Estes Laços Que Unem
1 Admirável Mundo Novo!
Notas iniciais
Era, portanto, uma tarde de primavera agradável em Rosewood, e eu acabava de passar pelas portas duplas e automáticas do bistrô francês, Rive Gauche, no Shopping King James, onde havia inúmeros alunos de Rosewood Day — e de outros colégios particulares também, como o St. Agnes — sendo servidos por garçons. Alguns deles, como Noel Kahn e Mike Montgomery, ambos namorados de Aria e Hanna, fingiam estarem praticando alguns arremessos de lacrosse para o jogo de amanhã, ao tempo em que bebericavam suas bebidas.
Enquanto eu adentrava o interior do restaurante, notei que Spencer e Aria já estavam sentadas mais para o fundo da extensa sala, vestidas com seus uniformes de Rosewood Day, numa mesa distante e separada das demais. Elas conversavam confortavelmente, vez ou outra esboçando sorrisos animados, e suas risadas, conforme eu me aproximava delas, ficavam cada vez mais audíveis e sonoras.
—Ei, Em!— Aria sorriu amistosa, interrompendo forçadamente sua risada estridente, assim que eu me sentei na cadeira à sua frente. — Onde está Hanna? Pensei que ela viria com você. — Ela perguntou com o cenho franzido, olhando para trás na tentativa de encontrá-la com Mike na mesa que ficava no centro do bistrô, e o qual estavam todos os jogadores de lacrosse, exceto por um...
— Ela me mandou uma mensagem mais cedo dizendo que ficaria na Montaigne’s Fashion Designer até mais tarde hoje. — Respondi pensativa, recordando da mensagem histérica que ela havia me mandado no primeiro período.
Depois que recebeu sua carta de admissão da Fashion Institute of Technology, Hanna tratou de correr atrás de um estágio para que ela pudesse estar em forma quando entrasse na faculdade de moda dos seus sonhos, uma vez que ela havia estado muito ocupada sendo perseguida por “A”, mais conhecida como a verdadeira Alison DiLaurentis, para se preocupar com seus exercícios diários de design.
Claro, todas nós havíamos sido perseguidas, torturadas e... Quase mortas pela irmã gêmea da nossa ex melhor amiga, minha Ali, que fora assassinada no quintal de sua própria casa pela sua própria irmã. E que, depois de tudo isso, ainda veio atrás de nós quatro com toda sua sede de vingança renovada, passando-se por Courtney, quando, na verdade, era a própria Alison.
Toda a sua raiva por sua irmã ter forçado a troca de lugares das duas tinha ido muito mais além de apenas matá-la, transformando-se em um ódio irrefreável por todas nós, a ponto de tentar matar Spencer, Hanna, Aria e eu na casa de sua família em Poconos, há dois verões. Mas, agora, finalmente estávamos livres de “A” e de todo o drama que vivemos até o último verão que tivemos.
No entanto, mesmo depois de todas as coisas que tivemos que passar por causa de Ali, a que conheci na sexta série e aquela pela qual eu me apaixonei profundamente e de forma tão irremediável, eu não podia deixar de sentir um aperto no peito toda vez que seu impecável rosto em formato de coração me vinha à mente. Mesmo depois de anos, eu ainda sofria como se houvesse sido ontem que seu corpo fora encontrado sem vida. Eu ainda a queria de volta...
— Em... Emily? — A voz de Spencer soou preocupada ao fundo, o que me afastou quase de imediato das memórias tristes e nostálgicas que sempre me traziam melancolia. — Você está bem?
— Claro. — Menti, balançando a cabeça com um sorriso forçado. — Eu só estou pensando... Estamos a apenas alguns meses de nos formarmos. Você foi aceita em Princeton, Hanna em FIT e Aria e eu na Universidade de Nova York...
— Deveríamos estar mais animadas. — Aria concluiu rapidamente, descansando seu queixo sobre as costas de suas mãos. — Mas é meio que assustador. — Ela decidiu, estremecendo com a conclusão de que ainda não estávamos tão preparadas para enfrentar a faculdade quanto achávamos que estávamos.
— Vocês estão brincando! — Spencer revirou os olhos em desgosto. — Eu mal posso esperar para colocar os meus pés naquele maravilhoso e inspirador campus de Princeton. Vai ser tão incrível! — Ela sorriu esperançosa, suspirando animadamente ao recostar-se de qualquer jeito na cadeira, como se estivesse a ponto de desmaiar.
