Estes Laços Que Unem
12 A Verdade Não Faz Alarde.
Notas iniciais
Nos dias seguintes à volta de minha viagem com Emily, os meus afazeres na Montaigne’s Fashion Designer aumentaram gradativamente. As minhas horas se mostravam extremamente limitadas, uma vez que, dentro de algumas semanas, eu estaria deixando a pacata cidade de Rosewood pelo turbulento centro econômico de Nova Iorque.
Na quinta-feira pela manhã, no entanto, eu havia acabado de deixar a garagem do condomínio tradicional onde eu residia no momento e seguia em direção à casa de Emily. Graças ao trânsito tranquilo das sete da manhã, não tardou e eu logo estacionava meu Escalade preto em frente à residência vitoriana de dois andares dos Fields.
Esperei pacientemente até que Emily saísse pela porta da frente em seu uniforme azul marinho impecável, com sua bolsa na cor creme pendendo em seu braço e óculos de sol cobrindo seus olhos genuínos e apaixonantes. A saia xadrez cobrindo menos da metade de suas coxas balançava despojadamente conforme ela caminhava em direção à porta do passageiro, inerte em seus próprios pensamentos e solta como um pássaro. Os cabelos caíam perfeitamente em seus ombros, ondulando graciosamente em suas pontas acobreadas.
— Jesus, tão jovem e tão linda... — As palavras pareciam brincar em minha boca, causando cócegas em minha língua. — Minha menina. — Suspirei ao vê-la se sentar no banco de couro ao meu lado.
— Desculpe pela demora. — Inclinou-se em minha direção para me beijar delicadamente nos lábios, afastando-se logo em seguida com um sorriso amável. — Eu estava ao telefone com Spencer. Ela queria saber se já estávamos chegando. — Explicou calmamente enquanto colocava o cinto de segurança, completamente alheia aos meus olhares em sua direção.
— Não se preocupe. — Dei de ombros, acionando a primeira marcha para sairmos do meio fio. — Agora, importa-se de me explicar o caminho? A única coisa que sei é que temos de subir aquela colina. — Apontei com o dedo indicador, com a mão no volante, para os suaves relevos que a rua se estendia em diversas curvas até chegar ao bairro de Hanna, que ficava fora de Rosewood, mas relativamente perto de onde Emily morava.
— É muito simples. — Ela disse, tirando o celular da bolsa.
Em seguida, passou a apontar as direções que eu deveria tomar a partir das curvas. Segui todas as suas coordenadas e, em cerca de sete minutos, estávamos chegando perto o suficiente de uma casa solitária em uma rua tranquila e isolada no topo de Monte Kale.
— É aqui, certo? — Perguntei ao passar os olhos por alguns carros estacionados no meio fio da casa em questão.
Emily ergueu os olhos de seu iPhone e assentiu rapidamente depois de encarar o enorme quintal da frente. Tratei, então, de estacionar o carro atrás de um Kia Sportage preto, que, de acordo com seus comentários, era de Spencer. Desafivelei o cinto de segurança e me inclinei levemente em direção ao retrovisor, checando minha maquiagem antes de deixar o carro.
— Está linda, Sammy! — Emily surgiu ao meu lado, sorrindo com sinceridade para mim. — Agora vamos, porque estou com fome. — Apressou-me ao abrir a porta do motorista para que eu saísse.
Peguei a minha bolsa no banco de trás e coloquei os pés para fora do carro, firmando-os no solo sem fazer qualquer menção em levantar. Olhei Emily de cima a baixo, puxando-a pelos braços logo em seguida. Não contive um sorriso sugestivo diante de sua expressão confusa e assustada por conta do leve impacto de nossos corpos.
— O que é isso? — Ela perguntou, ainda sob o efeito da surpresa.
— Isso sou eu querendo que você me beije. — Sussurrei com o rosto bem próximo do dela.
— Vejo que alguém acordou animada hoje. — A expressão séria e pensativa em sua feição se derreteu num sorriso astuto.
Apertei sua cintura um pouco mais forte, trazendo-a para o mais perto possível de mim. Ela relaxou os músculos, desfazendo os vincos de incerteza que restaram em suas características. Lentamente, ela se inclinou e grudou seus lábios nos meus, roçando-os de maneira terna e perigosa. Meu corpo inteiro se arrepiou em alerta com as carícias sugestivas de sua língua contra a minha.
Aproveitei que Emily levou suas duas mãos ao meu pescoço e deslizei as minhas por cima do tecido fino e curto de sua saia, escorregando os dedos sob a mesma quando senti a maciez de sua pele tocá-los delicadamente. Ela deixou um suspiro rouco escapar ainda contra a minha boca, mordendo meu lábio inferior com certa força para soltá-lo logo em seguida.
— Você fica uma tentação neste uniforme. — Soprei com dificuldade, baixando os olhos pelo seu corpo bonito.
— Só neste uniforme, amor? — Ela arqueou as sobrancelhas, afastando-se um pouquinho para poder me encarar.
— Não, não. — Balancei a cabeça devagar. — Sem ele fica ainda melhor.
Ela riu sonoramente, agarrando-me pelo pescoço num abraço apertado e confortável. Seu rosto estava enterrado na curva do meu pescoço preguiçosamente e, em questão de instantes, começou a plantar beijos suaves em meu ponto de pulso. Enquanto isso, meus dedos brincavam com a barra de sua saia, vez ou outra alisando sua coxa delicadamente.
— É engraçado como as coisas evoluem. — Sussurrei perto de seu ouvido. — Antes, eu repelia qualquer tipo de pensamento indevido que pudesse me ocorrer sobre você, principalmente quando estava vestida assim, mas agora que eu sei como é tê-la, é quase impossível controlar essas reações. — Admiti timidamente, acariciando seu braço de um jeito preguiço e suave.
