Essence

5 Capítulo 5


Meu pai apareceu em meus sonhos. Há muito tempo isso não acontecia. Diferente de todos os sonhos, nesse a cena que eu encontrei na sala de estar era outra. Ele segurava o pescoço da Alice mas não havia faca nenhuma em sua mão. Ele estava sóbrio. Pegou a Alice no colo e passou a mão em seu pelo, soltando até um sorriso discreto. Alice ronronou de felicidade e depois, quando ele parou, ela pulou do colo dele e veio em minha direção. Esperei ela vir lamber meu dedos, o que eu adorava quando pequena porque fazia cócegas, mas ela estranhamente saiu voando do colo dele direto para o meu rosto, não sei se para me atacar ou brincar comigo mas abri meus olhos bruscamente com o susto.

Alguém balançava meus ombros. A claridade da lâmpada do poste me cegou. Fechei os olhos novamente e levei a mão ao rosto.

- Ei.

Alguém disse. Eu conhecia aquela voz.

Tirei a mão e tentei forcar no rosto que estava do meu lado.

- Quem é você? Eu disse, sentando e me afastando. Olhei em volta e eu continuava no beco, deviam ter se passado 2 horas no máximo, ainda estava escuro.

Ele sorriu. Era um homem, eu conseguia diferenciar agora.

- O drogado de ontem, você deve lembrar. Você está bem?

Tentei olhar direito para o rosto dele.

Não era possível.

Ele estava totalmente diferente hoje. Com uma camisa limpa, calça e tênis. Parecia mais jovem. Limpo. Ainda com o corpo magro de quem passou algum tempo se recuperando, mas não dava pra acreditar que era ele.

- Ah. Foi o que eu disse.- O que houve com você? Ele disse, sentando ao meu lado no chão.

Só agora percebi que ainda estava distante e em posição de defesa. Sentei e minha cabeça doeu, então coloquei a cabeça entre os joelhos e falei:

-Não sei... Fiz uma pausa. Quando passei a mão na testa, tinha sangue.

- Não é nada que algum médico possa resolver. Eu disse, por fim.

- Mas olhe pra você! Falei, apontando para as roupas limpas.Ele sorriu.

- É, resolvi seguir seu conselho. Ontem foi minha primeira recaída depois de um ano e meio. Minha família perdeu um ente querido e isso foi demais para todos nós e, você sabe.

- Fico feliz por ter ajudado. Eu disse, tentando estancar o sangue de minha testa.

- Mas o que você faz aqui?

- Eu não consigo ficar na casa de minha família com todo aquele peso da tristesa, e sempre que saio fico vagando por aí e por acaso achei você, desmaiada. Ele disse, olhando para minha testa.

- Tem certeza que você não quer que eu te leve para um hospital ou algo assim?

- Por que eu deveria confiar em você? Eu falei, pensando realmente no que eu tinha dito. Afinal, um drogado jogado num beco não é alguém que se deva confiar de primeira. Ele riu.

- Realmente, por que você confiaria em mim? Meu nome é Rafael, eu tenho 18 anos e moro a 4 quadras daqui, caso eu te sequestre e você queira saber onde está, pelo menos. Morava com minha avó até ela ir pro asilo, e agora moro com 2 colegas de quarto. Tenho um gato chamado Gale...

Gato. Um gato, ele disse. Minha cabeça começou a girar novamente, respirei fundo e falei.

- Ok, ta bom. Eu aceito sua ajuda.

Ele me ajudou a levantar e eu fui apoiada em seu ombro até o carro dele. Exitei em entrar mas eu não tinha muita opção. Entrei e ao chegar no hospital eles me levaram para fazer uma tomografia. Limparam meu ferimento e eu pedi o celular dele emprestado para ligar para minha mãe. Ela merecia saber como eu estava.

- Mãe? Mãe, sou eu. Você está me ouvindo?

Ela gritava, mas ainda sim o som de uma batida forte e pessoas conversando era mais alto que sua voz.

- MÃE! Gritei, já irritada. Ela sabe que eu nunca ligo e se eu estou ligando é porque algo aconteceu. Ela continua gritando e eu também até que desisto e desligo o celular.

Rafael está sentado no canto do sofá me observando sentada na maca, já de alta, estressada com a minha mãe. Jogo o celular para ele e me deito. Respiro fundo e tento relaxar. As vezes não dá pra entender minha mãe.

- Olha, se você quiser eu te levo pra casa...

Pensei bem e cara, ele acabou de pender algum ente querido, e além de ser um desconhecido, já fez demais me trazendo pro hospital.

- Não, não precisa você já fez demais me trazendo para cá, e você tem a sua família em casa...

- Não, sério, eu não pretendo voltar para casa tão cedo, e hoje é sexta, ainda são duas e meia da manhã, a noite vai ser longa...

Eu virei para ele e fiquei encarando-o.

Eu não acredito.

Era ele quem eu estava procurando esse tempo todo e eu não percebi. Era ele quem tinha tantas fragilidades quanto eu, e quem estava disposto a ajudar e receber ajuda. É, e sempre foi ele de quem eu precisava.