Estes Laços Que Unem

9 Pequenas Coisas Para Fazermos Juntas.


Notas iniciais
Obrigada a vocês que estão comentando e expondo suas opiniões, fico muito contente em saber o que estão achando. Agora, sem mais delongas, espero que gostem desse capítulo. Ele é uma leve introdução ao que está por vir nos próximos. Aproveitem! :)

Na sexta-feira pela manhã, enquanto eu me trocava no vestiário de Rosewood Day, Spencer monologava incansavelmente sobre o Baile de Primavera que aconteceria dentro de algumas semanas e também sobre a sua ida à universidade dos seus sonhos, cujo endereço era em Nova Jérsei. E todas as suas divagações se concentravam especialmente em torno de seu atual relacionamento, e em como a distância o afetaria.

— Wren é bonito, elegante, tem um sotaque incrível e agora é um médico de verdade. — Listou com voz forte e amargurada, enquanto amarrava o cadarço da sua chuteira. — Acho que eu tenho que me acostumar com a ideia de que ele vai seguir em frente assim que eu colocar o pé no campus de Princeton. — Spencer se endireitou e fez algumas flexões rápidas, pegando a garrafa de água térmica do seu armário e o fechando com força.

— Não seja tão dramática. — Resmunguei com impaciência. — Você não é a única que está em um relacionamento agora. — Prendi o meu cabelo em um rabo de cavalo, igual ao de Spencer, só que um pouco mais elaborado, e ajeitei a minha saia xadrez com cuidado antes de me agachar para amarrar meu cadarço.

— Espere um pouco. — Spencer pediu confusamente, escorando-se ao armário. — As coisas com a Barbie xerocada já estão assim? — Mesmo que eu não estivesse vendo, pude sentir o peso de seu olhar caindo sobre mim. Era pesado, como um grande fardo.

— Sim, estamos indo bem. — Respondi com frieza contida. — E, Spencer, eu quero que você pare com esses apelidos. — Demandei assim que me levantei e a encarei com serena seriedade.

— Qual é o problema com eles? Não são ofensivos. — Defendeu-se no mesmo instante, fazendo um leve gesto com a mão direita.

— Tanto faz. — Dei de ombros, prevendo que, no final, isso não daria em nada. — Só peço que seja agradável com Samara. Ela não é qualquer uma para você tratá-la com empáfia e altivez. Além disso, eu realmente gosto dela. — Tentei soar calma e natural, evitando seu olhar de quem estava me julgando neste exato momento.

Desde que éramos as únicas que ainda restavam no vestiário, depois que todas as garotas foram para o campo, eu não me importava em dizer tais coisas sobre Samara. As fofocas, claro, existiam de qualquer jeito, mas era muito melhor quando não tinha nenhuma testemunha para espalhá-la. Era o que eu estava sentido e, portanto, ninguém poderia me condenar por isso — muito menos Spencer.

— Está bem. — Ela concordou, relaxando suavemente os músculos. — Nós seremos boas amigas! — Spencer garantiu com um sorriso convincente, que logo provocou o meu.

— Está tudo bem aí, meninas? — Alguém surgiu atrás de mim, o que me fez virar o pescoço para trás e encarar a figura imediatamente.

— Estamos bem, obrigada! — Spencer assentiu para Kirsten Cullen, sua colega de campo de quando ela jogava hóquei no ano passado.

— A treinadora Fulton pediu para que eu viesse checar vocês. — Avisou com uma aparente boa vontade.

— Nós já estamos indo. — Spencer passou a mão pelo cabelo e pegou suas coisas que estava em cima do banco, lançando-me um olhar indizível logo que Kirsten nos deixou sozinhas. — Você acha que ela escutou alguma coisa?

— Eu não sei. — Dei de ombros, não me importando muito com isso. Kirsten parecia ser tão inofensiva quanto insignificante. — De qualquer forma, não é com ela que eu preciso me preocupar e, sim, com Juliet. Ela acha que eu sou uma ameaça. — Sussurrei as últimas palavras, sentando-me no banco para subir as meias que vinham até o meu joelho.