— Verdade? — Ela se afastou para poder me fitar nos olhos, o que me fez franzir as sobrancelhas diante de seu breve momento de choque.
— Por que está tão surpresa? — Questionei-a incrédula. — Emily, você é uma verdadeira deusa! Eu tenho muita sorte por tê-la só para mim. — Inclinei-me em sua direção apenas para depositar alguns beijos suaves em sua boca irresistível.
— Você não pode ser real, não mesmo. — Emily ria entre um beijo e outro, afagando meus cabelos entre os dedos.
— Ei, o que estão fazendo aí? — Gritou uma voz aguda, vinda de algum lugar distante. — Ainda são sete da manhã! Façam o favor de guardar o momento molhado para depois. — Emily e eu olhamos em direção à origem da voz, percebendo Hanna numa das sacadas do andar de cima, com as mãos na cintura. Ela vestia um roupão rosa claro e seu cabelo estava preso num coque desajeitado.
— Sutil como uma granada. — Emily resmungou, voltando-se rapidamente para mim. Soltei uma risada silenciosa enquanto seus lábios persistentes procuravam os meus, selando-os demoradamente antes de se afastar decididamente. — Pronta para tomar café com as minhas amigas? — Puxou-me para fora do carro, fechando a porta logo em seguida.
Apertei o botão do alarme para travá-lo e coloquei as chaves na minha bolsa Marc Jacobs, pendendo-a novamente em meu ombro esquerdo enquanto Emily tomava minha mão na sua e entrelaçava nossos dedos carinhosamente.
Fomos até o quintal fortemente arborizado de Hanna, parando apenas quando nos pusemos de frente à imponente porta de mogno branca. Emily tocou a campainha e uma suave e conhecida música de Beethoeven soou por entre as estruturas da casa. Em instantes, houve uma movimentação do lado de dentro, até que a porta se abriu.
— Bom dia, Srta. Fields. — Saudou uma jovem mulher de estatura mediana, sorrindo enquanto nos dava passagem para adentrar o interior da casa.
Ela se dirigiu a mim de forma impecavelmente polida, demonstrando saber com quem estava lidando, o que me motivou a me apresentar propriamente num súbito sobressalto de minha evidente e embaraçosa falta de tato quanto às formalidades necessárias.
— Bom dia, Flora. — Emily a cumprimentou, entregando seu blazer e sua bolsa para ela. — Hanna já desceu?
— Já, sim. — Assentiu prontamente. — Ela acabou de se juntar as Srtas. Hastings e Montgomery no deque e pediu para que eu as encaminhasse assim que chegassem.
Emily e eu a acompanhamos até o lado externo da casa, deparando-nos com uma agradável e elegante área de lazer. Emily seguia a passos largos a minha frente, puxando-me pela mão com os dedos enroscados aos meus até onde suas amigas estavam sentadas ao redor de uma extensa mesa de ouro velho. A mesa estava farta, decorada por um apetitoso café da manhã.
— Pombinhas! — Spencer nos cumprimentou debochadamente quando nos aproximamos. — Fiquei sabendo que estavam dando um show para os vizinhos. Que tal fecharem a porta do carro da próxima vez? — Provocou, arrancando risos divertidos de Aria e Hanna.
Senti minhas bochechas corarem violentamente e Emily apenas deu de ombros, como quem realmente não se importava, enquanto sentávamos uma do lado da outra. Provavelmente, ela já estava acostumada com o humor seco de sua amiga. Ela apertou minha mão firmemente, transmitindo-me conforto e segurança quase de imediato.
— Pare de implicar com elas, Spence. — Aria a repreendeu, ainda sorrindo amplamente para nós duas. — Você prometeu que iria se comportar. — Ela parecia estar falando com uma criança e isso me fez rir.
— Você adora cortar o meu barato, não é? — Resmungou visivelmente aborrecida, jogando a cabeça para trás e colocando as mãos no rosto dramaticamente.
— Na verdade, essa sou eu. — Hanna a corrigiu, erguendo o dedo indicador de maneira esnobe para ela. — Chefinha, ignore a Spencer. Ela está de ressaca. — Sussurrou a última parte entre dentes, colocando a mão ao lado de seu rosto apenas para esconder sua boca das vistas de Spencer.
— Está tudo bem. — Dei de ombros, sentindo-me mais relaxada. Hanna sorriu e esticou o pescoço, procurando algo além de mim.
— Flora! — Gritou pela sua empregada, que veio prontamente atendê-la. — Traga chá para a Srta. Cook, por favor. — Ela pediu polidamente, voltando sua atenção às meninas quando a mulher com traços latinos se retirou.
— Por que não está vestida para ir à escola? — Emily finalmente se pronunciou, recostando-se na cadeira para ficar mais à vontade.
— Porque não vou. — Hanna deu de ombros, tratando de se servir, enquanto Aria e Spencer aproveitavam o sol com os olhos fechados.
Parando para olhá-las de maneira mais detalhada, notei que tanto Hanna quanto Spencer estavam de biquínis; a primeira com estampa de onça e a segunda de bolinhas brancas no tecido preto num bonito e elegante estilo vintage. Aria estava com uma canga florida ao redor de sua cintura, com óculos de sol cobrindo-lhe os olhos, enquanto Spencer estava com um chapéu de praia.
— E quanto a vocês? — Tornou, dirigindo-se às duas garotas distraídas em seus próprios pensamentos.
— Eu só vou mais tarde. — Aria respondeu, sem abrir os olhos. — Spencer?
— Eu também. — Foi a sua resposta arrastada. — Estamos nos formando dentro de poucas semanas, algumas aulas a menos não faz diferença. — Deu de ombros, endireitando-se na cadeira para começar a se alimentar quando Flora se aproximou com meu chá e uma jarra de suco de graviola.
