara Jonesé umas das estagiárias do nosso superestimado estilista Mark Anthony, cujo passatempo favorito era azucrinar Hanna de todas as formas possíveis.
Olhei para ela de relance, assistindo enquanto seu rosto parecia querer balançar com a minha proposta. Eu sabia que este desfile seria perfeito para Hanna se familiarizar com todo o ambiente regado à glamour que ela tanto sonhava em vivenciar por si própria, e ela realmente merecia isso. Esta era a minha forma de dizer que todo o seu esforço para se tornar a pessoa que ela queria ser estava surtindo efeito. Então, quando eu estava prestes a me virar para sair por onde entrei, ela mordeu o lábio nervosamente e disparou:
— Eu acho que Dot não se importaria de esperar até o próximo final de semana, afinal. — Ela se decidiu de maneira precisa, contendo sua animação diante do que eu estava a oferecendo.
— Então está perfeito! — Sorri abertamente enquanto ela inflava o peito, empolgada e orgulhosa. — Acertamos os detalhes depois. — Avisei rapidamente, saindo pela porta e escutando o seu gritinho animado assim que a fechei atrás de mim. Algumas pessoas acabavam de sair de um dos elevadores, dando tempo suficiente para que eu chegasse até ele sem ao menos precisar me apressar.
Antes que as portas metálicas e pesadas pudessem se fechar, uma vez que eu já estava dentro, alguém atravessou o espaço que ainda restava entre elas e o aroma envolvente de almíscar branco com maçã verde dançou suavemente pelas minhas narinas.
— Olá. — Emily disse quando eu olhei para ela e, então, apertou o botão para o primeiro andar. Eu apenas sorri com o seu aparente embaraço, cumprimentando-a de volta de maneira sutil, porém amistosa, até que houve um silêncio significativo entre nós duas e ela parecia estar a ponto de explodir.
— Você está bem? — Deixei escapar, analisando sua compostura cuidadosamente.
— Elevadores podem ser um pouco angustiantes. — Murmurou com ligeira dificuldade, encostando-se ao corrimão de ferro e olhando somente para mim.
— Mas é um dos meios de transportes mais seguros do mundo. — Rebati instantaneamente, desviando a minha atenção dela para fechar todas as páginas de culinária americana que estavam abertas no meu tablet. — Você sabia disso?
— Eu devo ter lido algo a respeito. — Deu de ombros, ajeitando a bolsa que pendia em seu ombro distraidamente.
— Aposto que sim. — Olhei para o pico do elevador, observando enquanto os números na cor vermelha caíam lentamente.
O único barulho que se podia escutar era o som da respiração pesada e ansiosa de Emily, e eu realmente não pude deixar de olhá-la com atenção enquanto o silêncio mais uma vez prevalecia.
— Você sabe, eu estou aqui tentando pensar numa forma simples e descomplicada de convidá-la para tomar um café, mas sem soar inapropriada. — Ela irrompeu de repente, sem olhar para mim. — Será que eu posso? — Arqueei as sobrancelhas com genuíno espanto, não sabendo ao certo o que responder.
— Bem, você certamente pode, mas não sei se eu posso aceitar. — Respondi por fim, depois do que foram duas batidas aceleradas do meu coração.
Antes que eu pudesse acrescentar mais alguma coisa, o elevador apitou e o meu andar já havia chegado. Lancei um olhar de despedida a ela, juntamente de um sorriso discreto e hesitante. Sua expressão se tornou mais viva e um pouco mais confiante, e quando eu estava saindo da cabine, sua mão tomou a minha de maneira calma e delicada, me impedindo de prosseguir para longe dela.
— É apenas um café, e eu juro que não mordo. — Emily se inclinou em minha direção, sorrindo esperançosa. — Eu vou esperá-la, às cinco horas na Cafeteria Bristol aqui ao lado, e se você não aparecer... Bem, eu provavelmente vou ficar muito decepcionada. — Ela disse, torcendo o lábio para o lado de forma adorável enquanto olhava para minha mão em contato suave com a sua.