Aria me lançou um olhar meio que confidencial e, então, um sorriso de canto diante da animação de Spencer. Elas pareciam bem mais próximas por essas últimas semanas, o que começou a me despertar um ligeiro tom de curiosidade. No entanto, antes que eu pudesse tentar tirar qualquer conclusão sobre isso, Hanna surgiu com o rosto em brasa, jogando-se na cadeira ao meu lado, sentando-se como se tivesse acabado de ser arremessada de bem longe.
— Vocês não têm ideia do quanto eu odeio trabalhar como estagiária! — Ela suspirou cansadamente, apoiando sua cabeça sobre as palmas das mãos de modo afetado. — Eles me fazem de escrava e, além disso, minha chefe não me dá chance de mostrar os meus projetos. Eu juro que não aguento mais aquela velha rabugenta! — Queixou-se enraivecida, erguendo seu rosto para frente.
Aria e Spencer lançaram um sorrisinho tristonho a ela, mostrando-se complacentes com o mau momento que ela parecia estar vivendo graças à sua chefe, que era cruel e impassível apenas por diversão. Havia sido essa a impressão que eu tive dela na primeira vez em que eu a vi, quando fiz uma visita rápida a Hanna na sua segunda semana na MFD.
— Mas não se preocupem. — Ela sorriu, recuperando-se por completo de seu breve momento e deslizando sua mão pelo seu cabelo louro e brilhoso. — Graças a Deus ela vai embora semana que vem, o que significa que ela deixará a presidência da Montaigne’s Fashion Designer para que outra pessoa ocupe o cargo. — Hanna contou, abrindo sua bolsa para, então, tirar seu estojo de maquiagem de dentro.
— Isso é bom, certo? — Aria a encarou atentamente, enrolando as pontas do seu cabelo acastanhado enquanto observava Hanna aplicar um pouco de base em seu rosto impecavelmente bonito.
— Eu espero que sim. — Hanna parou o que estava fazendo, descansando suas mãos em seu colo e olhando para o alto, pensativa. — Há rumores de que quem vai assumir a presidência será a filha dela. E, bem, talvez ela seja quatro vezes pior do que a Medusa Mãe, se encaixando perfeitamente como a Medusa Filha. — Ela caçoou com o tom de voz sério e levemente irritado, voltando a se maquiar e fazendo nós três rirmos com um dos diversos apelidos divertidos que ela havia dado à sua chefe.
— Olhe só quem está vindo. — Hanna assoviou depois de um momento, referindo-se ao seu namorado, que vinha acompanhado juntamente do meu e de Aria.
— Droga! Já vi que vou ficar sobrando, portanto estou indo agora.— Spencer pegou sua bolsa pendurada em sua cadeira e se levantou depressa, passando pelo trio de jogadores bonitões com um sorriso em comprimento a eles, que acenaram amistosos, porém zombeteiros também.
— Ei, meninas! — Enzo Escoffier gorjeou com um sorriso realmente fofo assim que se aproximou de nossa mesa, e logo atrás dele estavam Noel e Mike, que se sentaram perto de suas respectivas namoradas. — Conversando sobre o baile? — Ele perguntou, alternando seu olhar entre nós três. Então, assim que deu a volta na mesa, ele se sentou ao meu lado, passando seu braço em volta do meu pescoço e me puxando para um beijo rápido e modesto.
Enzo era novo na cidade. Ele havia se mudado há pouco mais de seis meses e, também, era um dos poucos garotos de Rosewood que realmente valia à pena e, portanto, era o meu namorado de quase quatro meses. Ele estava jogando no time de lacrosse de Mike e Noel, o que significava que ele também era um atleta e seu corpo forte e musculoso dizia muito bem isso. No entanto, ele não compartilhava do comportamento inapropriado dos seus colegas de time, além de não parecer ter a idade que tinha. Sua mentalidade e compostura se igualavam a de um homem muito bem formado, contando com a sua aparência viril, o que definitivamente era um charme a mais para toda a sua estrutura desenvolvida.
— Falando nisso, você já convidou a Em formalmente para ir ao baile com você? — Hanna perguntou de forma meio arrogante assim que ele se acomodou no estofado de couro, muito próximo de mim.
A partir desse momento, eu passei a apenas observá-lo. Era um pouco difícil manter a concentração em qualquer coisa que fosse quando ele estava bem diante de mim. Seu sorriso largo e preguiçoso, assim como os cabelos dourados e propositalmente bagunçados davam a ele um charme quase que irresistível, que deixavam quase todas as garotas com o coração na mão.