— Por quê? — Spencer cruzou os braços e enrugou as sobrancelhas, com um breve olhar de indignação cruzando suas características.

— Por causa de Enzo. — Respondi rapidamente. — O jeito que ela me encara toda vez que ele chega perto de mim, como se eu estivesse invadindo o território dela ou algo assim. — Desabafei, lembrando-me de quando tivemos aula de química juntos na quarta-feira e Enzo fez par comigo ao invés dela. Aquilo, decerto, foi o suficiente para aumentar sua fúria pela preferência.

— Ela disse alguma coisa para você? — Spencer quis saber quando eu passei a fitá-la.

— Apenas para eu ficar fora do caminho e algumas ofensas que me limito a relembrá-las. — Deixei uma risada fraca ecoar entre as paredes finas do vestiário, suspirando pesadamente assim que terminei de me aprontar.

— Pobrezinha. — Debochou. — Espero que ela não se aproxime de você outra vez, caso contrário, terei que ensiná-la o método Hastings. Nessas situações, ele nunca falha. — Ela sorriu com certo orgulho e perversidade.

Por um instante, eu me retive sobre o quão crível seu aviso havia sido, mas eu sabia muito bem do que Spencer era capaz de fazer quando se tratava de superproteção em relação a qualquer uma de nós. Ela era como um Pitbull raivoso, assim como eu costumava ser com Ali, e apenas a constatação desse fato me fez sorrir.

— Vamos logo, Spence. Estamos atrasadas. — Coloquei meu blazer azul marinho dentro do meu armário e o fechei rapidamente, caminhando em direção à aula de Educação Física com Spencer bem ao meu lado.

— Então, você não me disse, aconteceu alguma coisa ontem? — Spencer perguntou enquanto atravessávamos o extenso campo de Rosewood Day sem pressa. — Você parecia bem frustrada quando passou na minha casa.

— Ah! Isso. — Murmurei com a lembrança que me surgiu de forma instantânea. — Samara tem estado bastante ocupada durante a semana toda, e, praticamente, quase não nos vimos nesses últimos dias. Eu esperava conseguir vê-la ontem, mas... — Arqueei os ombros devagar, soltando-os no mesmo ritmo logo em seguida.

— Isso é sobre o evento de caridade? — Ela parou, lançando-me um olhar breve e inquiridor. — Porque Hanna me disse que teremos que nos vestir de noivas e eu não sei se me sinto confortável com isso.

— Bem, aparentemente nós somos o cartão postal desta cidade. — Pensei alto, não me importando muito sobre isso ainda.

— Você quer saber a minha opinião? — Spencer sorriu com malícia. — Eu acho que Samara-olhos-azuis quer ver você vestida de noiva. Deus, isso é tão óbvio até mesmo para ela, que não tira os olhos de você! — Bufou num misto de empatia e incredulidade, o que me fez corar imediatamente diante da possibilidade. Seria isso necessariamente verdade? Eu adoraria saber!

— Não seja boba. — Sorri contidamente, avançando na direção do grupo de garotas que se flexionavam sob a supervisão da treinadora Fulton. — Agora, que tal marcarmos alguns gols? — Peguei sua mão e a puxei para nos preparar para jogarmos futebol.

Enquanto eu ajudava Spencer a se flexionar, avistei de longe Aria e Hanna caminhando em direção às arquibancadas em seus inconfundíveis uniformes de Rosewood Day. Havia uma terceira pessoa junto delas, mas com o sol forte cobrindo todo o campo, ficou difícil de enxergá-la com clareza. Ao se aproximaram das arquibancadas, no entanto, foi que eu soube que se tratava de Samara.