— Até mais, Emily. — Disse com cautela, baixando os olhos por um segundo antes de me afastar com certo decoro. — Vá para casa, você certamente tem deveres de casa para fazer. — Com isso, ela soltou a minha mão devagar e, em seguida, se inclinou ainda mais e encostou seus lábios macios contra o meu rosto, me deixando ainda mais rubra e hesitante.
— Às cinco horas. — Ela se afastou lentamente, com um sorriso preguiçoso surgindo através de sua expressão serena, até que as portas automáticas se fecharam.
***
Depois daquele estranho momento no elevador, eu havia vindo direto para a minha sala, ainda pensativa e agitada. E, conforme o tempo ao meu redor passava de maneira indizível, eu encarava o grande e pomposo quadro da capa do primeiro editorial que eu havia feito para a revista Vogue Austrália, há pouco mais de dois anos, pendurado numa das paredes laterais de cores fortes e escuras. Além disso, ao lado do quadro do meu primeiro trabalho significativo, havia algumas obras de arte de artistas que eu estimava com muito afinco, como O Grito,de Edvard Munch, e O Terraço do Café à Noite,de Van Gogh.
Enquanto eu as observava atentamente, milhões de pensamentos simultâneos atravessavam minha mente de uma só vez. Eu não conseguia me lembrar da última vez em que eu havia me relacionado com alguém, e apenas a ideia de tomar um café com Emily meio que me apavorava. Não era uma grande coisa, eu sabia disso, mas, de qualquer maneira, eu estava entrando naquela zona complicada e perigosa novamente... E era sentada no sofá de couro preto que ficava no canto do cômodo, equilibrando uma taça de vinho tinto entre os joelhos, que eu pensava sobre as inúmeras formas que Emily havia utilizado para flertar comigo e que, mesmo assim, eu não sabia até que ponto aquilo deveria ser levado a sério. Afinal de contas, ela era uma garota que ainda cursava o ensino médio.
— Samara, esses papéis são para você assinar até amanhã. — A voz inconfundivelmente altiva e autoritária da minha mãe soou, arrancando-me de todos os meus pensamentos.
Conforme ela adentrava apressada a minha sala, uma nuvem de Chanel Nº 5 se alastrou por todo o ambiente, até que ela parou em frente à minha mesa e permaneceu de costas para mim por alguns instantes. Ela manteve os papéis em suas mãos e, então, virou-se para mim com a expressão implacável, como sempre. Seu maxilar tremeu de forma quase imperceptível e logo ela tirou os seus óculos quadrados de grau, arriscando me fitar com seriedade.
— Pode deixar os papéis em cima da minha mesa, não vou assiná-los agora, de qualquer forma. — Posicionei a taça com cuidado sobre as minhas pernas cruzadas, aconchegando-me no sofá de forma mais confortável enquanto eu procurava evitar qualquer tipo de contato visual que pudéssemos vir a ter.
— Na verdade, eu queria conversar com você sobre uma coisa. — Ela disse, deslizando seus dedos meticulosamente pela beirada da minha mesa. Olhei para a tela do meu celular e faltavam seis minutos para as cinco. — Bem, eu conversei com o seu advogado e ele...
— Agora não, mãe. — Coloquei a taça de vinho na mesinha de apoio que ficava ao lado do sofá e me levantei depressa. — Eu estou de saída, compromisso importante. — Peguei a minha bolsa de couro cinza clara Jimmy Choo de cima da minha mesa e deslizei a mão entre os fios claros do meu cabelo, aproveitando a porta entreaberta para escapar antes que ela fizesse com que eu sentasse e escutasse o que eu já sabia que ela iria dizer e também o que eu queria esquecer.