— Eu quero vocês dois lá para me ver sendo coroada como rainha e Noel como rei! — Hanna pressionou mais uma vez, apertando os olhos ao encarar nós dois.
— Não se preocupe, Han. Eles estarão lá. — Mike piscou para ela, lançando um sorriso indizível a Enzo logo em seguida.
Depois que começamos a namorar, fomos a muitos lugares como um casal, no entanto, Hanna insistia que o Baile de Primavera era a forma mais importante de se oficializar um namoro, porque havia sido dessa forma que aconteceu com Mike e ela. Talvez ela estivesse certa, mas o que eu não podia esquecer, ou negar, é que os dois eram um tanto quanto superficiais e, também, talvez isso realmente não contasse como algo importante, afinal de contas.
— É claro que sim! — Enzo respondeu sonoramente a alguma coisa que Noel havia lhe perguntado, afastando-me imediatamente dos meus pensamentos. — Eu já até mesmo comprei o meu smoking. — Ele sorriu de canto e, então, com seus olhos perfeitamente redondos e azuis, fitou-me com candura.
Meu coração disparou e eu não pude conter as imagens que começaram a surgir instantaneamente em minha cabeça. Seu corpo bonito e forte sob um terno de lã azul escuro, que, eu sabia, era Armani. Ele realmente ficaria incrível em um smoking meio apertado em seu peito.
— Vai ser divertido. — Sorri com contida animação, aconchegando-me de forma mais confortável no seu corpo e recebendo acenos positivos de Aria e Hanna.
***
Depois que saímos do Rive Gauche, Enzo me trouxe para sua casa, em um dos típicos condomínios de luxo de Rosewood, para que assistíssemos à qualquer coisa que estivesse passando na TV à cabo. E, apesar de a Sra. Escoffier sempre me tratar com uma gentileza e cortesia tocante, eu não podia deixar de me sentir desconfortável sempre que pisava o pé na mansão da família. Era um pouco surreal e eu sempre esperava que ela fosse me atacar de alguma forma, ou simplesmente decidir que não gostava mais de mim, pois toda essa insegurança eu devia a Sra. Colbert, a mãe excessivamente protetora do meu último namorado, Isaac.
— Você sabe quem eu vi hoje? — Enzo perguntou de repente, tocando o zíper do meu casaco de frio casualmente. — Maya St. Germain. — Ele disse antes que eu pudesse tentar adivinhar.
Estávamos deitados no extenso sofá da sala de estar da sua casa, as luzes estavam apagadas e somente o brilho da TV iluminava um punhado de onde estávamos, o que pôde me dar um vislumbre do seu rosto bonito e ligeiramente incomodado quando eu ergui minha cabeça para fitá-lo atentamente.
— Verdade? — Murmurei meio indiferente, pegando o controle remoto que estava apoiado em sua coxa e mudando de canal como forma de distração. — Eu a vi hoje mais cedo, você sabe, na escola.
Maya ainda não se conformava que eu estivesse namorando outro garoto. Ela não acreditava que eu realmente gostava de Enzo, como também havia gostado de Isaac. Em sua mente perturbada e controladora, eu tinha obrigação de sentir atração apenas por garotas, e não por ambos. E, durante um tempo, eu também passei a acreditar nisso, me sentindo confusa sobre quem eu verdadeiramente era. Mas, então, eu finalmente percebi que eu realmente não precisava me definir. Eu gostava de pessoas e, no final, isso era tudo o que importava.
— Ela é um pouco insolente. — Ele disse depois de uma breve pausa entre nós dois. — Eu a encontrei no King James, você provavelmente já estava com as meninas, enquanto eu comprava o meu smoking que usarei no baile. Ela me provocou um pouco sobre nós dois e, então, foi embora. — Contou como se houvesse sido muito casual e sem importância, o que eu realmente esperava que tivesse sido.
Enzo era de personalidade forte e explosiva, além de ser agressivo e presunçoso vez ou outra, mas era também doce e extremamente carinhoso. Porém, devido ao seu temperamento inconstante, eu sempre me questionava sobre como ele conseguia manter-se neutro quando Ben o irritava nas vezes em que estávamos juntos. Claro, Ben me provocava também sobre a instabilidade dos meus relacionamentos e sobre o meu forte declínio por garotas que sempre me lembravam Ali e sua personalidade determinada e oscilante, como havia ocorrido com Maya. Mas isso acontecia apenas quando Enzo não estava por perto.