— Veja só o que temos aqui. — Spencer assobiou assim que lançou os olhos na mesma direção em que os meus também estavam. — Eu quase consigo ver os pássaros mutantes sobrevoando ao seu redor, como numa dança alegre e infantil. É tão fascinante! — Ironizou.

— Quando foi que você se tornou tão perversa? — Desviei a minha atenção brevemente, pausando em Spencer por meros segundos.

— Ora, não aja como se fosse alguma novidade. — Ela bufou, curvando-se com a cabeça em direção ao chão. Não demorou sete segundos e ela logo se endireitou novamente. — Quer saber? Chega dessas flexões estúpidas. — Spencer se sentou na grama, respirando com certa dificuldade enquanto minha atenção havia voltado à Samara sentada a alguns bons metros de distância de mim.

— Ei, Em! — Hanna gritou, acenando animadamente de onde ela estava. Spencer lançou seu olhar de gavião no mesmo instante em que escutou a voz aguda de Hanna.

— Você já contou às meninas? — Ela perguntou, passando a mão em seu cabelo orgulhosamente enquanto a treinadora orientava Naomi Zeigler e Riley Wolfe, duas fúteis insuportáveis que frequentemente competia com Hanna pela popularidade do colégio, a sempre passar a bola para Spencer.

— Ainda não. — Respondi vagamente, tentando prestar atenção no que Hanna e Samara estavam conversando. Era difícil, quase impossível, de entender o que elas falavam, mas a curiosidade a essa altura me corroía.

— Conte antes que alguém faça isso por você. — Aconselhou com solenidade.

— Pode deixar. — Assenti sem olhar para ela.

— O que você acha que Hanna vai fazer quando descobrir que você está fazendo perversidades com a dona espertinha ali? — Spencer esperou pela minha resposta, mas quando essa não veio, ela prosseguiu mesmo assim e foi quando eu parei de escutar.

Balancei a cabeça e fui até onde as meninas estavam, deixando Spencer sozinha, com o coração batendo descontrolado e meus pés quase flutuando no gramado úmido e bem aparado.

— Ei! — Cumprimentei assim que me aproximei delas, recebendo um aceno agitado de Aria e outro leve e sutil de Samara. — O que estão fazendo aqui? Pensei que já tinham ido embora. — Perguntei a Hanna e Aria.

— Eu não posso ir embora, esqueceu? — Aria foi a primeira a responder. — Só vim avisar Spencer que não posso ir ao shopping com ela.

— Por que não? — Hanna perguntou, enrugando a testa com visível confusão.

— Ainda tenho que cuidar de alguns detalhes da decoração do baile. — Ela abaixou a cabeça, apertando os dedos nervosamente.

— É mesmo! — Hanna se animou. — Eu tinha até me esquecido que você é a presidente de decoração. Vem cá, será que você pode elaborar alguma coisa, tipo, majestosa para Noel e eu? Não que ele realmente ligue para isso, mas eu, como uma rainha, preciso de uma corte. E de súditos.

Aria a escutava com os olhos cada vez mais arregalados, enquanto Samara sorria distraída para a evidente empolgação de Hanna. Aproveitando a divertida distração das meninas, subi os dois degraus que levavam à primeira fila da arquibancada e sentei-me ao seu lado.

— E quanto a você? — Finalmente me direcionei a Samara, tentando arduamente conter um sorriso de pura alegria quando nossos olhos se encontraram. — O que faz aqui?

— Eu fui convidada, suponho. — Respondeu com bom humor. — Tive o enorme prazer de dividir com alguns alunos minha experiência profissional na aula de jornalismo. E devo dizer que foi uma adorável manhã. — Ela olhou para Aria, que ainda estava sendo monopolizada por Hanna, e então para mim. Era muito claro que elas haviam tido aquela imediata conexão que os artistas normalmente têm.

— Ótimo! Agora eu tenho duas delas. — Murmurei entre dentes. — Isso é incrível! — Forcei um sorriso quando Samara fixou seus bonitos e complacentes olhos azuis em mim.

