Estava Escrito - Cobrade
4 Capitulo 4 - Enfim Rio de Janeiro
Notas iniciais
Eu já estava absurdamente cansado quando avistei uma placa que dizia "Rio de Janeiro a 5km". — GRAÇAS A DEUS. — falei batendo as mãos ao volante. Olhei ao GPS e vi que dali até a academia ainda tinha 40km. Já passava das nove da manhã, a fome e o sono me destruíam, mas eu não ia parar. Eu precisava chegar rápido à academia.
Olhei nas placas de endereço localizadas nas ruas e vi que já estava no Catete, o bairro da academia. Lembro que o mestre havia falado que a academia ficava em frente a uma praça.
– pelo GPS deve ser essa. Agora cadê a academia? — avistei bancas de revistas, lojas, restaurantes, e uma tal de ribalta. Desci do carro e avistei uma senhora de cadeira de rodas em uma banca de revistas.
– ai, a senhora sabe onde fica a academia do mestre Gael?
– atrás de você. O cartaz da ribalta esta tampando a fachada da academia. — ela disse enquanto arrumava alguns jornais.
– há sim, obrigado. Não tinha visto. — eu falei dando as costas.
– se fosse uma cobra te picava rapaz. — ela disse ironizando.
Me virei com um sorriso mais irônico ainda ao rosto. — poderia até ser, só que no caso quem é a cobra aqui sou eu.
– pela educação estou percebendo mesmo.
– obrigado. Mas então Dona... — dei uma pausa esperando que ela falasse seu nome.
– Dalva, dona Dalva. — ela disse já com tom de quem estava sem paciência.
– a senhora sabe de algum serviço ou lugar pra ficar? Acabei de chegar no Rio, sabe como é.
– Sei, sei. O QG está precisando de Vigia, até onde eu sei você pode trabalhar e morar lá. — ela disse apontando para o local. — agora se você me dá licença eu tenho mais coisas pra fazer. — ela disse virando sua cadeira de rodas.
– ok. — dei as costas e sai.
Deixei o carro estacionado ali mesmo, o QG era a poucos passos dali. O QG era uma mistura de lan house, casa de jogos, e loja de materiais para luta. Algo bem único. Por coincidência o dono estava na loja, conversei com ele e por sorte acabei sendo contratado. Acho que ele havia gostado do fato de um lutador vigiar a loja dele. Já começava a trabalhar no dia seguinte. Porém já podia começar a me instalar naquele momento mesmo.
Peguei Minhas coisas no carro e coloquei tudo no fundo do QG, era pequeno. Algumas prateleiras, dois colchões, um banheiro e um pequeno espaço para treinar. Estava ótimo, eu não precisava de mais que aquilo. Meu próximo passo agora era ir à academia.
A porta dela estava cheia, no andar de cima estava tendo seleção para umas aulas de teatro,dança, canto, essas coisas de gente fresca. Tentei fugir daquela multidão e dei de cara com os troféus do mestre. Eram vários, um mais bonito que o outro. Não conseguia entender o porquê dele ter abandonado tudo. Continuei andando e avistei algumas pessoas treinando no tatame. Fiquei um tempo observando de longe e vi que algumas pessoas bajulavam demais um cara que estava chutando o saco, e que por sinal ele estava chutando muito mal. Não aguentei, tive que ir bajular também, só que não.
– precisa de três caras pra segurar um saco enquanto ele chuta? Isso que eu chamo de uns verdadeiros puxa saco. — eu disso com um sorriso irônico ao rosto.
– hahaha que engraçadinho você. Teste para palhaço é no andar de cima. — o cara que chutava o saco falou enquanto me "fuzilava" com os olhos.
– gostei do seu senso de humor, pelo jeito eu não sou o único palhaço daqui. Já fez o teste? — olhei firmemente bem nos olhos dele, eu queria desafiá-lo.
– bem folgado você em. — ele disse enquanto deva pequenos passos em minha direção.
