Estes Laços Que Unem

5 Brincando Com a Criança.


Notas iniciais
Estou em dia com todos os capítulos, hein? Espero que gostem desse, que mais uma vez é contado pelo ponto de vista da Sam. :)

— E, então, nós estávamos no elevador e ele me engravidou!

Olhei para Melanie sentada na poltrona giratória da minha sala, na Montaigne’s Fashion Designer, a alguns bons metros de distância de mim, enquanto eu estava encostada na beirada da mesa e escutava atentamente sobre o sonho que ela havia tido na noite passada, em que se apaixonava de forma quase irremediável por Adolf Hitler.

— Você é tão estranha. — Decidi depois de um momento, fazendo careta ao analisar mentalmente que tipo de pessoa se apaixonaria por alguém tão cruel e perturbado como Hitler havia sido.

Claro, Mel definitivamente era esse tipo de pessoa. Ela se envolvia com todos os tipos de pessoas erradas que ela certamente não deveria, como o seu mentor emocionalmente instável de Design Gráfico da época em que cursávamos a faculdade juntas. Era um declínio de caráter questionável, sem dúvidas, mas que ela se entregava a ele sem medir as consequências e isso a levava a um período de decadência longo e, por vezes, pueril.

— Foram nove meses difíceis. — Ela enrugou a testa, ainda se referindo ao sonho embaraçoso, o qual parecia tê-la deixado levemente afetada.

— Cada dia que passa, eu tenho a mais absoluta certeza de que você precisa de ajuda. — Disse pausadamente, frisando cada palavra proferida com cuidado para não aguçar a sua fácil irritabilidade.

— Todos nós precisamos. — Rebateu com certa polidez, cruzando as pernas delicadamente antes de prosseguir. — É o preço que pagamos por existirmos. — Mel disse antes de alguém depositar leves batidas na porta, desfocando nossas atenções imediatamente.

— Desculpe interrompê-las. — A voz cautelosa de Hanna soou quando seu rosto emergiu dentre o espaço significante que mantinha a porta entreaberta.

— Entre, Hanna. — Olhei para ela com um sorriso divertido, acenando para que ela se aproximasse sem receio.

— Bem, eu já terminei de fazer o que você me pediu. — Ela caminhou até mim, passando por Mel sem ao menos direcioná-la um olhar, e me entregou os catálogos que eu havia lhe pedido mais cedo. — E, a propósito, os tecidos de renda já foram encomendados. — Ela avisou antes de se virar, com a voz distante.

— Hanna? — Ela se voltou para mim novamente, parando perto da porta. — Você está bem?

— Sim, estou ótima, obrigada. — Hanna respondeu.

Mel olhou para mim sem expressão alguma, apoiando a cabeça na palma de sua mão enquanto Hanna deixava a sala da mesma forma que entrou. Ela parecia realmente dispersa nesses últimos dias, como se estivesse lidando com muitas coisas de uma só vez, o que eu de forma alguma duvidava. Agora, suas responsabilidades estavam maiores e mais pesadas.

No dia anterior, eu havia escutado ela falando ao telefone com uma de suas amigas, provavelmente Spencer Hastings, dizendo algo sobre o aniversário de Emily e que não conseguiu pensar em nada sobre isso ainda. E, felizmente, isso me era um claro lembrete de que esse dia estava se aproximando. Seu aniversário era dentro de alguns poucos dias. Ela faria dezoito anos, afinal, e não parecia ser tão errado assim olhá-la de forma mais profunda e ambígua, apesar de meio que ser. Emily havia se mostrado realmente cativante e eu estava genuinamente impressionada com as poucas informações que consegui obter de sua doce e envolvente personalidade.

— Então, você vem comigo ou não? — Mel perguntou depois de um momento, provavelmente repetindo o que ela já tinha perguntado, porém eu não havia escutado.

— Eu vou ficar. — Respondi mesmo sem saber a que ela se referia.

— Eu pensei que você fosse se mudar para Nova York. — Ela disse, enquanto eu apenas arqueei as sobrancelhas com o sentimento de confusão me cegando por um momento. Do que ela estava falando, afinal? — Você está planejando ficar aqui?

— Não! — Neguei rapidamente, balançando a cabeça de maneira afetada. — Eu vou embora daqui a algumas semanas, talvez. Ainda tenho alguns eventos na cidade para comparecer. — Expliquei vagamente, procurando alguma coisa ao redor da minha mesa para me distrair e logo avistando o meu celular bem perto de mim.