— Sim. — Ela logo assentiu. — Mas, na verdade, eu vim mesmo pensando em você.

Antes que eu pudesse respondê-la, a treinadora Fulton gritou meu nome do outro lado do campo, gesticulando para que eu voltasse para onde eu deveria estar. Ela conseguia ser realmente assustadora quando queria. Passei meus olhos brevemente por todo o gramado a procura de Spencer e a encontrei conversando com Kirsten e outras garotas que uma vez jogaram hóquei com ela.

— Estão me chamando. — Suspirei assim que minha atenção retornou para Samara. Ela baixou os olhos e encolheu os ombros, pressionando os lábios como se estivesse ponderando algo.

Levantei-me devagar, ajeitando a minha saia para não mostrar mais do que deveria, quando ela se levantou também e segurou meu braço com o máximo de cuidado que pôde. Entre o cheiro de grama molhada e poeira, o de Samara certamente se sobressaía. Ela era sempre muito cheirosa e convidativa, o que constantemente me fazia querer agarrá-la.

— Espere só um pouco. — Pediu suavemente, com um sorriso de partir o coração. — Eu pensei que iria encontrá-la nos corredores, mas tive que me deslocar até aqui para isso. — Ela deslizou seus dedos devagar pelo meu pulso, até chegar à palma da minha mão, onde acariciou conforme nossos dedos se cruzavam.

— Agora que me achou, você pode ficar para me ver jogar. — Devolvi seu sorriso, sentindo meu corpo esquentar rapidamente. — Quero dizer, isso se você não tiver outro lugar para estar. — Lembrei-me instantaneamente que sua agenda nos últimos dias estava completamente preenchida.

— Eu posso ficar um pouco. — Samara assentiu, soltando a minha mão assim que o apito da treinadora soou pelo campo inteiro.

Olhei para trás e notei que o jogo estava prestes a começar, uma vez que Spencer gesticulava com a mão para que eu voltasse. Despedi-me de Samara brevemente com uma piscada sutil e corri de volta para o campo, posicionando-me perto de Spencer. Ela tinha um olhar condenável e inquiridor no rosto, que desapareceu assim que viu meu sorriso de puro júbilo se estender por todas as minhas características.

— Bobinha alegre. — Zombou com o tom descontraído e livre de qualquer julgamento.

Durante todo o jogo minha atenção se dividiu entre o meu desempenho em campo e em Samara me assistindo. Aria, como já tinha dito, não esperou conseguir conversar com Spencer e logo depois que a primeira partida do jogo começou, tratou de se encaminhar para a sala do comitê de decoração. Enquanto isso, Hanna permaneceu sentada ao lado de Samara; as duas com algumas revistas de moda nas mãos e um tablet no colo de cada uma, onde, vez por outra, faziam breves anotações do que viam e conversam a respeito.

— Srta. Fields. — A voz amena e melódica de Samara soou entre o barulho dos chuveiros, vozes das poucas garotas que ainda se trocavam no vestiário e armários abrindo e fechando. — Pode me conceder um minuto de sua atenção? — Ela se aproximou enquanto eu me trocava depois de ter tomado um longo banho; seus sapatos de salto alto fazendo eco a cada passo avançado.

— Claro. — Concordei rapidamente, vestindo minha camiseta cinza clara da Hello Kitty e pegando uma toalha para secar o meu cabelo. — Espero que não esteja perdida. — Brinquei com um leve tom de amargura.

Enquanto seus olhos varriam o vestiário por completo, provavelmente esperando o momento em que ficássemos finalmente sozinhas, tomei a liberdade de analisá-la por inteiro enquanto ela estava ligeiramente distraída. Procurei qualquer indício de cansaço que sua estrutura física pudesse aparentar e notei que Samara parecia um pouco mais magra e pálida.