— Sinto muito por isso, Enzo. — Suspirei, me sentindo melancólica, de repente. — Maya consegue ser realmente desagradável quando quer. — Ele me apertou ainda mais forte contra o seu corpo, o que me permitiu me aconchegar de forma mais confortável em seu peito firme e definido, ao tempo em que senti fortes vibrações dentro do meu peito.
— Ela tem sorte por ser uma garota... — Ele sussurrou, roçando seu rosto com barba clara e cerrada contra o meu.
Seu cheiro era uma mistura deliciosa de couro com eucalipto e lavanda, o que sempre predominava em minhas roupas quando ficávamos juntos. E, conforme ele deslizava seu rosto contra o meu, eu fazia questão de erguê-lo só para encontrar seus lábios carnudos e avermelhados o quanto antes.
— O que você quer, Em? — Enzo parecia se divertir com o esforço que eu fazia para alcançar sua boca com a minha, enquanto ele apenas retardava o momento em meio a risos.
Eu ri e, num movimento rápido, ele se lançou para mim. Seus lábios se colidiram contra os meus, enquanto seu corpo repousava cuidadosamente sobre o meu. Deixei um suspiro rouco escapar quando senti sua mão deslizar pela minha cintura, buscando um pouco mais de contanto com a minha pele coberta pela roupa. Envolvi seu pescoço com os meus braços e escorreguei meus dedos pelos seus cabelos macios e sedosos, puxando-os levemente, ao tempo em que sua língua explorava toda a extensão da minha boca, provocando palpitações no meu ventre.
— Enzo, seus pais... Eles podem chegar a qualquer momento. — Tentei argumentar, mas falhei ao perceber que nem mesmo eu estava me importando com isso.
— Acredite, eles não vão voltar tão cedo. — Ele me puxou ainda mais contra o seu corpo, afastando-se um pouco apenas para tirar sua camiseta e jogá-la de lado. Aproveitei a oportunidade para tirar o meu casaco também enquanto eu o observava.
Eu não conseguia tirar os meus olhos dos seus bíceps, ou do seu peito firme e definido. Porque, ao contrário da maioria dos garotos de Rosewood, Enzo não tinha um corpo liso e desprovido de pelos, e essa era uma das características que eu mais me sentia atraída sobre ele. Seus braços e tórax possuíam um pouco de pelo fino e extremamente claro cobrindo algumas partes estratégicas da sua pele dourada.
Ele se inclinou novamente e me beijou de forma mais ardente, enquanto eu apoiei minhas mãos sob o seu peito e deixei com que meus dedos escorregassem até o cós da sua calça jeans. Seu cinto começou a ceder quando eu passei a trabalhar nele e, enquanto isso, Enzo deixava com que suas mãos explorassem meu corpo ao tempo em que tentava expô-lo. Aos pouquinhos, ele desabotoou minha saia xadrez de Rosewood Day e a jogou junto de sua camiseta no chão.
Ainda não tínhamos tido a nossa primeira vez e eu estava genuinamente ansiosa para isso. Eu realmente o queria. Mas, antes que pudéssemos nos tocar de maneira mais íntima, meu celular começou a apitar em cima da mesinha de vidro que ficava entre o sofá e a TV.
— Deixe tocar. — Ele pediu, mordiscando meu lábio inferior com ansiedade, e eu realmente deixaria tocar se eu não tivesse olhado para a tela e visto o nome de Hanna piscando desesperadamente no visor.
— Espere, eu só vou ver o que Hanna quer. Isso só levará alguns segundos.— Prometi ao selar seus lábios brevemente, me desvencilhando do seu corpo e me esticando para poder pegar o meu celular logo em seguida.
— Em, onde você está? — Ela perguntou assim que atendi, sua voz parecia meio aflita.
— Eu estou ocupada agora, Han. Depois eu te ligo. — Apressei-me em dizer, contendo um gemido quando senti as mãos famintas de Enzo deslizarem para dentro da minha camiseta branca de Rosewood Day.
— Emily, não ouse desligar! — Aumentou o tom de voz desesperadamente. — Eu preciso que você me faça um favor. — Ela voltou com sua voz de antes que, além de aflição, tinha também um pouco de súplica.
— Eu espero que seja realmente importante, Hanna. — Avisei com antecedência, pegando a minha saia do chão junto do meu casaco de frio. E, então, lancei um olhar de desculpas a Enzo esticado no sofá. — Hanna precisa de mim. Eu prometo que continuamos isso depois. — Apertei o celular contra o meu ombro. Em seguida, inclinei-me em sua direção e depositei um beijo suave em sua boca levemente inchada.