– deixa ele Duca, deve ser um desses alunos de teatro metido a fodão. — um amigo dele com um sotaque baiano falou enquanto o puxava levemente pelos ombros.
– se enganou, não sou do teatro. Sou o novo aluno aqui da academia. Já estou me sentindo em casa, sabia? Sinto que vou ter muitas emoções aqui. — eu disse cruzando os braços.
– fala sério, esse folgado vai treinar aqui? — o de sotaque baiano falou.
– relaxa Marcão, vamos fazer igual você mesmo disse. Vamos deixar ele. — Duca disse saindo, levando consigo os outros três.
Sai dali com sorriso ao rosto, meu passatempo preferido era atormentar e desafiar as pessoas. E pelo o que percebi havia acabado de encontrar meu alvo favorito. Continuei andando pela academia até que escutei alguém me chamar.
– ei você! O que está fazendo na minha academia? — era o mestre Gael, que certamente não havia me reconhecido.
– calma mestre, sou eu, Ricardo Cobreloa. Conversamos por email, lembra?
– há sim, perdão. Não o reconheci. — ele disse batendo em meu ombro. — você trouxe seus documentos para oficializar a inscrição ?
– trouxe sim, está tudo aqui dentro deste envelope. — entreguei o envelope de cor escura ao mestre, dentro havia toda a documentação necessária e o valor da primeira mensalidade. — o dinheiro também está aí.
Ele olhou tudo e sorriu. — bem vindo a equipe Gael, Ricardo.
Olhei em volta e vi que Duca e companhia me encaravam. Olhei para Duca, bem nos olhos dele, arquei minha sobrancelha esquerda como um sinal de desafio. Ele respirou fundo deu as costas e saiu.
– Ricardo se...
– Cobra, me chame de Cobra. — disse interrompendo o mestre.
– COBRA, se você quiser iniciar os treinos agora, pode ficar a vontade.
– valeu mestre, mas dispenso. Preciso dormir, amanhã eu começo.
– Está certo. Precisa descansar mesmo.
– poise. Então mestre, vou nessa. Estou muito cansado. — falei já dando as costas.
O mestre se despediu. Sai da academia e avistei um carrinho de sanduíche, passei lá e comprei um. Fui para o QG e passei direto para os fundos. Comi rapidamente e me joguei ao colchão. Logo adormeci. Era umas nove horas da manhã do dia seguinte quando acordei. Escovei os dentes, vesti uma roupa para o treino e fui à academia. Ainda na loja vi um cara trabalhando, era o mesmo que estava ontem. Ainda não havia conhecido ele.
– ai cara, segura as pontas ai que estou indo treinar. Rapidão to aqui. — falei já passando por ele.
– Ta ne. — ele disse.
Chegando na academia não avistei o mestre, avistei uma garota muito bonita no escritório. Resolvi ir lá.
– ai, o mestre está aqui hoje não?
– não. Ele saiu, hoje quem está dando a aula é o Duca.
– aquele babaca dando aula? Ta de brincadeira né?
– não, não estou. E pra sua informação ele é meu namorado, então acho bom não falar assim dele. — ela disse se levantando da cadeira.
– calma princesa, não precisa ficar nervosa.
– meu nome é Bianca. — ela disse transbordando de raiva.
– e o meu é Ricardo Cobreloa. Mas vou deixar você me chamar de Cobra, por que com mulher bonita eu já tenho intimidade. — falei sorrindo.
– você é um idiota sabia? Quer fazer o favor de sair daqui? — ela disse indo em rumo à porta.
– relaxa Bianca, estava apenas brincando. Meu senso de humor é ótimo. Já estou de saída, tchau. Há, foi um prazer. — eu disse fechando a porta lentamente.
– tchau, vai logo.
Fui para o tatame e vi Duca, ele estava dando uma aula mais teórica, entediante.
– ai, que sem graça. Pensei que o treino seria pancadaria. Não ficar conversando. — falei enquanto colocava as ataduras.