— Eu estava prestes a ir embora quando me dei conta de que não podia fazer isso sem me despedir de você primeiro. — Ela disse assim que o vestiário se esvaziou, mudando completamente seu tom e postura diante de mim.

— Mesmo? — Ergui meus olhos por um instante. — Um pouco de consideração, quanta honra. — Murmurei sarcástica.

— Você ainda não viu nada. — Samara replicou, aproximando-se de mim cheia de confiança. — Eu vim até aqui só para dizer que eu vou viajar hoje à noite. — Anunciou enquanto eu terminava de escovar o meu cabelo úmido. Ela logo tratou de se colocar atrás de mim, tocando meus braços e ajeitando a gola da minha camiseta.

— Obrigada por me avisar. — Tentei não soar desapontada. — Quando você volta?

— Na segunda-feira pela manhã. — Ela envolveu minha cintura com cuidado e enterrou seu rosto em meu pescoço. — Eu adoro este cheiro de cedro com damasco e nozes. — Confessou ao escorregar a ponta de seu nariz por toda a extensão da minha nuca, provocando arrepios teimosos e profundos pelo meu corpo.

— Você entende que terá que me recompensar por todos esses dias que ficar longe, não é? — Virei meu rosto para poder fitá-la, encontrando seus olhos num tom mais claro de azul que julguei ser possível existir.

— Eu não acho que será necessário. — Samara sorriu, beijando meu rosto castamente.

— Ah, não? — Afastei-me de repente, ficando de frente para ela. — Por quê?

— Porque eu quero que você venha comigo. — Ela disse como se fosse óbvio. — Eu tenho um encontro importante com um editor amanhã e, depois disso, estou completamente livre para ficar com você.

— Você está falando sério? — Arqueei as sobrancelhas, incapaz de processar o que ela havia acabado de me sugerir.

— É claro que estou. — Ela me puxou para os seus braços. — Preciso de um descanso desta cidade. E da minha mãe. — Samara riu, deslizando suas mãos pela minha cintura devagar.

Pensei, ponderei e inquiri o quão incrível não seria se passássemos um final de semana inteiro juntas. Isso, decerto, nos aproximaria ainda mais e eu poderia aproveitar esse tempo para conhecê-la melhor. Eu gostaria de tê-la por perto, só nós duas, em um lugar que, sem sombras de dúvidas, eu iria amar.

— Então? — Samara beijou meu maxilar, pressionando nossos corpos delicadamente. — Você quer vir comigo?

— Definitivamente! — Concordei mais que depressa.

***

No final da tarde, quando eu estava terminando de arrumar minhas coisas para viajar com Samara, a lembrança do que Spencer havia dito hoje mais cedo durante a aula de Educação Física irrompeu em minha mente com força total. Ela estava certa sobre eu precisar contar para Aria e Hanna sobre meu relacionamento ainda não definido com Samara. Mesmo que fosse algo que eu gostaria de manter para mim mesma por enquanto. Pensando em todas as minhas opções disponíveis, enviei uma mensagem para as duas, pedindo que viessem a minha casa o mais depressa possível.

— Emily? — Tive um pequeno sobressalto quando olhei para trás e vi minha mãe parada no batente da porta do meu quarto. — Vai a algum lugar? — Ela perguntou assim que seus olhos captaram minhas roupas em cima da cama.

— Eu vou à Nova Iorque. — Respondi insipidamente, acrescentando alguns itens a mais em minha mala.

— E não estava pensando em me avisar? — Exigiu e, quase no mesmo instante, deslocou-se do batente para se colocar de frente para mim.

— Mãe, você sabe que eu não iria viajar sem avisá-la. — Defendi-me depressa, fechando a mala assim que terminei de arrumar tudo o que eu precisava. — Eu não faria isso, mesmo sabendo que você não se importaria. — Murmurei com falsa indiferença.

— Emily, você sabe que isso não é verdade. Eu ainda sou a sua mãe. E ainda me importo com você. — Retorquiu antes de relaxar os músculos rígidos pela tensão.