***
Exatamente vinte minutos depois de falar com Hanna ao telefone, eu estava estacionando meu Volvo no meio fio da rua em que ficava a empresa fashionista em que ela trabalhava como estagiária. A arquitetura do imenso prédio era fundamentada por extensas janelas de vidros fumê em todos os andares, assim como as portas duplas e automáticas que davam a uma recepção movimentada e cheia de pessoas correndo para lá e para cá com inúmeros tipos de tecidos em mãos.
Claro! Eu havia me esquecido completamente de que a Semana da Moda em Rosewood era daqui a alguns dias, o que estava literalmente sugando Hanna por essas últimas semanas. Ela realmente estava dando duro apenas para conseguir impressionar sua chefe inegavelmente exigente.
— Emily! — A voz excessivamente aguda de Hanna soou assim que eu pulei para fora do elevador no quarto andar.
Ela teve que desviar de algumas garotas que pareciam verdadeiras modelos para conseguir chegar até mim. Algumas delas borboleteavam por todos os lados apenas com suas roupas íntimas e vestidos em mãos, enquanto outras eram maquiadas por dúzias de profissionais em volta. Tudo parecia muito surreal e... Insano.
— Graças a Deus! Você está aqui! — Hanna me pegou pela mão e me arrastou de volta até o elevador, onde ela apertou o botão para que nos levasse até o sétimo andar. Ela parecia realmente exausta.
— O que eu estou fazendo aqui, Hanna? — Perguntei com o tom de voz ligeiramente impaciente. De repente, meu corpo inteiro se sentia mal humorado.
— Olhe, eu sinto muito se eu interrompi alguma coisa entre você e Enzo, mas eu realmente preciso de você, Emily! — Ela disse, soando bastante sincera e um pouco agoniada.
Mas, antes que eu pudesse perguntar do que ela precisava, o elevador fez um barulho e, então, parou de subir. A luzinha vermelha que coloria os números no pico do elevador estava parada no sete, o que significava que já havíamos chegado. Logo que as portas se afastaram uma da outra, Hanna enlaçou meu braço e me conduziu ao interior da extensa sala que mais parecia um escritório, onde havia algumas mesas espalhadas.
— Aqui é onde você trabalha agora? — Perguntei, reparando em algumas notórias mudanças de ambiente. Hanna assentiu quando eu a fitei, curiosa.
A última vez em que eu havia vindo aqui, as paredes eram mais claras e neutras, quase apagadas, mas agora estavam coloridas por um verde folha suave, azul bebê e vermelho cremoso. Então, me dei conta de que se tratava das cores da primavera.
— E aquele é o escritório da Medusa. — Apontou para a sala que era coberta por vidros transparentes e, aparentemente, de extremo conforto.
— Hanna! — Alguém atrás dela a chamou.
Olhei por sobre o seu ombro e avistei uma mulher alta, de cabelos claríssimos e coberta por diamantes parada a alguns seguros metros do canto onde Hanna havia me arrastado. Ao seu lado, tinha uma garota com mais ou menos a nossa idade, com óculos e uma caderneta na mão, provavelmente era a sua secretária particular.
— Boa tarde, Sra. Montaigne. — Hanna sorriu docemente, fitando-a com a compostura de uma mulher séria.
— Você já conseguiu as modelos que eu pedi? — Ela se aproximou, parando perto de uma mesa cheia de revistas de moda, onde parou para analisá-las vagamente. Entre as inúmeras revistas e esboços de vestidos, apenas a Vogue e a Teen Vogue se destacavam. Aquela mesa certamente era de Hanna.
— Claro! — Respondeu com falsa animação. — Aqui está uma delas. — Ela apontou para mim, puxando-me para mais perto dela, com o mesmo sorriso forçado moldando seus lábios. Eu precisei de alguns segundos para conseguir processar o que ela havia acabado de dizer.
— Espere! O quê? — Olhei para Hanna de repente, mas ela apenas me ignorou.
— As outras duas estavam ocupadas com um projeto de francês hoje, mas eu prometo que elas virão amanhã. — Hanna garantiu solenemente, mantendo o corpo ereto e impassível.
— Muito bem. — Ela demorou algum tempo me analisando detalhadamente, como se estivesse se questionando interiormente se eu realmente estava nos padrões. — Minha filha está a caminho. Ela cuidará disso quando chegar. — Respondeu por fim, com o tom de voz cansado e indisposto. Em seguida, passou a ditar mudanças em sua agenda para a garota aparentemente inofensiva ao seu lado, conforme caminhavam para dentro da sala exposta.