Assim que eu estava passando pelas portas da cafeteria, que ficava praticamente ao lado da Montaigne’s Fashion Designer, avistei Emily sentada numa mesa de canto do lugar, com as costas recostadas no banco de couro e com a atenção focada em seu telefone celular. De longe, eu pude perceber que ela não usava mais o seu uniforme e brincava com algumas mexas do seu cabelo, distraída. Honestamente, eu não esperava que ela fosse tão pontual.
— Ei, conquistadora. — Cantarolei baixinho assim que me aproximei da mesa, fazendo com que ela elevasse o seu rosto para mim mais do que depressa. Emily se endireitou na cadeira, sorrindo abertamente enquanto mantinha seus olhos fincados em mim, arqueando as sobrancelhas com ligeiro assombro.
— Nossa! Você é... Pontual. — Ela disse, olhando para a tela do seu celular apenas para se certificar de que eram cinco horas em ponto, parecendo um pouco deslumbrada.
— Impressionada? — Arrisquei um sorriso enquanto deslizava para o banco, sentando-me à sua frente. Ela baixou os olhos, rindo silenciosamente com os braços rentes um do outro sobre a mesa. Agora, olhando-a de perto, pude notar que ela usava uma blusa branca sob um cardigã cinza escuro, jeans skinny na mesma cor e botas pretas até o joelho.
— Honestamente? Eu estou um pouco impressionada... Muito, na verdade. — Abri a boca para dizer alguma coisa, mas desisti no mesmo instante em que um garçom de aparência viril se aproximou e eu imediatamente pedi um frappuccino de baunilha, enquanto Emily optou por um frappuccino de morango.
Eu não sabia o que dizer, de qualquer forma, e instantaneamente o seu celular que estava praticamente entre nós duas vibrou com certa insistência e, quando eu olhei, o nome Mel piscava de forma quase acusatória na tela, o que me fez recuar por alguns segundos e encostar minhas costas contra o couro confortável. Afinal, o que eu estava fazendo?
— Desculpe. — Emily pediu rapidamente, como se estivesse realmente embaraçada. — Vocês são...
— Sim. — Respondi antes que ela pudesse concluir sua pergunta. — Melanie e eu somos amigas. Há quatro anos, se você estava prestes a me questionar sobre isso também. — Dei de ombros, como se não fosse grande coisa, e honestamente não era. — E vocês estão...
— Saindo? — Emily me interrompeu também, rindo como se isso fosse meio absurdo. — Não estamos. — Ela olhou para mim, seus olhos brilhantes e sinceros me comoveram por um instante, e então eu sorri.
— Tudo bem, então. — Decidi com seriedade, olhando para suas unhas pintadas de azul claro tamborilando nervosamente na mesa. Ela usava um anel no dedo anelar e uma pulseira com pingente delicado com a letra “L” adornava o seu pulso.
— Você sabe, eu estava me perguntando se você realmente viria. — Confessou de repente, desenhando um círculo na mesa como uma forma de distração.
— Eu pensei nisso também. — Admiti entre risos confortáveis. — Mas eu achei você realmente encantadora, portanto não pude evitar. — E era verdade. Olhando assim, de perto, ela era realmente adorável, sem mencionar, claro, o fato de ser estonteantemente bonita e agradável.
— Não sou apenas encantadora, sou supersticiosa também. — Sussurrou em minha direção, virando o rosto para o outro lado e olhando a rua através do vidro. — Eu cheguei aqui dez minutos mais cedo, e a cada trinta segundos eu olhava para o outro lado da rua e dizia: “Se o farol ficar vermelho nos próximos cinco segundos, é porque ela virá”. — Ela disse de forma tão espontânea e despreocupada que me fez sorrir.
— Eu acho que nunca poderia ter imaginado isso. — Balancei a cabeça devagar, notando pela primeira vez os seus inúmeros olhares ambíguos, até que o garçom se aproximou com as nossas bebidas e tirou a minha atenção por questão de segundos.
— Eu sei. É algo em que estou trabalhando. — Admitiu com sinceridade, apoiando seu rosto na palma de sua mão. — E quanto a você? — Ela sorriu de canto, erguendo as sobrancelhas de forma sugestiva. — Eu aposto que você tem alguma mania.