— Bem, isso não faz tanta diferença agora. — Dei de ombros, pressionando meus lábios juntos. — Eu só não pensei que você fosse voltar para casa tão cedo hoje, achei que iria jantar com Susie outra vez e por isso teria que ligar para avisá-la sobre minha viagem com Samara. — Expliquei com um sorriso fraco e decidido.

Ela suspirou derrotada e se sentou na beirada da minha cama, pegando o meu celular com o visor aceso que estava perto da almofada. Seu olhar atento e curioso na tela se demorou alguns longos instantes, até que ela resolvesse se pronunciar outra vez.

— Como você a conheceu? — Quis saber, mostrando a foto de Samara que estampava a tela principal do meu celular brevemente. — Ela é muito bonita.

— Ela é incrível! — Concordei automaticamente. — E também é a chefe de Hanna.

— Qual é a idade dela? — Suas sobrancelhas se arquearam no mesmo segundo.

— Vinte e cinco. — Respondi sem dar muita importância ao fato, que muito possivelmente a chocou.

— Ora, uma moça madura. — Comentou com certo desconforto. — Espero que seja uma pessoa estável e que tenha uma boa conduta também. É o que você está precisando no momento.

— Não se preocupe, Samara é a nora que você sempre pediu a Deus. — Adiantei mais que depressa, soando um pouco caprichosa. — Ela é muito graciosa e jovial; suas maneiras são agradáveis e sua personalidade é doce e complacente. Além disso, seus conceitos morais são admiráveis.

— Vocês estão... — Minha mãe começou, mas eu logo a cortei.

— Ainda não chegamos nessa parte, você sabe, onde definimos nosso status de relacionamento. — Foi a minha resposta imediata.

— Está bem. — Ela devolveu meu celular e me encarou por um momento. — Espero que se divirta. E não fique bêbada. — Advertiu enfaticamente.

Com isso, minha mãe tratou de se encaminhar até a porta para finalmente me deixar à vontade enquanto eu terminava de me preparar. Ao contrário do que pensei, ela não havia criado conflitos por conta da viagem ter sido algo de última hora e isso, com certeza, era uma grande benção que vinha dela.

— Ah! Antes que eu me esqueça, — Virei meu pescoço para trás de repente, chamando sua atenção antes que ela pudesse ultrapassar o batente. — eu vou voltar na segunda-feira pela manhã.

Diante disso, tudo o que minha mãe pôde fazer foi assentir vagamente, dando as costas para mim no instante seguinte. Voltei minha atenção rapidamente para a foto de Samara que eu havia tirado quando ela estava distraída em sua sala, trabalhando em novos projetos de design enquanto eu apenas a admirava.

— Ei, sua mãe pediu para avisá-la que está saindo. — Aria anunciou ao entrar em meu quarto de repente, com Hanna logo atrás dela, o que me causou um leve sobressalto pela falta de atenção e preparo. Eu havia acabado de ter as minhas mais recentes memórias chutadas para longe. — Ela estava no telefone quando chegamos. — Deu de ombros quando eu a fitei de forma incisiva e inquiridora.

— E disse alguma coisa sobre jantar com Susie. — Hanna acrescentou, sentando-se na minha cama com os lábios enrugados. — Ei! Está indo a algum lugar? — Ela abriu a minha mala, revirando algumas peças de roupas com descuido enquanto Aria se acomodava no banco da janela.

— Onde vocês estavam? — Perguntei ao notar o rosto rubro dela.

— Na casa de Spencer. E, falando nisso, advinha quem está de volta? — Tornou rapidamente. — Melissa e Wilden! — Seus olhos se arregalaram um pouco quando eu fiz o mesmo, enquanto Hanna parecia distraída com as minhas coisas. — Aparentemente, eles vão ficar na cidade para a festa de noivado da Sra. Hastings.