— Obrigada, Flora. Você é um anjo! — Emily a agradeceu com um sorriso estonteante, que foi retribuído na mesma intensidade.
Ela preencheu até a metade do copo com o líquido e logo tratou de selecionar os alimentos que mais lhe agradavam na mesa, colocando tudo em um prato de porcelana. Em seguida, passou a degustar as panquecas com calda de caramelo, acenando para que eu fizesse o mesmo. Dividimos tudo o que comemos, enquanto suas amigas, vez ou outra, nos observavam com expressões diversas, entre elas curiosidade e entretenimento.
Passado o leve e descontraído café da manhã, Hanna iniciou uma conversa animada sobre alguns catálogos de noivas que ela havia preparado para o importante evento de caridade que ocorrerá no meio da semana que vem. E, ao contrário das meninas, eu não estava muito empolgada sobre isso... Estava cansada e o assunto parecia me desgastar física e emocionalmente de um jeito quase impossível.
— Ei, está tudo bem? — Emily sussurrou docemente perto do meu ouvido. — Você parece meio... Distante.
— Eu estou bem. — Sorri fracamente para ela, deixando os olhos despencarem para nossas mãos entrelaçadas sobre a mesa.
Arrisquei lançar um olhar inquieto em direção a suas amigas deitadas nas espreguiçadeiras, que ficavam perto da piscina e também do deque, rindo e conversando despreocupadamente. Elas eram tão jovens e cheias de vivacidade que nem mesmo as terríveis experiências que tiveram no passado as fizeram perder a alegria genuína.
Por fim, dei por mim que tinha compromissos pendentes para serem resolvidos o quanto antes; havia muitas coisas para serem feitas na Montaigne’s Fashion Designer e eu não possuía tempo suficiente para suprir tudo até a primeira semana de junho. Eu não queria correr o risco de desapontar a minha mãe. Deus sabe que isso era a última coisa que eu precisava no momento: sua decepção voltada novamente para mim.
Despedi-me das meninas, guardando Emily especialmente para o final, prometendo-lhes um jantar e, possivelmente, uma tarde inteira na piscina da minha casa no meu último final de semana na cidade de Rosewood. Elas vibraram em resposta, o que me fez sorrir largamente para o feliz e inesperado acaso. Eu nunca poderia me imaginar semeando uma amizade com essas garotas. Colegiais.
— Nós vamos nos ver hoje à noite? — Emily perguntou quando já estávamos do lado de fora da sofisticada casa de Hanna, abraçadas como se estivéssemos nos despedindo para sempre. — Não, espere! Talvez eu faça uma surpresa para você. — Sorriu misteriosamente ao erguer o rosto do meu pescoço para me fitar.
— Parece ótimo. — Beijei sua testa afetuosamente, seguido de seu nariz, seu queixo e, então, sua boca. — Eu vou adorar. — Sussurrei lentamente, deslizando minha língua pelos seus lábios, ganhando espaço entre eles com facilidade.
Nos beijamos profundamente, aproveitando o gosto de saudade adiantada que fluía de forma quase devastadora por cada movimento minucioso de nossas línguas preguiçosas. Apertei seu corpo agraciado por curvas tentadoras contra o meu e senti um leve tremor sacudir meu autocontrole e minha cordialidade. Era rude desejar tocá-la de forma mais vigorosa e... Possessiva?
— É melhor você ir antes que eu não queira mais soltá-la. — Emily riu graciosamente, acariciando meu rosto com uma adoração quase divina.
Ela era sempre tão carinhosa e compreensiva que o simples fato de saber que eu a tinha de verdade acalentava meu peito consternado por mágoas profundas com incrível facilidade. Lá, no mais profundo do meu âmago, eu sabia que era ela. Apenas ela. Emily — de espírito confiante, coração generoso e caráter vibrante — vinha me enlaçando de todas as formas possíveis, começando pelo meu pescoço no dia em que a vi desfilar gloriosamente para mim. Eu não tinha mais dúvidas; é ela.
***
Depois que Samara foi embora, passamos o resto da manhã aproveitando o sol agradável nas espreguiçadeiras, enquanto Hanna, vez ou outra, alfinetava Spencer sobre a quantidade de bebida alcoólica que ela havia ingerido na noite passada e, consequentemente, sobre o humor ácido que agora a infligia.
— Então, Em... — Spencer irrompeu de repente, dilacerando o silêncio confortável em que todas nós nos encontrávamos. — O que vai acontecer quando Samara for de vez para Nova Iorque? — Questionou-me, abaixando seus óculos de sol para poder me fitar.
Sua pergunta certamente me pegou desprevenida. Eu ainda não havia parado para pensar nisso devidamente e, sinceramente, tentava ao máximo evitar que o assunto rondasse minha mente por mais de dois segundos. Depois que Samara fosse embora de Rosewood, só iríamos nos ver algumas semanas antes das minhas aulas na Universidade de Nova Iorque começarem.
— Eu não sei. — Respondi depois de um momento. — Ainda não conversamos sobre isso. — Desviei minha atenção para Hanna, que tinha parado de folhear sua revista para se atentar a nossa conversa.
— Por que você não a chama para ir à Jamaica também? — Aria sugeriu enquanto brincava com o Pinscher de Hanna em seu colo. Dot adorava quando dávamos atenção a ele. — Assim você não fica tentada a ficar com outras pessoas. — Ela riu divertidamente, sem olhar para mim, e eu resolvi ignorar seu comentário.
— Eu pensei nisso, mas ela provavelmente vai estar muito ocupada com as coisas que precisa fazer na Visionaire. — Suspirei, dando de ombros logo em seguida. — Seremos, portanto, apenas nós seis. — Concluí por fim, acrescentando as presenças mais do que certas de Noel e Mike ao nosso grupo de viagem.