— Verdade. — Assenti positivamente, tirando a tampa do meu copo com cuidado. — Eu tenho mania por limpeza e organização. Odeio coisas fora do lugar, me dá agonia. — Suspirei de modo afetado, erguendo o copo até a boca e dando um longo gole no meu frappuccino de baunilha.
— Você tem o jeito mesmo. — Emily riu, deslizando a mão pelo seu cabelo calmamente, admirada. — Qual é o seu signo? — Ela perguntou, endireitando-se na cadeira logo em seguida.
— Virgem. — Respondi com os meus olhos fixos nela. — Com ascendência em Libra.
— Eu sabia! — Exclamou com astúcia, bebericando seu frappuccino rapidamente. — Você se encaixa perfeitamente em todas as características dos dois signos. Eu sou taurina, aliás, e uma das minhas características principais é ser persistente. — Ela disse, soando mais como um aviso do que algo casual.
— Você já fez aniversário? — Perguntei casualmente, ignorando qualquer faísca que ameaçava irromper de dentro de mim.
— Ainda não. — Emily olhou para baixo por um segundo, logo voltando seus adoráveis olhos negros para os meus. — Eu faço dia treze. — Ela sorriu, brincando com o guardanapo que estava sobre a mesa, bem diante dela.
— Eu prometo que não vou esquecer, sou muito boa com datas. — Garanti enfaticamente, recostando minhas costas contra o banco para poder observá-la com mais atenção.
— Então, você é formada em Jornalismo, não é? — Emily perguntou, com sua postura calma e relaxada, como se estivesse realmente confortável em tomar café com alguém que ela mal conhecia.
— Como você sabe? — Pisquei ligeiramente confusa, endireitando-me novamente na cadeira. Eu não me lembrava de ter dito isso para ela.
— Talvez eu tenha perguntado sobre você para Hanna. — Ela disse, erguendo os ombros rapidamente como se tivesse acabado de ficar tensa. — É o que acontece quando achamos alguém interessante, você sabe. — De repente, senti meu pescoço arder. Ela estava flertando, e eu meio que estava adorando, apesar de me sentir um pouco envergonhada e culpada por isso.
— Bem, acho que você tem um argumento. — Murmurei com a voz distante, inclinando-me na mesa e apoiando meus braços sobre ela. — Eu comecei Design de Moda também, mas larguei quando faltavam três semestres.
— Problemas pessoais?
— Basicamente. — Tentei soar despreocupada. — Nada inteligente, eu sei. — Dei de ombros, tamborilando as unhas nervosamente sobre a mesa, até que sua mão repousou sobre a minha, fazendo-me parar de imediato.
— Honestamente, não acho você menos inteligente por isso. Eu acho que consigo entendê-la, na verdade. — Emily disse. — Ano passado, eu fui expulsa do colégio em que estudo e recusada na Universidade da Califórnia, você sabe, depois de ter sido presa e quase morta. — Ela riu, baixando os olhos por um momento.
Mesmo sem saber do que se tratava, ela realmente parecia me entender e isso era novo para mim. Na época em que larguei a faculdade, minha mãe terminou de romper todos os laços que ainda restavam entre nós. Ela havia sido dura e implacável comigo, mas voltou atrás em sua decisão quando eu comecei a trabalhar na Vogue Austrália por meu próprio mérito. No fundo, eu sabia, ela ainda tinha esperanças que eu repensasse toda a minha vida.
— Eu não estava mesmo errada quando disse que você é encantadora. — Deixei escapar depois de um momento, sentindo o calor da sua mão, agora bem próxima da minha.
— E nem eu sobre você ser incrível. — Emily sorriu com contida alegria, escorregando de forma sutil a ponta do seu dedo nas costas da minha mão direita. De repente, as faíscas que eu estava tentando evitar estavam aqui e pareciam mais vivas, intensas e pungentes. Sua persistência estava começando a funcionar, no final das contas.
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