— Ah, sim! Spencer disse alguma coisa sobre isso ontem. — Comentei vagamente, sentando-me ao lado de Hanna.

— Podemos cortar o papo furado? — Hanna se intrometeu, alternando seu olhar entre mim e Aria. — Eu tenho que me encontrar com Mike em vinte minutos, então desembuche. — Suas palavras e maneiras exalavam impaciência, o que me fez ficar insegura.

— Bem, eu vou viajar! — Apontei em direção a minha mala com falsa empolgação.

— Era só isso? — Hanna revirou os olhos. — Eu pensei que fosse algo urgente. — Ela disse, recebendo um aceno de concordância de Aria.

— Não, não é só isso. — Suspirei com certa bravura. — Eu estou saindo com alguém, mas ainda não é nada oficial e queria contar a vocês antes que outra pessoa fizesse isso por mim. — Desabafei num só fôlego, esperando o que elas diriam a seguir.

— Em, isso é ótimo! — Aria se endireitou automaticamente. — Quem é?

— Você sabe, essa é a parte mais engraçada. — Deixei uma risada à toa escapar, escondendo meu nervosismo. — É Samara!

— Espere um segundo. — O queixo de Aria caiu. — Samara... Samara? — Engasgou.

— Sim. — Olhei Hanna por um segundo, espiando sua reação. Mas ela parecia neutra, como se não fosse algo chocante. — Por que você não está surpresa?

— Porque eu não estou. — Ela sorriu com presunção. — Eu já desconfiava que fosse você a garota que ela estava ficando e, depois de hoje, tive a prova que precisava. — Deu de ombros, deslizando as mãos pelos seus cabelos loiros devagar.

— O que quer dizer? — Enruguei a testa, encarando Hanna atentamente. Ela riu, balançando a cabeça lentamente.

— Ora, por favor! — Hanna bufou. — Vocês acham que sou estúpida? Eu vejo as coisas, não sou nenhuma idiota. Além disso, Samara é o tipo de pessoa que não sabe esconder o que sente. Ela sempre sorri quando eu falo de você! — Disparou abruptamente.

— Sinceramente? Ainda estou surpresa. — Aria declarou de repente, erguendo brevemente as mãos no ar. — E o que mais eu posso dizer? Eu gostei dela, de verdade. Tivemos uma empatia natural e tenho certeza de que seremos boas amigas.

— Isso é muito bom, porque eu realmente gosto dela. — Confessei sem conseguir conter um sorriso. — Samara é calorosa, tem uma harmonia espiritual intoxicante e é tão cuidadosa comigo. Eu a quero para mim. — Decretei com determinação, inspirando profundamente a coragem que eu mesma exalava.

— Você sabe que eu sempre vou apoiá-la, não é? Se Samara é tudo isso mesmo, então suponho que seja muito compreensível você querê-la com tanta veemência. Eu costumava me sentir assim em relação a Noel no começo, portanto eu a entendo. — Aria encolheu os ombros, sorrindo contidamente com todas as palavras de incentivo. Olhei para Hanna, esperando por sua sentença.

— Quer saber a minha posição quanto a isso? — Ela perguntou, arqueando as sobrancelhas o máximo que pôde. — Bem, ela é a minha chefe e você é a minha melhor amiga. Vamos apenas manter isso em mente antes de começar a espalhar detalhes muito íntimos desta relação, está bem? — Ponderou com cuidado, batendo os cílios com uma expressão engraçada.

— Muito justo! — Concordei por fim, inclinando minha cabeça para o lado enquanto pensava que Hanna não aguentaria essa restrição.

Aria abriu a boca para dizer alguma coisa, mas desistiu ao se endireitar com severa seriedade quando sua atenção se voltou para algo além de Hanna, o que nos fez virar o pescoço em direção à porta e encontrar Samara perto do batente, com uma expressão de confusão e surpresa em seu rosto bonito, vestindo um casaco acinzentado e calça jeans escura e colada em suas pernas torneadas.