— Wren também não vai poder ir? — Aria quis saber, tirando os olhos do cachorro que a mordia fracamente para fitar Spencer com expectativa.
— Ele tem cirurgias marcadas até o meio de agosto. — Deu de ombros, tentando transmitir uma calma e indiferença que nós sabíamos não existir. — Emily pode ser a minha namorada até lá. — Ela sorriu de forma depravada, olhando-me de relance.
— De jeito nenhum! — Hanna resmungou, impedindo-me de dizer alguma coisa. — Emily já tem a mim. Contente-se com a Aria. — Voltou sua atenção a sua revista Vogue, repousada tranquilamente em seu colo. — Além disso, você não faz o tipo dela, Spence. — Dessa vez, não contive uma risada.
Aria e eu trocamos um olhar cúmplice, como quem apontando em silêncio o grau de diversão que aquelas garotas nos proporcionavam de maneira tão espontânea. Chegava a ser engraçado, se não hilário, a disputa das duas por razão e dominância. Eram tão parecidas em algumas coisas, mas completamente diferentes em outras. Às vezes, tais situações me levavam ao súbito e quase incontrolável desejo de que Ali também estivesse aqui, nos observando e absorvendo com orgulho todas as mudanças palpáveis, até mesmo bruscas, em cada uma de nós.
— Não, gente, agora é sério. — Spencer mudou sua expressão, adotando certa seriedade ao se sentar ereta na espreguiçadeira. — Vocês, como minhas melhores amigas, não podem me deixar cair em tentação naquele resort cheio de caras bonitos e beijáveis.
— Não vamos ser sua babá, Spence. — Adiantei depressa, procurando apoio nas outras duas sentadas a minha frente. — Apenas... Seja fiel a sua consciência, está bem? Não se esqueça de que não está disponível. — Hanna assentiu em concordância, enquanto Aria sorria fraquinho em sua direção, apoiando-a de forma silenciosa.
— É só o que tem a me oferecer? — Spencer perguntou sarcasticamente, resmungando entredentes logo em seguida: — Consciência... Com certeza isso será muito útil para mim, sabe? Se eu não estiver bêbada! — Seu tom de voz aumentou conforme as últimas palavras escorregavam com facilidade pela sua boca, soando rispidamente.
— Já que não tem certeza se pode ou não se conter, bonitinha, mantenha-se sóbria e estaremos em paz. Não vou ser babá de bêbada. — Hanna disse lentamente, enfatizando o suposto elogio enquanto folheava as páginas de sua revista com toda a calma e paciência do mundo.
Não demorou até que ela se cansasse do que aparentemente a mantinha relaxada, deixando-o de lado e se inclinando em direção à Aria para puxar Dot de seu colo. O cachorro latiu felicíssimo quando Hanna o colocou sobre suas pernas, fazendo cócegas suaves no ventre do animal enquanto sorria abertamente, e com orgulho.
— Além disso, não é como se fôssemos conseguir impedi-la de fazer alguma coisa. Você é Spencer Hastings! — Aria acrescentou quando se fez silêncio outra vez, recebendo um sorrisinho cúmplice em resposta.
— Está bem. — Revirou os olhos, erguendo os braços em sinal de rendição. — Vocês sabem ser persuasivas; considerem-me convencida. — Sorriu com certa ironia, dando de ombros logo em seguida.
— Ótimo! — Hanna suspirou aliviada. — Agora, senhoritas, se me derem licença, vou me trocar, porque Emily e eu vamos ao King James fazer compras! — Bateu palminhas em animação, levantando-se rapidamente da espreguiçadeira e me puxando para ir ao seu quarto junto com ela.
— Podemos passar em alguma cafeteria quando voltarmos? — Perguntei ligeiramente distraída, checando as horas no meu celular enquanto passávamos pela cozinha.
— Claro, afinal, eu tenho que comprar café para a minha chefe suprema. — Virou o pescoço para me lançar um sorriso forçado, subindo as escadas em direção ao seu quarto. — Hoje, a Sra. Montaigne estará em reunião com um novo estilista, preciso agradá-la.
— O que aconteceu com o apelido Medusa? — Soltei uma risadinha ingênua, fechando a porta atrás de mim assim que adentramos o paraíso restrito de Hanna. Ela revirou os olhos e me ignorou, correndo em direção ao banheiro enquanto tirava o biquíni. — Falando na minha futura sogra, eu acho que não contei que conheci o pai de Samara no domingo... — Ela surgiu imediatamente no batente da porta, mostrando apenas sua cabeça e escondendo seu provável corpo desnudo.
— E como foi? — Quis saber, visivelmente curiosa, e voltando para o interior do banheiro rapidamente.
— Foi... Estranho. — Murmurei, seguindo o mesmo caminho que ela e me encostando ao batente quando escutei a pressão da água do chuveiro preencher o local. — O clima ficou desagradabilíssimo quando a atual esposa dele chegou. — Enruguei o cenho, lembrando-me da forma indiscreta que a Sra. Cook me encarava naquele dia.
— Ah! Suponho que essa seja a mulher por quem o safado trocou a Sra. Montaigne. Você sabe, a empresa inteira comenta sobre esses tipos de coisas e é meio difícil não prestar atenção. E isso certamente explicaria muita coisa, como o fato de ela parecer ser tão infeliz o tempo inteiro. É realmente duro ser trocada dessa forma, eu mesma já passei por isso quando Sean me deixou para ficar com Aria, você se lembra, não é? — Pausou por um instante, prosseguindo sem ao menos esperar por uma resposta. — Eu não sei, mas, no caso dela, na época que isso aconteceu, deve ter sido capa de muitas revistas. Posso imaginar a humilhação pela qual a Sra. M. passou, e também Samara... — Hanna continuou com o monólogo, até meus pensamentos voltarem para o desconfortável momento de alguns dias atrás e eu parar de ouvi-la completamente.