A tela estava piscando incessantemente e, quando eu o peguei, havia uma nova mensagem. Eu tinha quase me esquecido de que o coloquei no modo silencioso alguns minutos antes de Mel aparecer para desabafar sobre o seu sonho peculiar. No entanto, assim que eu encarei o visor de volta, era o nome de Emily Fields que brilhava na tela com toda a intensidade, e eu não hesitei em abrir a mensagem para lê-la.

“Foi um prazer”, ela havia escrito em resposta ao meu agradecimento pelo café de terça-feira, “Espero que tenha gostado tanto quanto eu”, concluiu na mesma linha junto de uma carinha sorridente.

“Não tenha dúvidas quanto a isso”, eu escrevi de volta no mesmo instante, “foi uma tarde adorável”, cliquei em enviar e coloquei o celular no bolso do meu casaco de lã escocês. Mel me encarava com uma expressão curiosa e questionável quando eu olhei para ela depois desse pequeno momento de distração.

— Você vai ficar aí? — Peguei minha bolsa de cima da mesa e caminhei em direção à porta.

— Aonde você vai? — Ela perguntou, encarando-me com curiosidade.

— Eu tenho alguns assuntos para resolver. — Respondi da forma mais casual possível. — Agora, vamos, já está ficando tarde.

— Tudo bem, eu também preciso ir, de qualquer forma. — Mel declarou em desistência, percebendo que eu não falaria nada mais do que aquilo.

Eu estava quase chegando ao estacionamento do prédio em que se situava a Montaigne’s Fashion Designer quando meu celular fez um bipe suave no bolso do meu casaco e, quando olhei a tela, era uma nova mensagem de Emily. Pensei em deixar para ler quando já estivesse dentro do carro, mas não resisti à curiosidade e cliquei em ler.

“Eu estou num lugar que está tocando The Smiths e não pude evitar em pensar em você...”, estava escrito na mensagem de texto, o que me fez lembrar instantaneamente de que eu havia dito a ela sobre as minhas bandas favoritas no dia em que nos encontramos na Cafeteria Bristol. Pensei em vários lugares em que ela poderia estar agora para tocar músicas de boa qualidade, mas não consegui chegar a uma sentença. Então, eu escrevi de volta:

“E onde seria isso?”

“Num bar de estrada cheio de motoqueiros barulhentos.”, ela respondeu depois de um longo momento.

“Eu acho que alguém precisa de uma carona...”, escrevi de volta, destravando as portas do meu Escalade e escorregando para dentro do carro quase no mesmo instante por conta da baixa temperatura que estava aqui embaixo.

“Parece que alguém quer me ver novamente...”, sua resposta veio quase de imediato e eu quase podia ver o sorriso preguiçoso e ambíguo que havia por trás dessa mensagem.

“Você me pegou.”, escrevi rapidamente, “Agora apenas me diga o lugar. Eu prometo levá-la para casa com segurança.”.

“Eu não tenho certeza, algo com Cabana.”, suas respostas não estavam chegando de imediato, o que me fez concluir que ela já estava começando a ficar afetada pela bebida. Pesquisei no Google a localização, mas não apareceu nenhum resultado compatível, então procurei por uma lista de bares na Pensilvânia e encontrei um chamado Daitan, cuja descrição era algo como Cabana Ousada. O lugar ficava numa das extremidades de Rosewood, o que levaria não menos de trinta minutos até chegar lá.

***

Depois de quase quarenta e cinco minutos, eu estava estacionando em frente a um bar pitoresco e cheio de motos grandes e pretas, típicas de motoqueiros. No grande e luminoso letreiro vermelho, o nome Daitan piscava como se estivesse com algum tipo de defeito e, além disso, o barulho que provinha de dentro do bar aparentemente agitado parecia cada vez mais estrondoso e animalesco conforme eu adentrava no lugar de aparência agressiva e de forte cheiro de diversos tipos de bebidas misturadas a perfume barato. O que Emily fazia aqui, afinal de contas?

— É isso aí! — Avistei Emily do outro lado do bar, com os braços jogados para o ar e um sorriso vitorioso moldando seus lábios.

Ela parecia incrivelmente animada jogando sinuca junto de alguns homens barbudos e de aspecto grosseiro, enquanto outras duas mulheres sentadas no banco em frente ao balcão a devoravam com os olhos de maneira quase repulsiva. Elas certamente me causavam estranheza e incômodo, visto que não tinham uma fisionomia frágil e delicada como Emily.

— Ei, você está aqui! — Ela gritou assim que me viu, vindo em minha direção e pulando um degrau que nos separava, ficando de frente para mim. — Olá, moça bonita. — Sua voz estava rouca e incrivelmente sexy, como se tivesse passado a noite toda gritando, o que eu realmente não duvidava que ela tivesse feito.

