Estórias de Colégio
1 Capítulo 1 - Problemas
Era mais um dia normal no meu colégio. Pelo menos, era pra ser... Se não fosse pela velocidade que as palavras se espalhavam pela folha de papel. Palavras que eu não tinha muita consciência de que realmente deviam ser escritas. Apenas saiam em um turbilhão. Pra falar a verdade, eu nem sabia o que estava escrevendo, sem por que estava escrevendo. Apenas sabia para quem estava escrevendo. Por que escrever?? Porque eu não rasgo logo esse papel e deixo tudo como está?? Mas que droga! E agora, as palavras já saiam por osmose. Sem eu ao menos perceber, já estava no fim da folha, sem ao menos parar para reler. Enfim, parei. Dei um suspiro e olhei o papel. Não, não podia ler, não podia me arrepender de nenhuma palavra ali escrita. Todo meu tormento tinha que ter um fim. Fiquei prostrada na frente do papel por um bom tempo, até que em apenas um movimento, já estava dobrando o bendito papel. Pensei em colocá-lo dentro do bolso e esquecer que ele existe. Ou então esquecê-lo dentro do módulo ou do caderno, para que eu o esquecesse por um bom tempo. Mas não. Agora, eu olhava a sala, esperando que um olhar se encontrasse com o meu! E se encontrou. Lá estava ela, sentada, esperando a sua missão. Gabi era a pessoa com quem eu contava para essa missão. Ela conhecia a história. Conhecia o motivo da carta. Mas o seu olhar... Não precisei de muito tempo para decifrá-lo. Ela tinha nos olhos as mesmas perguntas que eu tentava apagar. Mesmo assim, não dei ouvidos aos seus olhos. Assenti uma vez com a cabeça e ela entendeu. Veio para meu lado e eu lhe entreguei o papel.
- Tem certeza? — Perguntou ela, o papel agora dividido entre nossas mãos
- Sim. — Soltei o papel, mas ele não se deslocou. Continuou ali como se minha mão ainda o segurasse.
- Mas por que Ap?
- Não tente entender Gabi. Apenas faça isso por mim. — Eu não olhava pra ela. Tinha medo que seus olhos tão persuasivos me convencessem. Ela não disse nada mais. Apenas sumiu entre os gigantes da sala (Matheus e Max). Mas eu sabia que, apesar de não concordar, ela faria o que lhe pedi. Meus pensamentos tão confusos foram interrompidos por um estalo. As mãos de Luis ainda estavam na minha frente quando acordei dos meus devaneios.
- Acorda Ap! — Luis falava num tom de zombaria, afinal, eu sempre estava assim. Não pelo mesmo motivo, e, por sorte, Luis não perceberia. Mas eu realmente não estava com sorte. Como eu nada falei, os devaneios voltaram a me perseguir. Dessa vez, um pouco mais forte, o estalo invadiu meus ouvidos.
- Ana P! — Seu tom não era mais de zombaria e sim de preocupação. Infelizmente ele tinha percebido. E o que eu menos queria era mais alguém percebendo meu estado. Não, eu já tinha problemas demais!
Felizmente tapeei Luiz e todos os outros que por um caso notaram minha expressão. Por incrível que pareça, tive muita sorte por não ser chamada na aula, pois, não estava com os pés no chão. Meus olhos vagavam no infinito da minha imaginação enquanto eu via as cenas... Que eu preferia esquecer. Mas não, não queria pensar naquilo. Queria sair da sala... Sair do colégio, do mundo talvez. Mas não. Estava presa. Na sala... No colégio... No mundo! O sinal tocou. Talvez lento demais pra quem queria fugir dali. O tempo se arrastava por cima de mim e com ele, minha paz. Porque eu não conseguia pensar? Não conseguia falar?? Andei para fora da sala, querendo correr, mas eu estava andando... Infelizmente. Passei pelo corredor. Nada de mais. Passei o quiosque, o anfiteatro. Não sabia para onde ir. Infelizmente, ou felizmente... (não sei ao certo definir) Lucas apareceu agarrado com Isa. Os dois felizes demais para contrastar com minha face inexpressiva. Conhecendo-me mais do que eu mesma, Isa sabia que eu tinha um problema. Mas envolvê-la nesse problema seria uma boa??
- O que foi binha? — Demorei a responder. De repente meu coração disparou. E agora?? O que responder?? Ela merecia saber ou merecia ser preservada para o seu próprio bem?? Não respondi.
- Binha? — Seu olhar agora penetrava os meus com uma força que me deixou constrangida. Balancei a cabeça e coloquei um sorriso forçado no rosto. Não deu muito certo mas...
- Oi... Tá tudo bem sim... Não é nada! — Novamente seu olhar me fuzilou. Finalmente raciocinei a ponto de evitar um turbilhão de perguntas.
- Está tudo ótimo binha... Quanto tirou na prova de geografia?
- Veeey, me ferrei!... — Agora ela disparava sua nota, a nota da sala, o que o professor falou e mais milhares de informações. Conversamos besteiras até o fim do intervalo. Não precisava pensar muito nesse tipo de conversa com Isa. Ela parecia que sabia a hora de conversar sério e conversar besteira. E nessa segunda opção, ela era ótima! Fui para a sala e sentei no lugar de sempre. Agora, parecia que minha vista estava mais relaxada. Conseguia enxergar a todos ao meu redó. O trio Carol, Ramiro e Laíse conversando, Lucas Carioca e Carlos abestalhados como sempre... Max...
- Ap! — A voz doce de Gabi suavemente penetrou meus ouvidos. Mas eu sabia o que ela queria falar
- Diga — Foi o melhor que pude responder
- Já fiz o que você pediu
- Obrigado!
- Mas Ap, isso é sério!
- Não Gabi... Não é sério... É arriscado!
- Arriscado porque? Eu te ajudo e você nem esclarece as coisas!
- Olha, é melhor que você não fique sabendo! Para o seu bem.
- PORQUE??
- Gabi... — De repente, a voz de Hamilton (professor de Química) soou na sala. Olhei para ela e ela não gostou de ter ouvido a voz de Hamilton. Isso significava que a conversa ia ter que esperar. E agora, ela sabia que eu ia ser mais cautelosa com o assunto. Ninguém que já sabia alguma coisa podia saber mais. Era um segredo de Estado. E eu deveria levá-lo apenas comigo e com quem está envolvido nessa! O dia está chegando e quanto mais eu me prender no meu mundo solitário melhor. Assim, não magoaria as pessoas que importam na minha vida. E Gabi não merecia se machucar com isso. Mas como conseguir essa façanha? Estava difícil sair dessa situação sem magoá-la... Mas tenho certeza deque de todo segredo, essa deveria ser a pior parte! Mas eu tinha de conseguir!
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