Esperei que ela terminasse seu banho sem dizer mais nenhuma palavra, a mesma coisa quando começou a se trocar e também durante todo o caminho até o shopping, apenas assentindo com murmúrios quase ininteligíveis quando me perguntava alguma coisa. Eu não via a hora de conseguir um tempo tranquilo com Samara para conversarmos a respeito de tais observações de Hanna. Pressioná-la, obviamente, não era o meu intuito.
No entanto, a sensação de que Samara sabia tudo sobre mim e eu nada sobre ela não me abandonava desde o dia em que voltamos para Rosewood. Precisávamos estabelecer alguns pontos soltos e indefinidos em nosso tipo de relacionamento. Era de extrema importância.
— Acho que compramos o suficiente por um dia. — Suspirei cansadamente ao sairmos da Saks, a loja favorita de Hanna em todo o King James. — Han, já são quase três horas, você vai se atrasar. — Destaquei logo em seguida, erguendo os braços cheios de sacolas para o enorme relógio oriental na parede.
— Droga! — Amaldiçoou entredentes. — Eu sempre fico perdida no tempo quando estou carregando essas belezinhas aqui. — Ela disse, referindo-se claramente ao exagero de sacolas que pendiam em seus braços.
— Tudo bem, mas agora vamos. — Enlacei meu braço no dela e a arrastei em direção à saída do shopping. — Temos alguns cafés para comprar.
—x—
Depois de passar a tarde inteira e o começo da noite fazendo alguns últimos ajustes no comprimento do vestido de noiva que eu usaria no importante evento de caridade da cidade, Hanna finalmente me deixou descansar em paz enquanto ela organizava inúmeros pedidos de tecidos em sua mesa, lembrando-me incansavelmente que tanto Aria quanto Spencer já haviam feito esse processo antecipadamente.
— Droga, Han! Você me fez perder um dia inteiro de aula. — Resmunguei preguiçosamente, recostando-me na cadeira giratória de qualquer jeito enquanto esperava Samara sair de sua reunião de mais de duas horas. — É uma boa coisa que estou de uniforme, quero evitar questionamentos da minha mãe. — Passei os olhos pelos meus trajes, recordando-me do que Samara me disse sobre eles mais cedo.
— Mas valeu a pena, não é? — Ergueu os olhos de seus afazeres com um brilho esperançoso e animador. — Nós nos divertimos muito hoje! — Prosseguiu devagar, voltando ao que estava fazendo meio pensativa.
— Definitivamente! — Concordei com um sorriso revigorado. — Eu adorei cada minuto desse dia. Adoro passar minhas tardes com você e o seu mundo de princesa. — Garanti, percebendo seu sorriso satisfeito se ampliar em seu rosto bonito e delicado.
— Não seja boba, Em. — O sorriso deu lugar a uma carranca. — É um mundo de rainha. — Corrigiu-me enfaticamente, suspirosa.
Uma pequena agitação atrás de mim chamou a minha atenção, fazendo-me virar na cadeira para ver do que se tratava. A voz de Samara preencheu imediatamente meus ouvidos quando eu olhei na direção da repentina movimentação e a vi conversando calmamente com sua mãe e um rapaz de aparência jovial e refinada. Ele deveria ser o tal estilista que Hanna comentou mais cedo.
Conversaram rapidamente, até o rapaz se despedir cordialmente das duas e se retirar, levando consigo a fiel assistente da Sra. Montaigne em seu encalço. Virei-me de volta no mesmo instante e percebi que Hanna, disfarçadamente, atentou-se ao que a mãe de Samara passou a conversar com ela assim que ficaram sozinhas.
— Meu Deus, eu não entendo. — Pude escutá-la dizer sem transmitir qualquer emoção em seu rígido tom de voz. — Você viu aquilo? É uma catástrofe! — Destacou com puro desdém, causando-me um arrepio desagradável na espinha.
— O garoto tem talento, só falta desabrochar. — Samara respondeu calmamente e eu olhei em sua direção, vendo-a mexer em seu tablet.
— Talento? — Riu sarcasticamente. — Ora, minha querida, está sendo muito generosa. Aquilo é uma fraude e espero nunca mais vê-lo. — Samara a olhou com serena seriedade e, com um meio sorriso, balançou a cabeça de maneira repreensiva para as duras palavras de sua mãe.
— A diferença entre as duas é gritante, não é? — Hanna sussurrou, inclinando-se em minha direção para que apenas eu a escutasse.
— Hanna! — A insípida voz de sua chefe ecoou em nossos tímpanos, assustando Hanna com a súbita abordagem. Samara finalmente olhou em nossa direção, percebendo minha presença e sorrindo com evidente surpresa para mim. — Venha comigo. — Adentrou em sua sala de paredes completamente transparentes e Hanna a seguiu de imediato.
Samara se desvencilhou de uma das estagiárias que passava em sua frente e veio até onde eu estava. Ajeitei minha saia rapidamente e me levantei da cadeira, cruzando os braços sobre o peito quando ela se aproximou de mim. Seu sorriso era tão glorioso e intoxicante que fez meu coração bater ainda mais depressa. Era incrível o efeito que ela vinha exercendo sobre mim desde que nos conhecemos.
— Oi, amor. — Ela encurtou ainda mais a pouquíssima distância que nos separava. — Não esperava vê-la aqui. — Sorriu satisfeita.
— Eu tive que fazer alguns ajustes no meu vestido de noiva. — Peguei um tecido de renda sobre a mesa de Hanna e o coloquei em torno do meu pescoço, tombando a cabeça para o lado para fitá-la divertidamente. — Aparentemente eu engordei. — Dei de ombros, lembrando-me das provocações de Hanna quanto a isso.
