Estórias de Colégio

5 Capítulo 5 - Olhos


Firmei os dedos nas hastes dos óculos e o removi com cuidado. Um turbilhão envolveu meus olhos e agora eu entendia o que estava acontecendo. Estava fácil aceitar o que estava acontecendo. As visões encheram minha mente. Agora mais claras e perfeitas. Sim, pareciam reais. E agora, eu via tão claramente como se tudo estivesse acontecendo em minha frente. Tudo.

Era tão perfeito que eu me sentia lá. Era o colégio, num dia ensolarado. Mas o tempo mudava repentinamente. O céu empretecia, os trovões roncavam e o mar recuava. Recuava até demais! Só que depois disso... As visões viraram vultos. Vultos que eu não entendia! Apenas entendia o local. O colégio! Mas o que estava acontecendo? Antes eu via o desespero, via minhas amigas, me via atormentada! Mas agora, eu não via ninguém. Do nada, uma voz macia saiu por trás das visões.

- Seu futuro está incerto! — A voz de veludo por trás das visões deixava tudo mais confuso. A última coisa que eu vi, ou melhor, \"ouvi\" dentro das visões, foi um ronco muito forte, um motor talvez. Assim como se estivesse acordando, minha visão foi voltando ao normal. Mas eu tinha certeza que NÃO ESTAVA NORMAL! Eu vi a moldura do rosto dele. Um rosto perfeito! Depois, o rosto foi definindo. Primeiro a boca, com traços perfeitos, o nariz, fino como o de um galã de novela das oito. Talvez melhor. Depois, os olhos. O que é isso? Meu Deus! Não existem palavras que descrevam o que vi. Eram de uma cor... Um azul nas extremidades, que virava verde e depois um mel, que parecia cair como cachoeira pela pupila preta tão penetrante. Era um azul mais perfeito que o céu e o mar. Um verde tão penetrante, que perto dele, as árvores murchariam. Um mel tão transparente, que faria qualquer abelha destruir sua produção. Seus olhos tinham uma mistura de cores que nunca nenhum pintor sonhou em conseguir. Nos seu olhos, eu podia sentir a água do mar, o vento do céu, o orvalho das árvores, o doce mel das abelhas. Um olho tão lindo, que nem a mais cara lente atingiria tão grande perfeição. Eu estava hipnotizada. No mundo para mim, não existia mais nada. Não existia mais céu, não existia mais chão, não existia mais a humanidade. Apenas duas íris, que me dominavam por inteira. O que está acontecendo? Eu não consigo me mexer... E eu quero me mexer? Como me libertar... E eu quero me libertar?... Onde eu estou... Eu quero saber? Permaneci imóvel, diante de tão grandes olhos, de tamanha perfeição! Meus devaneios foram interrompidos, quando uma vibração começou ao meu lado. As íris perfeitas agora fugiam de mim olhando pro lado. Não, continue!Volte aqui... Quando as íris se desviaram, voltei a realidade. Ele olhava pra minha bolsa. Percebi suas maçãs do rosto vermelhas.

- Seu celular. — Ele disse enquanto tentava tirar seu óculos das minhas mãos. Eu seguia seu rosto como um ímã. Eu percebi que isso fazia suas maçãs corarem mais ainda. Percebi o papel de idiota que eu estava fazendo e olhei pro lado, futucando a bolsa e procurando o celular. Maldito celular. Era uma chamada de casa. Uma olhada pro relógio e eu percebi que passavam das duas e eu não havia informado pra casa que ia demorar pra chegar.

- Alô?

- Poly, cadê você? — A voz de Jussara pelo outro lado era preocupada. E eu podia jurar que escutava minha avó se perguntar onde eu estava...

- Eu me atrasei um pouco, mas já estou chegando...

- Tá bom!

- Tá certo Jú... Beijo.

Desliguei antes de escutar ela falar alguma coisa. Mas minha pressa não adiantou nada. Ele já tinha colocado o óculos no lugar. Que ódio! E já tinha se afastado mais de mim. Que ódio ao quadrado!

- Bom, acho que já vou. — Disse aquela voz aveludada a minha frente. Não, por favor... fique... e tire seus óculos!!!! Meu eu interior berrava por isso. Mas a única coisa que consegui dizer foi:

- Tudo bem. — Abaixei minha cabeça e fiz um bico. Depois me deu um estalo.

- Por falar em ir... Como você chegou aqui tão rápido?

- Ah! — Ele arfou e depois sorriu.

- Quer ver?

- Sim... Quer dizer, você não vai sair daqui voando, ou teletransporte...

-Há Há... Essa foi boa. Chega de aberrações para uma pessoa só não acha?

Ele pegou em minha mão e me guiou novamente. Agora, eu sedia ao seu braço forte e tentava me colocar o mais próximo possível dele. Andamos pelo estacionamento até o último carro. Era um carro do condomínio e eu não vi nada novo no pedaço. Nos aproximando mais, vi que algo brilhava pelo outro lado do carro. Um brilho diferente. A medida que chegamos mais perto, o brilho ia se intensificando. Ao passar pelo carro, eu tive a visão mais linda que alguém já pode ter. Lá estava o sonho de consumo de qualquer pessoa! A máquina mais perfeita que eu já vira.

Notas finais
comentários por favor! Preciso saber a opinião de vocês sobre essa história!