— Eu estou aqui. — Toquei seu braço com gentileza, deslizando até chegar à sua mão. Seu cheiro era tão diferente ao do lugar em si, era suave e intoxicante.

— Eu estou tão feliz em vê-la. — Ela disse, sorrindo com sinceridade. — Vamos lá, eu quero jogar uma partida com você. — Emily se virou e me puxou pela mão junto com ela até a mesa de sinuca no canto do degrau superior do bar.

— Emily, eu não... — Tentei dizer, mas antes que eu conseguisse concluir, ela me ofereceu um taco e se apoiou sobre a mesa. — Eu não sei jogar isso. — Olhei para os lados, notando a presença das mesmas pessoas que estavam ao seu redor quando eu cheguei. Agora, eu meio que me sentia intimidada.

— Isso não é um problema, eu ensino você. — Ela deu a volta na mesa, se posicionando ao meu lado, bem próxima de mim. — Eu também não sabia, mas Tora me ensinou. — Apontou com o taco para um homem extremamente musculoso e alto, que lembrava o ator americano The Rock, cheio de tatuagens pelo corpo. Ele não parecia muito amigável, mas Emily sorria para ele como se ele fosse.

— Tora é o nome dele? — Sussurrei em seu ouvido, puxando seu corpo ainda mais para perto do meu.

— Não. — Ela arrastou a palavra de forma divertida e adorável. — É apenas um apelido de guerra, ou algo assim. — Deu de ombros, se virando para mim. Seu corpo agora estava muito mais próximo do meu, sendo perfeitamente possível sentir o calor que dele emitia. — Não se preocupe, eu prometo que não vou deixar ninguém chegar perto de você. — Sussurrou calidamente, se inclinado em minha direção.

Por um momento, eu pensei que ela fosse me beijar, mas ela apenas pegou o taco sobre a mesa, atrás de mim, ainda com os olhos em contato com os meus e, então, se afastou novamente. Seu sorriso era uma mistura de doçura com travessura, e isso causou o aceleramento dos meus batimentos cardíacos. Antes que ela pudesse começar a ajeitar as bolas no centro da mesa, a música trocou para uma de Led Zeppelin, Rock And Roll, e Emily olhou rapidamente para mim, com um sorriso astuto.

— É uma das suas favoritas também, não é? — Checou com o cenho franzido, inclinando-se sobre a mesa para juntar as bolas no triângulo.

Mesmo não estando tão calor assim, ela usava uma saia de renda preta de dois palmos, regata colada Jack Daniels e sapatilhas. Apesar de saber que era algo forçado por conta do ambiente, ela não deixava de estar adorável e provocante ao mesmo tempo. Talvez essa fosse toda a magia envolvendo o seu inegável charme; Emily parecia genuína, mas também ousada.

— Definitivamente. — Suspirei depois de um minuto, notando Emily dando goladas profundas na sua bebida que estava na beirada da mesa. Em seguida, ela se voltou para mim.

— Segure assim, olhe. — Ela pegou as minhas mãos e as posicionou em cada extremidade do taco, me orientando pacientemente sobre as inúmeras formas de se jogar a partir de então. Depois de alguns acertos, no entanto, Emily me olhou com um brilho oscilante em suas íris escuras. — Ganhe de mim. — Ela desafiou, com o tom de voz equilibrado, apoiando-se na beirada da mesa enquanto me analisava com um sorriso intoxicante.

— O que eu ganho com isso? — Perguntei distraída, soprando a ponta do taco e me sentindo divertidamente envolvida. Rapidamente, ela se endireitou e veio até mim.

— O que quiser. — Ela disse, gesticulando com as mãos. — Você terá direito a três desejos, serei uma espécie de Gênia da Lâmpada Mágica, como no filme Aladdin. — Seu sorriso se ampliou conforme ela se aproximava, tocando meu braço rapidamente.

— Vamos tentar. — Concordei por fim, suspirando profundamente.

— Esse é o espírito! — Gorjeou lentamente, sorrindo fraquinho em minha direção.

Como eu sabia que aconteceria, Emily começou ganhando e, a cada bola que entrava pela caçapa, ela jogava suas mãos para cima de maneira eufórica e olhava para mim. Sua diversão estava feita e, por conta disso, ela dava longos goles no que eu reconheci ser uísque em seu copo, ainda na beirada da mesa, enquanto parecia mais embriagada pela música agitada de Deep Purple, Perfect Strangers, do que pelo próprio álcool. E, claro, em nenhum momento ela deixava de jogar todo o seu charme para cima de mim, às vezes se aproximando e sussurrando em meu ouvido como eu deveria jogar.

— Parece que eu estou ganhando. — Ela disse com a voz embargada, sentada sobre a mesa e olhando para mim enquanto eu mirava a ponta do taco na direção da bola branca.