— Não parece. — Olhou-me de cima a baixo. — Mas, de qualquer forma, você continua belíssima! — Senti meu rosto corar com o olhar de pura admiração que ela me lançava de forma tão sincera e afetuosa. — Você continua sendo a minha deusa. — Aproximou-se perigosamente de mim, inclinando-se em minha direção e beijando o canto da minha boca.
— Eu não tenho certeza se acredito em você... — Murmurei pensativa, trocando o peso do meu corpo de um lado para o outro repetidamente.
— Confie em mim, eu não mentiria para você. — Garantiu com a sinceridade brilhando em suas íris acinzentadas. — Agora, por favor, peço gentilmente que me acompanhe. — Indicou sua sala com a mão, permitindo que eu fosse primeiro e assim eu o fiz.
Esperei que Samara fechasse a porta atrás de si, lançando-me com agilidade em sua direção quando estávamos completamente à vontade e fora de vista. Prensei seu corpo contra a enorme e elegante porta de mogno, deixando nossos rostos a insignificantes centímetros de distância. Aproveitei o calor que o momento exalava e rocei nossos lábios lentamente, movendo-os então de acordo com as batidas aceleradas de ambos os corações.
Seus braços logo entornaram a minha cintura, apertando-me com intensidade quando agarrei sua nuca e a beijei sem me preocupar em parecer afobada por conta do ato desesperado. Nossas línguas se tocavam desregradamente, arrancando suspiros abafados dentre nossos rostos colados. O calor entre as minhas pernas já estava começando a se espalhar por todo o meu corpo, instigando-me a tirar seu casaco às pressas.
— Você é incrível, sabia? — Suspirei com dificuldade quando sua boca se deslocou para o meu pescoço, sugando-o com força.
Puxei seu rosto novamente para voltarmos a nos beijar, escorregando então as minhas mãos sob o tecido fino de sua blusa e acariciando seu abdômen devagar, parando apenas quando senti os botões de sua calça jeans. Minhas mãos tremiam por conta do desejo ardente que fluía por todas as minhas partes sensíveis. Samara me empurrou para trás, sem sequer nos separarmos, e me guiou até a sua mesa.
— Droga! Eu quero muito você... — Sorri involuntariamente com o pensamento que acabou lhe escapulindo dentre os lábios colados aos meus.
Sentei-me na beirada da mesa, sentindo alguns empecilhos incômodos tocarem minha pele no processo. Samara logo percebeu meu leve desconforto e afastou tudo com as mãos, fazendo com que algumas pilhas de papéis e objetos caíssem no chão. Envolvi sua cintura com as minhas pernas e a puxei para o mais perto possível de mim. Minha calcinha, a essa altura, já estava claramente ensopada e tudo o que eu conseguia fazer era gemer baixinho em sua boca enquanto arranhava sua nuca.
Tateei todo o seu tronco com os dedos trêmulos à procura da barra de sua blusa, puxando-a para fora de seu lindíssimo corpo. Olhei atentamente para o seu sutiã preto, que contrastava perfeitamente com seu tom de pele, e suspirei satisfeita quando ela se afastou e me fitou profundamente nos olhos. Suas mãos subiram pelas minhas coxas lentamente, erguendo o máximo que pôde a minha saia, enquanto as apertava com veemência.
— Sam, precisamos ser rápidas. — Avisei quando ela tomou meus lábios outra vez, ferozmente.
Fiz menção de começar a me despir, mas Samara foi mais rápida e abriu minha camisa de uma só vez, estourando todos os botões com o ato extremo. Mal tive tempo de reagir e seus lábios vieram novamente de encontro aos meus, capturando meu lábio inferior entre os dentes e o puxando com força. Deixei um gemido rouco escapar ao senti-la afastar as minhas pernas, passando a ficar mais à vontade entre elas. Meu sexo agora latejava dolorosamente com o contato indireto de nossas intimidades e suas mãos correndo por todo o meu corpo.
— Em, você... — Respirou fracamente em meu ouvido, soprando o ar com dificuldade. — Droga! — Resmungou com o olhar cheio de malícia.
Sem dizer mais nada, arrancou minha calcinha com força e a jogou em qualquer canto. Ela pressionou uma de suas mãos nas minhas costas, apertando com firmeza nossos troncos e levando seus dedos ao meu ponto de prazer. Estimulava-me lentamente, torturando-me com as ameaças de me invadir por completo, do jeito que eu tanto almejava. Minha umidade apenas aumentou com os gemidos roucos que ela deixava escapar contra o meu pescoço, controlando-se para não me levar ao ápice muito rápido.
Enrolei seus cabelos levemente úmidos pelo esforço que fazíamos entre meus dedos e a puxei para um beijo desesperado, que em silêncio implorava por mais contato. Murmurei algumas palavras desconexas enquanto seu dedo se arrastava nas redondezas da minha entrada encharcada. Eu a queria dentro de mim e estava pronta para exigir minha vontade quando dois de seus dedos me invadiram sem aviso prévio e, portanto, sem delicadeza alguma.
Com a intenção de conter um grito, mordi seu lábio inferior com força total, sentindo o gosto de ferro preencher o interior de minha boca imediatamente. Cravei minhas unhas em seu ombro e as arrastei até seu pulso, sem me conscientizar do estrago que provavelmente lhe causaria mais tarde. Samara gemeu em decorrência da dor misturada com o prazer e, com isso, passou a se movimentar com veemência dentro de mim, sem poupar esforços, enquanto eu arranhava seus braços com a mesma intensidade imposta por ela.
— Sam... — Não contive um gemido alto quando senti suas investidas se intensificarem conforme alguns ruídos deleitosos escapavam de sua garganta. Ruídos de puro prazer e satisfação.