— Desculpe, eu não sabia que estava... Ocupada. — Ela olhou para Hanna parecendo perdida, mas também envergonhada, e então para mim.

— Não se preocupe, já estamos de saída. — Aria se adiantou, pegando sua bolsa do banco e gesticulando para Hanna fazer o mesmo.

— Até segunda, chefinha. — Ela riu com malícia quando passou por Samara, que usava um gorro adorável na cor vinho, depois de lhe fazer uma sutil reverência.

— Acho que estou um pouco adiantada. — Ela sorriu fraquinho, logo se deslocando da porta e se aproximando de mim.

— Não, eu já estou quase pronta. — Afirmei assim que Samara se sentou ao meu lado, tomando minha mão na sua. Ela assentiu em concordância e se inclinou em minha direção, beijando-me nos lábios demoradamente.

— Ei, eu amei as suas botas, por sinal! — Hanna reapareceu no batente, mostrando apenas a cabeça e nos pegando no meio de um quase beijo profundo. — Jesus, vocês são rápidas! — Ela franziu o cenho assim que nos separamos.

Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa em repreensão, Hanna se afastou rapidamente e, dessa vez, não voltou mais. Samara olhou para mim e sorriu com contida alegria e empolgação.

— Você contou a elas. — Percebeu por fim, puxando-me para mais perto dela logo em seguida.

— Está orgulhosa? — Brinquei, admirando cada traço de seu rosto com cuidado.

Era como se ela estivesse especialmente convidativa hoje, muito mais do que o normal, e isso tornava o fato de que mal nos tocávamos um fardo terrível de se aguentar. Até seu cheiro suave e marcante parecia mais vivo e intenso. Ela tombou a cabeça levemente para o lado, percebendo o que eu estava fazendo e corando no mesmo instante.

— Ei, nós vamos nos atrasar. — Senti seu toque quente e suave no meu braço nu. — E, por favor, trate de se agalhar bem, porque lá fora está frio. — Samara sorriu calorosamente ao olhar para minha camiseta regata preta de bolinhas brancas e o meu short curto de pijama que coloquei assim que cheguei em casa e tomei banho.

— Está bem. — Murmurei entredentes, soando mais como um resmungo. Ela se levantou e caminhou em direção à janela, cruzando os braços sobre o peito.

Tratei de vestir minhas botas de cano longo marrom depressa enquanto Samara, sentada de pernas cruzadas no banco embaixo da janela, lia com atenção alguma das revistas que Hanna costuma deixar aqui. E assim que eu estava terminando de adornar meu pescoço com o cachecol que Aria havia me dado, logo após ter feito o que Samara disse quanto a me agasalhar adequadamente, ela veio até mim e me puxou para os seus braços.

— Agora que está perfeitamente vestida, permita-me. — Ela se inclinou e me beijou devagar, envolvendo minha cintura com firme delicadeza.

Seus lábios moveram-se cuidadosamente contra os meus, como se estivesse tentando transpassar todo o seu afeto e estima que o beijo em si pudesse exigir. Coloquei minha mão esquerda em seu rosto, enquanto a direita escorregava de modo proposital de sua nuca ao seu pescoço.

— Vamos? — Sorri ao abrir os olhos, recuperando o ar que há pouco me foi tirado.

Samara logo assentiu positivamente, tomando minha mão na sua e interligando nossos dedos. Seus bonitos olhos azuis possuíam um brilho eufórico, quase como se ela estivesse ansiosa, e isso fez com que toda a ansiedade se concentrasse em mim. Afinal, eu mal podia esperar pelas pequenas coisas que iríamos fazer juntas.

Notas finais
O próximo capítulo vai ser cheio de romance e grandes coisas para Samara e Emily fazerem juntas! Prometo caprichar nele. E, sobre esse, me digam o que acharam; opiniões e sugestões são sempre bem vindos! Até mais! ;)