— Hanna, eu não sei o que você estava pensando, mas eu não sou modelo. — Voltei para ela quando a sua chefe estava fora do caminho. Ela foi até a sua mesa e começou a tirar toda a bagunça que a preenchia e, então, me olhou com um brilho esperançoso nos olhos.
— Mas tem o corpo de uma. — Retrucou com um sorriso de canto, que logo vacilou quando eu me mantive impassível. — Vamos lá, Em! Essa é a hora em que você, como a minha melhor amiga, diz: “Tudo bem, eu estarei lá por você.” — Suspirou pesadamente, deslocando-se novamente até o canto em que eu permanecia. — Você tem ideia do quanto isso é importante para mim?
— Está bem. — Concordei depois de um minuto, relaxando os meus músculos. — Eu estarei lá por você. — Sorri fraco, tocando seu ombro delicadamente e a puxando para um abraço.
***
Havia se passado quase uma hora desde que eu tinha chegado e Hanna orientava sobre as roupas que eu provavelmente teria que vestir e, também, me antecipava sobre toda a estrutura do grande aguardado evento que era a Semana da Moda em Rosewood. Toda a cidade parava apenas para comparecer, exibindo suas melhores vestimentas e, quase sempre, o quão ricos e pomposos eram.
— Você acha que Enzo ficou bravo por eu ter interrompido nossa quase primeira vez? — Perguntei vagamente, girando na cadeira confortável de Hanna depois de um longo momento. Ela logo parou de ajeitar os seus esboços sobre a mesa para me fitar atentamente.
— Bravo eu não sei, mas frustrado eu tenho certeza. — Ela riu, voltando sua atenção às suas coisas. — Mas, não se preocupe, ele supera. — Garantiu com um riso debochado.
Antes que eu pudesse respondê-la, um barulho de salto alto ecoando pelo corredor tirou a atenção de todas as pessoas que estavam na sala, inclusive a minha e a de Hanna, que paramos para observar a figura de uma mulher adentrando o grande espaço em que estávamos. Ela estava ao telefone e parecia discutir com a pessoa do outro lado da linha.
— Eu vou estar ocupada por essas semanas. Tenho alguns eventos para cuidar aqui na cidade, então não sei quando eu volto... Não, não será necessário, eu vou mandar os papéis para você assinar. — Sua voz era naturalmente doce, e a forma como ela tentava conter sua notória irritabilidade e melancolia era algo admirável.
— É ela! — Hanna sussurrou para mim, apontando com os olhos na direção da mulher. Ela vestia jeans escuro e colado, blusa preta cheia de brilhos e tinha uma bolsa meio acinzentada, que logo concluí ser Marc Jacobs, pendurada em seu ombro. — Ela é a Medusa Filha e... Deus! Eu já a odeio. — Decidiu ao analisar seus longos e bonitos sapatos de salto alto preto.
— Porque ela é bonita? — Ri enquanto voltava a me girar na cadeira devagar, parecendo uma criança.
— Não, por causa desses sapatos fabulosos que nem foram lançados oficialmente ainda. — Ela disse, soando rabugenta e irritada.
— Supere isso, Hanna. — Dei de ombros, pegando um morango da vasilha cheia de frutas que estava em sua mesa, e logo o coloquei na boca. Apesar de não ter feito sexo com o meu namorado, eu me sentia mais leve e menos irritada.
— Com licença. — Hanna rapidamente se colocou na frente da mulher de cabelos louros claros na altura dos ombros quando ela estava fazendo seu caminho até o escritório de sua mãe, que logo seria dela. — Eu sou a estagiária responsável pelas modelos da Semana da Moda em Rosewood e...
— Hanna, não é? — Ela deduziu ao interrompê-la, estudando Hanna com cautela.
— Sim... Marin. Hanna Marin. — Piscou pasma, provavelmente espantada com o tratamento diferenciado do qual estava acostumada a receber nesse lugar de personalidade insana e hostil. Rapidamente, ela me puxou da cadeira pela mão. — E esta é Emily Fields, uma das modelos que eu consegui para desfilar no evento de Rosewood.
— Muito bem! — A mulher finalmente sorriu, mostrando-se aprazível em nos conhecer. Em seguida, estendeu sua mão para nós duas. — Eu sou Samara.
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