— Parece que você realmente está. — Concordei prontamente, conseguindo encaçapar a bola marrom, de número sete, e devolvendo o seu olhar fixo de contemplação quando me endireitei.

— Eu sei como podemos começar... — Emily declarou depois de um momento, pulando da mesa e deixando o taco que estava em sua mão de lado. — Vem comigo, eu tenho um plano. — Ela sussurrou assim que se aproximou, com o rosto bem perto do meu e me puxando pela mão até a porta dos fundos do bar.

Assim que senti o vento gélido soprar contra meu rosto quando saímos para noite fria e não tão silenciosa, segurei Emily por um momento, impedindo que ela desse mais um passo para frente. Eu não fazia a mínima ideia do que ela estava pretendendo e o seu sorriso quase indecifrável fazia com que eu me questionasse o que a trouxera aqui, em primeiro lugar. No entanto, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, houve um barulho desagradável de buzinas do outro lado do bar, onde era a entrada e onde meu carro estava estacionado.

Sem esperar por mais um segundo, ela virou de costas e continuou a me arrastar para um canto mais afastado do barulho da música alta e das vozes grossas e agressivas que vinha do lado de dentro do bar. Olhei ao redor, procurando por sinal de alguém que pudesse simplesmente aparecer, mas não vi nada. Então, de repente, Emily parou e me puxou ainda mais para perto dela. Pensei que ela pudesse estar com frio, já que suas roupas se resumiam a apenas uma saia bem acima do joelho e regata preta, mas, ao invés de somente se aconchegar em mim, ela me encostou contra a parede e me beijou profundamente.

Seus lábios moviam-se devagar conforme ela pressionava o seu corpo frio e delicado contra o meu, escorregando suas mãos pelo meu pescoço de forma cuidadosa e urgente. A sensação era de completo abrasamento, o que fazia os meus batimentos cardíacos acelerarem a cada carícia mais profunda entre os nossos lábios.

— Emily... — Interrompi o beijo, virando meu rosto um pouco para o lado. Seu corpo agora tremia e eu podia sentir sua respiração pesada contra o meu ouvido.

— Eu esperei a noite toda para poder fazer isso. — Ela disse baixinho, não se afastando nem um centímetro de mim. Seus lábios procuravam lentamente pelos meus, cada vez mais se aconchegando no meu corpo quente.

— É melhor eu levá-la para casa agora, já está tarde. — Murmurei com dificuldade.

No mesmo instante, ela puxou meu rosto de volta para o seu e, então, nossos lábios se encontraram novamente, com gentileza e sem pressa. Ao invés de afastá-la outra vez, eu apenas continuei. Eu a correspondi com a mesma intensidade, e estava gostando tanto disso que me fez envolver sua cintura com os meus braços enquanto mudava a nossa situação, encostando Emily na parede com cuidado. Seu lábio inferior deslizou lentamente pelo meu lábio superior, causando arrepios por todo o meu corpo.

Enquanto isso, eu mantinha nossos corpos colados conforme minhas mãos escorregavam pelas suas costas, até chegar à sua cintura. Pude senti-la sorrir dentre nossos rostos colados, seguido de um suspiro rouco e deleitoso. Aproveitei esse momento para me afastar um pouco dela, tirando o meu casaco quente e envolvendo Emily com ele.

— Você está congelando. — Respirei com dificuldade, mordendo seu lábio inferior de leve.

— Eu prefiro que você me esquente com o seu calor humano. — Ela disse, pressionando seu corpo contra o meu. Deixei um riso confortável escapar com o tom lascivo e quase amável que ela usou. Olhando de forma mais ampla e coerente, o momento parecia surreal.

— Agora nós temos que ir. — Avisei no instante seguinte que as buzinas voltaram a preencher todo o vazio ao nosso redor. Então, afastei-me de Emily e a peguei pela mão.

— Não, espere! — Ela parou. — Ainda não acabamos. — Olhei para ela por um minuto, analisando sua expressão de ansiedade com certo cansaço.

— Amanhã você nem vai se lembrar de que isso aconteceu, então, sim, nós acabamos o que não devíamos ter começado. — Ponderei com polidez, soltando sua mão devagar.

— Você sabe, eu posso surpreendê-la. — Ela inclinou a cabeça para o lado, com um sorriso adorável surgindo lentamente em seus lábios bonitos e beijáveis. Agora, não havia mais segredo, eu havia gostado da sensação de ter a beijado.

— Então faça isso.

Notas finais
Já sabem, né? Me digam o que acharam, a cada capítulo fico mais curiosa para saber o que estão achando, portanto, espero o retorno de vocês. Até mais! ;)