– você fala demais Cobreloa. Fica ai falando essas coisas mas deve apanhar, e muito. — Duca disse sorrindo.
– está me desafiando Duquinha? Saiba que no tatame eu me garanto muito bem.
– está muito marrento para quem está no primeiro dia de treino. Não acha? — ele disse colocando as luvas.
– Não, não acho. Mas já que vc pensa assim, o que vai fazer? — disse colocando as luvas também.
– você não queria aula pratica? Então vamos. Vamos esquentar esse treino.
Ouvi todos gritarem agitando a luta que iria começar, já estava sentindo falta de bater em alguém. Em volta de nós se formou uma roda. Tocamos as luvas e começamos a lutar. Fiquei na defensiva por uns dois minutos, analisando seus golpes. Ele era lento, e deixava muito espaço aberto. O ataquei, comecei a da socos em seu rosto, socos seguidos de chute. Ao fundo ouvia os gritos de animação de quem assistia. Olhei rapidamente para escada e vi que o pessoal da Ribalta estavam lá, assistindo a luta.
– PAREM COM ISSO, AGORA! — mestre Gael já chegou me jogando para um lado e o Duca para outro.
– Mestre a gente estava apenas treinando. Nada mais que isso. — Duca disse tirando as luvas rapidamente.
– é mestre, era apenas um treino. Uma demonstração para o pessoal. — eu disse me vitimizando.
– as coisas aqui não funcionam assim Cobra, acho bom ser a primeira e a ultima vez. — o mestre disse com um tom muito alto e apontando o dedo para mim.
– e você Duca, treina aqui a tantos anos, praticamente um filho pra mim. Que explicação me dá para essa molecagem? — me desculpa mestre, eu não sei onde estava com a cabeça. Não foi minha intenção, de verdade. Prometo que isso não irá se repetir. — Duca disse de cabeça baixa.
– acho muito bom mesmo. — mestre disse batendo a mão no ombro de Duca. — agora eu quero ver todo mundo voltando a treinar, vamos, vamos. Quer moleza mastiga água cambada.
Todo mundo foi voltando a treinar. Eu fui para um saco e comecei a da socos. Fiquei ali por mais uns 40 minutos e fui embora. Cheguei no QG tomei um banho, vesti uma calça preta é uma camiseta vermelha, calcei um tênis e fui para o balcão.
– ai cara, se quiser ir treinar eu cuido da loja agora. — eu disse para Tawik. Afinal, esse era o nome do meu parceiro de trabalho. Que por coincidência também treinava na academia do mestre Gael.
– nossa, eu vou mesmo, estou precisando. Sabe se virar aqui né?
– dou meu jeito, pode ir lá.
– beleza. — ele disse pegando sua mochila e saindo rapidamente do QG.
Fiquei ali olhando o movimento, arrumando as coisas. Algumas pessoas entravam e saíam, Várias musicas começavam e terminavam. Peguei meu celular e comecei a mexer no facebook, até que de repente alguém entrou no QG.
Uma morena, parecia uma miss, sua pele clara porém levemente bronzeada, seu short curtinho, suas pernas grossas. Uma deusa, e que deusa. Ela abriu o freezer e pegou uma garrafa de água mineral. Colocou em cima do balcão e abriu sua bolsa, e eu? Eu a analisava dos pés a cabeça.
– quanto custa mesmo? — ela disse mexendo no cabelo e me encarando com um olhar sedutor, seus olhos hipnotizavam, aliás, seus olhos, suas pernas, seu decote. Ela sabia que eu a analisava e ela estava se sentindo.
– dois reais. Só isso mesmo?
– depende, o que você tem a me oferecer além dessa água? — ela entregou uma nota de dois reais, fechou a bolsa e continuou me encarando.
– que tal o vendedor? — eu disse me apoiando ao balcão.
Ela deu um sorriso com ar de desdenho, mexeu no cabelo, olhou bem nos Meus olhos e foi andando em rumo a saída. Quando chegou na porta virou para trás e disse:
– quem sabe, vendedor. — e saiu.
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