Ela tirou seu rosto da curva do meu pescoço e passou a observar meu busto, afastando a minha camisa para tocar meu seio por cima do sutiã. Seus movimentos diminuíram em mim quando tentou me livrar das duas peças de uma vez, impacientando-se com o fracasso. Fiz todo o trabalho de retirar minha camisa e meu sutiã, enquanto agora voltava a receber estocadas fortes e certeiras, concentrando-me para não gritar tudo o que estava preso em minha garganta.
— Amor... Eu quero gritar o seu nome. — Joguei as peças retiradas no chão, voltando a beijá-la com extrema dificuldade.
— Guarde sua vontade para mais tarde. — Sussurrou roucamente, arranhando minhas coxas com violência. — Em casa você pode gritar o quanto quiser. — Prometeu antes de descer com os lábios pelo meu colo, abocanhando meu seio esquerdo com vontade; certamente ali ficaria uma marca.
A sensação era única e pura; eu estava completamente fora de mim e os prazeres que me entorpeciam poderiam facilmente me guiar ao céu. Eu sentia como se algo estivesse prestes a explodir dentro de mim. E explodiu. Samara, num último movimento forte e profundo, fez com que meu corpo inteiro entrasse em estado de intenso êxtase e elevasse o gemido agudo que por pouco me escapou. Sua boca logo veio de encontro a minha, tentando conter o som de plenitude a tempo de chamar atenção desnecessária do lado de fora de sua sala.
Seus lábios se moveram ternamente contra os meus, esperando conseguir me acalmar depois de um orgasmo tão incrível. Apesar da respiração defeituosa e da fina camada de suor em nossas peles coladas, meu corpo ainda estava elétrico e a satisfação estava longe de surtir efeito.
— Você ainda está tremendo. — Samara sussurrou, segurando-me com firmeza pela cintura enquanto distribuía beijos suaves pelo meu pescoço.
— Eu ainda não estou satisfeita. — Retruquei no mesmo tom. — Agora eu quero você. — Escorreguei meus dedos dos seus ombros, descendo pela sua barriga lisa e arrepiada. Tentei desatar os botões de sua calça, mas sua mão me impediu de prosseguir.
— Mais tarde, eu prometo. — Ergueu o canto de sua boca num meio sorriso, aproximando-se logo em seguida para me beijar devagar enquanto acariciava meu pulso. — Agora se vista antes que nos peguem no flagra. — Afastou-se com um sorriso divertido, pegando sua blusa do chão e a vestindo conforme rumava em direção ao sofá de couro no canto de sua sala.
Terminei de colocar as minhas roupas, não dando muita importância a minha camisa destruída, e me joguei em seu colo, tendo seus braços me envolvendo carinhosamente enquanto eu distribuía beijos castos em seu rosto inteiro. Tínhamos acabado de fazer sexo em seu ambiente de trabalho... Em cima da sua mesa. Aquilo parecia tão inapropriado e, ao mesmo tempo, tão excitante, que eu cogitei a possibilidade de tentar repetir todo aquele ato no sofá.
— Aquilo foi bem incrível, não é? — Soprei em seu maxilar, mordendo-o logo em seguida. — É uma terrível lástima que estejamos com os dias contados... Provavelmente não conseguiremos explorar todo o prédio a tempo. — Pensei alto demais, assistindo a sua expressão de espanto e surpresa darem lugar a um sorriso divertido.
— Você vai sentir minha falta? — Perguntou baixinho, afastando algumas mechas de cabelo do meu olho com extrema delicadeza. — Porque tenho certeza de que vou sentir a sua.
— Eu vou sentir muito a sua falta! — Afirmei com sincera convicção. — Tanto que estou pensando em pular as minhas férias na Jamaica e ir direto para Nova Iorque ficar com você. — Saí de seu colo e me sentei ao seu lado, aninhando-me em seu corpo macio e delicado. — Mas não farei isso. Não quero que pense que sou grudenta, porque eu não sou. — Adiantei antes que ela pudesse dizer algo.
— Eu não costumo tirar conclusões precipitadas, Em. — Samara disse. — E, sinceramente, eu adoraria que você fosse à Nova Iorque assim que se formasse. Mas pense bem no que estará perdendo; a Jamaica é incrível. — Sorriu tristemente, causando a minha curiosidade.
— Você já foi?
— Uma vez. — Franziu o cenho com o olhar frio e distante, quase inalcançável. Senti um frio na espinha que me fez me aninhar ainda mais a ela. — Mas, de qualquer forma, eu quero prometer três coisas a você. — Seus olhos se voltaram para mim, depois de sacudir a cabeça para dispersar o que aparentemente a afligia. Tomou fôlego e logo continuou: — No meu último dia na cidade, prometo que teremos uma despedida digna e inesquecível, com muito amor e sexo; prometo também respeitá-la enquanto estiver longe, isto é, não vou olhar para outra garota que não seja você; e, por último, prometo que vou esperá-la em Nova Iorque. Ansiosamente.
— Então acho que estamos resolvidas. — Sorri amplamente, tendo a leve sensação de que meu rosto poderia se rasgar ao meio. — Eu prometo que serei uma boa garota enquanto estiver naquele resort.
— Ótimo! — Samara assentiu alegremente. — Acabamos de firmar um pacto, agora vamos selá-lo. — Aproximou-se devagar, segurando meu queixo entre o polegar e o dedo indicador.
Seus lábios tocaram os meus delicadamente, roçando-os de forma terna e profunda, enquanto suas mãos vagavam pelas minhas pernas, vez ou outra apertando com suave firmeza. Em seguida, afastou-se para analisar pela primeira vez o estrago que havia feito no que sobrou do meu uniforme; parou alguns preciosos instantes para observar o meu busto, que estava à mostra por conta da camisa inadequadamente aberta.
