Essence
6 Capítulo 6
Levantei da maca sem ligar para a tontura e corri para o sofá, sentei ao lado dele, sorridente.
- Certo, eu meio que tive uma ideia.
Ele se virou para mim e cruzou os braços, esperando.
- Você disse que a noite vai ser longa, não é?
- Sim? Ele concordou, sem entender.
- Então, o que especificamente você faz...? Eu falei, meio tímida. Eu não queria ir pra casa muito menos continuar aqui, e agora que percebi que ele era a pessoa certa para me ajudar eu precisava me aproximar dele. Era estranho eu querer me intrometer na madrugada dele mas não custa tentar.
- Eu não tenho um lugar específico, só saio por aí e decido na hora para onde eu vou. Ele parou. — Por acaso você não está pensando em ir comigo, não é? Ele franziu a testa.
- Ah, por que não? — Eu parecia uma criança de tão empolgada.
- Eu acabei de te encontrar desmaiada no chão com a cabeça sangrando e você quer sair para a "noitada"? Ele sinalizou as aspas e eu ri.
Fiquei calada sorrindo esperando que ele concordasse. Dois minutos depois de pensar ele falou:
- Olha, tudo bem mas eu tenho uma condição. Você vai ter que me contar porque estava chorando naquele dia no beco. Ele falou, sério. Pensei por um segundo, e se ele iria me ajudar de verdade, tinha que saber da minha história. Percebi que ele seria a primeira pessoa a saber de tudo. Será que ele era realmente a pessoa certa? E se não fosse, ele iria me entregar ou me chamar de louca, algo assim? Respirei fundo e disse:
- Tudo bem, agora vamos!
Saímos do hospital e entramos no carro dele. Quando fechei a porta do banco de carona ele falou:
- E sua mãe?
Ok, eu tinha esquecido dela. Mas depois disso tudo, ela nem retornou a ligação então não deve estar nem ligando para mim.
- Não tem problema ela não vai ligar.
- Ok. Ele falou e pisou no acelerador.
- Para onde você quer ir? Perguntei.
Ele pensou e de repente sorriu.
- Você gosta de dançar?
Parei para pensar nisso. Eu nunca tinha experimentado nada assim.
- Para falar a verdade, eu não sei. Falei, rindo.
- Então agora você vai descobrir.
Ele falou e começou a zigue-zaguear por entre as ruas.
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Paramos em um estacionamente vazio, de frente para um salão de dança aparentemente abandonado. Saímos do carro e ele foi em direção a porta dos fundos. Segui ele enquanto ia observando a parte de dentro do salão pelas paredes de vidro e cara, era ENORME.
Ele chutou o canto da porta, bateu em outro e pumf, estava lá metade da porta de madeira aberta. Tivemos que rastejar para entrar mas valeu a pena.
- Sinta-se a vontade. Rafael falou e sumiu no meio da escuridão.
Meus olhos provavelmente estavam brilhando agora. Aquilo alí tinha uma energia absurda. Só de imaginar a quantidade de gente que já botou os pés por aqui... Passei a mão pela barra de ballet que ficava de frente para o espelho. Eu não sabia o que ele disse exatamente com "dançar" mas eu tinha que estar preparada para tudo. Tentei fazer algum tipo de alongamento ou algo assim esticando minhas pernas na barra. Depois alonguei os ombros e por fim a coluna, tocando com as mãos as pontas dos dedos. Levantei a cabeça quando um som de música clássica começou a tocar mas antes que eu pudesse reagir a música mudou e Rafael apareceu, rindo.
- Te assustei, não é? Música clássica, urgh. Ele fez uma careta. A medida que ele ia se aproximando de mim percebi que ele havia mudado de roupa. Tinha um boné na cabeça e calças largas, agora trajava um tênis diferente.
Uma música de hip hop começou a ecoar por todo o salão e ele parou na minha frente. A música fez um pausa. Assim que ela voltou a tocar ele começou a dançar. Rafael voava pelo salão exibindo passos que eu nunca imaginei que fosse ver alguém fazendo na minha frente, além da televisão. Ele girava com a cabeça no piso e as pernas no ar, fazia movimentos robóticos e acobracias com o boné. Sentei no chão, perpléxa.
Ele percebeu que eu estava imóvel e veio em minha direção, tirou o boné da cabeça e colocou na minha.
- Agora é sua vez.
Ele pegou minha mão e me puxou.
- Cara, você precisa me ensinar isso. Foi a única coisa que eu consegui dizer.
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A noite se passou tão rápido que não havia reparada que o sol estava nascendo. Me joguei no chão frio, morta de cansaço. Ele havia me ensinado toda a postura do street dance, como movimentar os braços e as pernas, que apesar de agressivo era necessário toda uma leveza e calma para pode executar os passos. Ele foi desligar o som e quando voltou jogou água na minha cara. Levantei rápido e não sabia se estava rindo ou engasgando ao mesmo tempo. Ele tremia de tanto gargalhar, do meu lado. Chutei sua perna de propósito e ele tropeçou, caindo de bunda no chão. Ri da cara dele e fiz uma expressão de vingança.
Deitei de novo no chão, deixando a temperatura da água me esfriar.
- Preciso perguntar o que você achou disso tudo. — Ele falou, agora sentado do meu lado, de pernas cruzadas.
- Admito que você realmente me assustou com aquela música clássica. Eu falei, e nós dois rimos.
- Mas, falando sério, onde você aprendeu isso tudo? — Falei, sentando de frente para ele.
- Muito tempo de sobra e pouca coisa para se fazer em casa, deu que eu comecei a reparar nesses grupos que fazem campeonatos de dança de rua, entrei em um deles e aprendi. Ele falou, dando de ombros.
- Olha, eu só sei de uma coisa. Depois dessa aula você não vai se livrar de mim tão cedo.
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