— Seu uniforme... — Começou hesitante. — Quanta indiscrição minha! Desculpe-me por isso. — Pediu com a voz suave, fazendo-me sorrir diante de tamanha doçura e cordialidade.
— Não se preocupe com isso. — Dei de ombros. — Eu tenho outros.
Samara sorriu aliviada, mas não hesitou em levantar para ir encontrar alguma coisa que me cobrisse decentemente. Pegou seu casaco perto da porta e me ofereceu, esperando que eu também me erguesse do sofá para que ela mesma colocasse em mim. Devagar e com cuidado, retirou minha camisa sem botões e completamente inútil para, então, vestir-me com seu casaco escocês favorito.
— Obrigada! — Agradeci com um sorriso encantado, encarando meu pulso com a pulseira de laços que ela havia me dado no meu aniversário. — Você é a pessoa mais amável e gentil que eu já conheci na minha vida.
— Fico feliz em ouvir isso.
Antes que eu pudesse me mover para mais perto de Samara, a voz excessivamente aguda de Hanna preencheu a sala inteira. Do lado de fora, ela ditava coisas ininteligíveis para alguém ao telefone. Apontei em direção à porta com a cabeça, estendendo a mão para que Samara aceitasse e me acompanhasse até onde estávamos há vinte minutos.
— Sim, Amanda falará com você. — Escutei claramente Hanna dizer quando me aproximei dela. Ela apertou um botão no telefone de uma das assistentes de sua chefe, provavelmente transferindo a ligação para a sala da própria.
— Quem é? — Samara quis saber, aproximando-se da mesa de Hanna e apanhando alguns catálogos.
— Sabine McCartney! — Respondeu rapidamente, dando pulinhos animados. — Mal posso acreditar que acabei de falar com uma das minhas estilistas favoritas! — Confessou visivelmente emocionada, o que fez Samara rir e eu logo acompanhá-la.
— Espere um pouco. — Pedi depois de um instante. — McCartney não é o sobrenome de Mel?
Samara pareceu surpresa com a pergunta, como se isso fosse algo que eu não devesse mais me lembrar. Arqueei as sobrancelhas ao perceber a tensão engraçada que seus músculos adquiriram, enquanto Hanna também pareceu notar.
— Sim, é. — Confirmou. — Sabine é mãe de Melanie. — Deu de ombros, passando os olhos pelos catálogos atentamente.
— Bom saber. — Mordi o interior da minha boca, ponderando algo em minha mente.
Hanna foi chamada outra vez pela Sra. Montaigne, deixando-nos sozinhas com as outras funcionárias que pareciam concentradas demais em seus trabalhos para prestar atenção em nós duas. Graças a Deus que o turno das fofoqueiras sem noção da parte da manhã já havia acabado horas antes. Aproveitei-me dessa vantagem para me aproximar de Samara, ficando a alguns passos de distância dela.
— Diga-me uma coisa... É impressão minha ou você não gostou quando eu toquei no nome da Mel? — Perguntei casualmente, atenta a cada movimento dela.
— Não, eu só... — Interrompeu-se com certa indecisão.
— Você o quê?
— Eu só não me sinto confortável. — Respondeu. — Você ficou com ela, Em!
— Ciúmes?
— Talvez. — Fitou-me de cenho franzido. — Sim, ciúmes. — Suspirou após um momento, derrotada.
— Não pensei que fosse ciumenta. — Ri bobamente, balançando a cabeça devagar.
— Por que não? — Quis saber. — Acredito que ciúmes seja algo natural quando se gosta de alguém. — Acrescentou profusamente, sentando-se na beirada da mesa de Hanna.
— Talvez. — Dei de ombros, baixando a cabeça por um instante e refletindo; eu também era um pouco ciumenta e estava me fazendo de desentendida. — Na verdade, você está certa.
Samara riu e me puxou para seus braços subitamente, abraçando-me apertado enquanto enterrava seu rosto em meu pescoço. Ela murmurou algumas palavras que eu não entendi muito bem e depois se afastou, ajeitando delicadamente a gola de seu casaco em mim. Seu sorriso logo desapareceu quando algo além de mim puxou sua atenção, segurando meu braço com o rosto perturbado.
— Emily, eu sinto muito. — Ela me soltou devagar e, então, alguém surgiu ao meu lado. — Madison. — Samara forçou um sorriso, mas eu podia claramente ver sua agonia através dos seus olhos. — O que está fazendo aqui?
Virei o pescoço em direção à mulher que estava parada bem ao meu lado, olhando fixamente para Samara. Ela tinha a mesma altura que eu, corpo delicado e esbelto igual a de uma modelo e uma beleza tirada de alguma atriz de Hollywood. Sua postura era tão ereta e elegante que fez com que eu me questionasse se ela também não vinha de algum meio artístico — ou de alguma família nobre.
— Bem, você saberia se tivesse respondido aos meus e-mails ou retornado as minhas ligações. — Respondeu sarcasticamente com um inegável sotaque irlandês. Então, virou-se para mim. — Olá. Eu sou Madison Cook. — Estendeu sua mão em minha direção, aceita por mim com as sobrancelhas enrugadas.
— Cook? — Encarei Samara com a mesma expressão de quando a sua madrasta se apresentou naquele brunch de domingo.
— E você deve ser a garota que está tendo um casinho com a minha mulher. — Disparou logo em seguida, soltando a minha mão com calma.
Encarei Samara mais uma vez, implorando internamente para que ela dissesse que aquilo era mentira, que tudo não passava de uma brincadeira... Mas, ao invés disso, ela engoliu em seco e fechou os olhos com força. Imediatamente as minhas pernas ameaçaram sucumbir e minha respiração se tornou irregular. O chão havia acabado de ser arrancado dos meus pés. Apenas uma coisa era certa dentro do turbilhão de pensamentos desconexos: Samara era casada.
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